sexta-feira, 31 de julho de 2009

Duplo Amor



Logo no princípio, um homem (admirável Joaquin Phoenix) atira-se ao rio numa tentativa ridícula de se suicidar. Porquê ridícula? Porque se quisesse realmente morrer não teria escolhido nem aquele local, nem aquela hora. De resto, arrepende-se imediatamente e começa a gritar por socorro. E quando é salvo, foge quase à socapa sem agradecer aos seus salvadores.
Pouco depois, percebemos que é bipolar e que isso condiciona não só a sua vida, mas também a dos seus (quase) resignados pais.
Ainda não passaram 15 minutos e já sabemos que vamos amar o filme, porque tudo está certo nas imagens que vemos: o jogo dos actores, a cor e a luz, o modo como cada cena está filmada…. Sentimos que estamos perante uma ideia de cinema pura e autêntica, para utilizar deliberadamente palavras que vão soar ridículas a certos ouvidos (aos ouvidos que não interessam).
Neste seu quarto filme (em 15 anos de actividade), o realizador James Gary fala, obviamente, do que conhece bem. Como os personagens que criou ele é de origem russa e cresceu nestas comunidades fechadas, «onde o espírito famiilar se confunde com a preservação de uma identidade cultural e conduz a uma espécie de insularidade», para usar as suas próprias palavras (numa entrevista que concedeu ao jornal «Público»).
«Duplo Amor» («Two Lovers») é a história de um homem «aprisionado» na sua bipolaridade, que perdeu uma noiva e resiste a deixar-se enredar na teia que a sua família tece para o proteger. É a história de um homem que se apaixona cegamente por uma mulher inacessível (admirável Gwyneth Paltrow) e que é atraído pela sua chama como uma borboleta por uma vela acesa, porque no fundo não quer ser «apenas» quem é (como quase todos nós). A propósito de «Duplo Amor» já se falou das «Noites Brancas» de Dostoievski e muito particularmente da adaptação que Visconti fez dessa novela. O mínimo que se pode dizer é que o filme aguenta bem a comparação.

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