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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Linha d'água

Dois idosos, sentados num banco de jardim, contemplam um pequeno lago. Ouve-se o sussurro das árvores agitadas pela brisa e os pardais que por ali passam constantemente.

ELA (suspirando) – Na sua infinita sabedoria, Deus há-de ter em conta a forma como as pessoas envelhecem.

ELE – Será que, aos olhos de Deus, envelhecemos?

ELA – Tens razão. Para Ele o tempo deve passar tão lentamente que nada chega verdadeiramente a acontecer.

ELE – Pergunto mesmo se, para Ele, a vida e a morte não são exactamente a mesma coisa.

Ela ri. Um esquilo surge do nada e sobe à árvore à sombra da qual eles conversam.

ELE – Repara: este lago é um espelho para as nuvens.

ELA – Repara: vêm morrer aqui todos os ruídos da cidade…

Pausa.

ELE – Tudo o que aqui vemos podia dar origem a um verso.

ELA – O que eu gostaria mesmo, seria que me amasses como a brisa sopra. E senti-lo como a superfície do lago sente o vento.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Linha d'Água


Não há silêncio como o do vento. Nem companhia como a da sombra.

Tinha saudades desta brisa. Desta luz. Nesta esplanada está o melhor do país: um céu enorme, de um azul intenso, o verde que o sustenta e a luz que se reflecte no lago. Um espelho para o meu estado de alma.

O quadro à minha volta é belo e eu olho-o como se fosse eu a criá-lo. Como se eu fosse o artista que sempre quis ser. Mas não sou: o meu poder é frágil. Cada pensamento que tenho é mendigado. Na verdade, sou um pedinte de ideias, que agradece cada ideia que tem como estes passarinhos agradecem as migalhas de bolo que lhes atiro para cima da mesa.

Seja como for, não escrevo para ser lido, mas para me ouvir pensar. Sei que podia ter deixado uma obra vasta, mas para quê? O mundo, ou melhor, esta sociedade, continuaria a ser a merda que é e, no fim, o resultado seria o mesmo: o desaparecimento puro e simples de toda a gente.

De resto, já há demasiados génios no mundo.

sábado, 14 de agosto de 2010

Linha d'água


A minha esplanada preferida.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Linha d'água

O céu está coberto de nuvens cinzentas que filtram a luz. Gosto desta luminosidade que faz sobressair as cores vivas. O lago tem hoje a mesma cor, a mesma densidade do céu e o momento é mágico porque está um silêncio incrível, e porque tudo o que vejo está exemplarmente iluminado: o puto que conduz o pai pela mão, o ciclista que chama o cão que se banha no lago, a menina que fuma indiferente a isto tudo ali ao fundo.
Há dias em que apetece bater palmas a tudo o que se vê.
Penso: «Cada vez que tiramos uma fotografia interrogamos o mundo. Mas uma fotografia não é resposta para nada. Por isso, continuamos.»
Na verdade há mil razões para querermos tirar fotografias e todas são válidas. Mas o mais importante não está na razão por que se tiram fotografias. A verdade da fotografia está na relação que tens com o mundo. A razão pela qual tiras fotografias e o modo como o fazes, definem-te como ser humano. No meu caso, pelo menos aos meus próprios olhos, tirar fotos não é nem um simples hobby, e muito menos um ofício, mas uma maneira de estar na vida. Nem mais nem menos. É como ser poeta, jardineiro ou filósofo.
Dito isto, tenho que acrescentar, porque acabo de o descobrir: «Uma boa caneta é tão importante como uma boa companhia».

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