terça-feira, 7 de novembro de 2017

Arte poética

1

A solidão é um livro.
Compete-te fazê-la falar.

2

Abre o livro.
Fecha a porta.
Abre-te.


3

Pensa.
Lê-te.
Arde.

4

Procura o incêndio.

Encontrarás o que te queima.

Com um poema na boca

Um cão passa a correr
com um poema na boca

Sou eu na cidade
como noutra idade

Avançando pelas ruas
como nos meus cadernos

Tudo o que vejo sonho
Tudo o que sonho sou

O caminho certo


1

O caminho não é por aqui, disse o guia. No entanto, não conheço outro. Por isso, sigam-me: é sempre a descer, mesmo quando não parece.

2

O meu conselho? A cada passo, hesitar. A única maneira de avançar é hesitando, hesitando muito, hesitando sem parar. Sem medo de errar, porque errar, errar persistentemente, errar sem remédio, é tudo o que podemos fazer.

3

Percam qualquer ilusão de regressar. O caminho desaparece à medida que o percorremos. 

4

Sigam-me de olhos fechados, insistiu o guia.

5

Vejam aquela sombra. Está morta. A árvore a que ela está agarrada agoniza, enquanto nos aproximamos. No fundo, está tão perdida como nós, no modo como se agarra à ideia de que tudo é ainda possível.

6

Ao cair da noite, o guia disse ainda: não temam os rugidos que ouvirão durante a noite. Nem os sussurros, nem os ais. O único perigo real que enfrentarão é o vosso medo.

7

Como vos tenho dito, ainda não aconteceu nada. Reparem: o orvalho até no lixo fica bonito.

8

Duvidem de tudo o que vos vier à cabeça. Aqui não há certezas, nem guias que vos valham. Apenas um caminho que é preciso percorrer, a todo o custo. Na hesitação e no erro.

9

Os animais que nos seguem, não nos seguem, seguem o nosso cheiro. Cheiramos a comida, somos uma promessa viva. O que eles não sabem é que são o nosso sustento.

10

Deixem que vos diga: quem está confiante está tão errado como quem está desesperado. Queixam-se das moscas que não nos largam? São como nós, à volta uns dos outros.

11

Designaram como guia o menos indicado de todos. Como se, afinal, se quisessem perder ainda mais do que já estavam. Mas não faz mal: todos chegaremos lá, de uma maneira ou de outra.
















Migalhas

Estou a reler os aforismos de Kafka. É como estar debaixo da mesa onde ele está a petiscar, para me alimentar das migalhas que deixa cair no chão.

O general, o pombo e o avião

Mais um poema que não escrevi.

Da democracia

A propósito da questão catalã, apetece-me dizer: claro que a independência da Catalunha é uma ilusão, no sentido em que, como lembrava Sartre, os dados estão viciados. Contudo, em todas as revoluções se ganha algo, como aconteceu no 25 de Abril, por exemplo. Trocar uma monarquia por uma republica já é um passo no sentido certo, a não ser que se acredite na realeza por direito divino. Ninguém deveria impor-nos uma língua, uma cultura e um modo de estar no mundo que não reconhecemos como nosso. E o direito a exprimir o que preferimos deveria ser inalienável. Mas a questão catalã conduz-me a outra reflexão: a democracia, tal como ė entendida na Europa actual, já não consegue corresponder aos anseios das pessoas. Alguns de nós precisamos de muito mais do que a possibilidade de escolher, periodicamente, em que corruptos votar. Nem todos somos carneiros agradecidos por termos lobos a proteger-nos dos cães. Já agora, mais uma achega: ao excesso de informação, eu chamo intoxicação. Quem consegue pensar quando está permanentemente ligado à turbina informativa, através da televisão, da imprensa, do facebook, do twitter? Tão atarefados estão alguns a informar-se que se esquecem de pensar e de que pensar, pensar verdadeiramente, é pensar contra a corrente, contra a lei e o poder instituído. E até, muitas vezes contra nós próprios. A revolta é o contrário da rotina e da tristeza. Como quase toda a gente já percebeu, a legalidade está sempre do lado do lucro, o poder existe para servir o capital. O Estado serve o Dinheiro e os políticos já só querem é enriquecer. Querem ser eleitos para poderem ser comprados. E apegam-se ao poder para manter os seus privilégios, roubados todos os dias às pessoas que deviam servir. A verdadeira crise é esta. Este é o verdadeiro crime. E o rei de Espanha (qualquer rei, de facto), como qualquer chefe de estado, é o rei da Mafia. O mais bem pago dos seus lacaios.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Autumn leaves


Listening to the music
Of the autumn leaves
Gone with the wind
I see you seeing me
Getting old and sad

Ancient song

Sometimes I go
On top of a tree
To tell my story
To the birds

In these lost moments
I take the elevator
Of my memory
And go down

As deep as I can
Questioning my hopes
And fears to find out
What is all about

And when it's time
To come to my senses
I walk in the timeless
Streets of my mind

In a shadow of an angel
With no desires or tears
Hoping to disappear for good
In one of my poems

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Lacan

Lacan dizia: "Il ne faut rien espérer du désespoir"

As etapas da morte

As etapas da morte, segundo um artigo que li num jornal inglês: "First hunger and then thirst are lost. Speech is lost next, followed by vision. The last senses to go are usually hearing and touch"

Pensamento do dia

Se Deus não existe, nós muito menos.


Para Sandro Penna

Nada e, no entanto, ouço uma canção. Vejo as janelas que fugiram e penso: a solidão já nasceu velha. Digo: lágrimas são sementes perdidas para sempre. Contra um muro, um lago estremece, sem acordar. Toda a beleza do mundo não me deixa mentir.

Da fotografia

"Não é o fotógrafo que faz a fotografia, mas a pessoa que está a ser fotografada", terá dito o Sebastião Salgado. Já a Mary Ellen Mark afirmava: "Fotografa o mundo tal como ele existe. Nada é mais interessante do que a realidade".

Do amor

quanto mais faço amor
mais parece sobrar

Corpo a corpo

não consigo dizer corpo a corpo
sem pensar em nós

no intervalo entre nós

no intervalo entre as palavras também

e no abismo onde caímos
quando não nos damos bem


Poema visual (ready-made)


Por favor

quando eu morrer
por favor
dêem-me um violoncelo
em vez de um caixão


À espera de outra coisa

o que descrevo
descreve-me

mas o que escrevo
está à espera de outra coisa

Da poesia

quando vejo um poema
é como se ele me visse também:
vou atrás dele 
sem pensar duas vezes

A noite é um rio

lá vamos nós
num barco de papel
noite abaixo

como se o mundo fosse
um rio de luz
e o vento estivesse de feição


Dois poemas

a luz que o vento traz
e o vento que a luz traz

são dois poemas diferentes

Tudo o que sou

estou na cidade como noutra idade
com esta ausência lenta que aqui se vê

percorro ruas e cadernos
à procura das mesmas coisas

tudo o que vejo sonho
tudo o que sonho sou


O que eu tenho dito

o que tenho dito é que a poesia
já conheceu melhores dias
porque ninguém parece ouvir
v e r d a d e i r a m e n t e
o combate que as palavras travam


Do futuro

quanto mais envelheço
menos sei fazê-lo

o meu corpo não me perdoa
nada do que lhe fiz

quanto ao futuro só deus sabe
o sarilho em que me meti


O nome do anjo

no meu nome
o teu nome

e no teu nome
o nosso nome 

dorme como um anjo


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Ópera

Sonho com uma ópera que tivesse lugar neste cenário. Tema: os deuses amam demasiado os que sofrem em vão.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Dos sonhos

As minhas visões. Os meus sonhos. Aventuras sem fim.

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