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sábado, 15 de outubro de 2011

Cemitérios






No Museu de Arte Contemporânea de Zagreb, a obra mais marcante é assinada por Jan Fabre. Ocupa uma sala inteira e intitula-se «Cuspo sobre o meu próprio túmulo». E, com efeito, um homem (um manequim, evidentemente) debruçado sobre uma lápide funerária cospe, de vez em quando. À sua frente encontram-se espalhadas dezenas de outras lápides, amontoadas caoticamente. O efeito é brutal.
Na minha viagem pela Croácia tive oportunidade de visitar vários cemitérios, todos encantadores, cada um à sua maneira. Quer se encontram abrigados por parques frondosos, ou dominando uma colina sobre o mar, os cemitérios croatas convidam a ficar. Na verdade, não me importava nada de ser sepultado em Sibenik, Supetar ou Cavtat, pois parece-me que poderia ali ser feliz.

Gravata



Os croatas gabam-se de ter inventado a gravata. Contam que a sua introdução no Ocidente foi feita durante a Guerra dos Trinta Anos, que agitou a Europa entre 1618 e 1648. Nessa altura, os pitorescos lenços que eram utilizados pelos soldados da cavalaria ligeira croata fizeram sensação quando o regimento entrou em Paris. E foi assim que os burgueses franceses se encarregaram de os transformar no acessório que ainda hoje é utilizado.

O mausoléu da família Racic






O mausoléu dos Racic, rica família de armadores de Cavtat, foi erguido em 1921. Todo construído de pedra branca vinda da ilha de Brac, a obra foi concebida pelo escultor Icvan Mestrovic (1888-1962). O local é fabuloso, lindo de verdade, com a sua cúpula coberta por cabeças de anjos. Quatro estátuas representam os evangelistas e toda a simbologia remete para as três etapas da vida: o nascimento, a vida e a morte. No sino (feito do mesmo bronze da porta) está inscrita a frase: «Descobre o segredo do amor para desvendar o segredo da morte e acreditar que a vida é eterna».
A família Racic (o casal e os seus dois filhos) morreu toda em consequência da terrível gripe espanhola que, entre 1918 e 1919 matou mais de cinquenta milhões de pessoas só na Europa.

Cavtat







Antes de regressar a Lisboa, ainda tivemos tempo de visitar Cavtat, a que os gregos chamavam Epidaurum.
Situada a uns vinte quilómetros de Dubrovnik, é a cidade mais a sul da Croácia, quase junto à fronteira com o Montenegro. Tomámos lá um bom banho de mar, a Raquel e eu, enquanto o Lucas dormia no seu carrinho.
A terrinha é encantadora com as suas casinhas renascentistas muito bem alinhadas e, frequentemente, floridas, mas o que mais gostei do cemitério (mais um com uma vista magnífica sobre a povoação e o mar) e, sobretudo, do mausoléu da família Racic, que merece uma entrada à parte.

Dubrovnik












Se Split e Sibenik me surpreenderam pela positiva, Dubrovnik, pelo contrário, desiludiu-me. É verdade que a cidade é linda vista de longe e que fica muito bem nos postais, mas passear nas suas ruas é uma história muito diferente, pois a cidade foi transformada num gigantesco centro comercial.
Tudo ali é pago e bem pago. Queres visitar as muralhas? Paga. Visitar o mosteiro? Paga. O palácio? Volta a pagar. De resto, é assim por toda a Croácia, onde até as casas de banho são pagas. À borla só mesmo os cemitérios e as praias.
Por falar em praias, foi em Dubrovnik que tomei os banhos mais espectaculares da minha vida. Não exactamente numa praia, mas numa esplanada improvável, pendurada em rochedos encostados à muralha da cidade.
Uma porta mínima, discretíssima, permite aceder a este local paradisíaco, muito difícil de descrever, acreditem. Sobre cada rocha colocaram uma plataforma que suporta uma mesa de café e algumas cadeiras. Circula-se na esplanada por escadas de cimento que conduzem não apenas ao balcão onde se servem as bebidas, mas também ao mar.
É dentro de água que a visão do local é inesquecível. De um lado está a muralha enorme, onde circulam os turistas, e do outro encontra-se a ilha de Lokrum e os barcos que sem cessar por ali passam. O mar é de um azul de sonho e a temperatura dentro de água é igual á que está cá fora. Só para conhecer este sítio, valeu a pena ir a Dubrovnik.

Brac







A ilha de Brac fica a uma hora de barco de Split. Dos vários destinos possíveis na ilha, escolhemos Supetar, porque queríamos ir à praia de Vela Luka. Um sítio incrível, com águas tranquilas e cristalinas onde tomámos, finalmente, o nosso primeiro banho no mar Adriático. O Lucas divertiu-se sobretudo com as pedrinhas redondas que, ali, substituem a «nossa» areia.
Muito perto da praia, junto ao mar, fica mais um cemitério notável, com inúmeras sepulturas esculpidas na famosa pedra branca de Brac. Alguns dos mausoléus são verdadeiras obras de arte mas, como de costume, foram as campas mais singelas as que mais me comoveram. mais uma vez, como em Zagreb e em Sibenik, pude constatar que a maioria das pessoas ali enterradas morreram antes de chegar à minha idade.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Bacvice







Split foi, para mim, uma das mais gratas surpresas desta viagem à Croácia. Não porque a cidade é bela, como é, mas porque adorei a atmosfera que lá se vive. O nosso quarto ficava a cinco minutos do terminal de autocarros, a cinco minutos do centro histórico e a dez minutos da praia de Bacvice, onde vivi instantes mágicos. Fomos visitá-la de manhã cedo e foi como mergulhar num filme. Extremamente bem iluminada, por um sol suave, a praia estava quase deserta. As poucas pessoas que vimos, entre os quais uma equipa de pólo aquático que se preparava para um treino, pareciam ter sido ali colocadas para emprestar um ar de irrealidade ao cenário.

Krka







Para chegar ao parque Nacional de Krka é preciso apanhar primeiro um autocarro, depois um barco. A viagem é agradável mas é bom estar bem informado: há poucos autocarros e uma pessoa arrisca-se a ficar horas à espera de transporte para regressar a Dubrovnik. Foi o que nos aconteceu. A nós e a muitos outros turistas que não tiveram outro remédio senão esforçar-se para encontrar algum interesse na vila de Skradin, que pouco mais tem para ver que uma pequena marina e uma igreja.
Já o parque é «uma das maravilhas naturais da Croácia». Tem 109 km2 e é atravessado pelo rio que lhe dá o nome. Devido a um fenómeno natural, que torna a própria rocha porosa, a água surge aqui por todo o lado, irrompendo em cascatas e transformando a floresta num local idílico, onde é muito agradável deambular.
Um senão: a entrada custa 14 euros e ainda têm o descaramento de cobrar as idas à casa de banho.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sibenik

Visitámos Sibenik a conselho do Luís Maio e não nos arrependemos. A cidade é um mimo, entalada entre uma colina e o mar, e toda construída de pedra. Há muita escadaria para subir e descer e com o Lucas no carrinho não foi fácil. Mas valeu a pena.
No alto da colina, mesmo encostado ao castelo, há um pequeno cemitério com imenso charme e uma vista magnífica (primeira foto). Passei aí um bom momento, rindo à gargalhada e tenho que contar porquê. Momento antes, o guarda do castelo não me deixou tirar uma foto da cidade e do mar cá em baixo, porque não quis pagar a entrada só para tirar duas ou três fotografias. Ao entrar no cemitério, porém, descobri que a vista dali era bem melhor e como me abeirei de um murete e vi o tal porteiro cá em baixo, comecei a gritar com ele em português: «Ó palerma, a vista daqui é bem melhor e a entrada no cemitério é à borla, és mesmo palerma, pá». A cara que ele fez, ao resmungar em croata, estampou-me um sorriso no rosto que durou a manhã toda.
Outra prova da pouca esperteza croata: é preciso pagar para visitar a catedral, mas basta ir à hora da missa para entrar à borla.
O nosso apartamentozito em Sibenik, arranjado com a ajuda do gabinete de turismo local, ficava mesmo no centro e era muito giro, com vista para uma das praças centrais da cidade (segunda foto). Tratava-se de um estúdio, provavelmente ocupado, durante o inverno, por um estudante. Estava repleto de livros e a pequena cozinha tinha tudo o que é necessário para preparar refeições ligeiras.
As ruas de Sibenik parecem as de Alfama, com a diferença que as casas são quase todas de pedra e que há ali muito mais monumentos antigos. Além de que as praças e os largos têm outra imponência. Todo o cenário vive do mar e para o mar, os iates vêm atracar mesmo ao pé das esplanadas. Ao fim de dois dias, parecia-me que já estava ali há muito tempo, de tal maneira tudo me era familiar. Quando apanhámos o autocarro para Split, ia com pena de me ir embora.







domingo, 9 de outubro de 2011

Zadar




Quando chegámos a Zadar, estava a chuviscar. No terminal dos autocarros, várias pessoas ofereciam apartamentos e quartos para alugar. Um senhor mais persuasivo não nos largou até lhe prestarmos atenção. Dizia que tinha um belíssimo apartamento para alugar, a 15 minutos do centro de autocarro, muito barato. Perante a nossa relutância, propôs-se levar-nos no seu carro e, caso não nos agradasse a casa, trazer-nos de volta para o centro.
A casa não era má, mas ficava nos subúrbios e a paragem do autocarro não era propriamente ali ao lado. Expliquei-lhe que com o Lucas e a chuva se tornava impraticável ficar ali. Ele pareceu entender e, como prometido, levou-nos até às portas da cidade, informando que ali encontraríamos uma agência que nos arranjaria, com toda a certeza, um quarto na zona histórica, de acordo com o nosso orçamento. E assim foi, de facto.
O nosso quarto ficava no porto, num terceiro andar sem elevador, e a nossa janela dava para um barco enorme estacionado a poucos metros de distância (ver primeiras duas fotos). O sujeito da agência tinha-me prevenido desse facto, acrescentando: «Não se preocupe, o barco sai às dez da noite». A localização não podia ser melhor e a dona da casa, que se chama Olga, rapidamente se revelou muito hospitaleira simpática. Quando soube que vínhamos de Portugal, e que nos propúnhamos ir de autocarro até Dubrovnik, ficou muito impressionada. Sempre que via o Lucas exclamava: «Lucas, the great tourist!». No dia seguinte, quando partimos, a dona Olga veio despedir-se de nós em combinação e ofereceu um pêro ao Lucas.
Muito pertinho da sua casa fica uma das principais atracções turísticas da cidade: o famoso órgão marítimo (terceira foto). Já tinha lido sobre ele, mas o efeito é surpreendente. Ao longe já se ouve a música, ressoa pelos ares e não se parece com nenhuma outra. Os estranhos sons são causados pelas ondas do mar ao entrar por buracos escondidos na escadaria que entra pelo mar dentro. As pessoas são para ali atraídas como pelo canto das sereias.
Quanto ao centro histórico, diz-se que se não tivesse sido severamente bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial, Zadar seria a grande rival de Dubrovnik. Tal como está, permanece um local encantador com as suas espessas muralhas brancas e as suas ruelas quase irreais. Naturalmente, as ruas estão vedadas ao trânsito e há muitas esplanadas por todo o lado. Como devem saber, a Croácia é, de resto, o país das esplanadas.
Dá gosto percorrer Zadar, passar pelas suas portas renascentistas e visitar as suas igrejas medievais. Mas a chuva não nos deixou passear tanto quanto gostaríamos e ficámos apenas uma noite, rumando, no dia seguinte, a Sibenik.

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