domingo, 6 de junho de 2010

Rua da Trindade (anteontem)


Foto tirada da janela da Editora Antígona com uma Canon Ixus 100 IS

sábado, 5 de junho de 2010

In memoriam




Eu estava no ginásio, a correr na passadeira quando, no meio de muitas outras, uma notícia me fez cambalear: «Morreu o escritor João Aguiar». Para desfazer qualquer dúvida que eu ainda pudesse ter, a sua foto apareceu no ecrã da televisão, enquanto o locutor afirmava que ele tinha 66 anos e morrera em consequência de um cancro.
Não era exactamente um amigo, mas trabalhei com ele durante algum tempo e ficámos com uma boa relação. Sempre que me via (a última vez que nos encontrámos fomos numa bomba de gasolina), falava-me muito bem. O João tinha um sorrido bonito, meigo e doce, era sempre um prazer conversar com ele.
Nunca li nenhum dos seus livros. Ele escrevia romances históricos e não é de todo o tipo de literatura que me interessa. Mas estou muito triste com o seu desaparecimento e queria deixar aqui expressa a minha saudade e consternação.
Não me escapou a ironia da situação: eu no ginásio a correr para, durante mais algum tempo, salvar a minha pele e o João, coitado, involuntariamente, veio-me lembrar que é tudo uma questão de tempo, que não há ginástica (nem física nem mental) que nos valha.
No seu «Livro dos mortos» (que continuo a ler, ao ritmo de duas, três páginas por dia), Elias Canetti chega a afirmar que não se devia dizer a palavra morte. Que ela não merece ser nomeada. Que é má demais para lhe darmos confiança. Durante uma boa parte da sua vida, o escritor búlgaro procurou dar-lhe luta, sabendo que era um esforço vão. Ninguém escapa à sua sorte; não vale a pena chamar-lhe azar.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Da paisagem


Todas as paisagens estão de passagem.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Habibiti


Come, dorme e cala-se. Não faz mais nada. A minha gata é um mistério tão absoluto que perante ela me sinto transparente.

Pura realidade

Tinha eu acabado de escrever o seguinte poeminha:
Um pato e uma pata
Mais os seus patinhos
Escrevem no lago
Como eu no meu devaneio.
Quando, de súbito, um pombo tomou o meu caderno por uma retrete. Será que não gostou do que eu escrevi?

Linha d'água

O céu está coberto de nuvens cinzentas que filtram a luz. Gosto desta luminosidade que faz sobressair as cores vivas. O lago tem hoje a mesma cor, a mesma densidade do céu e o momento é mágico porque está um silêncio incrível, e porque tudo o que vejo está exemplarmente iluminado: o puto que conduz o pai pela mão, o ciclista que chama o cão que se banha no lago, a menina que fuma indiferente a isto tudo ali ao fundo.
Há dias em que apetece bater palmas a tudo o que se vê.
Penso: «Cada vez que tiramos uma fotografia interrogamos o mundo. Mas uma fotografia não é resposta para nada. Por isso, continuamos.»
Na verdade há mil razões para querermos tirar fotografias e todas são válidas. Mas o mais importante não está na razão por que se tiram fotografias. A verdade da fotografia está na relação que tens com o mundo. A razão pela qual tiras fotografias e o modo como o fazes, definem-te como ser humano. No meu caso, pelo menos aos meus próprios olhos, tirar fotos não é nem um simples hobby, e muito menos um ofício, mas uma maneira de estar na vida. Nem mais nem menos. É como ser poeta, jardineiro ou filósofo.
Dito isto, tenho que acrescentar, porque acabo de o descobrir: «Uma boa caneta é tão importante como uma boa companhia».

Pura realidade

Uma rapariga passa por mim, agarrada ao telemóvel. Ouço-a dizer: «Perder a memória é como perder o pé.» Terei ouvido bem?

Lisboa hoje


David Boratav (escritor turco que vive em Paris): «C’est en changeant de cadre, qu’on cadre mieux».

Lisboa hoje

Lisboa hoje


A fotografia só tem um tema: a descoberta do mundo.

Paragem


Nem queria acreditar quando deparei com esta paragem de autocarro, na Golegã. É linda!

Treblinka em Lisboa


Digam lá que a ilusão não é perfeita?
Acabei há pouco de ver o tão aguardado final de Lost (Perdidos). Afinal, as teorias mais simplistas tinham razão: as personagens já estavam todas mortas. Ficámos a saber que em Hollywood até a morte tem direito a happy end: no fim, juntas-te com a pessoa amada, com os amigos e descobres que os maus não eram assim tão ruins e que a tua vida afinal valeu a pena. Os criadores de Lost não têm dúvidas: morrer é tão natural e estimulante como viver. Na sua visão, na morte temos direito aos nossos filmes pessoais, cada um pode viver os seus sonhos, prosseguir as suas aventuras. Ou seja, para os argumentistas norte-americanos, até a morte é uma fábrica de sonhos. Uma ocasião infinita de multiplicar o entretenimento. Sendo que a moral é: faças o que faças, escolhas o que escolheres, ninguém foge ao seu destino. Todos morremos, é apenas uma questão de tempo. 6 anos «perdidos»?

terça-feira, 1 de junho de 2010

Aforismo

Tudo desaparece. Até o que não existe..

Constatação

Quase tudo é mentira
Nesta ficção a que chamamos tempo.
Nem a nossa vida é definitiva.

Constatação

Quanto tempo perdido
Para chegar a estas palavras dolorosas:
O meu corpo já não é solução para nada.

Da solidão

Nada nos envelhece mais do que a solidão.

Da poesia

Ofício melancólico, este
De querer apagar fogos
Onde eles não existem.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Da morte

O actor, realizador e fotógrafo americano Dennis Hopper morreu no passado dia 29 na Califórnia, em consequência de um cancro da próstata, que se espalhou aos ossos. O lendário protagonista de Easy Rider tinha 74 anos. Ontem faleceu a artista plástica Louise Bourgeois, aos 99 anos. Era famosa pelas suas gigantescas aranhas em ferro que representavam a maternidade. Apetece citar o escritor alemão Schiller (1759-1805), que nos últimos dias da sua vida, quando já estava gravemente enfermo, declarou: «A morte não deve ser um mal, pois é algo tão generalizado».

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Confidência

De dia, procurando fundas correntes.
À noite, fugindo da sua inclemência.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Poema

Sozinho em cena.
Estou.
Agora.
Com esta vocação impura.
Ateia.
Sou um viajante
Que encontrou os seus limites.
Um cantor à espera
De se transformar em cisne.

Proposta para um novo ditado popular

Como a minha sorte, a minha morte.

Da morte


Durante muitos anos, Elias Canetti dedicou uma ou duas horas por dia a pensar e escrever sobre a sua pior inimiga: a morte. Como já aqui referi noutra ocasião, o Círculo de Leitores de Espanha editou recentemente um livro que reúne muitos dos seus apontamentos sobre o tema. A obra, intitulada, Libro de los muertos, reúne notas redigidas entre 1942 e 1988. Aproveitei a minha passagem por Maiorca para adquirir o livro, onde Canetti lembra que nem Deus tem o poder de salvar da morte um único homem. Por isso, na sua opinião, ela faz de nós escravos.
A certa altura, o escritor recorda, porém: «A maldição de ter que morrer deve ser transformada numa bênção: a de poder morrer quando viver se torna insuportável». Num outro momento, afirma que cada um de nós deveria poder ficar para sempre com a idade que escolhesse. É uma ideia que já me tinha atravessado a cabeça. Mas que idade escolheria eu? Já pensei muito no assunto para apenas concluir: a resposta não é fácil, cada idade tem as suas vantagens e inconvenientes. Por exemplo: sei que a maior parte das pessoas não compreenderá isto, mas prefiro ter 60 anos do que voltar a ter 20 e desaprender tudo o que aprendi entretanto.
O Libro de los muertos, que estou a ler muito devagarinho, suscita-me os mais diversos pensamentos e, claro, traz-me à memória muitos desaparecidos: nomeadamente os meus avós, o meu pai e o meu irmão que morreu prematuramente. Cheguei assim à conclusão que os «meus» mortos são-me preciosos, pois ajudam-me a viver. Não é por acaso que sonho tantas vezes com eles. Por isso, digo: as recordações são-nos tão necessárias como o oxigénio e a alimentação. Nenhum homem saberia o que fazer sem memória.

domingo, 23 de maio de 2010

Da literatura

A literatura é a arte de visitar criativamente a memória.

Do amor

Amamos porque queremos que nos amem. Como poderíamos nós amarmo-nos se ninguém nos amasse?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ao pé de casa

Porque se diz «tirar uma foto»? As fotos não se tiram, impõem-se a nós.

Linha de Água (novos poemas)

Enquanto mexo o café,

Os cheiros da terra

Invadem os meus pensamentos.

Ouço dizer : as águas cantam

Tristezas profundas

Numa ânsia de segredos

A que ninguém é alheio.

Esquecido do tempo,

Procuro ouvir no vento

Os rumores mais sábios.

***

Ouço o esvoaçar de um pássaro ao longe.

Ouço as flores, ouço as nuvens e pergunto :

«O verdadeiro amor é humilde ou efémero?».

***

O calor transforma o silêncio

Num jardim feminino.

Para exclusivo prazer

Da minha imaginação.

***

A poesia é uma voz insistente,

Partida ao meio.

De um lado está o tempo,

Do outro, a alma.

***

Sentado nesta esplanada

Sinto-me um marinheiro sem mar,

Procurando um novo mundo

Do outro lado da avenida.

***

Esperando que a sombra me ilumine,

Recordo histórias inverosímeis.

E penso: nas asas de uma borboleta

Está toda a poesia que precisamos.

***

Eis como vejo este momento:

Como um jardim

Que posso segurar numa mão.

A minha solidão é apenas

Uma parte da minha vasta obra.

E todos os meus poemas me perturbam

Mais do que saberia dizer.

***

Atrás do vidro, num café,

Escuto o silêncio das flores

Que a todo o momento

Espero ver incendiarem o meu caderno.

***

Ei-lo, o lago.

Um olho no rosto fulgurante

Da cidade.

Tudo nele é conforme ao meu desejo,

Menos o excesso de ruído.

De bom grado calaria

Estas aves, o rumor animal do vento

E esta voz interior que insiste:

«Num poema,

O que morre primeiro

São as palavras».

Sem palavras

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Pobre Portugal

Títulos dos diários de hoje:

Desemprego bate recorde com 592 mil sem trabalho

Desemprego: 105 mil portugueses ficaram sem trabalho num ano

Escutas desmentem Sócrates

Sócrates contrata 12 motoristas

Governo “não hesitará em manter as medidas até 2013 se for preciso”

Bancos denunciam subida das operações de lavagem de dinheiro

domingo, 16 de maio de 2010

LX Factory (open day)

sábado, 15 de maio de 2010

Poema


Em todos os lados,

E em lugar nenhum, vejo

O absurdo desta núvem,

Que sou eu próprio.

Maiorca


Maiorca




Miró


A semana passada, visitei os ateliers de Miró em Palma Maiorca. Não foi fácil dar com aquilo. Ninguém parecia saber onde ficava a Fundação Pilar I Joan Miró e só à terceira tentaiva conseguimos dar com o local. Valeu a pena a insistência. O museu abriga vários quadros e esculturas interessantes, assim como uma apaixonante exposição temporária intitulada «Contra El Público - Democracia» com instalações de vários artistas de vanguarda.
Gostei especialmente de visitar os ateliers de Miró. O primeiro foi construído em 1956 pelo arquitecto Josep Lluís Sert, amigo íntimo de Miró. Lá dentro, para além de várias obras sobre cavaletes, encontram-se muitos objectos pessoais. pedrinhas, conchas, figuras de barro artesanais, etc., para além de pincéis, brochas, trapos e um sem fim de tubos de pintura.
O segundo atelier, onde se chega através de um jardim com uma vista magnífica para o mar, encontra-se numa casa típica maiorquina do século XVII, construída em pedra. É um edíficio magnífico, cujo rés-do-chão está coberto por fantásticos grafittis de Miró. Alguns desenhos têm nomes: «Femme et oiseau», «Objets dans le calme», «Personnage dans la nuit»... No chão estão manchas de tinta, que evocam irresistivelmente os seus quadros.
Quem for a Maiorca não deve perder a visita.

terça-feira, 4 de maio de 2010

O ofício de viver

Releio O Ofício de Viver sem entusiasmo. Os problemas e os interesses de Cesare Pavese raramente coincidem com os meus. Mas como em todos os escritos íntimos, vou recolhendo pérolas de sabedoria, aqui e ali. Eis algumas:

«Agimos sempre no sentido do destino»

«A força da indiferença! – é ela que tem permitido às pedras permanecerem imutáveis durante milhões de anos.»

«Um bom começo seria modificar o nosso passado».

«Antes de nascer, estávamos todos mortos».

«Nunca esquecer que, por baixo de tudo, o homem está nu».

«Sofrer é sempre culpa nossa».

«… a vida é dor e o amor correspondido um analgésico, e quem desejaria acordar no meio de uma operação?»

«Se é verdade que nos habituamos à dor, como é que, com a passagem dos anos, sofremos cada vez mais?»

«E acima de tudo, ter presente que fazer poesia é como fazer amor: nunca se saberá se a nossa alegria é partilhada».

«A recompensa por termos sofrido tanto é, depois, morrermos como cães».

Da cultura


Não acredito numa cultura de escravos. A verdadeira cultura é a da revolta.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Life During Wartime


Todd Solondz é, para muitos, um cineasta irritante. A sua misantropia e o seu humor (muito negro) incomodam. Eu tenho por ele uma ternura especial. Mesmo se alguns afirmam que faltam aos seus argumentos, espessura e credibilidade, eu permito-me afirmar que ninguém inventa personagens tão ludicamente disfuncionais. São quase caricaturas, mas é nas caricaturas que está, muitas vezes, a verdade escondida das pessoas. Desde Happiness (1998) que penso assim e Life During Wartime (uma espécie de sequela de Happiness), que ontem vi no Indie só veio confirmar essa impressão.
O sentido de derrisão de Solondz é completamente judeu. Nenhum outro povo está tão obcecado pela questão da culpa e do perdão, que é o grande tema deste filme sobre um pai pedófilo (um «monstro» que sabe que o é) e uma família inteira marcada por esse estigma. Entre as muitas questões morais e existenciais que o filme levanta, retive sobretudo esta: «Vale mais perdoar uma ofensa que não conseguimos esquecer ou esquecer simplesmente essa ofensa em vez de a perdoar?» A maior parte das pessoas nem sequer compreende a questão. Não é para elas que este filme foi feito.

domingo, 2 de maio de 2010

A feira do lixo

A feira do livro está cada vez mais feira. Fui lá hoje e parecia que estava num centro comercial em dia de saldos. Havia gente por todo o lado e imensas criancinhas. Este ano multiplicaram as atracções para elas, os consumidores de amanhã.
Os livros de poesia, ninguém lhes pega, estão em saldo (uma excelente antologia do Juan Luís Panero vale 2,50 euros na Relógio d’Água). Os livros da treta, em contrapartida, estão em alta, tomaram conta de quase todas as barraquinhas.
Contei pelo menos 30 escritores a dar autógrafos. O marketing tomou conta da feira, acho que foi a última vez que lá pus os pés!

1º de Maio

Uma aparelhagem debitava, aos berros, Bob Marley e Zeca Afonso. Os precários e a malta dos recibos verdes marcaram encontro no Camões. Não apareceu quase ninguém. Estavam lá os organizadores, os seus amigos e alguns turistas tresmalhados a tentarem perceber o que se passava. Os revoltados ficaram todos a dormir. Andaram nos copos até às tantas, não conseguiram levantar-se a horas para ir à manif, que estava marcada para a uma. Mas valeu a pena passar por lá: alguns cartazes conseguiram arrancar-me um sorriso.

1º de Maio (continuação)





1º de Maio (continuação)





1º de Maio





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