sábado, 9 de janeiro de 2010
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Lhasa
Estou em estado de choque: acabo de saber que morreu uma das minhas cantoras preferidas. Lhasa (na foto) tinha 37 anos e lutava, há quase dois anos, contra um cancro da mama.Na primeira metade do ano passado, Lhasa publicara um novo disco cujo título era o seu própriuo nome. Na altura escrevi: «Cantado em inglês, este é, sem dúvida, o seu álbum mais íntimo e perturbador. Para lhe fazer justiça é preciso gostar de canções tristes e crepusculares (onírico e solitário, o álbum já foi descrito como uma viagem ao fim da noite)». Nessa altura ela já estava doente, mas eu não o sabia.
Lhasa de Sela nasceu em Big Indian, uma pequena localidade nas Montanhas Catskill, no estado de Nova Iorque e tinha sangue mexicano. Os pais sempre ouviram muita música, desde clássicos americanos e mexicanos até música árabe, cigana e japonesa, o que explica as múltiplas influências que se ouvem nos seus discos. Lhasa cantava, pelo menos desde os 13 anos, mas foi em Montréal no Canadá (onde veio a falecer), que a sua carreira musical verdadeiramente começou, ao lado do guitarrista (e cineasta Yves Desrosiers). Da colaboração entre ambos nasceu La Llorona, um belíssimo primeiro álbum editado em 1997 e que conheceu, nalguns meios, um êxito retumbante. Algum tempo depois, Lhasa veio para a Europa, onde reencontrou as suas três irmãs em Bourgogne, «performers» num circo. Juntas, criaram um espectáculo, que estreou no Verão de 1999 e que está, pelo menos em parte, na raiz de The Living Road, o seu segundo disco, parcialmente composto no Sul de França e que rompeu um silêncio discográfico de cinco anos. O álbum mistura folk mexicano, canções francesas e baladas hispânicas e é cantado em francês, inglês e castelhano. Por vezes, Lhasa cantava também em português e árabe, porque a sua música não conhecia fronteiras e procurava unir diversas tradições populares com experiências mais contemporâneas e experimentais. As suas letras falam-nos de personagens reais, mas também de sonhos, devaneios e utopias. Ouvi-las é ouvir o que há de mais profundo em nós.
PS - 2010 começou há quatro dias e já tive que escrever dois obituários sobre músicos de quem gostava e que morreram prematuramente. Não podia estar mais triste.
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Um profeta
A poucas horas do ano acabar, fomos, a Raquel e eu, ao Corte Inglês ver Um Profeta de Jacques Audiard. Tinha adorado De Tanto bater o Meu Coração Parou, mas com este novo filme Audiard voltou a sacudir-me dos pés à cabeça. De tal modo que, à última hora, tive que acrescentar Um Profeta à minha lista dos melhores filmes de 2009, já publicada neste blogue.
Quase integralmente filmado na prisão, Um profeta conta-nos a terrível (e irresumível) história de um jovem detito árabe (Malik El Djebena, magnificamente interpretado por Tahar Rahim), que em seis anos vai tornar-se no líder de uma nova organização criminosa, vingando-se de um gangue corso que quase o tinha escravizado. Extremamente perturbador e angustiante, Um Profeta ganhou o Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes de 2009 e é o candidato francês ao Óscar de melhor filme estrangeiro
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Um profeta
Vic Chesnutt
A voz, estilhaçada, era um espelho do seu corpo quebrado.
Todos os seus discos soavam como desepedidas.
Desde que ficara paralítico, aos 18 anos, em consequência de um acidente de automóvel, Vic Chesnutt fazia música como quem morre.
Já por diversas vezes tentara suicidar-se.
Na noite de 25 de Dezembro não acordou mais.
Ficam os discos e os vídeos, alguns dos quais se podem ver no YouTube.
Todos os seus discos soavam como desepedidas.
Desde que ficara paralítico, aos 18 anos, em consequência de um acidente de automóvel, Vic Chesnutt fazia música como quem morre.
Já por diversas vezes tentara suicidar-se.
Na noite de 25 de Dezembro não acordou mais.
Ficam os discos e os vídeos, alguns dos quais se podem ver no YouTube.
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Dos leitores
Os leitores são uma ilusão: o único leitor que verdadeiramente conta é o que dorme dentro de nós!
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Balanço 2009 (discos)
Musicalmente, pelo menos para mim, 2009 foi um bom ano. Entre todos os discos que gostei de ouvir este ano, aqui fica (por ordem alfabética) uma lista de 10 que considero imperdíveis.
Andrew Bird: Noble Beast
Bill Callahan: Sometimes I Wish We Were an Eagle
Bob Dylan: Together Through Life
Devendra Banhart: What Will We Be
Fredo Viola: The Turn
God Help The Girl: God Help The Girl
Kings of Convenience: Declaration of Dependence
Sufjan Stevens: The BQE
The XX: XX
Tom Waits: Glitter and Doom Live
Andrew Bird: Noble Beast
Bill Callahan: Sometimes I Wish We Were an Eagle
Bob Dylan: Together Through Life
Devendra Banhart: What Will We Be
Fredo Viola: The Turn
God Help The Girl: God Help The Girl
Kings of Convenience: Declaration of Dependence
Sufjan Stevens: The BQE
The XX: XX
Tom Waits: Glitter and Doom Live
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Balanço 2009
Balanço 2009 (filmes)
Aqui fica (por ordem alfabética) a lista dos 12 melhores filmes que vi em 2009. Porquê 12? Eram para ser 10, mas destes 12 não consegui deixar nenhum de fora. Tão simples como isto.
Resta acrescentar que alguns dos filmes não passaram no circuito comercial em Lisboa. Vi-os graças à Internet ou a Festivais de Cinema.
Andrea Arnold: Fish Tank
Charlie Kaufman: Synecdoche, New York
Courtney Hunt: Frozen River
Duncan Jones: Moon
Hirokazu Kore-Eda: Andando
Jacques Audiard: Um Profeta
James Gray: Two Lovers
Kateryn Bigelow: The Heart Locker
Kiyoshi Kurosawa: Tokyo Sonata
Sam Mendes: Revolutionary Road
Stephen Frears: Chéri
Werner Herzog: Encounters at the End of the World
Resta acrescentar que alguns dos filmes não passaram no circuito comercial em Lisboa. Vi-os graças à Internet ou a Festivais de Cinema.
Andrea Arnold: Fish Tank
Charlie Kaufman: Synecdoche, New York
Courtney Hunt: Frozen River
Duncan Jones: Moon
Hirokazu Kore-Eda: Andando
Jacques Audiard: Um Profeta
James Gray: Two Lovers
Kateryn Bigelow: The Heart Locker
Kiyoshi Kurosawa: Tokyo Sonata
Sam Mendes: Revolutionary Road
Stephen Frears: Chéri
Werner Herzog: Encounters at the End of the World
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Balanço 2009
Sonho brasileiro
Estamos, a Raquel e eu, em S. Paulo no Brasil, uma cidade que nenhum de nós conhece. Andamos pela rua, vendo um filme russo (nos sonhos tudo é possível). De repente, o filme acaba e a coisa mais urgente deste mundo é vermos a sequela, que passa na outra ponta da idade.
A Raquel acelera o passo e eu tenho dificuldade em segui-la. Daí a pouco perco-a de vista e ponho-me a correr para a tentar alcançar. Corro, por uma avenida larga, sem fim. Sem saber como, dou por mim num autocarro. Numa paragem, vejo a Raquel do outro lado da rua e saio para ir ao seu encontro. Nesse momento, ela chama um táxi e eu apresso-me a apanhá-lo também. Já lá dentro, constato com espanto que ela está ao volante. Eu sigo no banco de trás, ao lado do motorista, feliz por a ter reencontrado e por ir saber como acaba o filme.
A Raquel acelera o passo e eu tenho dificuldade em segui-la. Daí a pouco perco-a de vista e ponho-me a correr para a tentar alcançar. Corro, por uma avenida larga, sem fim. Sem saber como, dou por mim num autocarro. Numa paragem, vejo a Raquel do outro lado da rua e saio para ir ao seu encontro. Nesse momento, ela chama um táxi e eu apresso-me a apanhá-lo também. Já lá dentro, constato com espanto que ela está ao volante. Eu sigo no banco de trás, ao lado do motorista, feliz por a ter reencontrado e por ir saber como acaba o filme.
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
God Help The Girl
God Help The Girl. Um tal título só podia chamar a minha atenção. De início não sabia tratar-se do novo projecto de Stuart Murdoch, o mentor dos Belle and Sebastien (na foto com Catherine Ireton). A primeira faixa do disco deixou-me logo rendido. A voz feminina era de natureza a mexer comigo. A música dir-se-ia saída de outros tempos, trouxe-me à memória Sandie Shaw, Petula Clark e outras Sylvie Vartan. Na verdade, todo o disco se revelou tão bonitinho que não me canso de o ouvir.
Sei agora que God Help the Girl reúne canções escritas a pensar na banda sonora de um musical a rodar para o ano que vem, e que conta com a participação de várias vozes femininas (Catherine Ireton, Brittany Stallings, Dina Bankole, Alex Klobouk, Celia Garcia e Asya) e também de Neil Hannon (Divine Comedy). O disco não figurará por certo nas habituais listas dos melhores álbuns do ano. Como se eu me ralasse com isso. Para mim, é uma pérola, uma colecção de canções tão felizes que não sairá tão cedo do meu MP3.
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domingo, 13 de dezembro de 2009
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Tom Waits

Glitter and Doom! Sacana do Tom Waits, só ele para arranjar um tal titulo! Dito isto, tenho duas boas razões para, logo à partida, celebrar a chegada de um novo disco dele: é duplo e foi gravado ao vivo. Mas há mais: a voz está mais cavernosa do que nunca e a sua música raramente soou tão essencial.
Glitter and Doom Live é uma daqueleas obras que nos dá a volta às tripas. Ouves aquelas histórias, cantadas daquela maneira, e pensas: “Está lá tudo, até o sangue de que são feitos os únicos sonhos que vale a pena ter e a esperma que entope as canetas de quem procura o indizível”.
Tenho com Tom Waits pelo menos esta coisa em comum: também a minha voz foi ao limite das suas possibilidades e se voltou do avesso. Só que a minha não se ouve e a dele dá a volta ao mundo, telúrica e arrasadora como é.
Nas últimas fotos (veja-se mais acima), acentuou-se o seu ar de sátiro. Não custa imaginar que esconde uma cauda nas calças e pés bífidos nos sapatos.
Ouçam este disco como se a vossa vida estivesse em jogo (é a única maneira do apreciar devidamente), atentem na reacção dos vários públicos (foi gravado em várias cidades) e digam lá se Tom Waits não é um inultrapassável animal de palco.
Kafka que me perdoe a heresia, mas cá para mim, se o Gregor Samsa d’A Metamorfose cantasse, o que ouviríamos poderia perfeitamente figurar, como "bonus track", neste Glitter and Doom Live.
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terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Fernando Lemos

Auto-retrato de Fernando Lemos
Fernando Lemos nasceu em Lisboa, em 1926. Actualmente, reside em São Paulo, no Brasil. A sua ligação à fotografia vem da altura em que desenvolveu a sua actividade artística junto do Grupo Surrealista de Lisboa (anos 40 e 50).
A pretexto de uma exposição que a Fundação Cupertino de Miranda apresenta em Vila Nova de Famalicão, Sérgio B. Gomes entrevistou-o para o Público. É uma das melhores entrevistas a um fotógrafo que jamais li e não resito a transcrever algumas frases que dão bem a medida da sua inteligência e sensibilidade:
«Considero a fotografia já em mim. Já me perguntaram também se eu era fotógrafo. Respondo: “Não. Eu sou a fotografia”. Em tudo o que vejo, é como se fosse a fotografia a ver essas coisas. Tenho a fotografia na minha cultura visual.»
«Quando comecei a ver que toda a gente tinha uma camarazinha e andava fotografando primeiro achei que era um disparate. Depois pensei outra vez e disse para comigo: afinal, uma das coisas boas da fotografia é que ela ensina a ver.»
«A gente já sabe que a fotografia foi mais uma vitória industrial do que artística. Não importa se vai sair dela mais ou menos arte. O que é mais importante é que a magia fica ao alcance de toda a gente. No Japão, percebi que as crianças aprendem primeiro a fotografar e só depois a escrever e a desenhar. Elas registam imagens e só depois aprendem a escrita e o desenho.»
«O que queria preparar na composição era um pensamento mais pictórico e gráfico. No fundo, considero-me gráfico em tudo o que faço.»
«A fotografia para mim também é a transparência. A transparência é uma forma de espionagem. Apanhamos certas coisas e nem sabemos que as apanhámos. Como um furto. O olhar fotográfico pode furtar da realidade coisas de que nem nos apercebemos.»
«Entrei na fotografia por acaso. Eu sou o acaso, sou um primitivo.»
«Entendo a fotografia mais como uma ferramenta do resultado, o último gesto de uma criação. É uma arte final. É por isso que eu considero a fotografia já em mim e digo “eu sou a fotografia”. É porque eu já sou um produto acabado, deixei de ser um “layout” para ser mais uma arte final.»
«Procuro mostrar que somos vários. Quando aparecemos em qualquer situação, não temos uma cara fixa, não somos uma máscara. Quis captar os retratos desta forma para se perceber que temos na nossa cara um mundo de coisas para explodir, para esconder.»
PS - Pode ler a totalidade da entrevista aqui
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domingo, 6 de dezembro de 2009
Tetro

«A family melodrama with charm», diz o Boston Globe. «Unabashedly theatrical and richly cinematic, even when it's falling apart», afirma o Chicago Tribune. Já o Village Voice escreveu: «For writer-director Coppola, Tetro is a cri de coeur, one more from the heart.» Quanto ao Washington Post afirmou: «Tetro has no internal tension and should have been a comedy.»
Pois é: fui ver o novo Coppola e saí irritado. Quando entrei, a minha expectativa não era muito elevada. Detestei Uma Segunda Juventude, inspirado, ao que parece, numa história do filósofo Mircea Eliade. O filme, realizado após um silêncio que durou uma década, falava de um académico a quem era dada uma segunda oportunidade para viver. Voltar a ser jovem, ter enquanto criador uma nova oportunidade, parece ser uma das actuais obsessões de Coppola que, aos 70 anos, declara a propósito deste Tetro: «é o segundo filme da minha segunda carreira».
Filmado a preto e branco, com câmaras digitais de alta definição, na cidade de Buenos Aires, Tetro é o primeiro guião original escrito sozinho pelo cineasta em quase trinta anos. O próprio Coppola o resume dizendo tratar-se da história de uma família separada por um segredo dilacerante. Diz também que é «modestamente um filme ‘à maneira de' Tennessee Williams, alguém que tanto admiro». E vai mais longe, admitindo que «aqui, há de facto uma família muito semelhante à minha, e é certamente o mais próximo que já cheguei de falar sobre a minha família».
Não precisava de o afirmar, está na cara que fala de si mesmo e dos seus: do pai e do tio compositores, da mãe actriz, da filha que é, actualmente, a sua maior rival (As Virgens Suicidas, Lost in Translation e Marie Antoinette fizeram dela uma das mais interessantes cineastas da sua geração). O autor de Rumble Fish (1983), Os Padrinho (1972/1974/1990) e Apocalypse Now (1979) foi, durante muitos anos, considerado um génio. O seu nome está indelevelmente gravado na história da Sétima Arte, mas Tetro confirma-o: Coppola envelheceu mal. Ainda sabe onde colocar a câmara, tem o sentido do espaço e da «mise-en-scène», mas quer fazer demais. Para este filme quis, por exemplo, que parecesse uma peça do Tennessee Williams, e inspirou-se na filha e em Orson Welles (parece-me evidente), mas com uma diferença que não lhe é favorável: Coppola quer fazer «filmes de tese» (como se dizia nos anos 60). Não lhe basta contar uma história, quer que as suas obras continuem a fazer história. Mas os tempos mudaram e o que ele procura pertence definitivamente ao passado. O «mestre» está gagá, não há outra forma de o dizer.
O mais irritante é que a primeira metade do filme é bastante boa. Enquanto está a apresentar as personagens e as premissas da história, a coisa resulta. O pior é quando Francis Ford começa a querer que entremos na cabeça das personagens desempenhadas por Alden Ehrenreich (um DiCaprio de segunda) e Vincent Gallo (que passa o filme todo a fazer olhos de carneiro mal morto); ou seja, na sua própria cabeça. Aí estraga tudo: o filme entra num delírio operático, grandiloquente e pretensioso que esmaga, sob um esteticismo exagerado, aquilo que poderia ter sido uma boa história. Como disse a Time, e muito bem: «he has made a movie in which plenty happens but nothing rings true». Tenho pena, mas é assim.
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
A última fronteira
Marc Augé, autor de um livro magnífico intitulado L’Impossible Voyage – Le tourisme et ses images escreveu um dia: «Talvez uma das nossas tarefas mais urgentes consista em reaprender a viajar, eventualmente mais perto de casa, para reaprender a ver». Não podia estar mais de acordo.
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Pobre Portugal
Jornal de Notícias de hoje:
«Somente um em cada cinco portugueses possui nível médio de literacia. O que causa prejuízos directos no potencial de desenvolvimento do país. As conclusões constam de um estudo apresentado na Gulbenkian. Segundo o relatório realizado pela Data Angel, a pedido dos coordenadores do Plano Nacional de Leitura (PNL) e apresentado ontem na Gulbenkian, apenas um em cada cinco portugueses possui o nível médio de literacia. Na Suécia, a correspondência é de quatro em cada cinco suecos. Literacia é a capacidade de ler e compreender o que se lê para resolver problemas concretos. Esta aptidão em Portugal, refere o relatório, é muito baixa. "Portugal apresenta os níveis mais baixos de competências de literacia de entre todos os países observados", referiu o coordenador do projecto, Scott Murray.»
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Michael Ackerman

Michael Ackerman acaba de receber o Prémio Scam Roger Pic 2009. O galardão pode não vos dizer nada, tal como o nome do premiado, mas deixem que vos diga: Ackerman é um dos fotógrafos mais interessantes que conheço. Apreciem os exemplos que aqui coloquei e digam lá que não tenho razão. Mal enquadradas, desfocadas ou pouco nítidas, as suas fotos conseguem ser mais do que simples imagens, histórias e ideias com a capacidade de nos assombrar. Como já alguém disse, «ele consegue tornar visível o que há de mais imaterial: a memória».
Conheci-o através do seu livro End Time City, dedicado a Benáres publicado em 1999. Foram essas imagens que me decidiram ir à Índia no ano seguinte.
O portfolio com que venceu o Prémio Scam Roger Pic intitula-se Departure Poland e é, de certo modo, uma homenagem aos seus antepassados, alguns dos quais morreram nos campos de concentração nazis.

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sábado, 21 de novembro de 2009
Crepúsculo

«Mon être-là est de plus en plus un être lá-bas: je suis emporté vers le lieu où je ne suis pas»
Peter Handke in À Ma Fenêtre le Matin
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009
O outro lado da lua

Sou grande fã de filmes de ficção científica. Sempre fui. Porém, ultimamente, não tenho encontrado muitos motivos para me entusiasmar nessa área específica. Moon – o Outro Lado da Lua, de Duncan Jones, que ontem fui ver ao Monumental, constituiu por isso uma bela surpresa. Tanto mais que o nome do realizador não me dizia nada. Só depois de ver o filme (que me trouxe à memória pelo menos dois episódios do Twilight Zone original) soube que Duncan Jones é filho de David Bowie, o que, em todo o caso, é absolutamente irrelevante, pois se o filme é bom, por certo não deve nada ao ilustre músico.
Não vou contar a história do filme, que vos recomendo vivamente, mas limitar-me a dizer que se apoia numa ideia original e num estilo formal depurado e inteligente que consegue, com poucos meios e grande economia dramática (tem um único actor, o notável Sam Rockwell), mergulhar-nos numa atmosfera claustrofóbica e angustiante, que nos acompanha no regresso a casa e pode, inclusivamente, perturbar-nos o sono. Duncan Jones já reconheceu a sua dívida para com 2001: Odisseia no Espaço, de Stantey Kubrick e Solaris, de Andrei Tarkovsky, entre outros, mas é justo salientar que soube encontrar para a sua primeira longa-metragem um tom próprio, muito promissor na verdade. Justo é também realçar a excelente banda sonora de Clint Mansell, cujo trabalho já tínhamos admirado em The Fountain (2006) e The Wrestler (2008), ambos de Darren Aronofsky.
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Pura realidade
A meu lado está um casal com uma criança que terá, no máximo, uns quatro anos. É a primeira vez que ela vai andar de avião e os pais tentam sossegá-la. De repente, ela volta-se para eles e diz, com aqueles olhos brilhantes de quem acaba de fazer uma grande descoberta: «Afinal um avião é um comboio com asas!».
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Instântaneo dominicano
Um rapaz passa por uma rapariga e pergunta:
- Como te llamas chica?
- Esperanza.
- Todavia no te conozco, Esperanza, y ya te amo!
Diz isto com um sorriso enorme e segue o seu caminho, lançando:
- Adios cariño.
Agora pergunto eu: «Como não gostar desta gente?»
- Como te llamas chica?
- Esperanza.
- Todavia no te conozco, Esperanza, y ya te amo!
Diz isto com um sorriso enorme e segue o seu caminho, lançando:
- Adios cariño.
Agora pergunto eu: «Como não gostar desta gente?»
Sonho em Punta Cana
Estou em Punta Cana, na Republica Dominicana, e preciso de tirar fotografias tipo passe. Para quê? Não faço a mínima ideia.
Entro numa loja para fazer as fotos. A vendedora conduz-me à casa de banho e manda-me sentar na sanita. Perante o meu espanto, afirma: «Foi uma ideia do meu marido. Pela janela pode ver-se o jardim e faz um fundo muito bonito para os retratos».
Ela tenta então tirar a fotografia, mas não consegue. Diz-me: «Não consigo. Não sei o que se passa, tem que cá voltar amanhã, quando estiver o meu marido. Ele é que percebe destas coisas».
Protesto: «Eu precido das fotos hoje, não amanhã».
«Então vou ali ao lado falar com um vizinho, pode ser que ele consiga resolver isto».
Passado uns instantes, aparece um rapaz que me diz: «Eu não sei mexer nessa máquina. O melhor é mesmo voltar amanhã».
Pergunto pela vendedora, que entretanto desapareceu, e ele assegura-me que ela não vai tardar a aparecer.
Nesse momento, entra na loja uma senhora que nunca vi na vida, acompanhada pelo filho. Traz um bolo de chocolate para a dona da loja. Pergunta-me por ela e respondo-lhe que também estou à espera dela. Por fim, a mulher lá aparece e eu exigo-lhe imediatamente os cinco euros que lhe dei adiantados para as fotografias.
Afirma que não mos pode devolver. «Já registei na caixa e não há nada a fazer».
Impaciento-me e perante a sua passividade, fico fora de mim: pego no bolo de chocolate e espeto-lho na cara, como tantas vezes vi fazer nos filmes mudos.
O miúdo que assistiu a tudo, pega numa tesoura enorme e ameaça-me com ela. «Vai-te embora! Vai-te embora!», grita ele, acordando-me.
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Punta Cana,
Sonho
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
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