segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Dos sonhos

As minhas visões. Os meus sonhos. Aventuras sem fim.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A máquina de contar histórias


As tuas últimas fotografias parecem ter sido tiradas sem olhar pelo visor.
E foram mesmo. Cada vez mais frequentemente tiro fotos sem olhar pelo visor. A verdade é que estou farto de fotos bonitinhas. O que quero apanhar não se consegue ver pelo visor: é algo de inesperado e incompreensível. As minhas fotografias não procuram respostas, mas antes suscitar interrogações e emoções. Porque, certos dias, passo por um cão na rua e é como se me visse ao espelho. Mas posso também reconhecer-me numa rapariga bonita ou numa mulher gorda que enverga uma camisola do Benfica. Digamos que a beleza e os mistérios do mundo são a minha perdição.
Algumas pessoas podem considerá-las fotos falhadas.
Desprezo cada vez mais a suposta perfeição. Em contrapartida, aprecio, cada vez mais, fotografias falhadas. Devia dizer «feridas». Só gosto verdadeiramente de imagens (ou textos) que expõem feridas. Ou cicatrizes. Que mostram quão «doente» está o mundo e, consequentemente, eu próprio.
Esta colecção de imagens, a que decidiste chamar «a máquina de contar histórias» é composta por aquilo a que se convencionou chamar «fotos roubadas». Instantâneos tirados sem o consentimento dos fotografados. 
Em português, diz-se «tirar uma foto». A expressão diz tudo. O fotógrafo tira sempre alguma coisa a alguém. Mas a verdade é que cada vez que tiramos uma foto acrescentamos algo ao mundo. Trazemos ao mundo algo que não existia antes. Damos à luz, algo que a luz nos dá. Toda a fotografia implica uma troca simbólica. Para além disso, a pessoa que mais se expõe com estas fotografias sou eu.
Resumindo?
Cada foto que tiro, tira-me algo. Uma das razões por que tiro fotos é porque quero voltar a ver o que vi imperfeitamente. Adoro descobrir, nas minhas fotos, pormenores em que não reparei. Preciso rever rostos ou detalhes que gostaria de ter observado com mais atenção, até porque é na rua, em plena luz do dia, que as pessoas mais se escondem. Como eu costumo dizer: na rua, o único lugar onde te podes esconder é no teu próprio rosto. Fascina-me o que os outros escondem e se escondem a si próprios. Sou fotógrafo por desespero: os fantasmas que cruzo, nas ruas, perseguem-me. 
Um dia, escreveste no teu blogue: «Até nos meus sonhos, tiro fotografias».
Na verdade, nos meus sonhos, a maior parte das vezes, não consigo fotografar. Ou é a máquina que encrava ou é a cena que se desvanece antes que tenha tempo de a captar. Nos meus sonhos, por detrás do desejo de fotografar, há um terror muito grande, uma angústia do tamanho do mundo. Bem gostaria de saber porquê.
Não achas que já existem demasiadas fotografias no mundo?

Sim, é verdade. Tiram-se milhões de fotografias, todos os dias, no mundo. E esse número aumenta astronomicamente a cada ano que passa. Biliões, triliões de fotografias que não interessam a ninguém ou quase. No meio disto tudo, imagino milhares de obras-primas que apodrecem em discos rígidos por esse mundo fora. Boas ou péssimas, as nossas fotografias são insubstituíveis para nós próprios. Para lá da foto do filho, da namorada, dos pais, do gato, há as fotos das férias, dos amigos, do casamento. O que procuramos todos desesperadamente é parar o tempo. Em vão, é claro. Isto é tão óbvio que apetece dizer: a tragédia da fotografia é a tragédia «tout court». A morte habita em cada fotografia. A nossa e a dos outros. Atrevo-me a dizer que a fotografia nos é tão necessária como a necessidade de sonhar.

domingo, 20 de novembro de 2016

Sollers ainda


De uma entrevista com Philippe Sollers:
- Então hoje não há nem verdadeiro filósofo, nem verdadeiro revolucionário?
- A não ser na clandestinidade mais profunda.

Sollers



Philippe Sollers escreve: “... é obsceno o que está proibido por uma sociedade a certa altura. E na nossa é o pensamento. Ou a poesia, o que vai dar ao mesmo, se percebermos o que se passa entre o pensamento e a poesia”.
E mais adiante, acrescenta: “A obscenidade está por todo o lado, mesmo no pensamento e, sobretudo, no pensamento assalariado. O dos filósofos profissionais, por exemplo”.
Concordo absolutamente.


Da fotografia

Um fotógrafo é alguém que presta ao mundo a atenção que ele merece. 

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O fotógrafo aplica uma lupa a tudo o que vê.

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O fotógrafo está sempre a aprender a ver o mundo. Entre os seus principais atributos deve estar a humildade.

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Cada vez que tiramos uma fotografia, interrogamos o mundo. A verdade da fotografia está na relação que temos com o que nos rodeia. Por isso, digo: a razão pela qual tiro fotografias e o modo como o faço, definem-me muito bem.

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Fotografar é uma maneira de pensar, sentindo. Caso contrário, é uma treta.

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Tenho sempre presente que, na rua, o único local onde as pessoas se podem esconder é no seu próprio rosto.

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Intuição: cada foto que tiro, tira-me algo.


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Philippe Sollers diz de Jean-Jacques Rosseau que é «um inventor de instantes». Que bela definição para um fotógrafo! Goethe, por seu turno, afirmava que os pintores venezianos viam tudo mais luminoso e mais sereno do que nós. Belo programa.

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As imagens estão todas aí; não é necessário imaginá-las. A parte do fotógrafo numa fotografia, sua ou alheia, consiste principalmente em «revelá-la».

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Jean Baudrillard afirma (e eu assino por baixo): «Para mim, uma imagem fotográfica vale menos em termos de qualidade ou de conteúdo do que em termos de fascínio».

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Nenhum fotógrafo vale um caracol, se não passar, o tempo todo, a procurar reaprender a ver o mundo.

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Lembrete assinado por Gérard Mace: «Photographier, c’est s’entrainer à l’abscence, mais en laissant des traces».

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Que bom seria que o meu olhar conseguisse imprimir no meu cérebro as imagens que não ouso tirar.

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Lou Reed, que veio a Portugal apresentar uma exposição de fotografias intitulada Romanticism, declarou a quem o quis ouvir: «Fotografar é exactamente o mesmo que fazer música». Concordo a cem por cento. Aliás, Patti Smith deve pensar o mesmo. 


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Um dia, ouvi na televisão uma entrevista com ela, durante a qual ela que declarou: «Não posso passar nem um dia sem escrever um texto, fazer um desenho ou tirar uma fotografia».

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Sempre que tiro uma fotografia, é a mim próprio que a tiro. É sobre mim que atiro. No fundo, sou o meu único alvo. Não por escolha, mas por destino. E só a morte me aquietará.

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A desenvolver: a fotografia como reserva de sonhos.

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Os meus sonhos revelam-me. E as minhas fotografias também.

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Importante: a fotografia tem o poder de, por vezes, transformar o passado em futuro. Pelo menos, por breves instantes.

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Segundo São Tomé, Jesus terá afirmado: «Reconhece o que é visível para ti e o que é oculto te será revelado. Pois que nada há de oculto que não seja manifestado».

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Há dias em que me apetece bater palmas a (quase) tudo o que vejo, que ouço, que sinto.

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Numa fotografia, o mais importante é quem a vê.

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Cada foto que tiro é uma ideia por desenvolver.

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Bem lembrado por Nietzsche: «A cada instante, uma árvore é uma coisa diferente». E quem diz uma árvore diz uma montanha, ou um lago, ou outra coisa qualquer.

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O que é preciso para ser fotógrafo? Amar o mundo, atormentar-se com ele, e ter a capacidade de nos alimentarmos, ora de luz, ora de trevas.

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Sou daqueles que acha sempre qualquer fotografia minimamente interessante. No entanto, a maior parte das fotografias que se tiram no mundo não resiste a um segundo olhar. A boa foto, em contrapartida, nunca se esgota.

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Somos o que vemos. Vemos o que somos.

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Quando não sei o que vejo, invento.

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Um passo a mais (ou a menos) e a foto desaparece.




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Algumas pessoas não conseguem ver o que é óbvio. Nas fotografias como na vida.

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A maior arte reside em tornar profundo o que, aparentemente, é apenas superfície. 

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Segundo Robert Adams “todas as paisagens são definidas pelo sol”. E pelo facto de serem um palco sem centro.


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Para Klee, «o visível não passa de um exemplo do real». Por maioria de razão, o que fotografamos não passa de uma ínfima parte do que existe. Por isso, o real é infinito e nunca haverá demasiadas fotografias no mundo (tal como não existem demasiadas estrelas no céu).

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Convicção: o essencial não é tudo, mas tudo é, de uma maneira ou de outra, essencial.

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Num livro de fotografias, as fotografias devem iluminar-se umas às outras. Como palavras num poema.

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A verdade é esta: se nunca me tivesse perdido, nunca me teria encontrado.

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Segundo Bashô, um poema deve revelar, ao mesmo tempo, o imutável (a eternidade que nos transcende) e o fugitivo (o efémero com que deparamos). O mesmo diria no que respeita uma fotografia.  Dito isto, acrescento: o que a realidade me mostra de mais interessante, muitas vezes, não é aquilo que toda a gente pode ver, mas aquilo que desperta em mim (um sentimento, uma sensação, uma ideia, uma simples intuição, por exemplo). 

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Liberdade e atenção. A fotografia é também uma maneira de viver poeticamente. Pelo menos no que me diz respeito.Na verdade, quem não olhar poeticamente para as minhas fotografias, provavelmente não verá nada.

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Como dizia Hervé Guibert, «é preciso imaginação para ver a realidade».

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Felicidade do fotógrafo: cria ao passear.

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 Toda a foto é uma prova de vida, mas não há nenhuma, nem uma, que não fale da morte.

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Só as imagens que nos tocam são importantes.

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Como Henry David Thoreau, cada fotógrafo pode dizer: «Sou rei de tudo o que observo e este meu direito não pode ser contestado».


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Um slogan publicitário diz: «La simplicité est un long voyage!». E é mesmo!

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«Ver é também um acontecer. Ao ver alguma coisa, acontece-nos alguma coisa», lembra, muito oportunamente, Maria Zembrano.

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Nunca subestimes o papel do acaso. Como dizia Robert Bresson: «Les choses que nous réussissons par chance, quel pouvoir elles ont».

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Não tenhas pressa: há fotos que crescem dentro de nós antes de se tornarem evidentes.

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Atenção: uma foto que te parece falhada hoje, pode vir a parecer-te magnífica amanhã. E vice-versa.

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O fotógrafo deve questionar, não a verdade, mas de verdade.

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O maior desejo de um fotógrafo: ter um olhar iluminado. Um olhar capaz de iluminar.

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Perguntar sempre: o que não diz esta foto?


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Ver sem ser visto. É o desejo secreto de muitos fotógrafos. É, pelo menos, ao que aspiro.

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Numa fotografia, como num poema, devem estar mais coisas do que as que lá cabem. Quanto mais fotos numa foto melhor.

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Frase magnífica de Robert Bresson: «Un seul mystére des personnes et des objects».

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Paul Celan, num texto famoso, aconselha-nos a ir «buscar um par de olhos ao fundo da alma». O mesmo conselho se poderia dar a um fotógrafo: vai buscar um par de olhos ao fundo da alma para pôr ao peito; para sentir cada foto que tiras.

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Projecto louco: fotografar o invisível.

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Tiro fotos. Disparo, mas não mato. Pelo contrário, a fotografia é contra a morte.

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«Se faire des idées c’est, le plus souvent, se faire des images», dizia Louise de Vilmorin. Também se poderia dizer: «Faire des images, c’est se faire des idées».

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Um título no ABC Cultural: «Mirar, registar, disolverse». Programa magnífico para um fotógrafo!

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Há o instante em que se fotografa e o instante, pelo menos tão importante como esse, em que se escolhem as fotografias que queremos guardar. As fotografias que nos dizem realmente alguma coisa. Depois, há as fotos que nos dizem alguma coisa e as fotos que dizem alguma coisa. Não é a mesma coisa. 

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«As fotografias produzem silêncio», escreveu algures Denis Roche. Contudo, nas boas fotografias, o silêncio fala.

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No silêncio da fotografia, 
a música da tua emoção.

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«Au cinema, la melodie est dans les yeux», diz um crítico dos Cahiers du Cinema. O mesmo se poderia dizer de uma fotografia: as melhores fotos são para ouvir com os olhos.

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Um outro autor, François Cheng, escreveu: «... pour le regard qui sait voir, tout est musique».

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Apontamentos = aponta momentos. Fotografia.

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Até nos meus sonhos tiro fotografias.

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Uma frase de Bresson que faz todo o sentido aplicado a um livro de fotografia, ou mesmo a uma reportage fotográfica: «Il faut qu’une image se transforme au contact d’autres images, comme ume couleur au contact d’autres couleurs».

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Para Philippe Starck, a foto é «um exercício de síntese». Sem dúvida.

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Sítios e pessoas que me atravessam. Como relâmpagos. Como fantasmas. Apenas fotografamos fantasmas. Os nossos.

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A obsessão do auto-retrato: hei-de fotografar-me até me reconhecer. Barthes dizia: «Nunca coincido com a minha imagem».

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«La portée réelle d’un évenement demande parfois quatre ou cinq points de vue», escreveu um senhor chamado Laurence Norfolk. É um conselho a ter em conta. 



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Cartier-Bresson (que vale sempre a pena citar): «En photographie la plus petite chose peut être un grand sujet».

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«Quoi de plus mystérieux que la clarté?», perguntava Paul Valéry.

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Para Roland Barthes, «não há foto sem aventura». Também estou de acordo com ele quando afirma: «Não é pela pintura que a fotografia participa na arte, é pelo teatro».

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E mais uma de Barthes, que merece o meu aplauso: «A fotografia só é laboriosa quando faz batota».

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Entre ver e dizer, a fotografia. Digo o que vi, vejo agora o que disse.

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Os fotógrafos geniais (Cartier-Bresson à cabeça) têm um sexto sentido: conseguem antecipar a fotografia que conta.

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Já agora, uma citação de Julio Cortázar: «Entre as muitas maneiras de combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, actividade que deveria ensinar-se muito cedo às crianças, pois exige disciplina, educação estética, golpe de vista e dedos seguros.»


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Numa série, que cada foto que tiras te ensine como abordar a seguinte.

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Numa entrevista que li em tempos, a coreógrafa Pina Bausch falava de um dos seus trabalhos, não me lembro qual e, a certa altura, afirmava: «Andei a comer imagens e cheiros que não conhecia». E acrescentou esta ideia poderosa: «Se as imagens são profundas, as coisas acontecem».

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Claudel dizia que “o olho escuta”. Sem palavras, Van Gogh sugeriu que “a orelha vê”. A verdade é que o fotógrafo tudo o que vê ouve e sente com o corpo todo. Enquanto fotógrafo, por vezes sinto-me frustrado por não conseguir “apanhar” os cheiros, a música (ou o silêncio) do momento.

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Fotografar o silêncio. De uma paisagem, por exemplo. Só o silêncio nos permite ouvir a paisagem.

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Uma simples curiosidade: «mater», em francês é «observar». E em latim é «mãe».

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Escolhe as fotos que decides mostrar com o cuidado que os antigos caçadores punham na preparação das suas armadilhas.

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Faz das fotografias que tiraste um livro; transforma isso numa experiência inédita e enriquecedora. Depois, recomeça tudo de novo.

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Tal como Robert Frank, eu, Jorge Lima Alves, «estou absolutamente interessado na imperfeição».


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