terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Por vezes...

por vezes
uma palavra basta
para me vestir

outras vezes
sofrer
dá-me para rir

Árvores

O silêncio dos poemas


de um lado, as palavras
do outro, as imagens

como num filme mudo
ou num sonho perdido:
o silêncio dos poemas


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Cais do Sodré

 

Cais das Colunas

 

Cais das colunas

Pôr do sol sobre o Tejo


Golden hour


domingo, 1 de novembro de 2015

Dez sonetos imperfeitos

1.

Na sala de espera do dentista
um rio improvável corre 
no interior de um vulcão.
É uma fotografia cheia de cinzas

provavelmente tirada no Inverno.
O céu, cheio de nuvens, parece morto,
suspenso de um pensamento 
enrolado sobre si mesmo.

Folheando uma revista inútil
com uma apreensão de criança
digo para mim mesmo:

“Quando a morte chegar
encontrar-me-á pronto
para tudo recomeçar”.

2.

Mal ouso escrever
e, no entanto, não consigo
deixar de o fazer.
Se não por teimosia

será por desespero?
Na verdade, não é
assim tão estranho;
escrevo desde criança.

E que escrevo eu?
Deslizo pelas palavras
com as ideias de sempre:

estranhas e negras;
tão estranhas e tão negras,
como as que aqui estão.

3.

Tenho sessenta e seis anos
e passo uma boa parte das manhãs
a escrever no café do costume,
como se quisesse nascer de novo.

Raramente entro em erupção,
sou um vulcão adormecido
há demasiado tempo já.
Pálida cópia de Pessoa, escrevo

com palavras agastadas
poemas quase inertes
que ninguém lê na verdade

e que abandono por aí.
Mereço isto? Claro que sim.
Caso contrário calar-me-ia.

4.

O céu hoje parece o mar
cheio de espuma e tão estranho
que a cidade parece afogar-se
num pânico sem perigo.

Sob a ameaça da chuva
o mundo parece interrogar-se
e o seu silêncio de tão tóxico
bule-me com os nervos.

Fecho os olhos e imagino
sem grande convicção
ser uma árvore ou um jardim,

mas são sonhos como este
que me levam a falhar poemas
uns atrás dos outros.

5.

A minha imaginação aprisionou-se
e o meu corpo envelheceu.
Agora vivo uma vida desconhecida
numa ilha no meio da cidade.

As palavras de outrora
já não me ouvem
e seguem caminhos estreitos
que não controlo de todo.

É como se vivesse num museu
onde amealhei tesouros
que já nem a mim me interessam.

Mesmo se não conduz a nada
a vida que levo hoje em dia
é, sem dúvida, a melhor que vivi.

6.

De repente, o verde do jardim
ficou mais verde e luminoso.
O sol penetrou na muralha
pintada a preto e branco.

E o poeta que vigiava a cidade
do alto dos seus sonhos
com olhos castanhos dardejando
empolgado mas paciente

viu o autocarro partir em direcção
a um cartaz que reza assim:
Quando se chega a certa idade

cada momento, cada imagem,
cada palavra e cada silêncio,
têm o sabor de uma despedida.

7.

Uma ideia vacila.
Surge e desaparece.
Um homem estremece, 
debate-se e cai.

Mais à frente, está
uma grande escuridão
onde, indolente,
ladra um cão.

Uma mulher insinua-se
entre dois versos,
iluminada e solene,

para vir dizer:
a poesia não se dá
a um qualquer.

8.

A gata dorme
enterrada no seu puf.
Ressona sem fim
como ontem

e anteontem.
Quanto a mim
saí há instantes
de um pesadelo

Com uma faca 
manchada de sangue
nas mãos.

É com ela que escrevo
no chão da cozinha
este soneto inofensivo.

9.

Lavo os olhos na paisagem
iluminada pelo luar,
sem me apressar.
Sinto a noite e penso:

“É fêmea, sem dúvida,
esta dor que sinto
como um animal faminto
subindo pelas minhas costas”.

O sono virá mais tarde
arrastando-me para cenários
ainda menos favoráveis.

Chega de queixas:
um anjo por cada demónio
já não é nada mau.

10.

A visibilidade é insuficiente
porque a dor que se ergue
abruptamente à minha frente
não deixa ver as palavras

que tão desesperadamente
procuro desde sempre.
Tudo parece distante, tão longe
quanto possível deste quarto.

O vento que ouço lá fora
parece mais escuro que a noite
e mais molhado que a chuva,

soprando sem fim, como a saudade
de um filho que diz ao telefone:
“Não sei quando regresso”.

Lisboa, 29.10.2015





Penumbra


1

entro na penumbra
como se quisesse desaparecer

como se a solidão inebriasse

2

até no jardim do amor
sopra por vezes

uma brisa solitária

3

diz adeus, diz comigo:

Quem se esconde
quer ser encontrado

Caminho

na cidade vejo a floresta

e nos teus olhos
o caminho a seguir


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Da poesia

Todas as árvores me lembram que sou poeta.

Conto breve

"Eu quero, posso e mando", afirmou o romancista ao seu interlocutor. "Nos meus livros, sou Deus. Se eu quiser que uma personagem voe, ela voa mesmo, venha lá quem vier. Foi, de resto, uma das razões para eu ter querido ser escritor". Disse isto e, perante o olhar incrédulo do entrevistador, levantou voo, a caminho de outra história.

Entre o céu e a terra

Entre o Céu e a Terra, de Rui Chafes é um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Resumindo, diria que se trata da obra de um homem que aprendeu a lidar com os seus limites, com os limites da matéria (é escultor) e a "transformar esses limites numa marca da passagem do sopro que transforma o peso da matéria na leveza do espirito". De um homem que aceita as imperfeições do real com a mesma voracidade com que devora as suas ânsias.
Dividido em duas partes, o livro começa por propor uma autobiografia (ficcionada, mas verdadeira), seguindo-se uma série de fragmentos e aforismos à maneira de Novais, onde se fala, por exemplo, do "suave medo do escuro" e da "barreira que nos isola dos outros".
Entre o Céu e a Terra é um livro impregnado pelo "sentido do sagrado" onde um artista se confessa e se confronta consigo mesmo, sabendo que "não existe nenhum prémio, nenhuma recompensa".
No final, o autor ainda encontra tempo para nos falar, com rara inteligência, sobre poesia. Diz ele: "O sentido poético (...) é o que nos permite agir sobre o mundo mediante uma deslocação, por vezes mínima, de sentido ou de ponto de vista". E, mais adiante: "A poesia não é uma outra linguagem, é, sobretudo, um outro olhar".
Rui Chafes encerra o livro com estas palavras: "As buganvílias quando fenecem e se apagam lentamente, libertam, no exacto momento em que a sua luz se extingue, um suave odor a rapariga adormecida na madrugada".

P.S. - A fotografia de Rui Chafes foi publicada na revista Up

Ghost of a chance

A poesia é o mais esquivo dos sonhos

Do silêncio

Um anjo por cada demónio. Já não seria mau.

Don't be mean

Passei a manhã no café
escrevendo sem descanso.
Levantando a poeira
de palavras assustadas,
para alimentar poemas
que acabaram no lixo

Lisboa

Outros olhos dirão o que se esconde aqui

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Árvores

Árvores... flores... não resisto. O Rui Nunes tem razão: o nosso corpo tem paixões que não lhe pertencem.

Leituras

Gosto dos jardins que convidam a fechar os olhos e a olhar para dentro.

Pôr do sol

Not long ago.

Auto-retrato

Bernardo Pinto de Almeida: "Para poderem viver, as pessoas enlouquecem".

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Lucas

Enquanto passeamos no Parque Eduardo VII, o Lucas apanha uma flor (“para a mamã”.) Uns passos mais à frente, vira-se para mim e diz: “Papá, o Samuel vive em Lisboa.”
“Não, Lulu, sabes bem que ele vive em Amesterdão, na Holanda”, digo eu.
“Não, vive aqui em Lisboa, numa flor. Queres ver? Vou falar com ele.”
Ao dizer isto, aproxima os lábios da flor que apanhou há instantes e fala com ela: “Olá Samuel, queres falar com o meu pai?” 
Estende-me, então, a flor, afirmando: “Ele quer falar contigo papá.”
Depois, fica todo contente porque eu entro no jogo e falo para a flor como se estivesse ao telefone.



Pôr do sol

Hermann Hesse, Le Loup des Steppes: "... il est faux de n'appeler suicidés que ceux qui se suppriment réellement."

sábado, 18 de abril de 2015

Além do bem e do mal

"Um filósofo é um homem que vive, sente, escuta, suspeita, espera e sonha sempre com coisas extraordinárias, que parece colher as próprias idéias de fora, do alto e debaixo, como uma espécie de acontecimentos apenas a ele reservados e que chegam até ele como raios, e talvez, ele mesmo seja um furacão, prenhe de raios, um homem fatal, em torno do qual se ouve incessantemente o ruído sinistro do trovão. Um filósofo, infelizmente, é por vezes um ser que foge de si mesmo, que freqüentemente tem medo de si, mas que é muito curioso, para deixar de voltar, sempre, para si mesmo.”
Nietzsche: Além do Bem e do Mal 

Lucas



quarta-feira, 11 de março de 2015

Mouraria


Pôr do sol

Nunca me cansarei deste espectáculo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Ontem


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