segunda-feira, 31 de agosto de 2009

The Fiery Furnaces



Os Fiery Furnaces que são, para mim, uma das mais estimulantes bandas pop da actualidade, acabam de lançar um novo álbum. Intitulado I'm Going Away, o novo opus é, como toda a gente não se cansa de repetir, o mais convencional (na estrutura e na instrumentação) dos que publicaram até à data os irmãos Friedberger. Criado num apartamento de Nova Iorque com a ajuda de um laptop, o disco propõe uma dúzia de canções acessíveis, quase «fáceis», que parecem uma homenagem ao folk-rock dos anos 60 (Bob Dylan surge como uma das influências maiores). Alguns fãs já consideraram este trabalho um passo atrás na carreira dos irmãos Matthew e Eleanor. É um perfeito disparate. Mas se for essa a receita para fazer mais discos tão bonitos e agradáveis como este, que comecem a andar às arrecuas. Por muito que goste dos seis (ou sete) álbuns anteriores, não me importo nada.

Albert Cossery



Albert Cossery faleceu o ano passado, aos 94 anos. Deixou um romance inacabado, do qual só se conhecem as primeiras dez páginas. Aqui ficam dois excertos:

«Mokhtar ignorava totalmente todos os governos, fossem eles eleitos ou impostos pela força das armas, pois todos saíam dos mesmos moldes e eram compostos pelos mesmos facínoras. Era, pois, estúpido querer substituir um governo, para acabar com outro pior que o precedente. E na necessidade de recomeçar sem fim esta comédia grotesca. Para Mokhtar, a única forma de combater um regime político só se podia conceber pelo humor e na derrisão, longe de qualquer disciplina e das fadigas que implicam geralmente qualquer revolução.»

(…)

«Esmagadas e fragilizadas, as massas humanas ainda sobreviventes no Globo tendiam a acreditar em tudo o que lhes impingia uma propaganda que ofende permanentemente a verdade. Ele percebera claramente que o drama da injustiça social só desaparecerá no dia em que os pobres deixarem de acreditar nos eternos valores da civilização, um palmarés de mentiras deliberadas, programada para os manter eternamente na escravatura.»

Admirável Cossery, que se manteve até ao fim lúcido e insubmisso.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Do futuro da Comunicação Social



As notícias online vão começar a ser pagas? O multibilionário dos jornais e televisões Rupert Murdoch (na foto) acha que sim e já anunciou que vai optar por esse sistema em todos os seus órgãos de comunicação social. Quase todos os outros tubarões que nadam nas mesmas águas (em Portugal como no estrangeiro) batem palmas de excitação e preparam-se para fazer o mesmo. As suas receitas estão em queda, na imprensa escrita como na rádio e televisão e a galinha dos ovos de oiro está cada vez mais raquítica.
No entanto, não creio que a gratuidade na Internet vá acabar. Nem eu, nem Chris Anderson, chefe de redacção da revista «Wired», que declarou recentemente que o jornalismo tal como o conhecemos hoje tem os dias contados. Para ele, num futuro já não muito distante, ser jornalista será um hobby e não uma profissão, pois só a informação gratuita encontrará consumidores.

Pura realidade

O piropo mais giro que ouvi nos últimos tempos: «Ó filha, se fosses minha namorada, punha-te alarme!»

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Desabafo

Esta eterna sensação de não ter os papéis em ordem. De estar ilegal, até aos olhos de Deus…

Da preguiça

Ironia das ironias: aos olhos de alguns, os homens que passam a vida a meditar passam por preguiçosos.

!

Ideia de negócio: ajudar as pessoas a mudar de vida.

Poema

Dizem que as borboletas
Se suicidam
Lançando-se sobre uma chama.

Da vida

A vida é um empréstimo. Quanto mais tempo viver, mais juros terei que pagar.

Da felicidade

Os que correm atrás da felicidade, dificilmente descobrirão que ela corre atrás deles. E o mesmo se poderia dizer da verdade.

Da maquilhagem

A melhor maquilhagem de todas é a felicidade.

Da fatalidade

Tudo o que fazemos na vida se vira, mais cedo ou mais tarde, contra nós. E tudo o que não fazemos, também.

Da vida eterna

Para não desejar a vida eterna, basta-me imaginar que ela será uma insónia sem fim.

Desabafo

Certos dias, o meu coração é o local menos acessível do mundo.

Das ideias

Alguns dos comentários que suscita este blogue comprovam-no: há ideias minhas que vingam e outras que se vingam de mim.

Convicção

Há tantos falsos crentes como falsos ateus.

Erros meus...

Erros em cadeia. A nossa cadeia é feita dos nossos erros.

Da música

De todas as músicas, prefiro as que me transportam.

Projecto

As revistas «cor-de-rosa» têm razão: no fundo, não passamos de puro espectáculo, uns para os outros.
Um dos meus projectos inviáveis é o de publicar, um dia, uma revista que fosse exactamente o contrário de uma revista «cor-de-rosa»: uma revista negra, para espíritos fortes. Uma revista que pusesse a nu o que realmente somos; capaz de fazer Deus corar de vergonha.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Dexter



É a melhor notícia da semana: o primeiro episódio da quarta temporada de «Dexter» já está disponível na Internet. A estreia oficial só vai acontecer nos Estados Unidos a 27 de Setembro, mas a verdade é que já vi o episódio (intitulado «Leaving the dream») e é magnífico. Os suspeitos do costume sabem muito bem onde o ir procurar. Quanto aos outros esperem para o ver na televisão portuguesa, daqui a um ano ou dois, com alguma sorte.

Morte e Internet

O jornal i de hoje propõe um artigo intitulado «Agora já pode viver para sempre. Só precisa de se tornar virtual». Assinado por Diana Garrido, o texto afirma que «cada vez mais as redes sociais apostam na perpetuação da memória de quem já morreu e na protecção do legado digital». Vale a pena ler
aqui.

Ferdinando Scianna



«Mon métier consiste à regarder en espérant voir», afirma o fotógrafo siciliano Ferdinando Scianna, que este ano celebra 40 anos de carreira.
Nascido em 1943, em Bagheria, não muito longe de Palermo, Ferdinando estudou literatura e filosofia antes de se dedicar de corpo e alma ao seu ofício.
Uma importante retrospectiva da sua obra pode ser vista actualmente na Maison Européenne de la Photographie em Paris.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Da velhice

Falar de velhice prematura é um disparate. A velhice é sempre prematura.

Desabafo

Considera os materiais de que és feito: os ossos, o fígado, os pulmões, o cérebro, os indestinos... Que máquina nojenta somos! Só a ideia de possuirmos uma alma nos consola. Preferia, sem dúvida, ter sido uma árvore, para já não dizer uma montanha.

Cioran e Sócrates

Cioran considerava o mar uma «enciclopédia do aniquilamento». Quanto ao céu, via nele um «pobre manual do Absoluto».
Absoluto! Uma palavra que parece ter perdido todo o sentido nos dias de hoje.
Que época miserável a nossa. Compare-se o «nosso» Sócrates com o da Grécia antiga e está tudo dito.

Da preguiça

A minha preguiça não tem limites. Porque é uma preguiça sonhadora. De resto, a preguiça é, como a solidão, um continente ainda não totalmente explorado.

Desabafo

O pouco «feed-back» que tenho neste blogue confirma-o: 99% dos meus pensamentos são impublicáveis, pela simples razão que, por uma razão ou por outra, seriam mal interpretados.

Da tristeza

Mais uma magnífica frase de Cioran: «Dans la tristesse tout devient âme».

Extrema direita



O cartaz diz tudo. Nos Estados Unidos a extrema direita está a endurecer o tom das suas críticas, a cada dia que passa. Para os fanáticos, o direito à saúde para todos sem excepção é uma medida comunista. Segundo um jornal, o presidente Obama recebe cerca de 50 ameaças de morte por dia.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Desabafo

Preferia ter sido compositor. Até Deus deve ser mais sensível à música do que às palavras.

Da espera

A pior coisa que se pode fazer na vida é esperar. Esperar é inútil. De resto, está tudo por fazer. Agora e sempre.

Da crise

Já o disse aqui, mas volto a repeti-lo: perdeu-se mais uma ocasião para mudar o estado das coisas. Aparentemente, ninguém aprendeu nada com a crise. Pelo que vejo nos telejornais e pelo que ouço nas ruas, está tudo à espera que a recessão passe, para voltar tudo à mesma. Na verdade, ninguém quer a mudança. É preciso coragem criatividade e coragem para mudar e cada vez há menos uma coisa e outra. Os portugueses estão como no tempo do fascismo: anestesiados e amedrontados. E como o medo é o mais poderoso dos estupefacientes, isto só ia lá com um remédio: uma dose cavalar de LSD para a população toda.

Cioran

Hoje, mesmo sozinho, estive muito bem acompanhado: passei o dia às voltas com Cioran. E se nem sempre concordei com ele, pude recolher várias pérolas.
Como esta, por exemplo: «O homem político renuncia à consciência; o solitário renuncia à acção. Um vive o esquecimento, o outro procura-o».

Outra frase dele: «Cada homem é o seu próprio mendigo».

Do tempo

O tempo é o cancro do Universo.

Aforismo

Para pensar... realmente pensar... seria necessário fazê-lo como se a morte não existisse.

Do sentido da vida

A prova de que a vida não faz sentido é que cada um de nós faz o que pode para lhe encontrar um.

sábado, 15 de agosto de 2009

Da imaginação

Marco Aurélio não gosta da imaginação. Nos seus «Pensamentos» (que acabei ontem de reler), passa o tempo todo a expulsar «os fantasmas da imaginação». Ele persegue a ««perfeição moral» (seja lá o que isso for) e defende uma «arte de viver» que passa pelo civismo absoluto. Afirma, por exemplo: «O que não é útil à colmeia, também não o é à abelha». Nesse sentido, propõe: «Corre sempre pelo caminho mais curto, que o caminho mais curto é o preferido da Natureza».
Ora a imaginação é exactamente o contrário: o caminho mais longo.

Aqui está uma boa definição para «imaginação»: o caminho mais longo.

Piratas



Esta semana, a PT foi notificada pela IGAC (Inspecção-Geral das Actividades Culturais), para remover do Sapo quatro sites de cariz ilegal, de 28 denunciados pelo Movimento Cívico de Antipirataria na Internet (MAPiNet). De acordo com a PT, os blogues visados, ainda que adstritos ao Sapo, «remetem para links externos à rede». Ao que parece, as páginas online visadas permitem fazer descarregamentos, não pagos, de filmes, séries de televisão, ou álbuns de música.
Segundo a imprensa, um dos blogues visados tem o endereço:blogdow- load.blogs.sapo.pt, onde se pode ler a ressalva: «Este site não hospeda nenhuns ficheiros. Apenas contém links de outras páginas disponíveis na net. Faça os downloads apenas para teste. Se gostar dos ficheiros compre, o Blog Download é completamente a favor da preservação dos direitos de autor».
Outro site cujo bloqueio foi requerido à PT é o cinema-em-casa.blogs.sapo.pt. Também este contém um aviso onde se lê: «Este Blog não tem como objectivo reproduzir as obras. O nosso único objectivo é ampliar a divulgação do material aqui exposto. Todos os links que se encontram no Blog, estão hospedados na própria Internet, somente indicamos onde se encontram».

Entretanto, no Reino Unidos, um grupo de cidadãos criou um Partido Pirata, semelhante ao seu congénere sueco que conseguiu chegar ao Parlamento Europeu, para defender a partilha de ficheiros para fins não comerciais
Aliás, na Suécia, o Partido Pirata sueco alargou já a área de acção e é candidato às próximas autárquicas, que decorrerão em 2010.
O líder do partido sueco afirma: «O Partido Pirata tem por objectivo mudar a legislação numa escala global, para encorajar o crescimento da sociedade de informação, uma sociedade caracterizada pela diversidade e a abertura».
O Partido Pirata sueco pretende ainda introduzir software de utilização livre nas escolas e nos órgãos de poder para melhorar a segurança nacional, reforçar o direito público ao acesso à informação e proteger a integridade e privacidade dos cidadãos.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Dos inimigos



Perante os teus inimigos, não lutes. Dança!

Do mal

Um dia, Marco Aurélio perguntou a si próprio: «O que é o mal?». Para logo responder: «Aquilo que já viste muita vez». Ou seja: o mal é a repetição. «As mesmas cenas de que estão cheias, hoje ainda, as nossas cidades e casas», escreveu ele nesse mesmo dia. Concluindo: «Nada de novo. Tudo é banal e efémero».
Muitos séculos depois, sinto o mesmo.
O mal é a rotina, o marasmo que o poder institui e defende a todo o custo. O poder (todo o tipo de poder) não está interessado na verdadeira mudança, pois só o ser verdadeiramente livre e criativo pode mudar. Ao poder só interessa o simulacro da criatividade, a miragem da inovação, a mentira das reformas permanentes.
O que é o mal? O mal é a alienação.

Pensamento

Magnífica frase de Marco Aurélio: «Sofre tanto um navio a desmantelar-se como quando o estão a armar».

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Desabafo

Enquanto pensador, sou um catavento: os meus pensamentos estão sempre a mudar de rumo.

Da escrita

Marco Aurélio deixou um conselho definitivo: «Não adornes com lantejoulas o teu pensamento. Fala pouco e não te enfronhes em muitas tarefas».

Dos turistas

Sentado na minha bicicleta, observo-os. Chegam, tiram fotografias, soltam um suspiro e vão-se embora.
São turistas baratos; quanto mais ricos, mais baratos são.

Da beleza

É fácil ser belo aos 20 anos, mas aos 70 já é outra conversa. Aos 70 pode ler-se no teu rosto o que foi a tua vida interior. É por isso que, para mim, não há beleza mais subtil e comovedora do que a dos anciãos.

Ficção rápida

Um dia, tocou o telefone e, quando atendi, uma voz que não conhecia disse-me: «Tu não me conheces, mas sei tudo sobre ti. Vivi três anos com a tua ex-mulher, que agora me trocou por outro. Quero ser teu amigo».
Como sou naturalmente curioso, e necessito de material para as minhas ficções, acedi a encontrar-me com o meu interlocutor.
Era mais baixo do que eu, mas mais encorpado. Nos seus olhos vi imediatamente a intensidade com que vivia e percebi o que atraiu a minha ex.
Passámos a noite nos copos e fiquei a conhecer a sua história nos mais ínfimos detalhes. Contudo, só fixei uma frase: «A tua mulher não gostava do teu sexo».
Mais tarde, fiquei com uma namorada dele, quando ele foi viver para o estrangeiro. Casei-me com ela, mas arrependi-me.

Da morte

Pode não ser de todo assim,
Mas supõe que a morte vem
E é linda de morrer.

Imagina a surpresa.

Imagina que te ama
E te espera desde sempre,
Para te fazer feliz.

Da melancolia

A minha melancolia tem necessidade de música. Como diz a Joana: «I love sad music».

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Pura realidade

Numa entrevista que li recentemente, o escritor americano Elmore Leonard (actualmente com 84 anos) afirma que algumas das suas personagens têm nomes de pessoas reais. Assegura que recebe dinheiro para o fazer. No seu último livro, «Road Dogs», por exemplo, há uma personagem chamada Danialle Karmanos, que lhe valeu 40 mil dólares. O marido dessa senhora quis também figurar no livro, mas como só pagou 5 mil dólares, Leonard deu esse nome a um cadáver. Na mesma entrevista, o escritor revela que tem um acessor que se encarrega de todas as pesquisas. «Trabalha para mim desde 1983 e chama-se Greg Sutter», informa ele. A revista (um magazine canadiano chamado «Vice») considera Elmore Leonard «the best crime novelist ever».

Os limites do controlo



Sou há muito fã de Jim Jarmusch. Adorei «Coffee & Cigarettes» e «Broken Flowers», por exemplo. Contudo, outros filmes não me convenceram totalmente, como «Uma Noite na Terra» (para apenas citar um).
De todos os filmes que vi dele, o que menos gostei é «Os Limites do Controlo» que, segundo um crítico do «Público», «convoca rituais de filme negro e ideais de samurai para descrever a missão de um assassino contratado».
Inteiramente filmado em Espanha, o filme pretende ser uma espécie de «fábula» filosófica, centrada no tema da consciência. «O que é que faz com que um indivíduo seja um indivíduo? Que tenha a sua consciência e não uma consciência ditada por outros? Que siga o seu caminho em vez de ir atrás do rebanho?», pergunta o cineasta.
O impávido fora-da-lei, interpretado por Isaach De Bankolé (na foto), é visivelmente inspirado pelas personagens principais de «Dead Man» e «Ghost Dog». Anda sempre impecavelmente vestido, com um fato que não despe nem para dormir, e bebe sempre duas bicas de cada vez, enquanto espera por umas caixinhas de fósforos que trazem dentro as instruções para a sua própxima missão.
Depois de o (e nos) passear por várias localidads em Espanha, Jim Jarmusch envia o seu herói aos confins da sua imaginação, com a missão de matar, com uma corda de guitarra, um poderoso capitalista que aqui encarna «uma representação dos poderes convencionais de todo o tipo, político, económico, cultural».
Trata-se de uma metáfora, portanto. Ou como afirma Jarmusch, de «uma metáfora de uma tomada de consciência e de uma afirmação da consciência contra todas as imagens e ideias que são impostas de fora».
Infelizmente, o breve discurso de Bill Murray (o assassinado) é, como quase todos os diálogos do filme, um repositório de frases feitas que já ouvimos antes em filmes de série B.
Bem filmado, com cenários imaginativos e personagens engraçadas (para dizer o mínimo), incarnadas por actores que é sempre bom rever (Tilda Swinton, John Hurt ou Gael Garcia Bernal), «Os Limites do Controlo» até podia ser um filme divertido, se não se levasse tão a sério e não fosse tão pretensioso.
O problema, parece-me, está no argumento, composto por ideias soltas e imagens avulso, habitadas por caricaturas sem verdadeira espessura dramática, que debitam banalidades supostamente filosóficas, destinadas a desvanecer-se no ar como bolas de sabão, mal saímos da sala de cinema para a rua.

Da imprensa

Menos leitores e menos publicidade. Não é só em Portugal que a imprensa escrita está a perder terreno. Em França, por exemplo, só o ano passado, os jornais diários nacionais perderam em média 2, 4 % de leitores e viram as suas receitas publicitárias cair 4,8. Em contrapartida, segundo o mesmo relatório, as revistas cresceram 5,5%, enquanto a imprensa gratuita subiu 18%.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

The Niagara experience







As cataratas do Niagara são, como se sabe, umas das atracções turísticas mais populares da América do Norte (fala-se de cerca de 14 milhões de visitantes anuais). Para mim era impensável estar ali tão perto e não dar lá um salto, apesar do Oscar Wilde ter escrito que «o Niagara é a segunda grande decepção da recém-casada».
A mim não me decepcionaram. As cataratas são bonitas e imponentes.
A primeira com que deparei foi logo a seguir à ponte que liga o Canadá e os Estados Unidos. Chamam-lhe «Véu de Casamento», fica do lado americano e tem 64 metros de altura por 340 de largura. A segunda catarata (dita da Ferradura) é menos alta (50 metros), mas mais larga (800 metros), debitando uma média de 170 mil metros cúbicos de água por minuto.
As cataratas podem ser vistas de frente, de cima (helicóptero), de baixo, de lado e até por detrás (contei pelo menos 15 agências que propõem diversos modos de gozar o espectáculo). Porém, para mim, a melhor maneira de as sentir é embarcar num dos vários «Maid of the Mist» (Noivas da Névoa), barcos que lembram os antigos cacilheiros e que levam as pessoas até muito perto do local onde toda aquela água cai com um ribombar colossal, elevando no ar uma verdadeira coluna de névoa.
O mínimo que posso dizer é que nunca esquecerei os momentos em que estive envolto em bruma, som e fúria, aos pés da Deusa, sentindo no rosto as suas lágrimas torrenciais. Ouvi com o corpo todo o pranto feliz que lhe dá existência, e aquela molha (apesar do impermeável que nos fornecem, ficamos completamente encharcados) lavou partes da minha alma que nem eu sabia existirem. Foi como se tivesse sido baptizado de novo, desta vez pela própria Natureza. Durante alguns momentos não havia barco, nem pessoas, só eu e aquele remoinho compulsivo dentro de mim, cobrindo-me de carícias molhadas. Foi um dos momentos mais eufóricos da minha vida e tinha que evocá-lo aqui de novo.

Nas Rochosas



No trilho que conduz ao glaciar, um esquilo, de repente, atravessa-se à nossa frente. É lindo e fofo e livre. O seu território é magnífico e imagino-me na sua pele enquanto o observo.
Será que tem predadores?
Uma hora mais tarde, são uns pássaros que chamam a minha atenção. Acho que são quebra-nozes, mas não tenho a certeza. Também eles são bonitos, mas não parecem muito simpáticos uns com os outros. Uma mulher atira-lhes pedaços de bolacha e assustam-se uns aos outros para apanhar os melhores bocados. Tal como os homens, têm que fazer prova de esperteza e mostrar-se mais fortes para conseguir alguma coisa.
Que vida!
Vêm-me à memória os menonitas que vi em Miette Hot Springs. Que gente tão estranha e fascinante. Eram várias famílias e todas tinham o mesmo ar rude e infeliz (impressão minha?).



Eles rosados, robustos, com aquele ar típico de lavradores, de gente que vive da terra e da leitura da Bíblia. Elas com uma touca ou um lenço na cabeça, envergando vestidos compridos muito simples. Pormenor engraçado: as filhas usam exactamente as mesmas roupas das mães, enquanto os rapazes são reproduções em miniatura dos pais.
Não posso deixar de reparar que a cada família corresponde um jipe ou uma carrinha com uma caravana atrelada. E que há caravanas e carros bem melhores do que outros. Por mais religiosos ou comunitários que sejam os homens, haverá sempre uns mais iguais do que outros. Os menonitas não parecem ser excepção.
Morrerei sem ter compreendido a estupidez humana. Não me parece que haja verdadeira inteligência no mundo e o significado da palavra consciência tem que ser muito relativizada.
Como seria o mundo se a proporção fosse completamente invertida e que as pessoas fossem, na sua maioria, sábias ou santas? Como seria um universo onde o bem e a solidariedade fossem a regra?
Será que num universo paralelo, Deus conduz experiências diferentes? Se existe, é bem provável que tenha criado uma infinidade de universos paralelos com realidades completamente diversas e que se entretenha a fazer comparações.
Estou a delirar! É sem dúvida por influência destas montanhas esmagadoras, destas florestas impressionantes que me rodeiam. A sua grandeza, a sua beleza estimula a minha imaginação. Na verdade, exaltam-me.



De súbito, dou por mim a pensar que gostaria de ser uma árvore no meio das outras. Ter esquilos a trepar por mim acima, sentir os pássaros a esvoaçar dentro de mim, balançar ao sabor do vento e meditar sem fim. Mas até para ser árvore é preciso ter sorte. Não gostaria de ser uma árvore numa rua de Lisboa, por exemplo. A ser árvore, que fosse aqui nas Rochosas, neste vale aos pés do Monte Edith Cavell, onde o ar é puro e os visitantes se mostram civilizados.

Dúvidas e certezas

No espelho que separa a realidade da ficção, não me (re)vejo.
Serei um morto-vivo?
Certo é que antes de eu a inventar, a minha vida não existia verdadeiramente.
Será a minha vida uma auto-ficção?
Em caso afirmativo (a hipótese não é totalmente descabida), porque teria ela um prazo de validade?
Que pensam (se é que dúvidas tão delirantes merecem reflexão) os meus habituais comentadores?
De qualquer modo, de uma coisa tenho eu a certeza: o meu mundo desaparecerá comigo. A vida é um mero parêntesis, numa frase que nunca chegarei a terminar.

Dave Douglas




Consegui, finalmente, «ouver» Dave Douglas, um músico que admiro há anos. Foi esta noite, no anfiteatro ao ar livre da Fundação Gulbenkian, onde o trompetista se apresentou com o seu projecto Brass Ecstasy, uma admirável fanfarra - com Vincent Chancey (trompa), Luis Bonilla (trombone), Marcus Rojas (tuba) e Nasheet Waits (bateria)- que logra, com simplicidade e elegância, levar a ousadia e criatividade do seu mentor por caminhos nunca antes percorridos. De Fats Navarro a Lester Bowie, passando por Enrico Rava, foram vários os trompetistas evocados neste concerto surpreendente que fez jus ao título do único álbum editado pelo grupo: «Spirit Moves».

Dúvida

Se perdesse o medo, perder-me-ia?

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