quarta-feira, 3 de junho de 2009

Aletria



Quem me conhece sabe que a aletria é uma das minhas sobremesas preferidas. Naturalmente, ninguém a faz melhor do que a minha mãe. Para que não se perca a receita, aqui fica, tal como ela me ditou: «Pouca água a ferver com casca de limão e uma pitada de sal. Quando a água ferver, põe a aletria. A água deve ficar rés-vés. Quando começar a querer secar, junta leite até meio do tacho e acrescenta açucar + um bocadinho de natas e 2 ovos inteiros batidos. Mexe tudo muito bem e deixa 5 minutos em lume brando. Depois, é só deixar arrefecer e pôr canela».

Dos leitores

«Para quem escrevo? Quem me lê?» Alguns escritores vivem angustiados com questões deste tipo. Eu não. Sei exactamente quem são os meus leitores. Só tenho meia-dúzia e estão perfeitamente identificados.

Off the record

A Flur lançou há pouco tempo um questionário que enviou a uma centena de pessoas ligadas, de algum modo, ao ramo da música. Eis as minhas respostas:


Um disco que tenha sido muito importante (e já não seja) + razão.
Quase todos os discos dos Beatles, mas também dos Rolling Stones, foram importantíssimos na adolescência, por razões óbvias. Mas a música evoluiu muito e eu com ela. Ouvi-os demasiado uns e outros, já raramente suporto ouvi-los. Dessa época (os famigerados anos 60), o único que continuo a ouvir com real prazer é Bob Dylan, mas não tudo. Jazz à parte, é claro, esse nunca cansa!

Um disco que seja muito importante agora + razão.
O disco mais importante do momento é sempre o que estou a ouvir repetidamente. Há três semanas era o disco da Alela Diane («To Be Still»), a semana passada o do Bonnie Prince Billy («Beware»), esta semana é o do Andrew Bird («Noble Beast»). Next week, quem sabe?

Um disco irresistível mas que o resto do mundo acha que é mau.
Os últimos discos da Françoise Hardy. «Tant de Belles Choses» (2006), por exemplo.

A capa de disco favorita.
São demasiadas, mas todas em edições vinil. Eis algumas: «Abbey Road» e «Revolver», dos Beatles, a famosa capa da banana dos Velvet Underground, «Horses» de Patti Smith e a generalidade das capas da Blue Note nos tempos áureos (anos 50 e 60).

Mais CD ou mais vinil? Porquê?
Mais vinil do que CD porque é mais simpático, mais bonito, mais fácil de arrumar, etc. Infelizmente chegam a Lisboa poucos bons discos em vinil, pelo menos para o meu gosto.



Qual o primeiro disco que se lembra de comprar e onde foi?
«Black Magic Woman» do Santana numa loja em Amesterdão, em 1971, quando estava sob o efeito de LSD. Estava a tocar quando entrei na loja de discos e o L.P. custou-me quase todo o dinheiro que tinha no bolso (na verdade, tive que pedir alguns trocos aos amigos).

Qual o último disco que comprou?
«Noble Beast», de Andrew Bird.

Qual o disco que irá comprar de certeza, em 2009?
Toumani Diabaté, se publicar algum disco este ano.

Qual é o artista mais representado na colecção?
Miles Davis, talvez, mas também Duke Elligton e Françoise Hardy (ver próxima resposta).


De que artista tenta comprar todos os discos, bons e maus?
Françoise Hardy, um fétiche que me acompanha desde a adolescência, quando estive perdidamente apaixonado por ela.

Que projectos tem em mãos actualmente?
Uma colectânea de contos («O Vestido de Judas e outras histórias») e um guião para cinema, ainda sem título definitivo

Saudades do Dubai



Saudades do Dubai



Homenagem a Arrabal



Já ninguém se lembra dele, mas ao ver este grafitti numa parede, lembrei-me de quanto Fernando Arrabal foi importante para mim e para a minha geração. A minha peça «Cerimonial Para Um Massacre» deve-lhe bastante.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Ficção rápida

Um homem ia devagar, rua abaixo, quando, de repente, viu uma folha de papel voar até ao meio da rua. Veio um carro e passou-lhe por cima. Percebendo que tinha alguma coisa escrita, o homem foi apanhá-la para a ler. Dizia: “A poesia está obsoleta: o que move as pessoas já não me comove”. Com um encolher de ombros, o homem largou o papel com uma careta de repulsa.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Saudades da Índia





quinta-feira, 21 de maio de 2009

Outra história de Marrocos

Uma noite, em Marraquexe, um velho beduino aproximou-se de mim com um grande punhal (o cabo era forrado a pele, assim como a bainha) para me dizer que tinha vindo da montanha à procura de trabalho para alimentar a família. Desanimado, queria agora voltar para casa, mas não tinha um tostão. Tudo o que tinha era aquele punhal que me queria vender pelo dinheiro que eu quisesse dar.
Expliquei-lhe que não queria o punhal para nada, mas à boa maneira marroquina ele foi-me seguindo, sempre com a mesma lamúria, evocando os filhos e a fome que deviam ter. Por fim, lá lhe dei algum dinheiro pelo facalhão, que guardei na mochila.
Mais tarde nessa noite, quando regressava ao hotel, vi o mesmo velho a assediar outro casal de europeus, mostrando-lhes uma faca em tudo igual à que me tinha vendido. Quando me viu, com um sorriso maroto, piscou-me o olho e, virando-me as costas, colocou-se entre mim e os turistas que procurava enganar.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Pura realidade

Foi durante a minha primeira viagem a Marrocos, em 1976. Tinha decidido regressar de vez a Portugal, mas só depois de umas férias no Norte de África.
Uma das cidades que queria absolutamente conhecer era Fez, porque tinha trabalhado em França, durante dois anos, com um rapaz de lá, chamado Mustapha Hammouch (Muss, para os amigos). Na verdade, pertencíamos ambos a uma equipa de quatro pessoas que percorria a França de lés a lés em acções de formação para uma empresa que vendia enciclopédias de porta em porta.
Ele falara-me tantas vezes da sua terra, e da sua família, que me pareceu natural, estando em Marrocos, passar por lá.
Adorei Fez, é claro, e muito particularmente o seu cemitério, fora dos muros da cidade, e a incrível Medina onde, a toda a hora, passam por nós burros carregados com toda a espécie de mercadorias. A primeira coisa que aprendemos na Medina de Fez é a afastar-nos desses burros, conduzidos por loucos que gritam «Balek! Balek!» (que suponho queira dizer: «saiam do caminho!»).
A esses burros, chamavam na altura (e suponho que ainda hoje) os «táxis da Medina». Com efeito, as suas ruas são tão estreitas que nenhum veículo ali conseguiria entrar.
Abreviando: uma das primeiras coisas que fiz em Fez foi ir visitar o irmão mais velho do meu amigo Muss, que sabia ser empregado dos Correios. Como seria de esperar, ele ficou encantado por me conhecer (o irmão, obviamente, tinha-lhe falado de mim) e convidou-me para ir jantar em sua casa nessa noite.
Aceitei com agrado e à hora aprazada lá me apresentei, levando uma caixa de chocolates para oferecer à senhora Hammouch. Porém, quando o anfitrião me abriu a porta tive um choque: ele tinha vestido uma camisa que me pertencera (de que eu gostava muito, na verdade) e que julgava ter perdido.
Claro que não disse nada, e que apreciei devidamente o delicioso cuscus que me serviram (e que tive de comer com as mãos á boa maneira marroquina), mas fiquei a saber onde tinham ido parar as roupas que de vez em quando me desapareciam.

Sonho

Estou num teatro ao ar livre, com a Raquel, ali para os lados de Torres Novas. Ela vai encontrando pessoas que conhece e distrai-se a conversar com elas, esquecendo-se de mim. Um bocado chateado com a situação, vejo que há um lugar vazio na primeira fila do anfiteatro e vou ocupá-lo.
Está um carro na zona do palco. Quando a peça começa, um actor vem buscar-me pela mão, a mim e mais duas pessoas e leva-nos para dentro do automóvel, arrancando de seguida.
Para meu grande espanto, saímos do espaço do teatro e dirigimo-nos à cidade. De repente, o actor pára o carro e sem dizer nada, com a ajuda de umas pessoas que estão por ali, vira o carro de pernas para o ar connosco lá dentro.
Quando conseguimos sair cá para fora, o actor e os seus companheiros desapareceram. Uma das pessoas que está comigo vai para o lugar do condutor e propõe-se levar-nos de volta para o teatro. Vai, porém, bastante depressa e acaba por bater nas traseiras de um outro veículo que segue à nossa frente. O condutor parece não ter dado por nada e continua o seu caminho, mas eu vejo óleo a cair e algum fumo.
Num ápice, estamos do lado de fora do muro que cerca o teatro e temos que o escalar. Do outro lado, penetro num edifício que não conheço e procuro o caminho que me leve até à Raquel.
Sempre à procura de uma saída, abro uma porta que dá para um quarto onde está alguém a dormir. A pessoa acorda e quando me vê exclama: «Estes gajos do Expresso têm cá uma lata!».
É um jornalista que conheço e indica-me o caminho para o anfiteatro. Quando lá chego, porém, está vazio. Já não há nem actores, nem espectadores. Fico tão desconsolado que acordo, angustiado.

Post-scriptum: Como dizia Valéry, «Estás cheio de segredos a que chamas EU. És voz do teu desconhecido». Valéry dizia também: «Encontrar nada é. Difícil é acrescentar a nós próprios o que encontramos».

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Deleuze, de novo

Já que estou a citar Deleuze, graças a um livro que comprei ontem na Feira do Livro por cinco euros, deixem-me transcrever mais duas passagens com as quais concordo absolutamente, e que toda a gente deveria ter em conta: «Os poderes estabelecidos precisam das nossas tristezas para fazer de nós escravos. O tirano, o padre, os ladrões de almas, necessitam de nos persuadir de que a vida é dura e pesada», pois os poderes «precisam menos de nos reprimir do que nos angustiar».
No mesmo parágrafo, pode ler-se: «Os doentes, tanto da alma como do corpo, são vampiros; não nos darão descanso, enquanto não nos tiverem comunicado a sua neurose e a sua angústia, a sua querida castração, o ressentimento contra a vida, o seu imundo contágio. Não é fácil ser um homem livre: fugir da peste, organizar os encontros, aumentar a potência de agir, afectar-se de alegria, multiplicar os afectos que exprimem ou encerram um máximo de afirmação».
Resumindo: «Há muitos neuróticos e doidos no mundo que não nos deixam enquanto não nos tiverem reduzido ao seu estado e nos tiverem passado o seu veneno».

Da crise

Já em meados dos anos 90, o filósofo francês Gilles Deleuze afirmava: «O Estado mais centralizado não é de forma alguma senhor dos seus planos, pois ele também é experimentador, faz injecções não conseguindo prever o que quer que seja: os economistas do Estado declaram-se incapazes de prever o aumento de uma massa monetária». A política americana, por exemplo, «é inteiramente forçada a proceder por injecções empíricas, e nunca por programas infalíveis.» Na mesma altura, explicava também que o que carateriza a nossa situação está simultaneamente aquém e além do Estado, pois estão para além dos Estados nacionais, «o desenvolvimento do mercado mundial, a potência das multinacionais, o esboço de uma organização planetária e a extensão do capitalismo a todo o corpo social», que «formam uma grande máquina abstracta que sobrecodifica os fluxos monetários, industriais e tecnológicos». E dizia ainda: «Ao mesmo tempo, os meios de exploração, de controlo e de vigilância, tornam-se cada vez mais subtis e difusos», pelo que «o Estado já não dispõe dos meios políticos, institucionais ou mesmo financeiros que lhe permitiriam enfrentar os contragolpes sociais da máquina».
Ou seja, a menos de sermos capazes de inventar rapidamente «um novo tipo de revolução», estamos fodidos!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A próxima história

– Por onde queres que comece?
– Começa por onde quiseres, tanto faz.
– O difícil é começar...
– Tabucchi aconselha a começar por um facto.
– Quem é esse?
– É um escritor italiano. Viveu em Portugal, até escreveu um livro em português.
– Então está bem, comecemos por um facto. A morte do meu pai, por exemplo. Não só é um facto, como ainda por cima é um facto consumado.
– Isso não, bolas. Não quero que isto degenere numa sessão de psicanálise. Não era o que eu tinha em mente.
– Se é assim, calo-me já.
– Não sejas chata Sílvia. Faz uma nova tentativa, vá lá. Procura pensar em coisas engraçadas. De certeza que te já te aconteceram histórias giras.
– Histórias giras? Estás a gozar comigo? Foi para isto que vieste cá a casa? Se é assim, se é isso que tu queres, o melhor é ires já embora. Não penses que vou em todas as tuas conversas, não estou assim tão desesperada.
– Que se passa contigo? Não me ajudas em nada, não dizes nada de jeito...
– Já te disse Mário que não gosto desta sensação de te estares a aproveitar de mim para as tuas historietas. Sinto-me como se tivesse embarcado numa aventura que não me diz respeito.
– Tem calma e ouve o que te digo. Temos umas horas pela frente, não vais querer estragá-las, pois não? Lá fora está um calor horrível, aposto que te ias sentir mal sabendo-me por aí a caminhar aí pelas ruas, zangado contigo.
– Que propões então?
– Vamos esquecer que o tempo existe. Vamos fazer como se estivéssemos a sonhar. Vamos dizer tudo o que nos passe pela cabeça.
– O que é que tu queres exactamente? Onde é que queres chegar?
– O que eu quero é perceber se podemos chegar a algum lado.
– Aqui sentados?
– Aqui sentados, sim.
– Dispara.
– A vida somos nós que a fazemos. A responsabilidade é nossa. A história é nossa. Tudo o que dissermos pode virar-se contra nós.
– Que queres dizer com isso?
– Não é caso para teres medo.
– Eu não tenho medo.
– Ai isso é que tens. Basta olhar para os teus olhos.
– Detesto esta sensação de saber menos do que tu.
– A ignorância tem um lado bom. Aliás, tem vários lados bons.
– Sim? Quais?
– Se não percebes isto, tenho pena de ti.
– Eu, pelo contrário, vejo a ignorância como uma ameaça muito grande. Faz-me medo saber que há tantas coisas que não sei.
– A isso não se chama ignorância, mas sim paranóia.
– Vivemos num mundo em que quanto mais informação possuímos, mais fortes somos.
– Ilusão. Pura ilusão.
– Então partilha comigo o que sabes.
– Mas eu não sei nada...
– Mesmo esse nada eu gostaria de saber. Tudo o que esqueci me angustia. Tudo se esvai e não está certo. Devíamos ser um repositório de tudo o que vivemos, aprendemos, ouvimos, dizemos...
– Nós somos isso tudo. Está tudo dentro de nós.
– Sim, mas oculto por coisas sem importância nenhuma. Escondido atrás de preocupações tão risíveis como saber o que vamos fazer para o jantar ou o que vestir amanhã. A minha imperfeição dá cabo de mim. Detesto-me, se queres saber.
– Não quero saber.
– Não percebes nada do que estou para aqui a dizer, pois não?
– Acho que apenas que te estás a fazer interessante. Que te queres sentir uma personagem de romance... ou a actriz de um filme que não existe.
– E tu?
– E eu o quê?
– Estás-te nas tintas para o que eu estou a sentir.
– Que estás a sentir?
– Queres histórias giras? Então vou-te contar uma que ainda não aconteceu.
– Uma que ainda não aconteceu? Óptimo. Sabia que acabarias por me surpreender.
– Vai ser assim tal e qual, quase que aposto. Um dia vais acordar e quando estiveres a fazer a barba na casa de banho, eu vou querer entrar porque estou aflita para fazer chichi. Nessa altura, vais olhar-me pelo canto do olho, ali sentada na sanita a teu lado e, de repente... vais perceber que já não me amas.
– Que estás para aí a querer dizer?...
– Deixa-me falar, não me interrompas. Querias que eu falasse, agora aguenta. Não era para dizer tudo o que nos passasse pela cabeça?... Vais olhar para mim, para o meu corpo nu... e vais pensar: «Que vi eu nesta gaja? Que estou eu a fazer aqui?» Assim, de um dia para o outro, vais perceber que já não gostas de mim, que se calhar nunca gostaste e vais querer partir para outra.
– ...
– Não dizes nada? Perdeste o pio?... Em que estás a pensar?
– Estou a pensar que estás a contar o filme todo ao contrário. É a ti que vai acontecer isso, não a mim, se é que não aconteceu já. Provavelmente até foi esta manhã, quando estavas a tomar duche e eu entrei na casa de banho para fazer a barba. Através das cortinas do chuveiro, viste-me urinar e pensaste: «Que está este gajo a fazer em minha casa? Porque se comporta ele deste modo? Fui eu que lhe dei autorização para isso? Onde tinha eu a cabeça? Como pude eu alguma vez pensar que gostava dele?»
– Querias uma história meu querido? Pois aí a tens... A menos que prefiras a da mulher que vai fazer um aborto amanhã de manhã?

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Arthur Scnitzler

«Não há nada mais difícil do que ser jovem e velho ao mesmo tempo», dizia o escritor austríaco Arthur Scnitzler. Por outras palavras, era o que me dizia também o meu amigo Ricardo hoje ao almoço.
Schnitzler era um sábio, como os seus aforismos comprovam. Ora ouçam: «Nos combates da vida pública, tal como acontece na vida quotidiana, o poder está sempre do lado dos medíocres: medíocres de espírito por um lado, mediocres do coração por outro; porque aquele que leva a sério as coisas e os homens é sempre o mais fraco».
Já agora, que falamos de poder e de políticos, ouçam mais uma das suas pérolas: «Não existe pior desperdício do espírito e do coração do que procurar convencer adversários que não se preocupam absolutamente nada em estar de acordo com eles próprios».

domingo, 10 de maio de 2009

Chavela Vargas




Isabela Vargas Lizano, que se tornou «imortal» sob o nome de Chavela Vargas, nasceu na Costa Rica, mas foi viver para o México aos 17 anos, onde se tornou num símbolo nacional, graças a canções como «La llorona», «Piensa en mí», «Volver, volver» ou «La Macorina». Aos 90 anos, a «raínha das rancheras» (como alguns lhe chamam) acaba de conceder uma entrevista bem reveladora ao diário espanhol «El País», que não resisto a transcrever, pelo menos parcialmente.
Da sua adolescência, Chavela não parece guardar grata memória. E chega a dizer que, para ela, a Costa Rica é a negação do mundo. «Ali não poderia ter lido nem a lista telefónica, pois os padres ter-me-iam comido viva.» Da sua vida naquele país, limita-se a contar que o seu principal passatempo era disparar sobre as cobras com uma pistola. E, com efeito, era tida por uma exímia pistoleira, por exemplo, por Diego Rivera e Frida Khalo, de quem foi amiga íntima. Conta-se que Chavela - que assumiu a sua homossexualidade numa época em que isso era ainda impensável - chegou a ser amante da pintora, mas sobre isso, nem uma palavra. Sobra a sua amizade com Diego e Frida, diz somente: «A certa altura, convidaram-me para ir a sua casa e fiquei a viver com eles dois anos. Aprendi todos os segredos da sua pintura. Segredos muito interessantes que nunca revelarei a ninguém. Eramos todos felizes: vivíamos o dia a dia, sem dinheiro, às vezes sem comer, mas sempre mortos de riso. Um dia, Trotsky foi lá a casa e eu perguntei: "Quem é este velho cabeludo?" E Frida pediu-me: "Não fales tão alto"».
Sobre a fama, desabafa: «Nunca me senti importante. Vivo a vida como se fosse um ofício. Com coração, com sentimento, pois não sinto que seja algo imposto pelo destino. E sinto-me muito contente. Cumpri a minha missão, com muito gosto. Com amargura, por vezes, com dor sobretudo, mas tudo isso passou. Não deixou cicatrizes na minha vida. Não tenho más recordações, tudo foi óptimo».
Antes de se despedir, lança em jeito de testamento: «Agora já vou tendo vontade de descansar para sempre. Já não devo nada à vida, nem ela me deve nada. Tenho vontade de me deitar no regaço da morte, pois deve ser muito belo. Talvez por isso tenhamos tanto medo da morte: porque deve ser lindíssima».

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Pura realidade

A caminho da baixa passo pela Rua Barata Salgueiro e que vejo? Pedro Mexia, o novo subdirector da Cinemateca, a entrar para um carro do estado. O chófer abre-lhe a porta e o cronista aninha-se lá dentro com um sorriso de nababo.
Extraordinário! Portugal é um grande país de facto, onde até os animadores culturais - desde que trabalhem para o Estado - têm direito a mordomias! Só é pena que o dinheiro que pagamos de impostos não seja investido em melhor educação e saúde para todos.

Aforismo

Para algumas pessoas, o facebook é um espelho mágico: vêem-se aí mais belas do que são na realidade.

A orelha de Van Gogh



Todos ouvimos a história de que um dia, Van Gogh, num ataque de loucura, cortou a sua própria orelha com uma navalha, tendo-a levado em seguida, embrulhada em papel de jornal, a uma sua amiga prostituta chamada Rachel. Foi na véspera do Natal de 1888, na sua casa de Arles, depois de uma violenta discussão com o seu amigo Gaugin.
Esta semana, porém, surgiu uma tese, assinada por dois universitários alemães, que levanta uma nova hipótese. Segundo Rita Wildegans e Hans Kaufman, que investigaram exaustivamente o assunto, terá sido Gaugin quem cortou a orelha do amigo com o seu famoso sabre. Van Gogh assumiu a culpa para não deteriorar ainda mais a conflituosa relação entre os dois.
Os autores defendem que terá sido Gaugin a sugerir esta solução, propondo um pacto de silêncio que ambos cumpriram até à morte. Em abono da sua teoria, lembram que Gaugin era um espadachim famoso e que «fugiu» para Paris imediatamente após o incidente.
A tese agora publicada na Alemanha afirma ainda que Van Gogh estaria intoxicado por chumbo, arsénio e cádmio contidos nas tintas que usava. O casal de investigadores vai ao ponto de afirmar que foi essa intoxicação que provocou a «loucura» do pintor.
Louis Van Tilborgh do Museu Van Gogh de Amesterdão não concorda com esta visão das coisas e afirma que não há certeza de Gaugin ter abandonado Arles imediatamente após o episódio da orelha. Defende a tese da auto-mutilação e lembra que Van Gogh perdia muitas vezes o controlo sobre si próprio. E a verdade é que o pintor se suicidou sete meses mais tarde.
Seja quem for que cortou a orelha, uma coisa é certa: há muita gente a viver hoje à conta de um pintor que nunca conseguiu vender um quadro na vida.

Outra história de Marraquexe

Estou a passear num jardim quando, de repente, no meio do caminho vejo um pacote de Marlboro vazio. Instintivamente, dou-lhe um pontapé para o tirar do caminho. Impulsionado como por uma mola, salta um marroquino que parecia dormitar na relva e começa a gritar comigo, gesticulando muito. Quando por fim se acalmou, conseguiu explicar-me que era vendedor de cigarros avulso e que aquele pacote vazio no meio do caminho era a sua forma de informar o mundo de que estava ali, à sombra de uma árvore, à espera de clientes.

Aforismo



Escrever = procurar. Fotografar = encontrar.

domingo, 3 de maio de 2009

Tu (arte)

A queda do guitarrista

Auto-retrato com dama

Mercearia

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Linha de água

Para passar o tempo, ouço os sapos coaxar e os pássaros cantar. Dir-se-ia uma disputa, ou um concurso. (Se fosse compositor, decerto extrairia daqui uma obra de vanguarda!). À minha frente, três cães brincam perseguindo-se dentro de água, observados por um quarto cão que se aproximou mas parece não querer molhar as patas. À minha volta, estuda-se furiosamente. (Há uma universidade aqui perto e o ano lectivo está a chegar ao fim).
Sentando à sombra, no canto mais discreto da «Linha de Água» (é o nome da esplanada onde me encontro) finjo escrever porque não estou com disposição para mais nada. Estou cheio de projetos mas, como de costume, dá-me mais prazer sonhá-los do que concretizá-los. Concretizar é, de resto, uma palavra feia; sonhar é uma palavra bem mais bonita. Por isso, por hoje, fico-me por esta quadra:

um verso é um verso é um verso
mas dois versos já são demais;
a não ser que, sem pretensões, digam
mais do que parecem dizer

quarta-feira, 29 de abril de 2009

João Gilberto



Lá vem o pato
Pata aqui, pata acolá
Lá vem o pato
Para ver o que é que há

Calçada





terça-feira, 28 de abril de 2009

Ponto da situação

O que estou a (re)ler?
«Na Patagónia, de Bruce Chatwin

O que estou a ouvir?
«Together Through Life», de Bob Dylan

O que estou a ver?
«Breaking Bad», segunda série

O que estou a planear?
Três semanas de férias no Canadá, com passagem pour Vancouver e Toronto.

Do que é que estou à espera?
Do Verão.

domingo, 26 de abril de 2009

Pura realidade

Nos seus «Diários», o jornalista italiano Indro Montanelli, conta que, em Maio de 1977, jantou com Ionesco, cuja mulher passou toda a refeição, a refilar: «Não devias comer isso!»; «Não devias beber tanto!»; «Devias deixar de fumar!». A certa altura, Ionesco segredou-lhe ao ouvido: «Esta mulher tem uma atração irresistível pela viuvez. Gostaria que eu vivesse como se já estivesse morto». E continuou a comer, beber e fumar como se nada fosse.

sábado, 25 de abril de 2009

25 de Abril



Já foi bonito; já não é. Ironicamente foi o partido (dito) socialista quem enterrou definitivamente a revolução.

The Lost Girl



«[Lawrence was] a writer with an extraordinary sense of the physical world, of the colour and texture and shape of things, for whom the body was alive and the problems of the body insistent and important.» Virginia Woolf dixit

Lhasa



Lhasa de Sela nasceu no estado de Nova Iorque, mas tem sangue mexicano. Em 1997, deu-se a conhecer ao mundo com um disco intitulado La Llorona, que era uma óbvia homenagem à música mexicana e muito em particular a Chavela Vargas. Seis anos mais tarde, publicou The Living Road, outra obra prodigiosa onde cantava, em espanhol, inglês e francês, «torch songs» infecciosas, com uma voz sensual e sofrida que fez dela, instantaneamente, uma das nossas cantoras preferidas. Foram precisos mais seis anos para Lhasa voltar a gravar. O resultado está aí, num disco sem título, agora inteiramente cantado em inglês, que é, sem dúvida, o seu álbum mais íntimo e perturbador. Para lhe fazer justiça é preciso gostar de canções tristes e crepusculares (onírico e solitário, o álbum já foi descrito como uma viagem ao fim da noite). Gravado num estúdio analógico, em apenas duas semanas, com os músicos a tocarem «ao vivo», o disco é um libelo anti perfeccionista: uma obra crua, exigente e essencial que, infelizmente, só alguns conseguirão apreciar devidamente.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Flaubert e a senhora Bovary



Graças a um esforço conjunto da Universidade e da Biblioteca Municipal de Rouen, os manuscritos de Madame Bovary, o mais célebre romance de Flaubert estão agora disponíveis na Internet (www.bovary.fr).
Foram precisos dez anos para completar este trabalho que reúne qualquer coisa como 4500 páginas de rascunhos, fruto de um trabalho hercúleo que o escritor levou a cabo entre Setembro de 1851 e Março de 1857.
Flaubert guardava tudo o que escrevia e graças a isso podemos hoje fazer uma ideia concreta do que sofria para escrever os seus livros. Já se sabia que ele foi porventura o mais exigente dos escritores do seu tempo, mas agora temos aqui uma prova bem concreta: segundo um dos investigadores, cada passagem do romance foi reescrita, em média, umas dez vezes pelo seu autor.
A equipa responsável por este trabalho, promete agora digitalizar a totalidade dos manuscritos correspondendo ao livro Bouvard et Pécuchet.

Pura realidade

Em La Photo, inéluctablement (Gallimard, 1999) - um livro de leitura obrigatória para quem se interessa por fotografia -, o malogrado Hervé Guibert conta que, na recta final da sua vida, o fotógrafo norte-americano Weegee (falecido em 1968, aos 69 anos) vivia com um manequim, desses que se veem nas montras, a quem chamava Monique. Vesti-a, falava com ela, levava-a a passear e tirava-lhe fotografias como se fosse uma mulher real. Um dia, decidiu encenar a sua morte: afogou-a no rio, depois de a ter fechado num caixão. Weegee fotografou a «cerimónia» de adeus, mas os seus herdeiros impedem a publicação dessas imagens.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Aprender a ver



Quando somos fotógrafos, artistas plásticos ou simplesmente pessoas interessadas no mundo, estamos constantemente a aprender a ver. É de resto por isso que (alguns de nós) visitamos exposições. Pois bem, na Culturgest estão, neste momento, duas propostas interessantíssimas e congratulo-me por ter tido ontem a ideia de as ir visitar. A primeira que percorri chama-se «A Analogia do Olho» e é de um tal JCJ Vanderheyden, um artista holandês de que nunca tinha ouvido falar. Ao ver as primeiras telas lembrei-me de Mondrian, mas logo vi outras obras que me deram a certeza de estar perante um universo muito próprio e uma linguagem original onde a pintura e a fotografia dialogam num jogo de complementaridade entusiasmante. Obcecado como sou por nuvens e aviões, simpatizei de imediato com as suas fotografias do céu, das nuvens e da neve no alto das montanhas, tiradas a partir de aviões, sempre com a preocupação de mostrar a janela através da qual realizou as imagens. A essas fotografias, que por vezes inspiram telas pintadas, ele contrapõe outros temas recorrentes como quadriculas deformadas e espelhos de toda a sorte onde a sua obra se reflete e multiplica. Para além das fotografias em formatos vários e das pinturas onde as habituais telas quadradas e retangulares dão lugar a formas oblongas, distorcidas, o artista utiliza também painéis e cabinas compostas por várias reproduções de imagens suas e de outros artistas num jogo de referências e analogias, lúdicas e provocatórias. Muito mais haveria a dizer mais sobre esta exposição aliciante, que é um desafio permanente à nossa inteligência, memória e imaginação. Como diz o programinha, distribuído gratuitamente à entrada, «Vanderheyden está interessado na questão de como a consciência humana imagina o tempo e o espaço, e que analogias visuais desse processo são concebíveis». Diz também, com toda a razão, que ele é um artista importante que merece maior reconhecimento internacional.


Pelo menos tão estimulante como esta é a outra exposição patente na Culturgest, também ela até 10 de Maio. Trata-se de «Trabalho de Campo» uma coleção de fotografias do alemão Jochen Lempert. São fotos a preto e branco, em diversos formatos, penduradas na parede sem necessidade de molduras ou passe-partout que, à primeira vista, dão ideia de estarem mal impressas. Na verdade, há aqui um trabalho meticuloso de laboratório que acentua o carácter único das suas propostas. A surpresa começa logo na primeira sala com uma série de fotografias que «escondem» diversos animais ao nosso olhar: um gato por detrás de umas persianas, uma tartaruga sob a água ou um cisne sem cabeça, por exemplo. Obcecado por animais, e particularmente por aves, Lempert interessa-se também por vegetais, microrganismos e fenómenos físicos e atmosféricos, colecionando séries onde procura (por vezes, no limiar da abstração) relações entre estruturas, texturas e formas. À medida que vamos percorrendo as salas, o autor consegue fazer-nos sentir que estamos perante uma obra exigente e rigorosa, transmitindo-nos o seu fascínio por coisas tão simples como a beleza aleatória de um voo de aves, das ondas do mar ou das chamas de uma árvore em fogo. Quando saí da exposição, sentia que tinha adquirido um novo olhar sobre algumas coisas deste mundo. E senti-me grato.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

J.J. Cale



Cantor, compositor e guitarrista originário do Oklahoma, J.J. Cale nasceu em 1938 e já vai com, pelo menos, meio século de carreira. Nas fotos, vemo-lo sempre como uma espécie de cowboy cool, «forever young». A sua música - toda ela e não apenas a deste seu novo álbum - é uma mescla de blues, folk e bluegrass, com pozinhos de jazz e rock. Muito simples e relaxados, deliciosamente sincopados, os seus discos não interessam a toda a gente, mas entre os seus fãs incondicionais contam-se - para além de mim, é claro - gente como Neil Young, Mark Knopfler ou Eric Clapton (que, aliás, colabora aqui numa faixa). Não trazendo nada de substancialmente novo ao seu universo musical, Roll On, o novo opus, é um dos melhores álbuns de J.J. Cale, simplesmente porque a receita nunca esteve tão apurada e a sua voz de «lobo do deserto» continua como nova, tão fluída e charmosa como as suas linhas melódicas ensolaradas. J.J. vive na Califórnia, leva uma vida de rei reformado e só faz o que lhe dá na gana. Ora isso sente-se em cada tema, tão simples como isto. Que inveja!

Pensamento do dia

A humanidade não parece ter outra finalidade senão sua própria destruição.

Uma lição de vida




Leio: «As coisas não são tão apreensíveis nem tão dizíveis como nos querem fazer crer; quase todos os eventos são inefáveis, desenrolam-se num espaço onde as palavras nunca entram, e os mais inefáveis entre eles são as obras de arte, existências misteriosas cuja vida, ao lado da nossa que se perde, perdura». Como não ficar imediatamente agarrado a esta leitura? Tinha lido Cartas a um Jovem Poeta de Rainer Maria Rilke há muitos, muitos anos (quando era eu próprio um jovem poeta). Tudo o que recordava do texto é que era muito interessante (lembrava-me especialmente da frase: «... pergunte a si próprio se morreria caso fosse impedido de escrever»). Mas tive um choque agora, ao relê-lo. Não é apenas interessante, é muito mais do que isso: uma verdadeira lição de vida e poesia!
O livro ficou todo sublinhado. São bons conselhos atrás de bons conselhos, muitos dos quais segui felizmente ao longo da existência, ou porque tinha ficado inconscientemente impregnado deles, ou porque relevam do puro bom senso e da simples inteligência.
Apetece transcrever tudo. Ouça-se esta frase, por exemplo: «Escave dentro de si próprio até encontrar uma resposta profunda». Quem não sabe que o deve fazer? Mas quantas pessoas o fazem realmente? Mais adiante, Rilke especifica: «... não há perturbação mais violenta do que olhar para fora e esperar respostas exteriores a perguntas a que talvez só a sua sensibilidade mais íntima, nas horas de maior silêncio, poderá responder». Noutra altura dirá: «Viva agora as perguntas. Aos poucos, sem o notar, talvez dê por si um dia, num futuro distante, a viver dentro da resposta».
Na terceira carta (são dez no total, todas relevantes, escritas num peródo de cinco anos, de 1903 a 1908), Rilke afirma: «A obra de arte é de uma solidão sem fim, e nada está mais longe de tocá-la do que a crítica. Só o amor poderá compreender e sustentar e fazer justiça a uma obra de arte». Não podia concordar mais; se há coisa de que me arrependo na vida é de ter a certa altura exercido a profissão de crítico.
Muito belas e igualmente profundas são as suas meditações sobre a solidão (considera-a a casa ou o abrigo de onde partem todos os caminhos), a tristeza (quando alguma coisa nova e desconhecida entra em nós para nos mudar) e o amor (que vê como uma partilha de pessoas que se protegem, delimitam e saúdam)..
«Estamos dentro da vida como dentro do elemento a que mais correspondemos», diz o autor das Elegias de Duíno e dos Sonetos a Orfeu, para assegurar mais adiante: «... dentro de nós corre sem parar o sangue dos nossos antepassados, que se cruza com o nosso para dar forma ao ser único e irrepetível que somos em cada volta das nossas vidas». Acreditem no que vos digo: não têm nada mais urgente para fazer nas vossas vidas do que ler, ou reler, este pequeno livrinho!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Vinho e literatura

«Quando o vinho é puro, permite ver Deus», dizia Léon Blum, o conhecido político francês falecido em 1950. O imortal Shakespeare, por seu turno, falava do «espírito invisível do vinho», enquanto Claudel, autor da peça «Le Soulier de Satin» (que Manoel de Oliveira levou ao grande ecrã), lembrava, muito justamente, que cada garrafa de vinho encerra milhares de anos de civilização. Este poeta francês achava, com toda a razão, que «o vinho liberta o espírito e ilumina a inteligência». E um outro poeta francês, o torrencial Victor Hugo, lembrou que «Deus criou a água, mas o homem fez o vinho». Mais prosaico e com o sentido da realidade que o caracterizava, Napoleão afirmou um dia aos seus generais: «Sem vinho, não há soldados».
Bebida tão espiritual como inspiradora, o vinho sempre esteve muito presente na literatura através dos séculos. A Bíblia, por exemplo, refere-se ao vinho por diversas vezes. A primeira menção é no «Genesis», onde se diz que «Noé começou Noé a cultivar a terra e plantou uma vinha. Bebeu do vinho, e embriagou-se; e achava-se nu dentro da sua tenda». Mais adiante, o mesmo texto sagrado volta a referir-se aos efeitos do vinho relatando: «Então a primogénita disse à menor: “Nosso pai é já velho, e não há varão na terra que entre a nós, segundo o costume de toda a terra; vem, demos a nosso pai vinho a beber, e deitemo-nos com ele, para que conservemos a descendência de nosso pai”. Deram, pois, a seu pai vinho a beber naquela noite; e, entrando a primogénita, deitou-se com seu pai; e não percebeu ele quando ela se deitou, nem quando se levantou. No dia seguinte disse a primogénita à menor: “Eis que eu ontem à noite me deitei com meu pai; demos-lhe vinho a beber também esta noite; e então, entrando tu, deita-te com ele, para que conservemos a descendência de nosso pai”. Tornaram, pois, a dar a seu pai vinho a beber também naquela noite; e, levantando-se a menor, deitou-se com ele; e não percebeu ele quando ela se deitou, nem quando se levantou. Assim as duas filhas de Ló conceberam de seu pai».
O «Livro dos Provérbios» tem igualmente algo a dizer sobre o vinho, embora nem sempre em termos muito recomendáveis. Por outro lado, alguns Evangelhos, como o de S. João e o de S. Marcos, se bem me recordo, referem a ligação do vinho com Jesus, com muitas analogias vinícolas. E se há episódios da Bíblia que toda a gente conhece é o milagre em que o filho de Deus transforma água em vinho (e em «bom vinho» ainda por cima) e o da Última Ceia quando Cristo dá vinho a beber aos seus discípulos asseverando: «Tomai e bebei, isto é o meu sangue».
Já para os Egipcíos, os Sumérios ou os Gregos, o vinho era o néctar dos deuses e o simbolismo do vinho sempre teve um papel importante nas celebrações rituais, religiosas ou pagãs. Alguns vinhos de renome, na antiga Grécia, eram citados por Homero, que descreve as colheitas, no Outuno, com profundo lirismo. Também o poeta Hesídio (que nasceu, viveu e faleceu em Ascra, no fim do século VIII a.C) conta a história dos vinhedos e o «Código de Hamurabi», primeiro livro sobre leis de que há memória (data de 1700 antes de Cristo), já imputa castigos a certas condutas de «casas de vinho».
Nenhuma outra bebida no mundo suscitou tanta atenção ou respeito como o vinho. Nenhum outro líquido se prestou tanto a comparações e citações literárias. Personalidades lendárias como Virgílio, Safo e Salomão entoaram loas ao vinho, para já não falar de Omar Khayyam, poeta persa que morreu por volta de 1120, e que provavelmente é o autor do maior número de poemas relativos ao vinho feitos por um homem só. Leiam-se os seus magníficos «Rubaya», para o comprovar. Aqui ficam três exemplos, entre muitos outros possíveis:

«Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos».


«Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia».


«Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida».


Referindo-se ao vinho, o poeta Dante Alighieri, o autor da «Divina Comédia», escreveu em plena Idade Média: «O doce beber que nunca me teria saciado». E já que estamos a falar de poetas, impossível não citar Baudelaire (1821-1867), um dos maiores poetas franceses de sempre, cujo poema «L’âme du Vin», não resistimos a transcrever, numa tradução de Guilherme de Almeida:

«A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
“Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!
Bem sei quanto custa, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,
Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À goela do homem que já trabalhou demais,
E seu peito abrasante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.
Não ouves retinir a domingueira toada
E esperanças ungir em meu seio, febris?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:
Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e a cor
E serei para tão tenro atleta da vida
Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.
Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno Semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!”»


Em França, país do vinho por excelência, são inúmeros os escritores e poetas que escreveram sobre o precioso líquido, como Lamartine ou Balzac, mas já que estamos a falar de poetas, convém não esquecer o chileno Pablo Neruda, que também escreveu uma «ode ao vinho». Reza assim:

«Vino color de día,
vino color de noche,
vino con pies de púrpura
o sangre de topacio,
vino,
estrellado hijo
de la tierra,
vino, liso
como una espada de oro,
suave
como un desordenado terciopelo,
vino encaracolado
y suspendido,
amoroso,
marino,
nunca has cabido en una copa,
en un canto, en un hombre,
coral, gregario eres,
y cuando menos, mutuo.
A veces
te nutres de recuerdos
mortales,
en tu ola
vamos de tumba en tumba,
picapedrero de sepulcro helado,
y lloramos
lágrimas transitorias,
pero
tu hermoso
traje de primavera
es diferente,
el corazón sube a las ramas,
el viento mueve el día,
nada queda
dentro de tu alma inmóvil.
El vino
mueve la primavera,
crece como una planta la alegría,
caen muros,
peñascos,
se cierran los abismos,
nace el canto.
Oh tú, jarra de vino, en el desierto
con la sabrosa que amo,
dijo el viejo poeta.
Que el cántaro de vino
al beso del amor sume su beso.
Amor mio, de pronto
tu cadera
es la curva colmada
de la copa,
tu pecho es el racimo,
la luz del alcohol tu cabellera,
las uvas tus pezones,
tu ombligo sello puro
estampado en tu vientre de vasija,
y tu amor la cascada
de vino inextinguible,
la claridad que cae en mis sentidos,
el esplendor terrestre de la vida.
Pero no sólo amor,
beso quemante
o corazón quemado
eres, vino de vida,
sino
amistad de los seres, transparencia,
coro de disciplina,
abundancia de flores.
Amo sobre una mesa,
cuando se habla,
la luz de una botella
de inteligente vino.
Que lo beban,
que recuerden en cada
gota de oro
o copa de topacio
o cuchara de púrpura
que trabajó el otoño
hasta llenar de vino las vasijas
y aprenda el hombre oscuro,
en el ceremonial de su negocio,
a recordar la tierra y sus deberes,
a propagar el cántico del fruto».


Em Portugal, em matéria de vinho e poesia, o exemplo maior é, sem dúvida alguma, Fernando Pessoa que num poema de 1935, diz: «Dá-me vinho, porque a vida é nada». E noutra altura: «Boa é a vida, mas o vinho é melhor». E a sua fotografia mais conhecida, é como se sabe, tirada numa tasca a beber um copo de três, sob a qual em escreveu em dedicatória para a sua amada Ofélia: «Apanhado em flagrante delitro».



Também os romances estão, desde sempre, repletos de histórias de vinho. São inúmeras as personagens da literatura mundial que não escondem a sua paixão pelo «néctar dos deuses», desde Fiódor Pávlovitch, o pai dos «Irmãos Karamázov» (o genial romance de Dostoiévski) até Sancho Pança, o fiel escudeiro de D. Quixote. Recorde-se que enquanto o cavaleiro da triste figura investe contra os seus moinhos de vento, o seu anafado companheiro prefere deliciar-se com as suas garrafas de vinho. Numa das passagens do clássico de Miguel de Cervantes, Sancho Pança afirma mesmo com legítimo orgulho: «Só pelo odor reconheço logo a região de um vinho e a sua qualidade; é um dom de família que herdei».
Esta evocação traz-me à memória o brasileiro Esmeraldo Siqueira que, sendo ateu convicto, escreveu no seu seu poema «In Vino Veritas»: «Quando bebo uma garrafa de vinho bom,/Mergulho em pleno sonho místico./Tenho vontade de ir à igreja/Fazer às pazes com Jesus Cristo...». O mesmo autor, médico e poeta falecido em 1987, na obra «Sugestões da Vida e dos Livros», disse também: «Amar os velhos livros, como saborear os vinhos velhos, já é um sinal de maturidade.»
Mas não foram só os poetas, os escritores e os filósofos a fazer o elogio do vinho. Rezam as crónicas que Alexander Fleming, o célebre inventor da pelicilina, disse um dia: «A minha invenção cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes». Outro cientista famoso, Louis Pasteur, assegurou com convicção, chocando talvez alguns espíritos bem pensantes: «Há mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros».
Convém, no entanto, não esquecer que um bom livro também pode embriagar. Quem nunca sentiu a cabeça a andar à roda depois de ler um belo poema ou um romance especialmente absorvente? Como um bom vinho, também um estilo literário pode ser encorpado e aveludado, ter um bouquet mais ou menos acentuado, ser leve e até possuir paladar e aroma. Isso mesmo lembra Bernard Pivot, um escritor que durante anos animou um programa semanal sobre livros na televisão francesa, e que em 2006 publicou um «Dictionnaire amoureux du vin», onde ao longo de quase 500 páginas nos guia com humor e ecletismo através de um universo complexo mas acessível. O seu pai tinha vinhas e produzia vinho e o livro dele é o de um amador que procura partilhar o seu prazer da bebida e das palavras, lendo-se com grande proveito.
Um outro livro cuja leitura recomendo vivamente é «Dégustation du vin à travers la littérature française», do japonês Kazuo Ogoura, publicado em 2003, infelizmente não traduzido para português. Antigo embaixador em França, Ogoura apaixonou-se pelo vinho e a França. Através de obras romanescas do séculos XIX e XX, ele estuda o papel do vinho na nossa sociedade e as suas análises sociológicas têm uma dimensão poética assinalável. É um livro apaixonante que abre muitas pistas sobre alguns dos mais belos textos que jamais se escreveram sobre o vinho.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Andrew Bird




Se não sou o fã nº 1 de Andrew Bird, ando lá perto. Acho-o um compositor de génio, do tipo que eu gosto: discreto e despretencioso. Para mais, o rapaz é, para além de um verdadeiro homem-orquestra, genuinamente simpático e comunicativo. Basta ouvir o seu célebre assobio: quem assim exprime só pode ser um gajo porreiro. A cada novo disco, gosto mais dele e se Armchair Apocrypha, o opus anterior, era uma maravilha (apesar de alguns afirmarem que era mais fraco do que o costume), Noble Beast é ainda melhor. Nele, Bird reata com a inspiração dos seus primeiros álbuns (nomedamente The Swimming Hour, de 2001 e, principalmente, Weather Systems, de 2004). Discos onde beleza rimava com leveza, e fragilidade com densidade. Ultimado em Nashville com a preciosa ajuda de Mark Nevers (homem-chave por detrás do sucesso dos Lambchop) Noble Beast é o disco primaveril por excelência. Ouvindo-o, imagino-me deitado numa nuvem em companhia de um anjo musical. E se o seu violino me mandasse atirar lá de cima cá para baixo, eu atirava-me de olhos fechados, tal a fé que tenho no poder da sua música.

sábado, 11 de abril de 2009

Paragem de autocarro

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Mulher Sem cabeça



Numa entrevista publicada pelo jornal «Público», a realizadora argentina Lucrecia Martel, diz a certa altura, falando de piscinas: «Gosto de nadar no rio, no mar. Mas a água parada faz-me impressão. Há outra coisa que me aterroriza: na cidade onde vivo, o acesso à água não é fácil. Uma piscina é um enorme privilégio. E parece-me que há um enorme egoísmo numa piscina. Elas devem existir quando são públicas, porque esse pequeno paraíso deve ser para todos, tal como a saúde, a educação. O que é revolucionário é que os lugares para os prazeres, a preguiça, sejam de todos. E há uma coisa concreta: enquanto as pessoas com poder de compra constroem o seu paraíso artificial, descuidam-se os rios, os mares, os lagos, o acesso público à água deixa de ser importante. Em volta de uma piscina há muitas coisas a dizer sobre o estado do mundo.»
Um pouco mais adiante refere: «Uma piscina é muito parecida com uma sala de cinema. O ar é um meio elástico, o som propaga-se nesse meio. Estar encerrado numa sala de cinema é como estar dentro de uma piscina. Estamos imersos. Não temos a consciência de que vivemos imersos no ar. Só o som é que nos pode dar essa consciência.»
São declarações fabulosas e fizeram-me ir a correr ao King ver o seu novo filme La Mujer Sin Cabeza. Porém, se adorei La Ciénaga (2001) e La Niña Santa (2004), os seus filmes anteriores, este desiludiu-me um pouco. Entendo o que a realizadora argentina quis fazer, e dizer; admiro a sua maneira de filmar, o modo como utiliza a banda sonora e a direcção de actores (que lição!), mas não consegui aderir completamente à história. Lucrecia Martel afirma que a sua ideia era meter o espectador na cabeça da personagem, num estado de choque pós-traumático. «O cinema para mim são duas horas em que, com sorte, consigo colocar o espectador no corpo de outra pessoa», diz ela. Pois bem, no meu caso, e nos das pessoas que me acompanhavam, ela não conseguiu isso de todo. Na minha opinião. muito por culpa de María Onetto, a actriz principal, cujo rosto propositadamente opaco e baço foi bulindo com os meus (nossos) nervos.
Para além desse erro de casting, o filme sofre da ausência de um «twist» dramático, que em vez de aclarar adensasse o mistério e a inquietação (é muito pobre o truque de lançar a dúvida sobre o possível adultério da protagonista) e do facto das personagens secundárias estarem praticamente reduzidas à condição de acessórios animados, sem o mínimo de espessura dramática. O filme teria a ganhar, creio eu, em manter até ao fim a dúvida sobre se a mulher matou um cão ou uma criança. Dito isto, o melhor do filme está no naturalismo, chamemos-lhe assim, com que aborda a realidade quotidiana de um punhado de pessoas que vive no Norte da Argentina, denunciando as diferenças sociais entre os descendentes dos colonos espanhóis e os indígenas, por exemplo. Mais do que um filme de terror, como o classificou um crítico português, La Mujer Sin Cabeza, é um filme angustiado e angustiante. O mesmo jornalista apontou dívidas de Lucrecia Martel para com o Antonioni de A Aventura (porque é uma narrativa sem enredo?) e o surrealismo. Não são só as mulheres que perdem a cabeça de vez em quando.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Pensamento do dia

O poema que crio, cria-me.
O poema que queria, queria-me?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Ficção rápida

ELA: Afinal do que é que estás à espera?»

ELE: Isso gostava eu de saber.

ELA: Não respondas assim. Não podes responder assim. Seria demasiado fácil.

ELE: Toda a vida procurei soluções de facilidade.

ELA: Soluções de facilidade! Curiosa expressão.

ELE: É como «curiosa expressão». Não achas curiosa a expressão «curiosa expressão»?

ELA: Lá estás tu a brincar com as palavras.

ELE: Mais uma expressão engraçada: «brincar com as palavras.»

ELA: Estás a fugir à questão.

ELE: Estás a ver? É impossível não brincar com as palavras. Pensa bem no que acabaste de dizer.

ELA: O quê?

ELE: Fugir à questão. Brincar com as palavras. Soluções de facilidade. Com tantas expressões sugestivas, como farão os outros para não serem poetas? ... Ou escritores?

ELA: Brincar com soluções de facilidade, colocar questões mas a fugir das respostas... Foi isto que andaste a fazer toda a vida.

ELE: E tu? Como tens gasto a tua?

ELA: Tive três filhos. Vou deixar a minha marca no mundo.

ELE: Uau!

ELA: Achas pouco?

ELE: Não. Três filhos é obra, tenho que concordar.

ELA: É melhor do que os dois ou três livros que escreveste e quase ninguém leu.

ELE: Que sabes tu disso?

ELA: Sei tanto como isto: um filho vale mais do que qualquer livro.

ELE: Não escrevi dois ou três livros, escrevi pelo menos quatro.

ELA: Pelo menos? Nem sequer sabes exactamente quantos livros escreveste?

ELE: Sete, oito, vinte, que interessa? No fundo não escrevemos senão um único livro, toda a vida.

ELA: Mais me ajudas.

ELE: Como assim?

ELA: Uma vida inteira para escrever um único livro. Não achas um desperdício?

ELE: Afinal também jogas com as palavras!

Pura realidade

Ouvido no metro: «Todas as mulheres são bonitas. Mas algumas exageram».

Pensamento do dia

Somos a prova viva da fragilidade de Deus

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Pura realidade

No comboio, como frequentemente acontece, aparece um homem a pedir: «Por favor, ajudem-me com o que puderem, tenho que fazer uma operação aos olhos e não tenho dinheiro.» O homem tem uns cinquenta anos, óculos com lentes grossíssimas e traz uma bengala metálica com que vai percutindo o chão.
Já algumas pessoas procuram moedas nos bolsos para depositar na caixinha que ele lhes estende, quando se ouve uma voz feminina, estridente: «Não dêem dinheiro a esse homem, é um aldrabão. Conheço-o há 28 anos e a conversa é sempre a mesma. Eu sei que ele está rico à conta da caridade alheia».
Em vez de responder, o pedinte apressa-se a mudar de carruagem e o incidente torna-se motivo de conversa generalizada

Pensamento do dia

Não corras atrás do poema. Se ele não está já em ti, aguarda.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Da realidade

Quando regressava a casa, esta manhã, vi um homem na rua a encher de areia uma carteira de bolso. Uma dessas carteiras vulgares onde geralmente guardamos os documentos e o dinheiro. Uns metros mais à frente, vejo vir na minha direcção um ex-colega de trabalho. Estamos separados por dez metros e ele parece não me ver, entrando apressadamente numa loja. Em momentos como estes, pergunto a mim mesmo se não estarei a sonhar. Cada vez tenho mais dificuldade em distinguir os sonhos da realidade. Os meus sonhos parecem-me cada vez mais reais, enquanto a (suposta) realidade me prega partidas constantemente. Será por estar desempregado? Isso é: por estar num estado de absoluta atenção ao mundo e, em especial, ao meu mundo interior? Seja como for, é tão exaltante como assustador. Quanto menos percebo o que se passa comigo e com o mundo, mais interessante e intenso é o que vivo. Uma coisa é certa: não há nada mais real do que aquilo que vivo, esteja a dormir ou acordado.

Dos blogues

Ninguém escreve um blogue só para si, é óbvio. Um blogue é uma prova de vida. Cada «post» (há alguma palavra portuguesa para post?) é uma garrafa deitada ao mar com uma mensagem lá dentro. Digam lá o que disserem, somos todos naufragos numa ilha deserta (o nosso corpo). Os mais sortudos têm um Sexta-feira a seu lado (ou dentro de si), mas é tudo. Tal Robinson Crusoes na era do digital, como ferramentas de sobrevivência, apenas temos à nossa disposição palavras e imagens. Desse ponto de vista, uns são mais ricos do que outros, mas os talentosos estão tão sós e desesperados como os indigentes. Como se sabe, a única saída da ilha é para outra dimensão. O que me leva a colocar a questão: será que somos todos meros apontamentos no eterno e infinito blogue de Deus?

Do lixo

Não raras vezes me arrependo do que publico neste blogue que, em boa verdade, frequentemente utilizo como uma espécie de caixote do lixo para onde atiro o que não rasgo ou apago. No entanto, há pessoas (e eu assumo-me como uma delas) que adoram espreitar o lixo dos outros. A mim, por exemplo, todo o lixo me interessa; tenho um verdadeiro fascínio pelos restos, as sobras - que é como quem diz: os rascunhos e os esboços. As tentativas falhadas, em suma.
A perfeição, para mim, para além de inantingível, é demasiado «lisa» e até superficial. No mínimo, é superfua. No fundo, tenho horror ao perfeitinho. Há mais verdade, parece-me, naquilo que as pessoas preferem não mostrar, ou não ver. Não me estou a explicar bem, mas acho que me faço entender. Caso contrário, tanto faz: no fundo estou apenas a produzir mais lixo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Janelas de Amesterdão


Janelas de Amesterdão




Ficção rápida



«Trata-me mal, bate-me e insulta-me, é assim que eu gosto», pediu-me ela.
Devo ter ficado com cara de parvo. Depois, quando percebi que estava a falar a sério, disse:
«Desculpa, não consigo.»
«Então, nada feito, só consigo ter prazer se sofrer um bocado.»
«Queres que te dê uma estalada? É isso?»
«Na cara, não. No rabo, por favor.»
Ela pôs-se a jeito e eu soltei uma gargalhada.
«És doida.»
«Talvez. Não sei. É assim.»
«Que nomes queres que te chame? Puta, cabra, coisas assim?»
«O que tu quiseres. Quanto pior melhor.»
Voltei a rir e ela pediu, com um ar muito sério:
«Faças o que fizeres, por favor, não rias.»
Estava agora toda nua e era estupenda. Muito branca, pequena, parecia uma figura de procelana.
«Pareces tão frágil», disse eu. «Como posso bater-te?»
«Não sou tão frágil como isso... Experimenta.»
Aproximei-me para examinar o sexo dela. Estava fascinado pela ausência de pêlos púbicos.
«Porque é que te rapas?», perguntei.
Ela impacientou-se.
«Assim não vamos a lado nenhum.»
Disse isto e afastou-se, indo deitar-se sobre a cama. Fui atrás dela e ajoelhei-me à sua beira.
«Deixa-me beijar-te», pedi.
«Depois. Mais tarde. Primeiro tens que fazer o que te pedi.»
De repente, senti-me ridículo, ali de joelhos no chão e levantei-me, para voltar a sentir alguma dignidade.
«Não esperava por uma coisa destas», murmurei, lembrando-me de súbito que ela era casada com um amigo meu.
«Que esperavas, então?»
«Não sei. Tudo menos isto.»
«Também eu nunca imaginei que fosses tão mariquinhas», asseverou ela.
Disse isto, abrindo uma gaveta da mesa de cabeceira de onde tirou um pequeno chicote que me estendeu.
«Toma. Usa-o bem.»
Antes que eu pudesse reagir, tirou da mesma gaveta umas algemas.
«Queres pôr-me isto?»
Larguei o chicote em cima da cama para pegar nas algemas. Estava fascinado com a situação. Assustado e fascinado. Experimentei as chaves e funcionavam na perfeição. Ela juntou os pulsos atrás das costas e ordenou-me: «Fecha-as».
Apertei-lhe as algemas e ela acrescentou:
«Agora, podes fazer-me o que quiseres.»
Eu não me conseguia mexer.
«Dá-me com o chicote, vá lá.»
Como que a medo, obedeci. Dei-lhe uma chicotada no rabo, bem sonora.
«Com mais força», pediu ela.
Passou-me uma coisa má pela cabeça e golpei-a com mais força. Zás! Zás!
«É assim que queres, minha puta de merda?», rosnei.
«Sim, sim», gemeu ela.
Voltei a bater, duas, três, quatro vezes. Cada vez com mais força. As marcas nas nádegas dela, os gemidos langorosos, excitaram-me, confesso e, não me contendo, deitei-me sobre ela para a beijar. A filha da mãe mordeu-me o lábio com força, fazendo-me berrar com a dor. Senti o sangue sujar-me a boca, depois vi o sangue nas minhas mãos.
«És mesmo louca, minha filha da puta.»
Disse isto e saí porta fora, deixando-a ali, nua, algemada, louca.
«Amanhã», prometi a mim mesmo, «vou esquecer esta história toda».

PS - A ilustração é de um artista da Geórgia chamado Juul Kraiger.

Pensamento do dia

I rely on my pain to be what I am.

Sabedoria popular



Para quem não sabe inglês, a frase diz: «Deus mata mais do que o cancro».

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