domingo, 22 de dezembro de 2013

Gaivota

Cada foto que tiro me rouba algo

Jardim Gulbenkian

Gosto de jardins, porque aí posso ouvir a música que me corre nas veias. Porque aí posso olhar o mistério de existir e sentir uma espécie de paz. Na Gulbenkian, hoje, a luz era tão bonita que a trouxe para casa.


Da fotografia

- O que procuras, quando fotografas?
- A resposta que me vem logo à cabeça é: procuro-me a mim próprio. Mas não o vou dizer assim: seria um cliché (bela palavra para quem está a falar de fotografia) e não corresponde inteiramente à verdade. Na realidade, procuro-me para me perder, sabendo que, um dia, vou perder-me de vez. No fundo, o que procuro, quando estou a fotografar, é o mesmo que procuro quando escrevo: é a vida, a própria vida e o seu mistério inteiro, o mistério das pessoas, dos seus actos, das situações em que se colocam e me colocam; é a cidade, o campo, a paisagem, o mar, o mundo inteiro. É isso que procuro quando fotografo: captar o que vivo e o que poderia viver se pudesse ter várias vidas ao mesmo tempo. Procuro, o que existe, o que foi e até o que será quando eu cá não estiver. Ninguém, ou quase, fala nisso, mas há na fotografia uma evidente nostalgia do futuro. E também da perfeição, é evidente.




domingo, 15 de dezembro de 2013

Da fotografia

Walker Evans: «Quando ando a fotografar, ando numa corda bamba, não tenho os pés no chão. Com a máquina na mão, é tudo ou nada».


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Campolide


Campolide


Pôr do sol


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ionesco

Ionesco: «Se Deus existe, para que serve a literatura? Se Deus não existe, para quê fazer literatura?».

Samuel Beckett

Arrabal: «Quando conheci Samuel Beckett ainda estava no sanatório. Mas ele já tinha sido mutilado de um pulmão. Uma noite, um daqueles sem-abrigo do metro, talvez meio-bêbado, tinha-o apunhalado. Alguns dias depois, Beckett foi à prisão visitar o seu agressor e perguntou-lhe porque tinha feito aquilo. O sem-abrigo, depois de uma longa pausa, quase como se também estivesse à espera de Godot, respondeu-lhe como uma personagem beckettiana: "Sei lá eu!"».

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Dos sonhos

Por vezes, penso que só nos sonhos estou verdadeiramente acordado.

Da existência de Deus

Se Deus não existe, nós muito menos.

Da indiferença

Não há muita coisa na vida a que eu seja indiferente, pois tudo no mundo me interessa. Se há algo a que eu sou indiferente, é ao que a generalidade das pessoas pensa de mim. Só me importa verdadeiramente a opinião daqueles que amo (e aí incluo os meus amigos). Não uso, no entanto, esta indiferença como uma carapaça ou uma armadura. Uso-a como uma arma. A minha indiferença para com os outros não é passiva, mas activa. Que quero dizer com isto? Que não volto costas a ninguém. Olho nos olhos, mesmo aqueles que não me interessam. Podem sempre surpreender-me.

A verdadeira vida

Don DeLillo em Ponto Ómega: «A verdadeira vida não é redutível a palavras, faladas ou escritas, seja por quem for, nunca. A verdadeira vida tem lugar quando estamos sozinhos, a meditar, a sentir, perdidos nas nossas memórias, a vasculhar sonhadoramente no nosso inconsciente...»

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Lisboa

Escondido, à vista de todos, peço meças ao futuro. Estou nesta cidade, como no exílio. 


Do silêncio

Hilda Hilst: «Não há silêncio bastante/Para o meu silêncio».

Dos sonhos

Robert Walser in Les Enfants Tanner: «On est fait pour les choses dont on rêve».

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Do escuro

Rui Nunes em Armadilha: «Escuro. O escuro é o meu percurso. O Messias de Haendel, o poema de Celan, o quadro de Twombly, a fotografia de Nozolino, são peças negras desta cegueira a que chamam beleza. Só a lei e a ordem são claras. Como o poder. É preciso. É preciso calá-las. Calá-lo.»

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Canção (por causa das coisas)

Ele há coisas... do diabo,
Coisas levadas da breca,
Coisas sem explicação.
Como esta canção, por exemplo.

Ele há coisas e loisas.
E também há coisos.
Mas há mais coisas que coisos,
Como se sabe.

Há coisas que sabemos perfeitamente
E outras que nem sequer sonhamos.
Há coisas que não conseguimos ver
E coisas que nos veem…

Melhor do que nós as vemos a elas.
E também há coisas verdes e coisas roxas.
Coisas amarelas e pretas.
Há muitas coisas pretas

E muitas coisas muito vivas.
Mas há também coisas mortas.
Coisas realmente assustadoras.
Coisas que preferimos não saber.

Há coisas e loisas. E loiras.
Há coisas louras
Com pernas para fugir de nós
(Mas preferimos as morenas).

Há coisas no mar e coisas no céu.
Há coisas em terra.
Há coisas por todo o lado.
E coisas que só os pássaros ouvem.

Mas quando se tem uma coisa
Atravessada na garganta,
Ou na paisagem,
O melhor mesmo é cantar.

Gulbenkian

Do you also have
Second hand dreams
Like me?

Avencas

Luck is the
Ultimate art

Avencas

You only see
What you are

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Tudo

Tudo -
palavra atrevida e enfunada de soberba.
Deveria escrever-se entre aspas.
Aparenta nada omitir,
tudo reunir, abarcar, conter e ter.
Porém, não é mais
do que um farrapo do caos.
 
Wislawa Szymborska, Instante

segunda-feira, 22 de julho de 2013

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Lobos?

Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua

Aquietá-los.

Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.

Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.

(Hilda Hilst: Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974) - Poemas aos Homens do nosso Tempo - VIII)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Ostende


Ostende


Ostende

Ostende

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Cartas de um sedutor

Acabo de ler, Cartas de um Sedutor, de Hilda Hilst, uma paródia aos romances epistolares dos libertinos franceses do século XVIII. Com este romance, a poetisa brasileira fechou uma trilogia pornográfica que inclui O Caderno Rosa de Lori Lamby e Contos de Escárnio/Textos Grotescos.
Se querem um resumo do livro aqui vai: o narrador escreve à irmã a implorar-lhe que venha foder com ele. Ao longo das muitas cartas vamos descobrindo que ela se deitava com o pai e que agora dorme com o filho, que também é seu irmão. O incesto é total. Toda a gente dorme com toda a gente, aliás, homens com homens, mulheres com mulheres, um regabofe.
Mais alucinatório do que malvado, o narrador das Cartas de um Sedutor, vai assumindo-se, pouco a pouco, como escritor e põe-se a contar histórias. Do arco-da-velha, é claro, porque, como diz, "o negócio é inventar escorreria, tesudices, xotas na mão, os caras querem ler um troço que os faça esquecer que são mortais e estrume".
Exageradamente obsceno, o romance é incontinente e caótico para além de tudo o que eu possa dizer, mas extremamente bem escrito. Tem imenso humor, claro, e denota uma inteligência extraordinária e uma erudição fora do comum. Pelo meio, tem tiradas destas: "O que nos resta é a orfandade. Não é que sentimos falta de pai e mãe. Somos órfãos desde sempre. Órfãos d'Aquele".
Deus nunca está muito longe nas obras de Hilda Hilst, seja romance, teatro ou poesia. É para Ele, seu Pai, que ela escreve: "Sei tudo sobre a crueldade. Conheço Deus". E noutra altura: "Na natureza tudo come. Do leão à formiga. Até as estrelas se engolem umas às outras. Tenho cagaçal do cosmos. O criador deve ter um enorme intestino. Alguns doutos em ciências descobriram que quanto maior o intestino, mais místico o indivíduo. E quem mais místico do que Deus? Grande Intestino, orai por nós".
Como vou estar todo o Verão imerso na obra fabulosa de Hilda Hilst, não se espantem por isso de a encontrar muitas vezes neste blogue.
Já agora uma precisão: a foto não tem nada a ver, nem com Hlda Hilst, nem com o livro; foi tirada no outro dia no MUDE e mostra duas esculturas de Ana Mena intituladas "A Pega"..

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