quarta-feira, 18 de abril de 2012

Boris Mikhailov


Adquiri recentemente um pequeno livro, da Phaidon, com fotografias de Boris Mikhailov, o fotógrafo russo que tanto admiro, sobretudo depois de ter visto na FOAM de Amesterdão, aqui há uns anos, uma exposição retrospetiva do seu trabalho. Para além da sua evidente dimensão política que, para mim, vai muito mais além do que a mera crítica ao comunismo e ao pós-comunismo soviéticos, o que mais admiro nele é o seu desprezo pelos cânones estéticos vigentes. Para este russo dos sete costados ( provavelmente, ninguém conhece como ele a «alma russa», sendo que aos meus olhos, ele é um descendente direto de Dostoievski e Gogol), a beleza é, pura e simplesmente, a verdade, tal como ele a vê.
A sua obra vem dos anos 60 e compreende muitas fases, já que ele é um experimentador nato. A fim de apreender a complexidade do que vê e sente, Boris mudou várias vezes a sua maneira de abordar a fotografia, mas sem nunca prescindir do essencial; ou seja, daquilo que faz dele um artista único e indomável.
É verdade que ele tem tendência para ver o mundo sob a sua luz mais crua e cruel, mas fá-lo sempre com um sentido de humor que tem tanto de terno como de corrosivo, pois as suas fotos são as de um revoltado que está ao lado dos mais frágeis e desprotegidos.
Como não podia deixar de ser, nos últimos anos, o seu tema principal é a decadência, não apenas da sociedade em que vivemos, mas também a dos seres e, sobretudo, a sua própria. Nesse aspeto, o seu olhar sobre o seu próprio corpo é de uma lucidez quase sufocante, sem complacências, como se através das suas fotos e, nomeadamente, dos seus famosos autorretratos, ele procurasse enfrentar a morte para lhe rir na cara. Nada menos.

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