quinta-feira, 30 de abril de 2009

Primeiros poemas

Graças a um amigo (O José Solano de Almeida), que guardou religiosamente todos os papéis que lhe enviei durante a nossa adolescência, recuperei há dias dezenas de poemas (e um conto) que tinha escrito entre 1969 e 1972. Como se calcula, relê-los levantou uma verdade tempestade de emoções contraditórias dentro de mim. Vergonha, muita vergonha, mas também uma certa ternura complacente pelo adolescente que fui. Era à época de uma candura infinita, mas também de uma espontaneidade de que hoje sinto imensa saudade. Com todos os meus defeitos, era mais poeta na altura do que sou hoje, sem dúvida. A título de curiosidade, deixo aqui três poemetos desse tempo para os destinatários do costume:

INSTANTÂNEO

ele entrou pelo imóvel em fogo
muito digno
todo vestido de branco
e de chapéu de abas largas

algumas velhas alcoviteiras
pararam de ruminar desgraças e riram

enquanto o seu amor emergia
das chamas a cantar

IN MEMORIAM

lá fora, na noite,
soam guitarras e fados
febris de saudade

mas no denso mel das minhas recordações

o meu amor afoga-se em silêncio
dançando alegremente
o chá-chá-chá

DECISÃO

Espetar duas facas no quintal.
Com raiva.
E chamar-lhes «Monumento à minha solidão».

2 comentários:

joana disse...

não querendo parecer muito lamechas o maior tesouro desta história é mesmo essa amizade.

mil bjs

Odracir disse...

Desculpa corrigir-te, destinatários não, privilegiados... abraço

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