quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A máquina de contar histórias


As tuas últimas fotografias parecem ter sido tiradas sem olhar pelo visor.
E foram mesmo. Cada vez mais frequentemente tiro fotos sem olhar pelo visor. A verdade é que estou farto de fotos bonitinhas. O que quero apanhar não se consegue ver pelo visor: é algo de inesperado e incompreensível. As minhas fotografias não procuram respostas, mas antes suscitar interrogações e emoções. Porque, certos dias, passo por um cão na rua e é como se me visse ao espelho. Mas posso também reconhecer-me numa rapariga bonita ou numa mulher gorda que enverga uma camisola do Benfica. Digamos que a beleza e os mistérios do mundo são a minha perdição.
Algumas pessoas podem considerá-las fotos falhadas.
Desprezo cada vez mais a suposta perfeição. Em contrapartida, aprecio, cada vez mais, fotografias falhadas. Devia dizer «feridas». Só gosto verdadeiramente de imagens (ou textos) que expõem feridas. Ou cicatrizes. Que mostram quão «doente» está o mundo e, consequentemente, eu próprio.
Esta colecção de imagens, a que decidiste chamar «a máquina de contar histórias» é composta por aquilo a que se convencionou chamar «fotos roubadas». Instantâneos tirados sem o consentimento dos fotografados. 
Em português, diz-se «tirar uma foto». A expressão diz tudo. O fotógrafo tira sempre alguma coisa a alguém. Mas a verdade é que cada vez que tiramos uma foto acrescentamos algo ao mundo. Trazemos ao mundo algo que não existia antes. Damos à luz, algo que a luz nos dá. Toda a fotografia implica uma troca simbólica. Para além disso, a pessoa que mais se expõe com estas fotografias sou eu.
Resumindo?
Cada foto que tiro, tira-me algo. Uma das razões por que tiro fotos é porque quero voltar a ver o que vi imperfeitamente. Adoro descobrir, nas minhas fotos, pormenores em que não reparei. Preciso rever rostos ou detalhes que gostaria de ter observado com mais atenção, até porque é na rua, em plena luz do dia, que as pessoas mais se escondem. Como eu costumo dizer: na rua, o único lugar onde te podes esconder é no teu próprio rosto. Fascina-me o que os outros escondem e se escondem a si próprios. Sou fotógrafo por desespero: os fantasmas que cruzo, nas ruas, perseguem-me. 
Um dia, escreveste no teu blogue: «Até nos meus sonhos, tiro fotografias».
Na verdade, nos meus sonhos, a maior parte das vezes, não consigo fotografar. Ou é a máquina que encrava ou é a cena que se desvanece antes que tenha tempo de a captar. Nos meus sonhos, por detrás do desejo de fotografar, há um terror muito grande, uma angústia do tamanho do mundo. Bem gostaria de saber porquê.
Não achas que já existem demasiadas fotografias no mundo?

Sim, é verdade. Tiram-se milhões de fotografias, todos os dias, no mundo. E esse número aumenta astronomicamente a cada ano que passa. Biliões, triliões de fotografias que não interessam a ninguém ou quase. No meio disto tudo, imagino milhares de obras-primas que apodrecem em discos rígidos por esse mundo fora. Boas ou péssimas, as nossas fotografias são insubstituíveis para nós próprios. Para lá da foto do filho, da namorada, dos pais, do gato, há as fotos das férias, dos amigos, do casamento. O que procuramos todos desesperadamente é parar o tempo. Em vão, é claro. Isto é tão óbvio que apetece dizer: a tragédia da fotografia é a tragédia «tout court». A morte habita em cada fotografia. A nossa e a dos outros. Atrevo-me a dizer que a fotografia nos é tão necessária como a necessidade de sonhar.

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