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quinta-feira, 6 de novembro de 2014
sábado, 9 de janeiro de 2010
Ficção rápida (com foto)
O primeiro disse: «Não quero que me compreendam, pois isso não é possível. Quero que me amem».
O segundo riu e afirmou: «Não quero que me amem, pois o amor é uma quimera. Prefiro que me compreendam».
O terceiro gracejou: «Pois eu quero que se lixem todos. Não compreendo ninguém, mas amo algumas pessoas».
O quarto optou por não dizer nada, pensando: «Que grandes parvos!»
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terça-feira, 11 de agosto de 2009
Ficção rápida
Um dia, tocou o telefone e, quando atendi, uma voz que não conhecia disse-me: «Tu não me conheces, mas sei tudo sobre ti. Vivi três anos com a tua ex-mulher, que agora me trocou por outro. Quero ser teu amigo».
Como sou naturalmente curioso, e necessito de material para as minhas ficções, acedi a encontrar-me com o meu interlocutor.
Era mais baixo do que eu, mas mais encorpado. Nos seus olhos vi imediatamente a intensidade com que vivia e percebi o que atraiu a minha ex.
Passámos a noite nos copos e fiquei a conhecer a sua história nos mais ínfimos detalhes. Contudo, só fixei uma frase: «A tua mulher não gostava do teu sexo».
Mais tarde, fiquei com uma namorada dele, quando ele foi viver para o estrangeiro. Casei-me com ela, mas arrependi-me.
Como sou naturalmente curioso, e necessito de material para as minhas ficções, acedi a encontrar-me com o meu interlocutor.
Era mais baixo do que eu, mas mais encorpado. Nos seus olhos vi imediatamente a intensidade com que vivia e percebi o que atraiu a minha ex.
Passámos a noite nos copos e fiquei a conhecer a sua história nos mais ínfimos detalhes. Contudo, só fixei uma frase: «A tua mulher não gostava do teu sexo».
Mais tarde, fiquei com uma namorada dele, quando ele foi viver para o estrangeiro. Casei-me com ela, mas arrependi-me.
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Ficção rápida
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Ficção rápida
Um homem ia devagar, rua abaixo, quando, de repente, viu uma folha de papel voar até ao meio da rua. Veio um carro e passou-lhe por cima. Percebendo que tinha alguma coisa escrita, o homem foi apanhá-la para a ler. Dizia: “A poesia está obsoleta: o que move as pessoas já não me comove”. Com um encolher de ombros, o homem largou o papel com uma careta de repulsa.
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Ficção rápida
quarta-feira, 13 de maio de 2009
A próxima história
– Por onde queres que comece?
– Começa por onde quiseres, tanto faz.
– O difícil é começar...
– Tabucchi aconselha a começar por um facto.
– Quem é esse?
– É um escritor italiano. Viveu em Portugal, até escreveu um livro em português.
– Então está bem, comecemos por um facto. A morte do meu pai, por exemplo. Não só é um facto, como ainda por cima é um facto consumado.
– Isso não, bolas. Não quero que isto degenere numa sessão de psicanálise. Não era o que eu tinha em mente.
– Se é assim, calo-me já.
– Não sejas chata Sílvia. Faz uma nova tentativa, vá lá. Procura pensar em coisas engraçadas. De certeza que te já te aconteceram histórias giras.
– Histórias giras? Estás a gozar comigo? Foi para isto que vieste cá a casa? Se é assim, se é isso que tu queres, o melhor é ires já embora. Não penses que vou em todas as tuas conversas, não estou assim tão desesperada.
– Que se passa contigo? Não me ajudas em nada, não dizes nada de jeito...
– Já te disse Mário que não gosto desta sensação de te estares a aproveitar de mim para as tuas historietas. Sinto-me como se tivesse embarcado numa aventura que não me diz respeito.
– Tem calma e ouve o que te digo. Temos umas horas pela frente, não vais querer estragá-las, pois não? Lá fora está um calor horrível, aposto que te ias sentir mal sabendo-me por aí a caminhar aí pelas ruas, zangado contigo.
– Que propões então?
– Vamos esquecer que o tempo existe. Vamos fazer como se estivéssemos a sonhar. Vamos dizer tudo o que nos passe pela cabeça.
– O que é que tu queres exactamente? Onde é que queres chegar?
– O que eu quero é perceber se podemos chegar a algum lado.
– Aqui sentados?
– Aqui sentados, sim.
– Dispara.
– A vida somos nós que a fazemos. A responsabilidade é nossa. A história é nossa. Tudo o que dissermos pode virar-se contra nós.
– Que queres dizer com isso?
– Não é caso para teres medo.
– Eu não tenho medo.
– Ai isso é que tens. Basta olhar para os teus olhos.
– Detesto esta sensação de saber menos do que tu.
– A ignorância tem um lado bom. Aliás, tem vários lados bons.
– Sim? Quais?
– Se não percebes isto, tenho pena de ti.
– Eu, pelo contrário, vejo a ignorância como uma ameaça muito grande. Faz-me medo saber que há tantas coisas que não sei.
– A isso não se chama ignorância, mas sim paranóia.
– Vivemos num mundo em que quanto mais informação possuímos, mais fortes somos.
– Ilusão. Pura ilusão.
– Então partilha comigo o que sabes.
– Mas eu não sei nada...
– Mesmo esse nada eu gostaria de saber. Tudo o que esqueci me angustia. Tudo se esvai e não está certo. Devíamos ser um repositório de tudo o que vivemos, aprendemos, ouvimos, dizemos...
– Nós somos isso tudo. Está tudo dentro de nós.
– Sim, mas oculto por coisas sem importância nenhuma. Escondido atrás de preocupações tão risíveis como saber o que vamos fazer para o jantar ou o que vestir amanhã. A minha imperfeição dá cabo de mim. Detesto-me, se queres saber.
– Não quero saber.
– Não percebes nada do que estou para aqui a dizer, pois não?
– Acho que apenas que te estás a fazer interessante. Que te queres sentir uma personagem de romance... ou a actriz de um filme que não existe.
– E tu?
– E eu o quê?
– Estás-te nas tintas para o que eu estou a sentir.
– Que estás a sentir?
– Queres histórias giras? Então vou-te contar uma que ainda não aconteceu.
– Uma que ainda não aconteceu? Óptimo. Sabia que acabarias por me surpreender.
– Vai ser assim tal e qual, quase que aposto. Um dia vais acordar e quando estiveres a fazer a barba na casa de banho, eu vou querer entrar porque estou aflita para fazer chichi. Nessa altura, vais olhar-me pelo canto do olho, ali sentada na sanita a teu lado e, de repente... vais perceber que já não me amas.
– Que estás para aí a querer dizer?...
– Deixa-me falar, não me interrompas. Querias que eu falasse, agora aguenta. Não era para dizer tudo o que nos passasse pela cabeça?... Vais olhar para mim, para o meu corpo nu... e vais pensar: «Que vi eu nesta gaja? Que estou eu a fazer aqui?» Assim, de um dia para o outro, vais perceber que já não gostas de mim, que se calhar nunca gostaste e vais querer partir para outra.
– ...
– Não dizes nada? Perdeste o pio?... Em que estás a pensar?
– Estou a pensar que estás a contar o filme todo ao contrário. É a ti que vai acontecer isso, não a mim, se é que não aconteceu já. Provavelmente até foi esta manhã, quando estavas a tomar duche e eu entrei na casa de banho para fazer a barba. Através das cortinas do chuveiro, viste-me urinar e pensaste: «Que está este gajo a fazer em minha casa? Porque se comporta ele deste modo? Fui eu que lhe dei autorização para isso? Onde tinha eu a cabeça? Como pude eu alguma vez pensar que gostava dele?»
– Querias uma história meu querido? Pois aí a tens... A menos que prefiras a da mulher que vai fazer um aborto amanhã de manhã?
– Começa por onde quiseres, tanto faz.
– O difícil é começar...
– Tabucchi aconselha a começar por um facto.
– Quem é esse?
– É um escritor italiano. Viveu em Portugal, até escreveu um livro em português.
– Então está bem, comecemos por um facto. A morte do meu pai, por exemplo. Não só é um facto, como ainda por cima é um facto consumado.
– Isso não, bolas. Não quero que isto degenere numa sessão de psicanálise. Não era o que eu tinha em mente.
– Se é assim, calo-me já.
– Não sejas chata Sílvia. Faz uma nova tentativa, vá lá. Procura pensar em coisas engraçadas. De certeza que te já te aconteceram histórias giras.
– Histórias giras? Estás a gozar comigo? Foi para isto que vieste cá a casa? Se é assim, se é isso que tu queres, o melhor é ires já embora. Não penses que vou em todas as tuas conversas, não estou assim tão desesperada.
– Que se passa contigo? Não me ajudas em nada, não dizes nada de jeito...
– Já te disse Mário que não gosto desta sensação de te estares a aproveitar de mim para as tuas historietas. Sinto-me como se tivesse embarcado numa aventura que não me diz respeito.
– Tem calma e ouve o que te digo. Temos umas horas pela frente, não vais querer estragá-las, pois não? Lá fora está um calor horrível, aposto que te ias sentir mal sabendo-me por aí a caminhar aí pelas ruas, zangado contigo.
– Que propões então?
– Vamos esquecer que o tempo existe. Vamos fazer como se estivéssemos a sonhar. Vamos dizer tudo o que nos passe pela cabeça.
– O que é que tu queres exactamente? Onde é que queres chegar?
– O que eu quero é perceber se podemos chegar a algum lado.
– Aqui sentados?
– Aqui sentados, sim.
– Dispara.
– A vida somos nós que a fazemos. A responsabilidade é nossa. A história é nossa. Tudo o que dissermos pode virar-se contra nós.
– Que queres dizer com isso?
– Não é caso para teres medo.
– Eu não tenho medo.
– Ai isso é que tens. Basta olhar para os teus olhos.
– Detesto esta sensação de saber menos do que tu.
– A ignorância tem um lado bom. Aliás, tem vários lados bons.
– Sim? Quais?
– Se não percebes isto, tenho pena de ti.
– Eu, pelo contrário, vejo a ignorância como uma ameaça muito grande. Faz-me medo saber que há tantas coisas que não sei.
– A isso não se chama ignorância, mas sim paranóia.
– Vivemos num mundo em que quanto mais informação possuímos, mais fortes somos.
– Ilusão. Pura ilusão.
– Então partilha comigo o que sabes.
– Mas eu não sei nada...
– Mesmo esse nada eu gostaria de saber. Tudo o que esqueci me angustia. Tudo se esvai e não está certo. Devíamos ser um repositório de tudo o que vivemos, aprendemos, ouvimos, dizemos...
– Nós somos isso tudo. Está tudo dentro de nós.
– Sim, mas oculto por coisas sem importância nenhuma. Escondido atrás de preocupações tão risíveis como saber o que vamos fazer para o jantar ou o que vestir amanhã. A minha imperfeição dá cabo de mim. Detesto-me, se queres saber.
– Não quero saber.
– Não percebes nada do que estou para aqui a dizer, pois não?
– Acho que apenas que te estás a fazer interessante. Que te queres sentir uma personagem de romance... ou a actriz de um filme que não existe.
– E tu?
– E eu o quê?
– Estás-te nas tintas para o que eu estou a sentir.
– Que estás a sentir?
– Queres histórias giras? Então vou-te contar uma que ainda não aconteceu.
– Uma que ainda não aconteceu? Óptimo. Sabia que acabarias por me surpreender.
– Vai ser assim tal e qual, quase que aposto. Um dia vais acordar e quando estiveres a fazer a barba na casa de banho, eu vou querer entrar porque estou aflita para fazer chichi. Nessa altura, vais olhar-me pelo canto do olho, ali sentada na sanita a teu lado e, de repente... vais perceber que já não me amas.
– Que estás para aí a querer dizer?...
– Deixa-me falar, não me interrompas. Querias que eu falasse, agora aguenta. Não era para dizer tudo o que nos passasse pela cabeça?... Vais olhar para mim, para o meu corpo nu... e vais pensar: «Que vi eu nesta gaja? Que estou eu a fazer aqui?» Assim, de um dia para o outro, vais perceber que já não gostas de mim, que se calhar nunca gostaste e vais querer partir para outra.
– ...
– Não dizes nada? Perdeste o pio?... Em que estás a pensar?
– Estou a pensar que estás a contar o filme todo ao contrário. É a ti que vai acontecer isso, não a mim, se é que não aconteceu já. Provavelmente até foi esta manhã, quando estavas a tomar duche e eu entrei na casa de banho para fazer a barba. Através das cortinas do chuveiro, viste-me urinar e pensaste: «Que está este gajo a fazer em minha casa? Porque se comporta ele deste modo? Fui eu que lhe dei autorização para isso? Onde tinha eu a cabeça? Como pude eu alguma vez pensar que gostava dele?»
– Querias uma história meu querido? Pois aí a tens... A menos que prefiras a da mulher que vai fazer um aborto amanhã de manhã?
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Ficção rápida
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Ficção rápida
ELA: Afinal do que é que estás à espera?»
ELE: Isso gostava eu de saber.
ELA: Não respondas assim. Não podes responder assim. Seria demasiado fácil.
ELE: Toda a vida procurei soluções de facilidade.
ELA: Soluções de facilidade! Curiosa expressão.
ELE: É como «curiosa expressão». Não achas curiosa a expressão «curiosa expressão»?
ELA: Lá estás tu a brincar com as palavras.
ELE: Mais uma expressão engraçada: «brincar com as palavras.»
ELA: Estás a fugir à questão.
ELE: Estás a ver? É impossível não brincar com as palavras. Pensa bem no que acabaste de dizer.
ELA: O quê?
ELE: Fugir à questão. Brincar com as palavras. Soluções de facilidade. Com tantas expressões sugestivas, como farão os outros para não serem poetas? ... Ou escritores?
ELA: Brincar com soluções de facilidade, colocar questões mas a fugir das respostas... Foi isto que andaste a fazer toda a vida.
ELE: E tu? Como tens gasto a tua?
ELA: Tive três filhos. Vou deixar a minha marca no mundo.
ELE: Uau!
ELA: Achas pouco?
ELE: Não. Três filhos é obra, tenho que concordar.
ELA: É melhor do que os dois ou três livros que escreveste e quase ninguém leu.
ELE: Que sabes tu disso?
ELA: Sei tanto como isto: um filho vale mais do que qualquer livro.
ELE: Não escrevi dois ou três livros, escrevi pelo menos quatro.
ELA: Pelo menos? Nem sequer sabes exactamente quantos livros escreveste?
ELE: Sete, oito, vinte, que interessa? No fundo não escrevemos senão um único livro, toda a vida.
ELA: Mais me ajudas.
ELE: Como assim?
ELA: Uma vida inteira para escrever um único livro. Não achas um desperdício?
ELE: Afinal também jogas com as palavras!
ELE: Isso gostava eu de saber.
ELA: Não respondas assim. Não podes responder assim. Seria demasiado fácil.
ELE: Toda a vida procurei soluções de facilidade.
ELA: Soluções de facilidade! Curiosa expressão.
ELE: É como «curiosa expressão». Não achas curiosa a expressão «curiosa expressão»?
ELA: Lá estás tu a brincar com as palavras.
ELE: Mais uma expressão engraçada: «brincar com as palavras.»
ELA: Estás a fugir à questão.
ELE: Estás a ver? É impossível não brincar com as palavras. Pensa bem no que acabaste de dizer.
ELA: O quê?
ELE: Fugir à questão. Brincar com as palavras. Soluções de facilidade. Com tantas expressões sugestivas, como farão os outros para não serem poetas? ... Ou escritores?
ELA: Brincar com soluções de facilidade, colocar questões mas a fugir das respostas... Foi isto que andaste a fazer toda a vida.
ELE: E tu? Como tens gasto a tua?
ELA: Tive três filhos. Vou deixar a minha marca no mundo.
ELE: Uau!
ELA: Achas pouco?
ELE: Não. Três filhos é obra, tenho que concordar.
ELA: É melhor do que os dois ou três livros que escreveste e quase ninguém leu.
ELE: Que sabes tu disso?
ELA: Sei tanto como isto: um filho vale mais do que qualquer livro.
ELE: Não escrevi dois ou três livros, escrevi pelo menos quatro.
ELA: Pelo menos? Nem sequer sabes exactamente quantos livros escreveste?
ELE: Sete, oito, vinte, que interessa? No fundo não escrevemos senão um único livro, toda a vida.
ELA: Mais me ajudas.
ELE: Como assim?
ELA: Uma vida inteira para escrever um único livro. Não achas um desperdício?
ELE: Afinal também jogas com as palavras!
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quarta-feira, 1 de abril de 2009
Ficção rápida
«Trata-me mal, bate-me e insulta-me, é assim que eu gosto», pediu-me ela.
Devo ter ficado com cara de parvo. Depois, quando percebi que estava a falar a sério, disse:
«Desculpa, não consigo.»
«Então, nada feito, só consigo ter prazer se sofrer um bocado.»
«Queres que te dê uma estalada? É isso?»
«Na cara, não. No rabo, por favor.»
Ela pôs-se a jeito e eu soltei uma gargalhada.
«És doida.»
«Talvez. Não sei. É assim.»
«Que nomes queres que te chame? Puta, cabra, coisas assim?»
«O que tu quiseres. Quanto pior melhor.»
Voltei a rir e ela pediu, com um ar muito sério:
«Faças o que fizeres, por favor, não rias.»
Estava agora toda nua e era estupenda. Muito branca, pequena, parecia uma figura de procelana.
«Pareces tão frágil», disse eu. «Como posso bater-te?»
«Não sou tão frágil como isso... Experimenta.»
Aproximei-me para examinar o sexo dela. Estava fascinado pela ausência de pêlos púbicos.
«Porque é que te rapas?», perguntei.
Ela impacientou-se.
«Assim não vamos a lado nenhum.»
Disse isto e afastou-se, indo deitar-se sobre a cama. Fui atrás dela e ajoelhei-me à sua beira.
«Deixa-me beijar-te», pedi.
«Depois. Mais tarde. Primeiro tens que fazer o que te pedi.»
De repente, senti-me ridículo, ali de joelhos no chão e levantei-me, para voltar a sentir alguma dignidade.
«Não esperava por uma coisa destas», murmurei, lembrando-me de súbito que ela era casada com um amigo meu.
«Que esperavas, então?»
«Não sei. Tudo menos isto.»
«Também eu nunca imaginei que fosses tão mariquinhas», asseverou ela.
Disse isto, abrindo uma gaveta da mesa de cabeceira de onde tirou um pequeno chicote que me estendeu.
«Toma. Usa-o bem.»
Antes que eu pudesse reagir, tirou da mesma gaveta umas algemas.
«Queres pôr-me isto?»
Larguei o chicote em cima da cama para pegar nas algemas. Estava fascinado com a situação. Assustado e fascinado. Experimentei as chaves e funcionavam na perfeição. Ela juntou os pulsos atrás das costas e ordenou-me: «Fecha-as».
Apertei-lhe as algemas e ela acrescentou:
«Agora, podes fazer-me o que quiseres.»
Eu não me conseguia mexer.
«Dá-me com o chicote, vá lá.»
Como que a medo, obedeci. Dei-lhe uma chicotada no rabo, bem sonora.
«Com mais força», pediu ela.
Passou-me uma coisa má pela cabeça e golpei-a com mais força. Zás! Zás!
«É assim que queres, minha puta de merda?», rosnei.
«Sim, sim», gemeu ela.
Voltei a bater, duas, três, quatro vezes. Cada vez com mais força. As marcas nas nádegas dela, os gemidos langorosos, excitaram-me, confesso e, não me contendo, deitei-me sobre ela para a beijar. A filha da mãe mordeu-me o lábio com força, fazendo-me berrar com a dor. Senti o sangue sujar-me a boca, depois vi o sangue nas minhas mãos.
«És mesmo louca, minha filha da puta.»
Disse isto e saí porta fora, deixando-a ali, nua, algemada, louca.
«Amanhã», prometi a mim mesmo, «vou esquecer esta história toda».
PS - A ilustração é de um artista da Geórgia chamado Juul Kraiger.
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Masoquismo
terça-feira, 24 de março de 2009
Ficção rápida
Ele tem 90 anos. Ela anda lá perto.
ELE : Estou cansado de viver, de acordar todos os dias, de fazer a barba e tomar o pequeno-almoço. Todos os dias acordo com um grande ardor nos olhos e no ventre. Não saio de casa e é como se andasse perdido. Estava na hora de haver um milagre: de acordar uma manhã e ter 20 anos. E perceber que a minha velhice não passara de um pesadelo. Poderia então empreender a tal viagem, sempre adiada, ao paraíso.
ELA : O sabor desta maçã, esta sombra que entra pela casa e o canto do passaro no pátio... tudo isto me dá o gosto de viver. Esta flor que respiro, este pão que fiz com estas mãos... Amar isto é amar-me. E amar-te.
ELE : Quando falas assim, no meu coração acende-se uma luz. Tudo o que dizes é como seiva para o meu tronco ressequido. Contigo sinto-me seguro e leve. Calmo e denso. Com raízes profundas e horizontes largos. Amo-te mais do que a mim mesmo.
ELA : Bom-dia meu amor.
ELE : Respiro agora ao ritmo do teu pensamento. Vejo o caminho para te merecer. Aqui, nesta pequena casa de pele e osso, volto a sentir uma sede feliz de vida. Bom-dia minha querida!
Beijam-se e o pano cai.
ELE : Estou cansado de viver, de acordar todos os dias, de fazer a barba e tomar o pequeno-almoço. Todos os dias acordo com um grande ardor nos olhos e no ventre. Não saio de casa e é como se andasse perdido. Estava na hora de haver um milagre: de acordar uma manhã e ter 20 anos. E perceber que a minha velhice não passara de um pesadelo. Poderia então empreender a tal viagem, sempre adiada, ao paraíso.
ELA : O sabor desta maçã, esta sombra que entra pela casa e o canto do passaro no pátio... tudo isto me dá o gosto de viver. Esta flor que respiro, este pão que fiz com estas mãos... Amar isto é amar-me. E amar-te.
ELE : Quando falas assim, no meu coração acende-se uma luz. Tudo o que dizes é como seiva para o meu tronco ressequido. Contigo sinto-me seguro e leve. Calmo e denso. Com raízes profundas e horizontes largos. Amo-te mais do que a mim mesmo.
ELA : Bom-dia meu amor.
ELE : Respiro agora ao ritmo do teu pensamento. Vejo o caminho para te merecer. Aqui, nesta pequena casa de pele e osso, volto a sentir uma sede feliz de vida. Bom-dia minha querida!
Beijam-se e o pano cai.
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quarta-feira, 11 de março de 2009
Ficção rápida
Passei a noite a escrever textos onde brincava com o fogo. Quando acordei, tive que os apagar a todos.
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Ficção rápida
quinta-feira, 5 de março de 2009
Ficção rápida
Ok, finalmente sou publicado. Um editor conseguiu perceber o alcance do meu trabalho e entusiasmou-se. Depois, milagre, um crítico percebeu-me também. Uma boa recensão num jornal credível e o livro está lançado. Os outros jornais alinham pelo mesmo diapasão, todos querem entrevistas, lutam inclusivamente por um exclusivo. A televisão chama-me. As televisões. A fama chega ao estrangeiro e chovem pedidos de tradução. Só falta um prémio, cá está ele. Sim, e depois? Que adianta isto tudo? Dinheiro? Para quê? Tudo chegou demasiado tarde, não há nada a fazer, vou morrer amanhã.
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