sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Saudades do Arizona

Ainda lá estava e já sentia saudades. Saudades do calor e do silêncio, um dos silêncios mais musicais que jamais conheci. Saudades daqueles céus sem fim, onde há sempre núvens para acentuar o azul profundo do céu (um céu tão luminoso que a estrada parece pavimentada de prata). Saudades de poder conduzir interminavelmente, com a paisagem a desenrolar-se à minha frente como um filme apaixonante.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Saudades do Arizona

Grand Canyon

Toda a vida ouvi falar no Grand Canyon. Vi filmes, li sobre, imaginei-o, mas nada me preparou para o impacto de chegar lá e vê-lo com os meus próprios olhos. Não é apenas grandioso e belo, é mais do que isso: uma experiência «telúrica» (para a alma). No local há autocarros, gratuitos, que andam de um lado para o outro, de manhã até à noite, para que possamos apreciar a paisagem de muitos pontos de vista diferentes. Como seria de esperar, o pôr do sol acrescenta magia às montanhas rochosas, que ficam em brasa. Infelizmente, nenhuma fotografia consegue transmitir o que se sente naquela paisagem. Dito isto, apetece-me acrescentar: a monumentalidade do Grand Canyon, longe de ser esmagadora, é comovente. Talvez porque, como me disse um chinês em Flagstaff, «não passa de um gigantesco buraco no chão». Fora de brincadeiras: descobri, nesta viagem de três semanas por três Estados do Sudoeste dos Estados Unidos (Califórnia, Arizona e Nevada), que a natureza tem muito mais para me dizer que os seres humanos. Até porque, cada vez mais, aquilo que me importa verdadeiramente perceber não passa pelas palavras, mas pelas emoções.

San Francisco

Auto-retrato em Los Angeles

Philip Roth

Numa entrevista recente, Philip Roth (actualmente com 78 anos), afirma que não escreverá mais romances. Escrever, refere ele, é uma actividade muito frustrante. Por mais que tentemos, nunca encontramos a palavra certa, a frase correcta, a história que, verdadeiramente, queríamos contar. Mas diz mais. Diz, por exemplo, que chegou à conclusão que tudo na vida é uma questão de sorte ou de azar. Estou tentado a concordar com ele. Mulheres, empregos, e até filhos... ou temos sorte com eles, ou não. Quanto à América de hoje, o escritor norte-americano assegura que já não a conhece. «Vejo-a na televisão», ironiza ele, «mas já não vivo nela». É como eu próprio já disse noutras ocasiões: à medida que envelhecemos, vamos desaparecendo do mundo. Mesmo se o nosso corpo e a nossa sombra insistem em ir permanecendo por cá. Até um dia.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Usura

Pude, finalmente, ver Usura, a exposição de Paulo Nozolino no BES Arte e Finança. A mostra reúne nove trípticos a preto e branco; naquele preto e branco muito peculiar que caracteriza as suas fotografias. Como o título sugere, todas as fotos evocam a degradação, o desaparecimento e a morte, através de acontecimentos traumáticos da nossa história recente: o holocausto, Chernobyl, o 11 de Setembro e a invasão do Iraque, por exemplo. Expostas em salas mergulhadas na obscuridade, as imagens iluminam-nos linteriormente, impregnando-nos da sua beleza e tristeza. Esta visita veio lembrar-me algo já sabia há muito: que Paulo Nozolino é um dos artistas portugueses mais singulares e apaixonantes do meu tempo.

domingo, 16 de setembro de 2012

Manif de 15 de Setembro

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Da maldade

A maldade torna as pessoas feias. Fisicamente feias.

Da memória

De um certo ponto de vista, a memória é uma bagagem como outra qualquer: quanto mais leve melhor.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Baixa (hoje)

«Le promeneur est un expert de l’attention flottante, un amoureux des apparences. Sans but précis, il laisse venir à lui, au gré du hasard, des images – détails, fragments, vision panoramique – qui l’entrainent à la rêverie, donnant à sa pensé des résonances imprévues». Chantal Thomas em Comment supporter sa liberté

Praça do Comércio

Confissão

Como não consigo querer mal às pessoas que amo, sofro duas vezes mais com o mal que me fazem.

sábado, 1 de setembro de 2012

Da série «Cartazes»

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O pássaro de papel

Um pássaro percorre uma biblioteca em desordem. Pousa em cada livro, interroga o seu silêncio, ouve-o com atenção. Pensa: «Há árvores dissimuladas em cada um deles, as flores estão secas e a brisa não corre, mas não me enganam: qualquer coisa foi escrita a meu respeito e não foi gentil. Não terei repouso enquanto não descobrir o que dizem sobre mim os textos antigos. O que procuro não são pensamentos, nem uemoções, mas uma razão válida para continuar a viver. Nem mais nem menos.»
Os livros são videntes. Quando os sabemos ler, os mais felizes são capazes de nos transportar. Outros escondem-se bem, estão na sua, é preciso acordá-los de mansinho.
Também há livros que sabem mentir, quando é preciso. A maior parte das vezes, mascaram-se de romances, calam-se, não se confiam de mão beijada. São tão dissimulados que há quem os considere terroristas.
E depois há outros abençoados. Iluminados. Capazes de prodigalizarem a graça e o perdão. Porém, são raros e sempre inesperados.
«Há muitos tipos de livros», pensa o pássaro, que os quer percorrer a todos (mesmo que isso seja impossível). Porque há qualquer coisa que ele não sabe, e parece-lhe vital descobrir a razão por que vai ter de pagar, com a sua própria vida, tanta ignorância e tanto sofrimento.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Do envelhecimento

Quanto mais me pesam os anos, mais ligeira fica a minha alma.

Do envelhecimento

Peter Solterdijk diz: «É preciso envelhecer para perceber verdadeiramente o que se passa no mundo». Eu digo: «À medida que envelhecemos, vamos paulatinamente saindo do mundo. Ninguém me tinha dito que seria assim. É um processo lento que se vai acentuando com os anos. Um dia, dás por ti a libertar-te das coisas, de certas ideias, de certas pessoas e, sobretudo, do que os outros pensam de ti. Ao mesmo tempo, o absurdo desta sociedade torna-se cada vez mais gritante e (esta é a maior surpresa) começas a ter pena dos jovens, por não verem o que tu vês, por não perceberem o que os espera. É deveras irónico: os jovens têm pena dos velhos (quando não os desprezam, pura e simplesmente) e os velhos pagam-lhes na mesma moeda.»

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Cais Sodré

Joseph Delteil: «Chaque matin, c’est le premier matin du monde.»

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Tarefas infinitas

Ainda a propósito das exposição Tarefas Infinitas, apetece-me acrescentar: Um livro não é um mero objeto. É, com frequência, uma porta aberta para outra dimensão. Quando se mergulha num livro, tudo pode acontecer. Podemos até ser rejeitados. Ou tão completamente aspirados, que o nosso mundo habitual desaparece. Ou se expande, como o universo. Por isso se diz que um livro pode ser infinito. Mas atenção, também há livros que não passam de um amontoado de papel. O comissário desta exposição, escolheu livros que são obras de arte e também obras de arte que se podem ler como um livro. Também lá encontramos pinturas, fotografias, filmes e instalações. Diz Paulo Pires do Vale: «Esta exposição não é de livros e muito menos de livros de artista». E acrescenta que é «como um ensaio porque não propõe conclusões, nem fecha um debate». Parece evidente que, com esta exposição, Paulo Pires quis ensaiar coisas. Ensaiar, por exemplo, pôr em cena o seu amor pelos livros. Ou por certos livros, se preferirem. Quis confrontar-se com uma ideia, abrir novas pistas a si próprio e aos outros. Pensar e pôr-nos a pensar na nossa relação com os livros, com a arte, com o pensamento. Não tenho visto muitas exposições que me dessem tanta vontade de voltar a vê-las.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Tarefas infinitas

Está neste momento na Gulbenkian (e aí permanecerá até 21 de Outubro), uma exposição que recomendo. Intitula-se Tarefas Infinitas e tem como subtítulo «Quando a arte e o livro se ilimitam».Gostei do que vi e também dos textos do comissário da exposição, Paulo Pires do Vale que, a certa altura escreve: «… o livro abre uma obscuridade essencial. A dos novos começos». Numa outra ocasião tem esta outra expressão muito feliz: «Entre as mãos abre-se uma fenda.» E é assim mesmo, é como ele diz: «As leituras cruzam-se criando novos sentidos. Abrem-se estadas, propõem-se passeios e deambulações. O livro exige de nós tempo». Por fim, Paulo Pires assevera com grande convicção: «Os livros são perigosos: ateiam-nos fogo.» Nem todos, acrescentaria eu, só os que valem a pena. E o mesmo se pode dizer das exposições: algumas ardem e ficam a arder em nós.

domingo, 5 de agosto de 2012

Mesquita de Lisboa

La Rochefoucauld: «Somos todos suficientemente fortes para suportar a dor dos outros».

Auto-retrato

Susan Sontag: «I embrace my solitude as a beautiful gift».

sábado, 4 de agosto de 2012

Amoreiras (hoje)

«Um homem é aquilo que pensa o dia inteiro», dizia Emerson.

Da fadiga

A fadiga é uma tristeza do corpo todo. Nada cansa mais do que a tristeza, que é uma fadiga que ataca a alma.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Da morte

«A ideia da morte persegue o meu pensamento, como a sombra o meu corpo; e quanto mais forte a alegria, a luz, mais a sombra é negra.» André Gide, Diários, 1920

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