sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Menos que zero

J. D. Salinger morreu. Segundo vários jornais, Bret Easton Ellis terá escrito no Twitter: «Boa! Morreu, finalmente. Estou à espera deste momento, desde sempre. Esta noite, champanhe!». Do autor de «Menos Que Zero», não me espanta. Sempre teve a mania que é insolente e melhor do que os outros, o que ele quer é publicidade. Nem sempre o talento é admirável!

A piada do dia

O presidente do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado, considera que a tributação sobre bónus e rendimentos variáveis de administradores e gestores pode levar a que “gente muito valiosa” abandone Portugal para trabalhar noutro país.
Que cambada!!!
Apetece acrescentar: «Boa viagem, que não fique cá nem um. E já agora que levem os seus "amigos" políticos com eles».

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Pensamento do dia

Edward Weston afirmava que a beleza é subversiva. Compreendo perfeitamente o que quer dizer. Contudo, actualmente, tendo a pensar que a beleza é capaz de ser mais uma forma de alienação. Nos dias que correm, a necessidade de afirmação da fealdade (ou da decadência, que é outra forma de fealdade) parece-me uma atitude mais revolucionária.

O Laço Branco



Numa pequena aldeia rural do Norte da Alemanha, nos primeiros anos do século XX, sucedem-se os acidentes e os mistérios. O médico da terra quase morre ao cair do cavalo, porque alguém lhe estendeu uma armadilha. Uma mulher morre porque o chão de uma velha fábrica abate. Crianças são chicoteadas por chegarem tarde a casa… Todos estes actos, e outros que não cito propositadamente, dão origem a vinganças terríveis e enigmas insolúveis.
O Laço Branco é uma longa meditação sobre a natureza humana e as regras em que assenta a nossa sociedade. Entre as muitas questões que o filme suscita, retive essencialmente esta: nascemos ruins, ou é a educação que recebemos que faz de nós monstros em potência? Se nascemos maus, como pretendem alguns, uma má educação não ajuda nada. Parece-me ser uma das conclusões possíveis deste filme admirável, todo filmado a preto e branco, onde há rostos inesquecíveis e inúmeras cenas de cortar à faca. Os grandes planos remetem para o cinema expressionista da época e a maneira como a paisagem é filmada dá vontade de mergulhar nela.
Poucos cineastas sabem usar tão bem o silêncio como Michael Haneke, um perfeccionista que, uma vez mais, conseguiu surpreender-me, fascinar-me e inquietar-me.

Abaixo o tédio



Bored to Death, série televisiva que estreou em Setembro de 2009 na HBO, é uma farsa. Ligeira e desconcertante, põe em cena três personagens que são um mimo, interpretadas por Ted Danson, Zach Galifianakis e Jason Schwartzman (de trás para a frente na foto). Este último interpreta Jonhattan Ames, criador da série e também a sua personagem principal: um escritor que só publicou um livro e perdeu a inspiração, pelo que decide tornar-se detective privado em busca de histórias. A namorada deixou-o e ele apoia-se em dois amigos do peito: George Christopher (o genial Ted Danson), editor de revistas comerciais, e Ray Hueston (Zach Galifianakis, que recentemente se destacou como actor no filme A Ressaca), criador de bandas desenhadas.

Diálogos hilariantes e situações caricatas sucedem-se nesta série que é a prova provada de que os argumentistas mais criativos e entusiasmantes se transferiram, nos Estados Unidos, para o admirável mundo novo das séries televisivas. Infelizmente, esta primeira temporada conta apenas com oito episódios.
Resta referir que a belíssima canção do genérico é de autoria de Jason Schwartzman, sobrinho de Francis Ford Coppola e primo de Nicholas Cage, que tem um projecto musical intitulado Coconut Records. Não conheço o seu primeiro álbum, Nighttimming, publicado em 2008, mas o segundo, Davy, lançado o ano passado, mostra que é um grande escritor de canções.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Diálogo caseiro

- O que é que estás a fazer?
- Estou a escrever disparates.
- Ah, estás no teu blogue!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Da infidelidade dos cisnes



Os cisnes sempre me fascinaram. Para além da sua elegância natural, há o simbolismo a eles associado e os mitos a seu respeito, como o do seu canto extremo. Por isso, só me podia atrair um artigo que li nas páginas de ciência do Diário de Notícias. Passo a reproduzir (com a devida vénia):

«Até os cisnes, espécie que por natureza tem um par para a vida, põem em causa a ideia da fidelidade eterna. Um casal destas aves está a intrigar os veterinários da reserva de Slimbridge, no condado de Gloucestershire, Inglaterra. É que depois de acasalarem juntos durante dois anos, regressaram este ano da migração de Inverno com novos parceiros. Situação que, pela raridade, está a despertar curiosidade.
Ao que os responsáveis da reserva britânica explicaram à BBC, esta é apenas a segunda vez, em mais de quatro décadas, que um "divórcio" como este foi registado entre os mais de quatro mil casais de cisnes que, ao longo desse tempo, foram passando pela reserva. É também por isso que os cientistas descrevem esta situação como algo "bizarro".
As primeiras suspeitas de que algo não estaria a obedecer à norma natural surgiu quando o cisne macho, Sarindi, regressou da sua migração anual para o Árctico russo sem a parceira que tinha há dois anos, Saruni. Ao invés, com ele chegou uma nova fêmea, que os veterinários logo baptizaram de Sarind.
Confrontados com este facto, os responsáveis da reserva de Slimbridge acreditaram que Saruni teria morrido durante a migração. Isto tendo em conta que os casos de cisnes que encontram novos parceiros após a morte do anterior não são raros. No entanto, e contrariando as conclusões iniciais, poucos dias depois foi a vez da fêmea Saruni chegar ao santuário. Também ela trazendo consigo um novo macho, baptizado de Surune.
Ao longo de vários dias, os veterinários e investigadores foram observando os dois casais e chegaram à conclusão que a relação entre Sarindi e Saruni tinha mesmo terminado, dando lugar a uma nova relação. De tal forma que, segundo Julia Newth, investigadora de vida selvagem em Slimbridge, o ex-casal mostrou não reconhecer o anterior parceiro através de qualquer sinal de reconhecimento ou saudação. Isto apesar de estarem a ocupar a mesma parte de um pequeno lago da reserva.
Conforme explicou à BBC Julia Newth, esta situação surpreendeu por completo os funcionários da reserva, uma vez que os cisnes tendem a manter-se leais e a construir relacionamentos para a vida inteira. "Enquanto ambos estiverem vivos a tendência é que se mantenham juntos", adiantou esta investigadora, salientando que "se eles mudam de parceiros, isso normalmente é uma consequência da morte de um deles e não por escolha própria".
Para já os responsáveis da reserva e os veterinários preferem não estabelecer uma qualquer razão concreta para o fim deste relacionamento. No entanto, quando questionada, Julia Newth admite que uma possível explicação para esta rara separação poderá estar relacionada com uma "incapacidade de reprodução de um dos parceiros". Isto porque, acrescenta, "o casal já estava junto há dois anos, mas, até agora, nunca tiveram filhotes". Mas sublinha que "é difícil dizer com certeza a razão" concreta de um "divórcio" que está a intrigar os cientistas.»

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Pensamento do dia

Já em 1843, Feuerbach escrevia: «A nossa época prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, o parecer ao ser».

domingo, 24 de janeiro de 2010

Um homem sério



Não há, nos Estados Unidos, muitos autores de filmes capazes de me suscitar tanta admiração como Ethan e Joel, os manos Coen. De Sangue por Sangue a Este País Não É Para Velhos, já demonstraram muitas vezes que estão entre os melhores.

No entanto, não consigo de A Serious Man, sem reservas. Vou tentar explicar porquê.

Trata-se, como se sabe, da história de um judeu, professor de física numa localidade do Midwest americano. Um homem banal, nem bonito nem feio, da classe média, a quem a vida, quase de um dia para o outro, começa a correr mal. Um aluno coloca-o perante um conflito moral que não consegue resolver, a mulher quer divorciar-se para casar com um víuvo seboso, o vizinho dá-lhe cabo do juízo, para já não falar de um irmão doente e de um filho igualmente problemático.

Qual Job moderno, Larry Gopnik (magnificamente interpretado por Michael Stuhlbarg) descobre assim que nem o homem mais sério do mundo consegue levar uma vida normal e equilibrada. E que a religião nunca traz ajuda quando mais necessitamos dela.

Entre o ensaio filosófico e a fábula negra, A Serious Man mergulha-nos num estranho caldo onde se misturam a cultura judaica urbana com a América profunda, deixando-nos um sorriso amargo a bailar na boca. Pensamos em Woody Allen e noutros humoristas judeus americanos, mas sobretudo em Kafka.
Apesar de cenas fabulosas (como o diálogo com o aluno asiático que procura suborná-lo, o encontro com o rabi que se serve do parque de estacionamento em frente para lhe dar lições de moral, ou o sonho em que faz amor com a vizinha, para dar apenas três exemplos), e de actores muito bem dirigidos, a par do habitual virtuosismo cinematográfico, o filme deixou-me uma sensação de incompletude, digamos assim. Na minha modestíssima opinião, falta-lhe o golpe de asa que o transformaria na obra-prima que quase é.
Dito isto, resta-me acrescentar: o filme começa com uma curta história que, essa sim, é absolutamente genial!

sábado, 23 de janeiro de 2010

Pensamento do dia

Todos os dias viro uma página. Ou seria melhor dizer: todos os dias o mundo me arranca uma página?

Da arte

Uma fotografia não é arte. A não ser que esteja numa galeria ou num museu. O que é, evidentemente, absurdo.


Aliás, toda esta história é um disparate: não tenho o mínimo respeito por esses «iluminados» que decidem o que é arte ou não.

Cada vez mais, a arte é uma «reserva» de (e para) supostas elites.

Aquilo a que se convencionou chamar arte é (e sempre foi) uma forma de religião. Os críticos (e nessa categoria englobo curadores e congéneres) são uma espécie de padres: só um certo tipo de «fé» muito particular, permite que se acredite neles.

Só há uma arte: a arte de viver!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

La griffe noire



2010 está a revelar-se um ano azíago; quase todos os dias tem morrido alguém que teve alguma importância para mim. Acabo de saber que faleceu Jacques Martin, aos 88 anos. Este antigo colaborador de Hergé (o «pai» de Tintin), criou Alix e as suas aventuras que se passam na Antiguidade. Os seus livros foram muito importantes para a criança que fui, nomeadamente quando vivia ainda no Congo, permitindo-me viajar no tempo e no espaço, até à Roma antiga e ao Egipto, incendiando-me a imaginação.

Do olhar



Susan Sontag afirmou um dia: «Tudo se torna belo, ou pelo menos interessante, se lhe aplicarmos um olhar suficientemente exercitado».

Pensamento do dia




Há fotos mais certeiras do que outras. Mas todas dizem a mesma coisa: tudo desaparecerá em breve.

Da fotografia



Acabo de ler Image Makers, Image Takers, um volumoso livro editado pela Thames & Hudson. Subintitulado «The essential guide to photography by those in the know», o livro consiste numa colectânea de entrevistas a fotógrafos e editores de fotografia. A entrevistadora, Anne-Celine Jaeger, optou por colocar a todos mais ou menos as mesmas questões. O que me deu a ideia de me confrontar com as suas perguntas. Eis o resultado.

Quando é que decidiu tornar-se um fotógrafo?
Recordo o momento exacto: foi em 1974. Estava há cinco anos em França quando, um belo dia, recebi a notícia de que tinha havido uma revolução em Portugal. Comprei uma Nikon FM preta, com uma lente de 50mm 1.4, a pensar no meu regresso a Lisboa. Não ia ficar em Portugal (só voltei definitivamente em 1976) e queria tirar fotografias de tudo e de todos.

E hoje, como vê a fotografia?
Por causa do seu lado «mágico», é muito fácil ficar viciado na fotografia. Mas, na minha opinião, ninguém se torna fotógrafo de um dia para o outro, mesmo se, actualmente, toda a gente tira fotografias. Por mim, só considero fotógrafos as pessoas obcecadas pelas possibilidades do que estão a fazer.

Está, pois, obcecado pela fotografia?
Sem dúvida. Tanto pelo acto de fotografar, como pelas próprias máquinas em si, para já não falar das lentes. Um fotógrafo é também um coleccionador. De imagens e de artefactos. Ora, como se sabe, nenhuma colecção tem fim.

Tem muitas máquinas?
Neste momento, a funcionar, apenas seis. Quatro digitais e duas analógicas

Faz fotografias há mais de 35 anos. Consegue calcular quantas fotografias já fez?
Impossível sabê-lo. De resto, rasguei, ou apaguei, a maior parte das minhas fotografias. Guardo apenas as fotos que fazem justice ao que vi e senti no momento de as tirar.

Continua a usar máquinas analógicas?
Muito raramente. Tenho a nostalgia da época do filme, sem dúvida, mas as máquinas digitais são hoje muito melhores do que as digitais, de todos os pontos de vista.

Sendo as máquinas actuais tão boas, acha que os conhecimentos técnicos ainda são determinantes para tirar uma boa fotografia?
Depende do que se quer. No meu caso, não. Não quero fazer arte, nem quero ser aclamado pelo mundo. Tudo o que pretendo é calar este bicho dentro de mim. Ou, pelo menos, acalmar esta fome insaciável de ver e sentir o que me rodeia. Sou o fotógrafo mais associal do mundo e o menos preocupado com a perfeição. Privilegio acima de tudo a espontaneidade, a frescura, a autenticidade. Tudo palavras que soam hoje terrivelmente anacrónicas, para não dizer pirosas.

Está sempre a tirar fotos?
Não. Mas acontece-me, muitas vezes, lamentar amargamente não ter comigo uma máquina.

Como é que decide que uma coisa merece ser fotografada?
Na verdade acho que tudo, absolutamente tudo, merece ser fotografado. Mas acabo por fotografar apenas as coisas e as pessoas que se impõem a mim.

Impõem como?
Isso gostava eu de saber. É algo intuitivo, irracional. De repente, um pormenor, um rosto ou uma situação chamam a minha atenção. Na verdade, só fotografamos pormenores. Quando apontamos uma máquina ao mundo é para saber porquê. Em vão o questionamos: o mundo gosta de manter os seus segredos. Uma fotografia não é uma resposta para o que quer que seja. As fotografias limitam-se a levantar questões. Aliás, há muito que deixei de procurar respostas seja para o que for. Alimento-me exclusivamente de novas perguntas.

Onde vai buscar a inspiração?
Ao mundo. Não há nada mais inspirador do que o mundo. Tudo o que vejo me inspira.

O que torna uma foto melhor do que outra?
Nenhuma foto é melhor do que outra. Há apenas fotos que te dizem mais do que outras, por uma razão qualquer. As fotos não falam da mesma maneira a toda a gente. Uma foto que não te diz nada a ti, pode representar tudo para mim. Acredito, no entanto, que há fotografias, ou conjuntos de fotografias, que têm a força e a universalidade de uma sinfonia de Beethoven ou de um poema de Rimbaud. O que lhes confere esse poder? Verdadeiramente, só Deus sabe.

Pura realidade

Num café das Amoreiras, de repente, um homem chama a minha atenção. Parece olhar para mim, mas não posso ter a certeza porque está de óculos escuros. Estamos num centro comercial e temos ambos o computador portátil aberto em cima da mesa. A expressão do homem é neutra, mas o facto de não ver os seus olhos perturba-me ao ponto de me impedir de escrever. De repente, vejo-o cair para o lado e sobressaltar-se. Afinal estava a dormirtar: os óculos escuros eram para que ninguém o percebesse.

Do instante decisivo

Se estivessemos verdadeiramente acordados, todos os instantes seriam decisivos.

Da memória e da imaginação

Recordar é imaginar o que aconteceu. Imaginar é recordar o que poderia ter sido.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Da amizade e do tempo









Como diria Susan Sontag, todas as fotos se tornam emocionantes com o tempo.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Habibiti



Ainda não tinha colocado a Habibiti no blogue. É imperdoável!

Raquel a preto e branco e a cores


Contra


O primeiro grande disco de 2010 chama-se Contra e é dos Vampire Weekend, um quarteto de Nova Iorque que, há dois anos já me tinha conquistado com a sua inteligente e divertida pop infectada de ritmos africanos. Com estas dez novas canções a banda rasga novos horizontes, acolhendo agora também influências caribenhas e sul-americanas. Já o ouvi várias vezes e posso assegurar: Contra é um daqueles discos que quanto mais se ouve mais se gosta.

http://www.youtube.com/watch?v=1e0u11rgd9Q

sábado, 16 de janeiro de 2010

Da fotografia

Mais do que olhar gosto, de observar.

E porque certos detalhes me fascinam, cada vez que tiro uma fotografia, interpelo o mundo (sabendo que a únicas respostas possíveis são as próprias questões que formulo).

Na verdade, as respostas não existem; apenas pressentimentos. Ou seja, emoções.

Sempre que tiro uma fotografia, é a mim próprio que a tiro.

É sobre mim próprio que atiro.

No fundo, sou o meu único alvo. Não por escolha, mas por destino.

Só a morte me aquietará.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Auto-retrato


Promenade dominicale (I)








«Dire que jamais il n'avait pu s'empêcher, en se promemant, d'imaginer des choses et de faire de la littérature! Mais c'était justement cela qui faisait la richesse desdites promenades, et leur agrément toujours renouvelé.»

Robert Walser, La Rose

Da liberdade

Só os escravos pensam que a liberdade se conquista. Na verdade, é mais fácil ser feliz do que ser livre.

Robert Walser



Estou a ler A Rosa, o último livro publicado por Robert Walser, em 1925. O livrinho reúne um conjunto de quatro dezenas de textos, que formam um «bouquet» admirável. Não são contos, nem simples apontamentos, mas pequenas histórias que se lêem como se lê uma alma. Poucas escritas são mais simples ou mais comoventes do que esta. Reconheço-me em cada palavra.
Logo no primeiro texto, intitulado «Wladimir», Walser diz da sua personagem: «Nunca conheci um ser tão satisfeito e insatisfeito ao mesmo tempo. Ninguém era mais rápido, nem mais indeciso». Mais adiante, afirma: «Sonhava com tudo, para o esquecer logo de seguida». Dir-se-ia que fala de mim.
O texto conclui com este aforismo: «As cópias também podem ter o seu encanto, mas só a originalidade tem real valor».
Grande Walser, pequeno Alves.
Para quem não saiba, Robert Walser nasceu em 1878 no cantão de Berna, na Suíça. Viajou imenso, teve várias profissões e acabou por dedicar-se à literatura, graças a umas «economias». Em 1929 foi internado num hospital psiquiátrico. No dia de Natal de 1956, saiu para um passeio na neve e caminhou até à exaustão. Para morrer.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Fluviário de Mora (Abstractos)




Retratos












































































De baixo para cima: Joana e Samuel; Fernando e São; Daniel e Raquel (Mora, 7 de Janeiro de 2010)

Ficção rápida (com foto)


O primeiro disse: «Não quero que me compreendam, pois isso não é possível. Quero que me amem».
O segundo riu e afirmou: «Não quero que me amem, pois o amor é uma quimera. Prefiro que me compreendam».
O terceiro gracejou: «Pois eu quero que se lixem todos. Não compreendo ninguém, mas amo algumas pessoas».
O quarto optou por não dizer nada, pensando: «Que grandes parvos!»

Fogo

No meu sonho, o meu irmão morto ia num carro que já não possuo, que logo se transformou numa avioneta, onde ele ia pendurado no trem de aterragem. No preciso instante em que fiz o esforço de acordar, com medo que ele caísse, o avião embateu num poste de electricidade que se desmoronou incendiando-me a cama.

Cais Sodré





segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Lhasa

Estou em estado de choque: acabo de saber que morreu uma das minhas cantoras preferidas. Lhasa (na foto) tinha 37 anos e lutava, há quase dois anos, contra um cancro da mama.
Segundo o comunicado do manager publicado no perfil do MySpace da cantora, ela faleceu «pouco antes da meia-noite» do ano novo.
Na primeira metade do ano passado, Lhasa publicara um novo disco cujo título era o seu própriuo nome. Na altura escrevi: «Cantado em inglês, este é, sem dúvida, o seu álbum mais íntimo e perturbador. Para lhe fazer justiça é preciso gostar de canções tristes e crepusculares (onírico e solitário, o álbum já foi descrito como uma viagem ao fim da noite)». Nessa altura ela já estava doente, mas eu não o sabia.
Lhasa de Sela nasceu em Big Indian, uma pequena localidade nas Montanhas Catskill, no estado de Nova Iorque e tinha sangue mexicano. Os pais sempre ouviram muita música, desde clássicos americanos e mexicanos até música árabe, cigana e japonesa, o que explica as múltiplas influências que se ouvem nos seus discos. Lhasa cantava, pelo menos desde os 13 anos, mas foi em Montréal no Canadá (onde veio a falecer), que a sua carreira musical verdadeiramente começou, ao lado do guitarrista (e cineasta Yves Desrosiers). Da colaboração entre ambos nasceu La Llorona, um belíssimo primeiro álbum editado em 1997 e que conheceu, nalguns meios, um êxito retumbante. Algum tempo depois, Lhasa veio para a Europa, onde reencontrou as suas três irmãs em Bourgogne, «performers» num circo. Juntas, criaram um espectáculo, que estreou no Verão de 1999 e que está, pelo menos em parte, na raiz de The Living Road, o seu segundo disco, parcialmente composto no Sul de França e que rompeu um silêncio discográfico de cinco anos. O álbum mistura folk mexicano, canções francesas e baladas hispânicas e é cantado em francês, inglês e castelhano. Por vezes, Lhasa cantava também em português e árabe, porque a sua música não conhecia fronteiras e procurava unir diversas tradições populares com experiências mais contemporâneas e experimentais. As suas letras falam-nos de personagens reais, mas também de sonhos, devaneios e utopias. Ouvi-las é ouvir o que há de mais profundo em nós.

PS - 2010 começou há quatro dias e já tive que escrever dois obituários sobre músicos de quem gostava e que morreram prematuramente. Não podia estar mais triste.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

2010



Primeiras fotos de 2010 (Canon Ixus 100 IS).

Um profeta



A poucas horas do ano acabar, fomos, a Raquel e eu, ao Corte Inglês ver Um Profeta de Jacques Audiard. Tinha adorado De Tanto bater o Meu Coração Parou, mas com este novo filme Audiard voltou a sacudir-me dos pés à cabeça.  De tal modo que, à última hora, tive que acrescentar Um Profeta à minha lista dos melhores filmes de 2009, já publicada neste blogue.
Quase integralmente filmado na prisão, Um profeta conta-nos a terrível (e irresumível) história de um jovem detito árabe (Malik El Djebena, magnificamente interpretado por Tahar Rahim), que em seis anos vai tornar-se no líder de uma nova organização criminosa, vingando-se de um gangue corso que quase o tinha escravizado. Extremamente perturbador e angustiante, Um Profeta ganhou o Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes de 2009 e é o candidato francês ao Óscar de melhor filme estrangeiro

Vic Chesnutt


A voz, estilhaçada, era um espelho do seu corpo quebrado.
Todos os seus discos soavam como desepedidas.
Desde que ficara paralítico, aos 18 anos, em consequência de um acidente de automóvel, Vic Chesnutt fazia música como quem morre.
Já por diversas vezes tentara suicidar-se.
Na noite de 25 de Dezembro não acordou mais.
Ficam os discos e os vídeos, alguns dos quais se podem ver no YouTube.

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