terça-feira, 9 de junho de 2009

Natal fora de época



Mal conheço Arnaud Desplechin, que passa por ser um dos mais pretenciosos cineastas franceses da actualidade. O único filme dele que já vira foi Ester Kahn, de que gostei bastante.
Um Conto de Natal, («drama recheado de estrelas», como escreveu a Time Out), que só agora vi, é mais um filme sobre uma família dispersa e disfuncional (um tema inesgotável e cada vez mais na moda), mas aqui essa família está marcada por uma leucemia que começa por levar um dos filhos e ameaça agora levar também a mãe.
Não é a única tragédia desta família fragmentada. Para além da mãe (Catherine Deneuve) assumir publicamente que não gosta de um dos seus filhos, há uma irmã (Anne Consigny) que não quer falar com o irmão (Mathieu Almaric) e que tem um filho esquizofrénico.
É melhor não contar a história; basta dizer que, na minha opinião, é o filme de um cineasta-cirurgião que tem obviamente contas para ajustar com a sua própria família e que cria aqui personagens complexos e devorados por dentro, para dissecar ao bisturi os seus próprios sentimentos e contradições.
Para mim, que me senti envolvido, por razões que prefiro não referir, se o filme tem algum defeito é sobretudo a excessiva ênfase que coloca no amor-ódio que parece ser o cimento que (n)os une a todos, numa sobrecarga dramática tão avassaladora que saí da sala com dores de cabeça.
É verdade que o filme é longo, pesado e cruel, mas não é menos certo que representa um verdadeiro tour-de-force» ficcional, levado a cabo com grande maestria cinematográfica. Alguém afirmou que se tratava de um «exercício no vazio», ora, por definição, o vazio que vemos nos outros está afinal sempre dentro de nós.

PS - Dito isto, devo acrescentar: pouca gente gosta do filme, a começar pelos críticos de cinema nacionais, quase todos génios perdidos num país que não os merece.
Já o disse várias vezes: um crítico nunca deveria escrever «não presta», mas sim «não gosto».
É tão bom quando gostamos de um filme (ou do que quer que seja). Perante esse prazer, que interessa o que os outros pensam? Há quem se julgue mais esperto, mais esclarecido, mais lúcido ou mais culto que os demais.
Quanto mais convencidos, mais estúpidos, como diz o ditado.
A humildade é, a par da tolerância e da generosidade, uma das virtudes que mais desvalorizadas nos sombrios tempos que correm.

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