segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Auto-retrato



Torres Novas, 29 de Novembro de 2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Michael Ackerman



Michael Ackerman acaba de receber o Prémio Scam Roger Pic 2009. O galardão pode não vos dizer nada, tal como o nome do premiado, mas deixem que vos diga: Ackerman é um dos fotógrafos mais interessantes que conheço. Apreciem os exemplos que aqui coloquei e digam lá que não tenho razão. Mal enquadradas, desfocadas ou pouco nítidas, as suas fotos conseguem ser mais do que simples imagens, histórias e ideias com a capacidade de nos assombrar. Como já alguém disse, «ele consegue tornar visível o que há de mais imaterial: a memória».
Conheci-o através do seu livro End Time City, dedicado a Benáres publicado em 1999. Foram essas imagens que me decidiram ir à Índia no ano seguinte.
O portfolio com que venceu o Prémio Scam Roger Pic intitula-se Departure Poland e é, de certo modo, uma homenagem aos seus antepassados, alguns dos quais morreram nos campos de concentração nazis.




sábado, 21 de novembro de 2009

Crepúsculo



«Mon être-là est de plus en plus un être lá-bas: je suis emporté vers le lieu où je ne suis pas»
Peter Handke in À Ma Fenêtre le Matin

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O outro lado da lua



Sou grande fã de filmes de ficção científica. Sempre fui. Porém, ultimamente, não tenho encontrado muitos motivos para me entusiasmar nessa área específica. Moon – o Outro Lado da Lua, de Duncan Jones, que ontem fui ver ao Monumental, constituiu por isso uma bela surpresa. Tanto mais que o nome do realizador não me dizia nada. Só depois de ver o filme (que me trouxe à memória pelo menos dois episódios do Twilight Zone original) soube que Duncan Jones é filho de David Bowie, o que, em todo o caso, é absolutamente irrelevante, pois se o filme é bom, por certo não deve nada ao ilustre músico.
Não vou contar a história do filme, que vos recomendo vivamente, mas limitar-me a dizer que se apoia numa ideia original e num estilo formal depurado e inteligente que consegue, com poucos meios e grande economia dramática (tem um único actor, o notável Sam Rockwell), mergulhar-nos numa atmosfera claustrofóbica e angustiante, que nos acompanha no regresso a casa e pode, inclusivamente, perturbar-nos o sono. Duncan Jones já reconheceu a sua dívida para com 2001: Odisseia no Espaço, de Stantey Kubrick e Solaris, de Andrei Tarkovsky, entre outros, mas é justo salientar que soube encontrar para a sua primeira longa-metragem um tom próprio, muito promissor na verdade. Justo é também realçar a excelente banda sonora de Clint Mansell, cujo trabalho já tínhamos admirado em The Fountain (2006) e The Wrestler (2008), ambos de Darren Aronofsky.

Histórias por contar









sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Pura realidade

A meu lado está um casal com uma criança que terá, no máximo, uns quatro anos. É a primeira vez que ela vai andar de avião e os pais tentam sossegá-la. De repente, ela volta-se para eles e diz, com aqueles olhos brilhantes de quem acaba de fazer uma grande descoberta: «Afinal um avião é um comboio com asas!».

Instântaneo dominicano

Um rapaz passa por uma rapariga e pergunta:
- Como te llamas chica?
- Esperanza.
- Todavia no te conozco, Esperanza, y ya te amo!
Diz isto com um sorriso enorme e segue o seu caminho, lançando:
- Adios cariño.
Agora pergunto eu: «Como não gostar desta gente?»

Sonho em Punta Cana



Estou em Punta Cana, na Republica Dominicana, e preciso de tirar fotografias tipo passe. Para quê? Não faço a mínima ideia.
Entro numa loja para fazer as fotos. A vendedora conduz-me à casa de banho e manda-me sentar na sanita. Perante o meu espanto, afirma: «Foi uma ideia do meu marido. Pela janela pode ver-se o jardim e faz um fundo muito bonito para os retratos».
Ela tenta então tirar a fotografia, mas não consegue. Diz-me: «Não consigo. Não sei o que se passa, tem que cá voltar amanhã, quando estiver o meu marido. Ele é que percebe destas coisas».
Protesto: «Eu precido das fotos hoje, não amanhã».
«Então vou ali ao lado falar com um vizinho, pode ser que ele consiga resolver isto».
Passado uns instantes, aparece um rapaz que me diz: «Eu não sei mexer nessa máquina. O melhor é mesmo voltar amanhã».
Pergunto pela vendedora, que entretanto desapareceu, e ele assegura-me que ela não vai tardar a aparecer.
Nesse momento, entra na loja uma senhora que nunca vi na vida, acompanhada pelo filho. Traz um bolo de chocolate para a dona da loja. Pergunta-me por ela e respondo-lhe que também estou à espera dela. Por fim, a mulher lá aparece e eu exigo-lhe imediatamente os cinco euros que lhe dei adiantados para as fotografias.
Afirma que não mos pode devolver. «Já registei na caixa e não há nada a fazer».
Impaciento-me e perante a sua passividade, fico fora de mim: pego no bolo de chocolate e espeto-lho na cara, como tantas vezes vi fazer nos filmes mudos.
O miúdo que assistiu a tudo, pega numa tesoura enorme e ameaça-me com ela. «Vai-te embora! Vai-te embora!», grita ele, acordando-me.

Punta Cana









Auto-retrato dominicano

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Prenons le large

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Da opinião

Na televisão, nos jornais, nos cafés: por todo o lado, toda a gente tem a sua opinião. Há os que têm direito a uma tribuna própria, remunerada ainda por cima, e os que se têm que contentar em escrever para o «Correio dos leitores» ou telefonar para aqueles programas (e são cada vez mais) que, na TV, dão voz ao povo, a troco de poucos euros (chama-lhes chamadas de valor acrescentado). Trate-se de política, futebol, religião, ou qualquer outro assunto, tanta certeza faz-me confusão. Por mim, não estou, nunca, completamente de acordo com o que penso. Por mais que me custe dizê-lo, não consigo concordar plenamente comigo mesmo, seja qual for a questão. Nem comigo, nem com ninguém, de resto. Só pode ser uma maldição!

Da escrita



«Nunca comecei um livro que não acabasse», escreve Marguerite Duras com visível orgulho. Quase dá vontade de rir. Duras casou com a literatura como outras casaram com Deus. É uma freira da escrita. Uma freira lasciva e frustrada, que acabou viúva de si própria.
Acabei de (re)ler Écrire e não percebo como pude gostar tanto do livro da primeira vez que o li (há muitos anos). Pelo facto de ser escritora, ela pensa ser melhor que os outros, estar mais perto do segredo da vida. Imagino-a a escrever em cima de um pedestal. Um pouco como o António Melo Antunes que acaba de lançar um novo romance e se multiplica em entrevistas onde explode a cada frase a sua incomensurável vaidade. E quanto mais modesto pretende mostrar-se, mais inchado fica.
Por sorte, encontrei há dias na Fnac um Kafka que ainda não tinha lido: Cahiers in-octavo (1916-1918). Uma colecção de oito cadernos escolares, entre o diário e o caderno de rascunhos, com um excelente prefácio (assinado por um tal Pierre Deshusses) que termina comparando o escritor com um aluno «que aprende a viver porque sabe que vai morrer». E «que aprende a escrever porque sabe que essa é a sua vida».

Aforismo

Todo o escritor é um espião por conta própria.

Andando



O título que recebeu por cá, não faz justiça ao filme. Andando não é um bom nome. Em inglês soa melhor: Still Walking. Há, a meu ver, uma diferença entre ir andando e continuar a andar. A tão expressão «Vamos andando», tão portuguesa, estaria bem melhor.
O postal com que a Atalanta promove a obra (do japonês Kore-Eda Hirokazu), resume assim a história: «Vinte e quatro horas. Uma família junta-se num raro encontro familiar para assinalar o aniversário da morte do filho mais velho. Amor, ressentimentos e segredos unem esta família disfuncional».
Disfuncional? A palavra está decididamente na moda. Gostava que me apontassem uma família, uma só, que não seja disfuncional!
A propósito deste filme, melancólico e belo, verdadeiraente admirável, apetece escrever: os filhos tomam sempre o lugar dos pais, os netos dos avós e por aí fora. Onde quer que estejamos, no espaço de um dia temos todo o tempo do mundo. E qualquer casa é o mundo todo, qualquer família todas as famílias. No Japão como em Portugal.
À saída do King ouvi alguém proclamar para os amigos em voz alta: «Que estranhos são estes japoneses!». Deu-me vontade de rir: o palerma nem sequer se reconheceu no retrato.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Pura realidade



Comemorou-se hoje o «Dia da terceira idade». Muito a propósito, o Correio da Manhã publicou a uma notícia onde se podia ler: «40 mil idosos passam fome. O preço elevado dos alimentos está a levar a que muitas pessoas mais velhas não consumam alimentos mais saudáveis. De acordo com um inquérito alimentar realizado pela DECO, pelo menos 40 mil idosos em Portugal não têm dinheiro para comer.
O estudo, publicado na edição de Novembro da revista ‘Proteste’, resultou de um questionário enviado em Fevereiro e Março para uma amostra representativa da população entre 65 e 79 anos. Responderam mais de 3400 idosos. Destes, mais de um quinto indicou ter dificuldades financeiras.
'A difícil situação económica e a falta de autonomia influenciam de forma negativa o que se come', conclui a Associação de Defesa do Consumidor. Os autores da investigação apuraram mesmo que três por cento dos inquiridos passou fome na semana anterior a responder às perguntas.»

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A máquina de contar histórias (6)

A partir de qualquer fotografia, alguém com um mínimo de imaginação, pode inventar uma história. Eu passo a vida a inventar histórias, algumas inspiradas nas pessoas com quem me cruzo na rua.







































sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Pobre Portugal

O Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza assinala-se amanhã. Segundo o jornal Público, 18 por cento dos portugueses são pobres. E tende a piorar. Mas o melhor é citar:

«Segundo a Assistência Médica Internacional (AMI), os seus centros Porta Amiga apoiaram no primeiro semestre deste ano mais 10 por cento de pessoas do que no mesmo período do ano anterior.

"Estes valores demonstram uma nítida tendência para um crescente número de casos de pobreza persistente. A grande maioria destas pessoas encontra-se em plena idade activa, entre os 21 e os 59 anos de idade", pode ler-se num comunicado daquela organização.

Além disso, a AMI destaca que há cada vez mais novos casos de pobreza. No primeiro semestre deste ano "foram 1836 as pessoas que recorreram pela primeira vez ao apoio social da AMI, mais 24 por cento do que no mesmo período no ano anterior"».

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Herta Müller



É este o rosto da senhora que, este ano, recebeu o Premio Nobel da literatura. Nunca li, nunca tinha ouvido falar dela, mas a Academia Sueca afirma que a recompensou porque ela soube, «com a concentração da poesia e a objectividade da prosa, desenhar as paisagens do abandono».
Nascida em 1953 na Roménia, vive na Alemanha desde 1987. Um dos seus romances mais famosos intitula-se O Homem É um Grande Faisão Sobre a Terra (Cotovia, 1993). Inútil ir a correr procurá-lo, ninguém estava à espera desta distinção, e o livro não vai chegar tão cedo às livrarias nacionais.
Antes de Müller, o último alemão a vencer o Nobel de Literatura foi Günter Grass, em 1999. Herta é a 12ª mulher a conquistar o prêmio.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

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