sexta-feira, 15 de maio de 2009

Ficção rápida (baseada num sonho)

1

A mulher que me beija neste momento, matou os pais. Foi há alguns anos, mas na aldeia ninguém o esqueceu.
Conheço os seus sonhos, mas nada significam para mim.
Não muito longe daqui, desenrola-se uma guerra que mata dezenas, talvez centenas de pessoas por dia, incluindo crianças, mulheres e velhos.
Os meus pais estão lá. E a minha irmã mais nova também (se é que ainda está viva).
Também isso pouco significa para mim, já que não posso fazer nada por eles. Mais importante é esta língua que me lambe, que me tortura de prazer.

2

Chamam-lhe puta, mas graças a ela tenho visões que, provavelmente, estavam apenas reservadas aos deuses. E a sua beleza consegue, por momentos, libertar-me de todas as angústias.
Afogo-me no deleite como uma pedra se afunda num lago. Confio cegamente na minha felicidade.
Depois, quando tudo acaba, fico à deriva na escuridão, como um marinheiro que passou demasiado tempo a lutar.

3

O seu nome é Anne e tem 24 anos. Gosto de ficar deitado a seu lado, em silêncio, sentindo o seu cheiro subindo por mim como no céu. Embora, por vezes, tanta felicidade me esgote.

4

Ontem escrevi-lhe um poema que dizia assim:

Não posso deixar de o dizer:
diga o que disser, faça o que fizer
a razão por que escrevo és tu.

Por isso,
tudo isto na verdade é teu:
este sangue, estas visões

e os mil pensamentos
que te assustam um pouco.
(A tua beleza também me assusta não penses.)


5

Lá fora, cai neve. Deitada no sofá, toda nua, Anne acende um cigarro. Puxou o aquecedor para o pé de si e conta-me a história de um menino que morreu ao atravessar a estrada. «Foi numa tarde de Primavera», assegura. Sei que está a falar do irmão. Da criança que desenhou a lápis flores nas minhas imaculadas paredes brancas.
Enquanto Anne fica mais bonita a cada dia que passa, eu vou-me transformando numa sombra do que fui.
Cada vez mais inquieto, amo-a na verdade do tempo, entre temores, suspiros e deslumbramentos.
Toda a paz é podre, por definição.

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