quinta-feira, 30 de abril de 2009

Juntos para a vida




A quase totalidade dos críticos, pelo menos dos que tenho lido, parece estar de acordo que Together Through Life é um Bob Dylan «menor». O mesmo se tem dito de outros álbuns seus recentes e, curiosamente, o mesmo se diz de quase todos, senão todos, os últimos filmes de Woody Allen. Claro que não se trata de uma coincidência, um e outro já não têm nada a provar ao mundo, podem dar-se ao luxo de fazer o que lhes dá na real gana. Num caso como no outro, não precisam do dinheiro, se continuam a realizar discos e filmes é porque lhes está na massa do sangue e porque, obviamente, isso lhes dá gozo. Seja como for, um Bob Dylan «menor», ou um Woody Allen menos conseguido, valerão sempre mais, muito mais, do que a maior parte das obras que os mesmos críticos apodam de geniais, só porque todas as semanas querem ser os primeiros a apontar o futuro da música, do cinema ou seja do que for.
Para mim, que cada vez gosto mais do que é visceral e despretensioso, Together Through Life (tal como os últimos discos de Ry Cooder ou J. J. Cale), é uma pequena maravilha, com o seu som «negro», reminiscência do seu (nosso) amor pelo blues, a soul, a country e o rock'n'roll dos anos 50. E adoro o facto de se ter deixado contaminar por influências vindas do lado errado da fronteira dos EUA (David Hidalgo dos Los Lobos assegura com o seu acordeão o feeling tex-mex de algumas faixas).
Dylan que nunca escondeu o quanto gostava de Son House, Leadbelly ou Willie Dixon, sempre afirmou que procurava escrever canções como Woody Guthrie ou Robert Johnson: «intemporais e eternas». Há muito que cumpriu esse desígnio, pelo que já só lhe peço que continue a fazer os discos que muito bem quiser. Porque, em música como noutras coisas, poucas coisas me dão mais prazer do que me deixar possuir pelo prazer dos outros.

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