domingo, 14 de janeiro de 2018

O menino que nunca teve 4 anos

Era uma vez, há muito pouco tempo, um menino chamado Lucas. Tinha o cabelo encaracolado e uns olhos que brilhavam no meio de umas pestanas enormes. E estava sempre a rir. Como comia bem e dormia ainda melhor, tinha muita energia e adorava correr. A sua brincadeira preferida era o jogo da apanhada. Nada o fazia mais feliz do que ser perseguido e perseguir os outros.
Um dia, em pleno inverno, a caminho da creche, o Lucas viu uma poça de água e, em vez de se desviar como toda a gente, entrou por ela adentro. Claro que ficou com os pés todos molhados, para já não falar das meias e das calças, e o pai ralhou com ele mas, quando viu o filho a chorar, arrependeu-se logo e começou a dar- lhe beijinhos, dizendo: “Não se pode andar dentro das poças de água, porque ficamos molhados e nos podemos constipar. Quando vires uma poça de água, passa ao lado. Se for pequenina, e tiveres a certeza absoluta de que consegues fazê-lo, podes saltar por cima dela. Vais ver que é divertido”.
O menino pediu desculpa, mas como estava molhado e sentia muito frio, uns metros mais à frente, fez chichi nas calças e recomeçou a chorar, com vergonha. O pai ficou outra vez atrapalhado. Estavam quase a chegar à creche e não sabia o que fazer. Ainda era cedo e as lojas estavam todas fechadas, pelo que era impossível comprar umas cuecas, meias e calças para lhe mudar de roupa. Não teve outro remédio senão decidir voltarem para casa, porque não podiam aparecer na creche naquele estado.

Na manhã seguinte, a caminho da creche, havia ainda mais poças de água. O Lucas lembrou-se da conversa da véspera e decidiu experimentar saltar por cima de uma das poças mais pequeninas. “Posso pai?”, perguntou. O pai fez que sim com a cabeça e ele, um pouco a medo, correu e pulou. “Bravo filhote”, exclamou o pai. O menino ficou admirado por ter conseguido fazê-lo. Por isso, quando viu outra poça, um pouco maior, nem pediu autorização: correu, saltou e, uma vez mais, pareceu-lhe fácil.
Desatou então a correr e a saltar por cima de todas poças de água que havia pela frente, cada vez mais seguro se si. Tão excitado estava que nunca mais se lembrou do pai. Como dava saltos cada vez maiores, lembrou-se de experimentar ficar no ar o mais tempo possível. E, para seu grande espanto, o seu salto parecia que nunca mais acabava. Percebeu assim que já não estava apenas a saltar mas talvez a voar baixinho. Entusiasmado, começou a tentar elevar-se no ar. Ao princípio não conseguia muito bem, mas concentrando-se muito conseguiu subir, primeiro à altura de um carro, depois de uma árvore e, por fim, já estava acima das casas mais altas.
Eufórico, o Lucas pôs-se a voar ao lado dos pombos, por cima do bairro, às curvas e aos ziguezagues até que, de repente, ouviu a mãe a chamar lá muito ao longe: “Lucas! Lucas!”.
Não estava à espera de ouvir a mãe e perdeu a concentração. Começou a cair. Por mais que se esforçasse, já não conseguia manter-se no ar e ganhou de medo. Foi então que acordou, com o pai e a mãe a darem-lhe beijinhos porque estava a chorar. “Estavas a ter um sonho mau?”, perguntou a mãe.
 O menino nem queria acreditar.
Afinal tinha sido tudo um sonho? Não tinha voado realmente? Como é que era possível? Limpou as lágrimas à manga do pijama, fungou duas vezes e perguntou com uma voz muito sumida: “Acreditas que posso voar, mamã?”. “Claro que acredito”, riu-se ela.
 O pai refilou: “Temos mas é que nos despachar, senão perdemos o autocarro”.

Na rua, a caminho da creche, o Lucas começou a correr e a dar saltos mas, por mais que se esforçasse, eram saltos pequeninos, que o deixavam frustrado. O pai pediu-lhe para parar com aquilo, porque se podia aleijar e ele respondeu: “Vais ver papi. Vou treinar muito e quando tiver para aí uns cinco anos já vou conseguir voar”. O pai respondeu a rir: “Mas tu já tens cinco anos filhote”.
O menino olhou para ele como se olha para um maluco. “Eu ainda só tenho três anos, pai!”, disse ele muito sério. “Não Lucas, já tens cinco”, teimou o pai. “Não te lembras da tua festa de anos? Foi tão bonita...”

O Lucas estava pasmado, sem saber o que pensar. Desabafou: “Mas ainda ontem eu tinha três anos!” Com um encolher de ombros, o pai sorriu: “Pois é, filhote, o tempo passa a correr”.
Nessa manhã, na creche, o Lucas disse aos amigos: “Vocês sabiam? Eu nunca tive quatro anos, saltei logo dos três para os cinco”. “Anda mas é jogar à bola”, gritaram eles e o Lucas nunca mais pensou no assunto. Mas ainda hoje, com sete anos, antes de adormecer, às escuras na cama, o Lucas põe-se a pensar em como seria bom voar, na esperança de conseguir sonhar com isso.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Arte poética

1

A solidão é um livro.
Compete-te fazê-la falar.

2

Abre o livro.
Fecha a porta.
Abre-te.


3

Pensa.
Lê-te.
Arde.

4

Procura o incêndio.

Encontrarás o que te queima.

Com um poema na boca

Um cão passa a correr
com um poema na boca

Sou eu na cidade
como noutra idade

Avançando pelas ruas
como nos meus cadernos

Tudo o que vejo sonho
Tudo o que sonho sou

O caminho certo


1

O caminho não é por aqui, disse o guia. No entanto, não conheço outro. Por isso, sigam-me: é sempre a descer, mesmo quando não parece.

2

O meu conselho? A cada passo, hesitar. A única maneira de avançar é hesitando, hesitando muito, hesitando sem parar. Sem medo de errar, porque errar, errar persistentemente, errar sem remédio, é tudo o que podemos fazer.

3

Percam qualquer ilusão de regressar. O caminho desaparece à medida que o percorremos. 

4

Sigam-me de olhos fechados, insistiu o guia.

5

Vejam aquela sombra. Está morta. A árvore a que ela está agarrada agoniza, enquanto nos aproximamos. No fundo, está tão perdida como nós, no modo como se agarra à ideia de que tudo é ainda possível.

6

Ao cair da noite, o guia disse ainda: não temam os rugidos que ouvirão durante a noite. Nem os sussurros, nem os ais. O único perigo real que enfrentarão é o vosso medo.

7

Como vos tenho dito, ainda não aconteceu nada. Reparem: o orvalho até no lixo fica bonito.

8

Duvidem de tudo o que vos vier à cabeça. Aqui não há certezas, nem guias que vos valham. Apenas um caminho que é preciso percorrer, a todo o custo. Na hesitação e no erro.

9

Os animais que nos seguem, não nos seguem, seguem o nosso cheiro. Cheiramos a comida, somos uma promessa viva. O que eles não sabem é que são o nosso sustento.

10

Deixem que vos diga: quem está confiante está tão errado como quem está desesperado. Queixam-se das moscas que não nos largam? São como nós, à volta uns dos outros.

11

Designaram como guia o menos indicado de todos. Como se, afinal, se quisessem perder ainda mais do que já estavam. Mas não faz mal: todos chegaremos lá, de uma maneira ou de outra.
















Migalhas

Estou a reler os aforismos de Kafka. É como estar debaixo da mesa onde ele está a petiscar, para me alimentar das migalhas que deixa cair no chão.

O general, o pombo e o avião

Mais um poema que não escrevi.

Da democracia

A propósito da questão catalã, apetece-me dizer: claro que a independência da Catalunha é uma ilusão, no sentido em que, como lembrava Sartre, os dados estão viciados. Contudo, em todas as revoluções se ganha algo, como aconteceu no 25 de Abril, por exemplo. Trocar uma monarquia por uma republica já é um passo no sentido certo, a não ser que se acredite na realeza por direito divino. Ninguém deveria impor-nos uma língua, uma cultura e um modo de estar no mundo que não reconhecemos como nosso. E o direito a exprimir o que preferimos deveria ser inalienável. Mas a questão catalã conduz-me a outra reflexão: a democracia, tal como ė entendida na Europa actual, já não consegue corresponder aos anseios das pessoas. Alguns de nós precisamos de muito mais do que a possibilidade de escolher, periodicamente, em que corruptos votar. Nem todos somos carneiros agradecidos por termos lobos a proteger-nos dos cães. Já agora, mais uma achega: ao excesso de informação, eu chamo intoxicação. Quem consegue pensar quando está permanentemente ligado à turbina informativa, através da televisão, da imprensa, do facebook, do twitter? Tão atarefados estão alguns a informar-se que se esquecem de pensar e de que pensar, pensar verdadeiramente, é pensar contra a corrente, contra a lei e o poder instituído. E até, muitas vezes contra nós próprios. A revolta é o contrário da rotina e da tristeza. Como quase toda a gente já percebeu, a legalidade está sempre do lado do lucro, o poder existe para servir o capital. O Estado serve o Dinheiro e os políticos já só querem é enriquecer. Querem ser eleitos para poderem ser comprados. E apegam-se ao poder para manter os seus privilégios, roubados todos os dias às pessoas que deviam servir. A verdadeira crise é esta. Este é o verdadeiro crime. E o rei de Espanha (qualquer rei, de facto), como qualquer chefe de estado, é o rei da Mafia. O mais bem pago dos seus lacaios.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Autumn leaves


Listening to the music
Of the autumn leaves
Gone with the wind
I see you seeing me
Getting old and sad

Ancient song

Sometimes I go
On top of a tree
To tell my story
To the birds

In these lost moments
I take the elevator
Of my memory
And go down

As deep as I can
Questioning my hopes
And fears to find out
What is all about

And when it's time
To come to my senses
I walk in the timeless
Streets of my mind

In a shadow of an angel
With no desires or tears
Hoping to disappear for good
In one of my poems

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Lacan

Lacan dizia: "Il ne faut rien espérer du désespoir"

As etapas da morte

As etapas da morte, segundo um artigo que li num jornal inglês: "First hunger and then thirst are lost. Speech is lost next, followed by vision. The last senses to go are usually hearing and touch"

Pensamento do dia

Se Deus não existe, nós muito menos.


Para Sandro Penna

Nada e, no entanto, ouço uma canção. Vejo as janelas que fugiram e penso: a solidão já nasceu velha. Digo: lágrimas são sementes perdidas para sempre. Contra um muro, um lago estremece, sem acordar. Toda a beleza do mundo não me deixa mentir.

Da fotografia

"Não é o fotógrafo que faz a fotografia, mas a pessoa que está a ser fotografada", terá dito o Sebastião Salgado. Já a Mary Ellen Mark afirmava: "Fotografa o mundo tal como ele existe. Nada é mais interessante do que a realidade".

Do amor

quanto mais faço amor
mais parece sobrar

Corpo a corpo

não consigo dizer corpo a corpo
sem pensar em nós

no intervalo entre nós

no intervalo entre as palavras também

e no abismo onde caímos
quando não nos damos bem


Poema visual (ready-made)


Por favor

quando eu morrer
por favor
dêem-me um violoncelo
em vez de um caixão


À espera de outra coisa

o que descrevo
descreve-me

mas o que escrevo
está à espera de outra coisa

Da poesia

quando vejo um poema
é como se ele me visse também:
vou atrás dele 
sem pensar duas vezes

A noite é um rio

lá vamos nós
num barco de papel
noite abaixo

como se o mundo fosse
um rio de luz
e o vento estivesse de feição


Dois poemas

a luz que o vento traz
e o vento que a luz traz

são dois poemas diferentes

Tudo o que sou

estou na cidade como noutra idade
com esta ausência lenta que aqui se vê

percorro ruas e cadernos
à procura das mesmas coisas

tudo o que vejo sonho
tudo o que sonho sou


O que eu tenho dito

o que tenho dito é que a poesia
já conheceu melhores dias
porque ninguém parece ouvir
v e r d a d e i r a m e n t e
o combate que as palavras travam


Do futuro

quanto mais envelheço
menos sei fazê-lo

o meu corpo não me perdoa
nada do que lhe fiz

quanto ao futuro só deus sabe
o sarilho em que me meti


O nome do anjo

no meu nome
o teu nome

e no teu nome
o nosso nome 

dorme como um anjo


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Ópera

Sonho com uma ópera que tivesse lugar neste cenário. Tema: os deuses amam demasiado os que sofrem em vão.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Dos sonhos

As minhas visões. Os meus sonhos. Aventuras sem fim.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A máquina de contar histórias


As tuas últimas fotografias parecem ter sido tiradas sem olhar pelo visor.
E foram mesmo. Cada vez mais frequentemente tiro fotos sem olhar pelo visor. A verdade é que estou farto de fotos bonitinhas. O que quero apanhar não se consegue ver pelo visor: é algo de inesperado e incompreensível. As minhas fotografias não procuram respostas, mas antes suscitar interrogações e emoções. Porque, certos dias, passo por um cão na rua e é como se me visse ao espelho. Mas posso também reconhecer-me numa rapariga bonita ou numa mulher gorda que enverga uma camisola do Benfica. Digamos que a beleza e os mistérios do mundo são a minha perdição.
Algumas pessoas podem considerá-las fotos falhadas.
Desprezo cada vez mais a suposta perfeição. Em contrapartida, aprecio, cada vez mais, fotografias falhadas. Devia dizer «feridas». Só gosto verdadeiramente de imagens (ou textos) que expõem feridas. Ou cicatrizes. Que mostram quão «doente» está o mundo e, consequentemente, eu próprio.
Esta colecção de imagens, a que decidiste chamar «a máquina de contar histórias» é composta por aquilo a que se convencionou chamar «fotos roubadas». Instantâneos tirados sem o consentimento dos fotografados. 
Em português, diz-se «tirar uma foto». A expressão diz tudo. O fotógrafo tira sempre alguma coisa a alguém. Mas a verdade é que cada vez que tiramos uma foto acrescentamos algo ao mundo. Trazemos ao mundo algo que não existia antes. Damos à luz, algo que a luz nos dá. Toda a fotografia implica uma troca simbólica. Para além disso, a pessoa que mais se expõe com estas fotografias sou eu.
Resumindo?
Cada foto que tiro, tira-me algo. Uma das razões por que tiro fotos é porque quero voltar a ver o que vi imperfeitamente. Adoro descobrir, nas minhas fotos, pormenores em que não reparei. Preciso rever rostos ou detalhes que gostaria de ter observado com mais atenção, até porque é na rua, em plena luz do dia, que as pessoas mais se escondem. Como eu costumo dizer: na rua, o único lugar onde te podes esconder é no teu próprio rosto. Fascina-me o que os outros escondem e se escondem a si próprios. Sou fotógrafo por desespero: os fantasmas que cruzo, nas ruas, perseguem-me. 
Um dia, escreveste no teu blogue: «Até nos meus sonhos, tiro fotografias».
Na verdade, nos meus sonhos, a maior parte das vezes, não consigo fotografar. Ou é a máquina que encrava ou é a cena que se desvanece antes que tenha tempo de a captar. Nos meus sonhos, por detrás do desejo de fotografar, há um terror muito grande, uma angústia do tamanho do mundo. Bem gostaria de saber porquê.
Não achas que já existem demasiadas fotografias no mundo?

Sim, é verdade. Tiram-se milhões de fotografias, todos os dias, no mundo. E esse número aumenta astronomicamente a cada ano que passa. Biliões, triliões de fotografias que não interessam a ninguém ou quase. No meio disto tudo, imagino milhares de obras-primas que apodrecem em discos rígidos por esse mundo fora. Boas ou péssimas, as nossas fotografias são insubstituíveis para nós próprios. Para lá da foto do filho, da namorada, dos pais, do gato, há as fotos das férias, dos amigos, do casamento. O que procuramos todos desesperadamente é parar o tempo. Em vão, é claro. Isto é tão óbvio que apetece dizer: a tragédia da fotografia é a tragédia «tout court». A morte habita em cada fotografia. A nossa e a dos outros. Atrevo-me a dizer que a fotografia nos é tão necessária como a necessidade de sonhar.

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