domingo, 1 de novembro de 2015

Dez sonetos imperfeitos

1.

Na sala de espera do dentista
um rio improvável corre 
no interior de um vulcão.
É uma fotografia cheia de cinzas

provavelmente tirada no Inverno.
O céu, cheio de nuvens, parece morto,
suspenso de um pensamento 
enrolado sobre si mesmo.

Folheando uma revista inútil
com uma apreensão de criança
digo para mim mesmo:

“Quando a morte chegar
encontrar-me-á pronto
para tudo recomeçar”.

2.

Mal ouso escrever
e, no entanto, não consigo
deixar de o fazer.
Se não por teimosia

será por desespero?
Na verdade, não é
assim tão estranho;
escrevo desde criança.

E que escrevo eu?
Deslizo pelas palavras
com as ideias de sempre:

estranhas e negras;
tão estranhas e tão negras,
como as que aqui estão.

3.

Tenho sessenta e seis anos
e passo uma boa parte das manhãs
a escrever no café do costume,
como se quisesse nascer de novo.

Raramente entro em erupção,
sou um vulcão adormecido
há demasiado tempo já.
Pálida cópia de Pessoa, escrevo

com palavras agastadas
poemas quase inertes
que ninguém lê na verdade

e que abandono por aí.
Mereço isto? Claro que sim.
Caso contrário calar-me-ia.

4.

O céu hoje parece o mar
cheio de espuma e tão estranho
que a cidade parece afogar-se
num pânico sem perigo.

Sob a ameaça da chuva
o mundo parece interrogar-se
e o seu silêncio de tão tóxico
bule-me com os nervos.

Fecho os olhos e imagino
sem grande convicção
ser uma árvore ou um jardim,

mas são sonhos como este
que me levam a falhar poemas
uns atrás dos outros.

5.

A minha imaginação aprisionou-se
e o meu corpo envelheceu.
Agora vivo uma vida desconhecida
numa ilha no meio da cidade.

As palavras de outrora
já não me ouvem
e seguem caminhos estreitos
que não controlo de todo.

É como se vivesse num museu
onde amealhei tesouros
que já nem a mim me interessam.

Mesmo se não conduz a nada
a vida que levo hoje em dia
é, sem dúvida, a melhor que vivi.

6.

De repente, o verde do jardim
ficou mais verde e luminoso.
O sol penetrou na muralha
pintada a preto e branco.

E o poeta que vigiava a cidade
do alto dos seus sonhos
com olhos castanhos dardejando
empolgado mas paciente

viu o autocarro partir em direcção
a um cartaz que reza assim:
Quando se chega a certa idade

cada momento, cada imagem,
cada palavra e cada silêncio,
têm o sabor de uma despedida.

7.

Uma ideia vacila.
Surge e desaparece.
Um homem estremece, 
debate-se e cai.

Mais à frente, está
uma grande escuridão
onde, indolente,
ladra um cão.

Uma mulher insinua-se
entre dois versos,
iluminada e solene,

para vir dizer:
a poesia não se dá
a um qualquer.

8.

A gata dorme
enterrada no seu puf.
Ressona sem fim
como ontem

e anteontem.
Quanto a mim
saí há instantes
de um pesadelo

Com uma faca 
manchada de sangue
nas mãos.

É com ela que escrevo
no chão da cozinha
este soneto inofensivo.

9.

Lavo os olhos na paisagem
iluminada pelo luar,
sem me apressar.
Sinto a noite e penso:

“É fêmea, sem dúvida,
esta dor que sinto
como um animal faminto
subindo pelas minhas costas”.

O sono virá mais tarde
arrastando-me para cenários
ainda menos favoráveis.

Chega de queixas:
um anjo por cada demónio
já não é nada mau.

10.

A visibilidade é insuficiente
porque a dor que se ergue
abruptamente à minha frente
não deixa ver as palavras

que tão desesperadamente
procuro desde sempre.
Tudo parece distante, tão longe
quanto possível deste quarto.

O vento que ouço lá fora
parece mais escuro que a noite
e mais molhado que a chuva,

soprando sem fim, como a saudade
de um filho que diz ao telefone:
“Não sei quando regresso”.

Lisboa, 29.10.2015





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