sexta-feira, 30 de julho de 2010

Albufeira



Raquel X 2



Algarve 2010






terça-feira, 20 de julho de 2010

K.

Há autores que leríamos sem fim. No topo da minha lista está Kafka. Há muitos anos que o leio e releio, mas doía-me pensar que já não havia mais nada dele para descobrir. Afinal estava enganado. Estão guardados no cofre de um banco suíço quatro caixas com textos e desenhos inéditos do escritor checo. Quem os lá colocou foi a secretária de Max Brod, o lendário amigo, que os deixou em herança às filhas. Porém, o estado de Israel reclama esses papéis, assegurando que Brod exprimiu o desejo deles serem todos entregues à Biblioteca Nacional de Jerusalém, após a sua morte. Resta agora esperar que o tribunal resolva depressa o conflito de interesses, para que o «tesouro» seja dado à estampa.
Que conto não escreveria K. com esta história, que lembra o velho ditado: «Ladrão que rouba a ladrão...»

domingo, 18 de julho de 2010

Museu da Electricidade



Povo







O povo é sereno. O povo é quem mais ordena. O povo isto, o povo aquilo. Povo é uma das palavras preferidas dos portugueses, sobretudo dos políticos que sabem todos, melhor do que ninguém, o que é melhor para a gente. É em nome do povo que governam, dizem. Já os reis o diziam. E bem sabemos ao que isso conduz.
De vez em quando, o manso povo tem um sobressalto. E faz uma revolução. Ou uma espécie de. Mas apenas para, rapidamente, mudar de donos. Não há nada a fazer. Alienado, préformatado, assustado, oprimido, enganado, o povo sufoca sob o peso dos impostos, hoje como na Idade Média.
No Museu da Electricidade está uma exposição dedicada ao Povo, que pretende olhar «a história do povo a partir da sua actualidade». É, pelo menos, o que diz o folheto informativo, distribuído gratuitamente aos visitantes. O desdobrável esmiuça o conceito, mas sobretudo identifica as quase 300 obras que compõem este amontoado de imagens que vale a pena ver, sobretudo, pela oportunidade que proporciona de descobrir obras que não conhecíamos ou das quais mal nos lembrávamos.
Muitas dezenas de artistas (sobretudo nacionais) estão representados, de Álavro Cunhal a Jeff Koons, passando por Almada Negreiros, Eduardo Nery, Ana Hateherly ou Amadeo de Souza Cardozo, por exemplo.
A exposição é gratuita r estará patente até 19 de Setembro.

Sesimbra (ontem)

Sesimbra (ontem)

Auto-retrato

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Jonathan Swift

De repente, para minha grande surpresa, encontro em Jonathan Swift uma opinião que julgava só minha: «Nenhum homem sábio desejou alguma vez ser mais novo».
Já agora, outro pensamento do mesmo autor, com o qual me vejo obrigado a concordar: «Há quem tenha mais cuidado a esconder o seu juízo do que a sua loucura».

Atenção aos degraus

Uma preciosa indicação de Walter Benjamin, que estou a ler «religiosamente»: «O trabalho numa prosa de boa qualidade tem três níveis: um musical, o da sua composição, um arquitectónico, o da sua construção, e por fim um têxtil, o da sua tecelagem».

terça-feira, 13 de julho de 2010

Torres Novas (sábado)


Fim de semana em Torres Novas sob o signo de Miguel de Unamuno, mais precisamente de um livrinho intitulado Portugal, Povo de Suicidas. Escrito há cem anos, mais coisa menos coisa, o pequeno opúsculo agora reeditado pela Abismo (magnífico nome para uma editora dos nossos dias), permanece absolutamente actual. «Portugal parece a pátria dos amores tristes e dos grandes naufrágios», escreve o filósofo espanhol. Considera-nos um «povo brando, pacífico, sofrido e resignado» e afirma, sempre cheio de razão: «o português é constitucionalmente pessimista».
Em duas ou três ocasiões, sempre a propósito, lembra-nos o célebre verso do soneto de António Nobre que clama: «Amigos/ Que desgraça nascer em Portugal!». Outro português que Unamuno cita abundantemente é Manuel Laranjeira que numa carta para Espanha escreveu: «... sobre nós pesa a herança trágica, secular, duma ignorância podre e duma corrupção criminosa». E mais adiante: «... tenho a impressão intolerável e louca de que em Portugal todos trazemos os olhos vestidos de luto por nós mesmos».
Manuel Laranjeira é o tal que afirmava que «neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se: tudo o que é canalha triunfa». E que suicidou mesmo, tal como o fizeram Antero de Quental, Camilo Castelo Branco e Soares dos Reis, para apenas citar três portugueses que Unamuno conhecia.
«A desilusão pode ser uma força de vida», assegura Miguel de Unamuno a dado passo. Não sei se concordo, mas espero que seja bem verdade outro dos seus aforismos: «A ira mais terrível é a dos mansos».


quinta-feira, 8 de julho de 2010

Autobiografia mínima

Não me venham dizer que a infância é um tempo maravilhoso. A minha não foi. A juventude foi arrebatadora, mas sofri mais do que gozei. E na chamada «idade da razão» pouco mais fiz do que trabalhar no duro para criar os meus filhos. Em boa verdade, a vida só começou a ser verdadeiramente generosa para mim já perto dos 50 anos.

Dos blogues

Um blogue dá-nos a ilusão de não falarmos sozinhos. Mas enganam-se os que pensam ter uma audiência. Só temos um leitor de cada vez.

Declaração de amor

Gosto tanto de ti que gostaria de ser teu filho.

Reler

Voltar a um livro passados muitos anos, é como regressar a um país que se visitou em tempos. Já não vamos encontrar as mesmas coisas, e ainda bem.

Sonho

Seguimos, a Raquel e eu, num eléctrico com as janelas abertas. De repente, ouvimos vários tiros. O veículo pára e vejo que, nos prédios em redor, está toda a gente à janela ou em cima dos telhados. Olham todos na mesma direcção e ouço alguém dizer: «Está a decorrer uma revolução». Apesar do tiroteio, ninguém parece ter medo. Há mesmo um clima de festa no ar. No entanto, quase a meu lado, uma pessoa é atingida por uma bala em pleno rosto e, antes que me aconteça o mesmo, acordo em sobressalto.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Alberto Manguel

Declarações de Alberto Manguel ao jornal Público: «Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor, é preciso ser estúpido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de calças de ganga rasgadas. É preciso ser mesmo estúpido para isso. Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual.»

E também: «A escola, a universidade, deveriam ser o lugar onde a imaginação tem campo livre, onde se aprende a pensar, a reflectir, sem qualquer meta. Mas isso é algo que estamos a eliminar em todo o mundo. Estamos a transformar os centros de ensino em centros de treino. Estamos a criar escravos. Somos a primeira sociedade que entrega os seus filhos à escravidão, sem qualquer sentimento de culpa. Estamos a criar seres humanos que não confiam nas suas próprias capacidades e que começam a acreditar que o seu único objectivo na vida é arranjar trabalho para conseguir sobreviver até chegar à reforma – que também já lhes estão a tirar. O que estamos a fazer é horrível. Não tem nada a ver com os valores da Internet, com a competência do professor, faz tudo parte de um conjunto. Somos culpados enquanto sociedade.»

Vale a pena ler a entrevista toda. Está no suplemento Ipsílon de sexta-feira passada.

Auto-retrato

CCB




sexta-feira, 2 de julho de 2010

Três auto-retratos

Colecção Berardo



No CCB está mais uma montagem de obras seleccionadas da colecção Berardo, a que se juntaram outras vindas de instituições estrangeiras. Subordinada ao tema da consciência social, a mostra recebeu o título «Tudo o que era sólido e estável dissolve-se no ar» (ao que parece, uma frase do Manifesto Comunista). O tema é suficientemente vasto e vago para permitir englobar tudo o que se queira e permite as mais diversas conceptualizações. Mais compensador do que estar a matar as meninges com especulações é percorrer as salas na esperança de encontrar, no meio de peças que já conhecemos de cor, obras que nos surpreendam agradavelmente e nos inspirem pensamentos inéditos. Entre as várias surpresas agradáveis com que deparei ontem no CCB, impossível não destacar a sala dedicada a uma instalação dominada por um submarino feito em taipa por uma comunidade índia brasileira. Mesmo ao lado, uma chuva de objectos concebidos pelos mesmos índios lembra-nos que, por mais que racionalizemos, a arte materializa sonhos e temores cujo verdadeiro significado nos transcende em absoluto. Eu recrio o que vejo para que o que vejo me recrie.

Para quem mora lá...


Prosseguindo a minha visita ao CCB fui dar a um espaço onde se encontra uma exposição intitulada Os Gémeos - Para Quem Lora Lá, O Céu É Lá.  Trata-se de uma instalação curiosa, engraçada, concebida por dois irmãos de S. Paulo, no Brasil. Gustavo e Otávio Pandolfo apelam a um imaginário infantil, onírico, que mistura a fantasia com a crítica social. Naíf e surrealista, a sua obra deve tanto aos modelos folclóricos do seu país como à cultura hip hop internacional. 

Tresler


Imagens realizadas durante a visita à exposição Algumas obras a ler — Colecção Eric Fabre, em exibição no Museu Berardo (CCB). A exposição, que estará patente até 22 de Agosto, é para ser percorrida como uma biblioteca, onde os livros estivessem todos abertos na página mais importante. O problema, se assim se pode dizer, é que quando começas a «ler» o que está à tua volta, até o mais ínfimo detalhe te fala de ti próprio e, portanto, treslês (segundo o dicionário online, há três definições possíveis para tresler: «ler trocado ou às avessas»; «perder o siso de tanto ler» e «ler em demasia». Em vista do que quero dizer, aceito as três.

Centenário da república


Na Cordoaria Nacional,está uma extensa e muito didática exposição sobre o século XX português. A mostra propõe uma leitura dos momentos fundamentais da nossa história, no ano em que se comemora os cem anos da implantação da república em Portugal. É talvez uma das mais monumentais exposições históricas realizadas entre nós e as soluções cénicas encontradas impressionarão, sem dúvida, muitos dos visitantes. Para mim, o que mais sobressai desta massa esmagadora de informações e fotografias resume-se a isto: se estávamos mal no tempo da monarquia, não estamos melhor agora (com rei ou sem ele estaríamos neste momento invariavelmente integrados na União Europeia com tudo o que isso implica). Ou seja, com a implantação da república, apenas mudámos uma clique por outra.

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