segunda-feira, 21 de março de 2011

Muros de Abrigo




No Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, uma exposição retrospectiva de Ana Rocha, intitulada «Muros de Abrigo» evidencia uma clara obsessão por janelas, corredores e espelhos, assim como por mesas e cadeiras.
Em algumas obras parece sugerir que uma casa é, de alguma forma, composta por micro-paisagens e que o que se passa dentro de uma habitação é o espelho do que se passa fora dela. Se pensarmos bem, uma casa, ou uma propriedade, não é menos misteriosa do que uma floresta ou uma viagem de comboio, por exemplo. Até porque seja onde for que estivermos o que vemos condiciona o que sentimos e pensamos.
O que a exposição de Ana Rocha nos vem lembrar é que ser artista consiste, essencialmente, em reflectir o mundo, reflectindo sobre ele.
Do mesmo modo, através dos outros vemo-nos a nós próprios, pois no nosso rosto espreitam outros. Quando me vejo ao espelho, não vislumbro apenas os meus pais e avós, mas também os meus irmãos e os meus filhos. O que me leva a acrescentar: talvez o nosso rosto seja, de uma maneira misteriosa, uma «habitação» onde «residem» mais pessoas do que pensamos.
Tudo na obra de Ana Rocha remete para a memória, não somente de momentos passados, mas também de momentos futuros, pois como qualquer artista, ela deseja ardentemente que as suas «visões» se multipliquem em quem as vê. Mais do que sentimentos, estão aqui em jogo, pelo menos aos meus olhos, construções mentais. Não é à beleza que estas obras aspiram, mas à reflexão e disseminação.

Árvores



Que seria de mim
Se parasse de sonhar?

sábado, 19 de março de 2011

Dia do pai


Algumas pessoas admiram-se de eu ter sido pai aos 60 anos (61, para ser mais exacto). A esses, limito-me a responder: «Nunca estive tão bem preparado».

quarta-feira, 16 de março de 2011

Pura realidade

Nunca tive uma luta comigo mesmo, da qual tenha saído vencedor.

Novo provérbio

Morrer não custa. Custa é não saber morrer.

Do passado e do futuro


Quando era miúdo adorava ficção científica. Sonhava com o futuro e imaginava-o maravilhoso. Hoje, o passado parece-me bem mais apaixonante. É com o passado que sonho agora. Não com o meu, mas com o dos meus avós e dos avós deles. Se me dessem a escolher preferia viajar pelo passado do que pelo futuro, porque sei agora que o futuro não será tão maravilhoso como eu imaginava. Infelizmente, o homem não tem emenda e a única solução é o seu desaparecimento.

Dan Bejar/Nicolas Jaar



O nome da banda (Destroyer) e o título do disco (Kaputt) dão a ideia de que vamos ouvir, no melhor dos casos, um rock abrasivo ou mesmo apocalíptico. Nada de mais errado. O disco dos Destroyer, ou melhor, de Dan Bejar (na foto de cima) é uma delícia pop, com grandes canções melódicas e luminosas, que foram procurar inspiração nos anos 80. É, em todos os casos, uma das minhas mais felizes descobertas dos dois últimos meses, a par de Space Is Only Noise, de Nicolas Jaar (na segunda foto). Com os seus ritmos «downtempo» e constantes surpresas sónicas, o álbum deste nova-iorquino de origem chilena (que confessa gostar de fado e morna cabo-verdiana), mergulha-nos numa atmosfera perturbadora e hipnótica propicia ao sonho e ao devaneio, a que apetece voltar amiúde. Custa a crer que o rapaz tem apenas vinte e um anos.

terça-feira, 15 de março de 2011

Don DeLillo


Ponto Ómega, o novo livro de Don DeLillo abre (e fecha) com reflexões suscitadas por uma instalação de Douglas Gordon intitulada 24 Hour Psycho. O escritor viu-a no Moma de Nova Iorque, no Verão de 2006, e descreve-a com minúcia.
Tal como o título indica, a performance consistia em projectar o famoso filme de Alfred Hitchcock em câmara lenta, por forma à projecção durar exactamente 24 horas.
Absolutamente fascinado pela ideia do artista plástico, e pelos pensamentos que ela lhe suscita, DeLillo escreve: «É preciso muita atenção para vermos o que se passa na nossa frente. É preciso trabalho, um esforço dedicado, para vermos aquilo que os nossos olhos vão captando». Uma reflexão que subscrevo inteiramente. Mas a melhor definição do trabalho do fotógrafo, tal como eu o entendo, encontra-se já no final deste romance soberbo, na frase que diz: «Ver a essência do que existe e depois prepararmo-nos para o ver desaparecer.»
Pelo meio, há a história de um cineasta que quer rodar um documentário sobre um velho intelectual que colaborou com o Pentágono. Tudo se passa algures no deserto, entre estes dois homens e uma mulher que desaparece misteriosamente.
O essencial aqui, porém, não é a história, mas assistir a um pensamento em acto. Ver como as palavras, pouco a pouco, se vão convertendo em estados de espírito. Porque, como diz DeLillo, «a verdadeira vida tem lugar quando estamos sozinhos, a meditar, a sentir, perdidos nas nossas memórias, a vasculhar sonhadoramente no nosso inconsciente, os momentos submicroscópios».
Se é bem verdade, que eu leio para me imaginar a escrever, nenhum outro autor me dá esta sensação de, em cada frase, procurar ideias tão radicais e profundas, expostas com palavras incandescentes como carvão em brasa. Adoro DeLillo porque, a meu ver, ele escreve para além dos habituais limites do pensamento, procurando ver e sentir coisas que passam despercebidas aos demais.
Lendo-o, sou mais intensamente aquilo que sou. E, como ele próprio diz, isso é ainda mais estranho do que sonhar.

Japão

Assisto à catástrofe japonesa com uma tristeza infinita. As imagens que vejo na televisão trazem-me à memória um pensamento de Jacques Derrida: «Le monde après la fin du monde. Car chaque fois, et chaque fois singulièrement, chaque fois irremplaçablement, chaque fois infiniment, la mort n'est rien de moins qu'une fin du monde.»

domingo, 13 de março de 2011

Habibti

Um país à rasca









Inspirados numa canção dos Deolinda, e no exemplo da Tunísia e do Egipto, quatro jovens apelaram no Facebook a manifestações contra a política do governo. O movimento designado «Geração à rasca» reuniu pelo país todo mais de 300 mil manifestantes. Não apareceram só jovens, vi gente de todas as idades e também monárquicos, nacionalistas de extrema-direita, anarcas e os oportunistas do costume. Muito polícia à paisana também e muitos jornalistas, que são cada vez mais uma espécie de cães de guarda do sistema.
Foi, em todo o caso, a primeira grande manifestação espontânea que se organizou em Portugal e deve ter dado que pensar a alguns políticos profissionais. Toda a gente espera agora que esta onda de protesto não se fique por aqui, mas não estou nada optimista. Já ninguém parece lembrar-se do que são verdadeiramente os ideais da democracia, nem à direita nem à esquerda. Quanto aos jovens, estão completamente baralhados, só sabem que estão fodidos e não entendem porque não hão-de ter, pelo menos, as mesmas oportunidades que os seus pais.

terça-feira, 8 de março de 2011

Natacha Atlas


Nascida em Bruxelas, filha de uma inglesa (convertida ao islamismo) e de um egípcio (nascido em Jerusalém), Natacha Atlas é, há já alguns anos, uma das grandes divas da «world music». Sendo há muito seu fã, só agora tive ocasião de ouvir Mounqaliba, o disco que lançou o ano passado. Gravado em Londres com a colaboração de um número generoso de músicos árabes e ocidentais, com destaque para o violinista Samy Bishai e a pianista Zoe Rhaman, Mounqaliba (que quer dizer qualquer coisa como «estar do avesso, ou de pernas para o ar») é, infelizmente, desigual. Há temas que adoro, ao lado de outros que, francamente, só «empatam». Entre as canções cuja audição recomendo estão duas «covers»: «Riverman», de Nick Drake e «La nuit est sur la ville», de Françoise Hardy, ambos deliciosamente jazzy. Mas as composições mais conseguidas, aos meus ouvidos, pelo menos, são mais classizantes e orientalizadas. Refiro-me, nomeadamente a «Makaan» e «Taalet», que quase me fazem levitar.

Da morte

Não tenhamos medo de desaparecer. O mundo inteiro não tardará a seguir-nos o exemplo.

domingo, 6 de março de 2011

Praça do Comércio (ontem)



Auto-retrato com eléctrico



quarta-feira, 2 de março de 2011

Da morte

Na verdade não precisamos de pensar na morte: ela pensa por nós.

A sombra da morte


«Ninguém tem mais dificuldade em escrever que o escritor», dizia Antoine Blondin. Lionel Duroy, outro escrevinhador, afirmava: «Não escrever mergulha-me num estado de culpabilidade, como se perdesse o direito de respirar». Em contrapartida, Salinger afirmava: «Não ter que publicar, traz uma paz incrível. Adoro escrever, mas só para mim, para o meu próprio prazer».
Também eu adoro escrever para mim próprio. No fundo, escrevo para duas pessoas: para mim, claro, e para esse leitor ideal capaz de me ler melhor do que me leio a mim próprio.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Carnaval


Máscara e chapéu custaram um euro. A máquina foi bastante mais cara.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Auto-retrato


«Não se recordam os dias, recordam-se os instantes», dizia Cesare Pavese.

O génio do mal


O pilha-galinhas afinal é um génio. Quem diria?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Habibti


«Bem pode perguntar-se ao animal: porque não me falas da tua felicidade e só olhas para mim? O animal quer responder e dizer: porque estou sempre a esquecer-me do que queria dizer – mas esquece-se mesmo desta resposta e cala-se.»
Nossack in Der Untergang (citado por Sebald)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Solidão




Feira da Ladra





Feira da Ladra





Feira da Ladra





Passeando pela Baixa





terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Anna Calvi


O que primeiro me chamou a atenção foi a sua beleza animal e o charme quase venenoso que destila. Magra, pálida, esta jovem inglesa, de origem italiana, parecia ter nascido para atormentar. Mas o que mais impressiona, finalmente, acaba por ser o seu talento. Como guitarrista, cantora e arranjadora. As suas canções, voluptuosas e contundentes, podem soar, no entanto, por vezes cruas, quase brutais, pois o seu rock é insidioso e tóxico como poucos. Não sei porque a comparam a PJ Harvey e Jeff Buckley. Não tem nada a ver. Anna Calvi é talvez menos visceral, mas é também mais abrangente do que eles. Na sua música ouvem-se ecos de Ravel e Django Reinhardt, de Jimi Hendrix e Ravi Shankar, a par de Bowie, Cocteau Twins e Rolling Stones. Para já não falar de Edith Piaf e Nina Simone, que ela cita como exemplos. Não faço ideia do que ela fará no futuro, mas para já, este seu primeiro disco, pelo menos aos meus ouvidos, soa extremo e apaixonante. 2011 começou bem.

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