sábado, 28 de fevereiro de 2009

Da saudade



Os portugueses adoram chorar-se. Dramatizar a sua vida. O fado é um bom exemplo disso mesmo.

Na minha opinião, a saudade, a famosa saudade tão tipicamente nacional, é a nostalgia do passado, mais do que da terrinha. A canção mais portuguesa de todas é a que diz: «Ó tempo, volta para trás.»

O problema é que nunca se volta para trás. Até para voltar é preciso seguir em frente.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Convite à viagem




Primeiro Amesterdão para matar saudades, ou melhor, para acalmar as saudades porque as saudades são imortais; depois Toronto, lá mais para o Verão. São as duas viagens por que anseio.

Entretanto, apesar da minha resistência, imagens do passado estão a vir ao de cima, como que impelidas por uma força superior. Histórias do colégio e memórias dos meus avós, sobretudo.

Quando estava zangado, o meu avô chamava-me «calão». Hoje quero acreditar que essa palavra designa alguém que prefere calar-se a falar, como eu faço. Calão, para mim, é alguém que cala fundo.

Entretanto, já só tenho dois objetivos na vida: amar e aprofundar-me. E uma nova ambição: dizer apenas o essencial.

Quando era jornalista, queria fazer-me entender por toda a gente. Agora, quero é entender-me a mim próprio. É um trabalho muito mais difícil.

Ontem a falar com o Ricardo, ocorreu-me esta definição: «Ser feliz é sermos nós próprios e vivermos bem com isso».

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Os cadernos de Cioran



Acabei de ler os Cahiers de Cioran, que abarcam um período de 15 anos (1957-1972). São mil páginas de tristeza, fúria e desespero, com frases geniais pelo meio. Como esta, por exemplo: «Si je voulais rendre le ton de ce que je ressens, il me faudrait mettre un point d'exclamation après chaque mot». Ou esta: «Toujours la même rengaine: on voudrait s'entretenir avec les anges, et on doit aller dîner en ville...» Podia multiplicar as citações, sublinhei centenas de frases no livro. Mesmo assim apetece-me dizer destes Cahiers, o que ele disse da correspondência entre Martin du Gard e Gide, que foi publicada em dois tomos volumosos: «Porque não fizeram uma seleção das suas notas?» Teria sido tão fácil escolher as observações mais pertinentes e publicar um livro apaixonante. Se me confiassem esse trabalho, teria reduzido essas mil páginas a umas duzentas. Teríamos assim um livro genial, talvez o mais negro e luminoso jamais publicado.

A sensação com que fico, agora que deixei o livro, é a de que convivi durante uma semana com um professor de metafísica. Provavelmente um dos melhores mestres que tive até hoje.

O exemplo de Cioran comprova-o: a lucidez não ajuda a viver, só nos torna mais tristes e desesperados. Outra conclusão que retiro do livro: pensar muito na morte (e ele quase não fez outra coisa durante toda a sua vida), não nos ajuda nem a viver, nem a morrer.
A certa altura, ele escreve: «A verdade é o que precisamos para viver». Ora, como toda a gente sabe, a verdade só chateia. Ninguém quer saber da verdade, neste mundo em que vivemos hoje. De resto, se toda a verdade do mundo viesse ao de cima, morreríamos sufocados na nossa própria merda. A humanidade foi um gigantesco erro de Deus. Como diziam os membros de uma seita religiosa romena citada por Cioran, Deus ele próprio pecou ao criar este mundo.
Como Cioran não se cansa de repetir: o problema não está na morte, está em termos consciência dela. É a nossa consciência que nos mata. A consciência de sermos mortais. Efémeros.
Por outro lado, se não fosse a consciência da morte, talvez o o homem pudesse transformar-se num deus. Ou, no outro extremo, transformar a Terra no Inferno. No verdadeiro Inferno, tal como o descreveu Dante.
Seja como for, a morte é a desculpa para tudo. A maior de todas. É para não pensar nela, que os homens correm atrás da fama, ou que procuram desesperadamente enriquecer e ter poder. A ironia é que quanto mais se tem a perder, mais custa morrer. É um lugar comum, mas que ninguém pratica: o caminho da serenidade, para já não dizer da santidade, é não desejar nada. Mas mesmo nada, nem sequer viver. Se não te importares de morrer, nada te pode atingir, é evidente. E não estou a falar dos suicidas que se matam contra a morte. Que se atiram a ela por raiva. Não porque a desejam, mas porque não a podem ver. Porque não suportam viver com ela às cavalitas. Sim, porque a verdade é esta: todos carregamos a nossa morte às costas. Quando somos jovens, ela é ligeira. À medida que vamos envelhecendo, ela engorda cada vez mais. Ganha peso à nossa custa. A morte é parasita.

Mais tarde

O sentido da vida é só um. É um sentido proibido, tudo o que podes fazer é seguir em frente.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Da série «cem palavras»





In memoriam



Ontem foi cremado o João Trindade, cunhado do Ricardo, cujas cinzas foram hoje espalhadas no mar. Aplica-se a frase de Valery: «Le sentiment d'être tout, l'évidence de n'être rien».

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Campolide





domingo, 22 de fevereiro de 2009

O sol, finalmente

Segunda, 16

Quando perguntavam ao filósofo romeno Alexander Drogomin o que escrevia, ele respondia: «Nada de importante, tento apenas compreender».

Terça, 17

Tenho agora a caneta perfeita e o caderno mais adequado. Foram precisos anos para chegar a este ponto. Parece uma coisa de nada, mas não é.

A felicidade esconde-se nas pequenas coisas. É um segredo que poucas pessoas conhecem. E são menos ainda as que o podem compreender.

Tenho um dom para ser feliz. Descobri-o muito tarde, já depois dos 40. Acho que herdei este dom dos meus avós maternos. Espero que os meus filhos o tenham herdado também.

Quarta, 18

Seis da manhã e já estou a ler Cioran. Que raio de maneira de começar o dia. O homem só fala da morte sob todas as suas formas. Morte, angústia, velhice, remorsos... um desfilar de negrume e lágrimas. Mas conheço poucos pensadores mais lúcidos do que ele.

Mais tarde

Visita da Quinta dos Loridos com o Luís Maio. Nos terrenos da quinta, cuja origem remonta ao século XVI, e que já pertenceu a uma família italiana e a outra espanhola, Joe Berardo está a construir um Jardim Oriental que tem que se lhe diga. Vale a pena a visita. O solar, que data da época dos descobrimentos, é uma réplica exata de um outro que existe na cidade de Cremona em Itália. Tudo ali são réplicas, aliás: os numerosos budas, as várias centenas de guerreiros de terracota, as fontes renascentistas. Muitos milhares de esculturas em pedra e barro importados da China. Da Inglaterra virão brevemente cerejeiras e flores várias. No futuro vão ali instalar-se vários núcleos museológicos. Um com pedras preciosas, outro com fósseis e o terceiro com louça de Rafael Bordalo Pinheiro.





19, Quinta

Acordo às duas da manhã e o meu cérebro dispara numa corrida louca, causada sabe-se lá pelo quê e para quê. São tantas as ideias que tenho que acender uma luz (mas não a luz, para não acordar a Raquel) para tomar notas. Preencho assim quatro páginas num ápice. Nada de especial: tarefas que devo levar a cabo, pessoas a quem devo telefonar, compromissos a que devo fazer face. O resto da noite foi uma desgraça. Tão depressa adormecia como acordava. Pelo meio, sonhos soltos, cenas tristes e/ou angustiantes.

20, Sexta-feira

Como dizia Cioran, quando vejo quem é famoso hoje em dia, congratulo-me por ninguém saber quem sou.

Sábado, 21

O homem antigo sentia-se observado por Deus, onde quer que estivesse e por isso observava algum recato. Hoje somos vigiados por câmaras que estão em todo o lado. E por detrás dessas câmaras estão «seguranças, pagos miseravelmente mas que desempenham na perfeição o seu papel de cães de guarda, ao serviço de gente corrupta e poderosa que quer ter o monopólio das malfeitorias.
Nesta sociedade, somos todos prisioneiros em liberdade condicional, controlados por indivíduos valem menos do que nós, mas que ganham milhões à nossa custa.

Domingo, 22

Morreu o João, cunhado do Ricardo, com uma septicemia galopante.

A realidade é apenas um aspeto da vida e, provavelmente, nem sequer é o mais importante.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Sabedoria popular






As ruas estão cheias de bons conselhos, para quem repara nisso. Infelizmente, a maior parte das pessoas estão demasiado alienada para olhar à sua volta.
Para além de grafitis inteligentes, a crise tem outros efeitos «simpáticos», que pude aproveitar hoje: livros a €2, dossiers a €1 e refeições por €3,60 (sem bebida).

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Sem palavras

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Não há volta a dar

Segunda, 9

Escrevo como penso e penso como escrevo: de maneira fragmentada, imperfeita, aos repelões. Muita merda e, de repente, um raio de luz. Um trovão silencioso. Como este pensamento que me abalou dos pés à cabeça: «Nem crente, nem ateu, que sou eu?»

Mais tarde

A minha prosa é como eu: pele e osso. Só me interessa o essencial. Detesto a palha, o ornamento e até o estilo. O único estilo aceitável para mim é a clareza.

Terça, 10

De manhã

Todas as manhãs, às cinco e meia, o despertador. Todas as manhãs é preciso voltar a aprender a viver.

Despertador. Desperta dor. Que nome tão certo. Mal despertas, começas a sofrer.

Quando cheguei à cozinha, já a Raquel estava a tomar o pequeno-almoço. Quando me viu, desabafou: «O meu cérebro ainda está a fazer restart».

À tarde

Carta da Segurança Social. Afinal o subsídio de desemprego é só por dois anos. O que quer que façamos da nossa vida, vamo-nos sempre arrepender de não ter feito outra coisa.

Quarta, 11

Mora ida e volta com Zé Solano. Almoço em Cabeção. Fotos na estrada. Sol radioso. Um dia bem passado.

A agência da Caixa Geral de Depósitos de Mora é agora uma loja chinesa. O padeiro é um ucraniano, enorme, de olhos azuis, que não fala português. É, sem dúvida, isto a globalização.

Mais tarde

Cioran: «Desconfia dos que te imitam». Acrescento: «Dos que te copiam também».

Quinta, 12

Depois de mais uma noite de insónia

Não vale a pena pensar na morte. É mesmo a última coisa em que se deve pensar. Há tempo para isso. Mas devemos ter sempre presente que a vida é um presente que vamos ter que devolver.

Há imensas vantagens em estar morto. Tenho que me lembrar disto mais vezes.

Mais tarde

Quando o mundo desaparecer, ninguém vai dar por nada.

Sexta-feira, 13

Por vezes ando, ando, ando, percorro quilómetros a pé para me provar que estou vivo. Para que o mundo faça dos meus olhos o que quiser.

Se quero ver tudo é porque me quero sentir por inteiro.

Pensamentos avulso. Ocasionais. A minha especialidade. A minha sina?

À noite

Para aproveitar o melhor possível a vida, não se pode pensar na morte (que de resto é impensável). Nem sequer no tempo que passa. De resto, o tempo não passa: nós é que passamos por ele. Tão depressa e tão devagar...

Cioran via na angústia uma «memória» do futuro. Na angústia «vemos», «sentimos» o que nos espera. Ou o que nos poderá acontecer. Na verdade, temos sempre razão de esperar o pior. Ele acabará inevitavelmente por acontecer.

Sábado, 14

Três exposições num dia, tal como no sábado passado.
Na Cordoaria: «O Surrealismo na coleção da Fundação Cupertino de Miranda» onde estão cerca de 230 obras de nomes tão diversos como Teixeira de Pascoaes, Risques Pereira, Eurico da Costa, Cruzeiro Seixas, Cesariny, António Maria Lisboa e Mário Henrique Leiria, entre outros. Como tudo aquilo parece tão «naïf» hoje em dia!
No CCB: «Não te posso ver nem pintado», uma exposição que propõe um percurso por alguma pintura figurativa dos últimos 50 anos; e «A Intuição e a Estrutura» que põe em confronto (ou em diálogo) obras de Maria Helena Vieira da Silva e Joaquín Torres-Garcia. Numa como noutra, noventa por cento não vale nada, ou quase nada. Mas os restantes dez por cento valem bem a visita.

Sempre que saio de uma exposição, apetece-me pintar. Sempre que saio de um concerto, mortifico-me por não ter aprendido música. Sou um eterno frustrado.

Domingo, 15

Ninguém me convence do contrário: quando sonho descubro segredos e desvendo mistérios dos quais me esqueço invariavelmente ao acordar.

Toda a gente tem uma ideia errada de mim. É inevitável. É uma das razões pelas quais gostaríamos que Deus existisse: para repor a verdade sobre nós. Sobretudo junto das pessoas que amamos.

Quanto a mim, amo os meus defeitos e detesto as minhas virtudes. Entendam-no como quiserem.

Mais tarde

Cioran uma vez mais: «A avareza não é talvez senão uma forma de angústia.»

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sabedoria popular



Não te preocupes por estar desempregado. Preocupa-te é em empregar bem o teu tempo.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Da angústia



Magnífica frase de Cioran (com quem sinto cada vez mais afinidades): «Poder-se-ia dizer da angústia tudo o que se diz do mar...»

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Dias de chuva

Segunda-feira

Acho piada aos peneirentos, aos convencidos. Mesmo os génios têm um lado charlatão. Todos os vaidosos sabem que, no fundo, não há razão para tanto. Quanto mais vaidoso, mais mentiroso.

Não sou perfeccionista. De resto, se procurasse a perfeição, não seria capaz de fazer nada, pois tenho demasiada consciência das minhas limitações. Talvez por isso, por ser como sou, tenho um fraquinho por tudo o que é incompleto e imperfeito. Adoro esboços, rascunhos, fragmentos. Fascinam-me as obras inacabadas, as vidas caóticas, desperdiçadas.

Terça

São sempre precisos dois poetas para cada poema.

Quarta

De repente, acordas e são três da manhã. No teu cérebro, pisca um sinal de alarme. Tens medo e não sabes porquê. E não queres saber. A noite envolve-te como um saco de plástico preto. Um saco do lixo gigante.

Quinta

Perante as confissões dos outros, perguntar: «Que escondem elas?». O que realmente nos define são os nossos segredos. Os segredos que levamos para a cova.

Sexta

Desaprender a escrever, a fotografar. Desaprender a viver. E depois, recomeçar de novo.

Sábado

Nostalgia e ansiedade. É assim que vivem os velhos. Entre dois abismos fatais.

Domingo

Um dia engolido pela chuva e o frio. Incapaz de viver, passei o dia a dissolver-me na televisão.

Espero sinceramente que Deus exista. Um deus qualquer serve. Preciso desesperadamente que, no final, alguém me diga o que fiz da minha vida, porque eu não sei.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A sabedoria de Confúcio


Não procures a amizade daqueles que não te merecem.

Não é nenhuma infelicidade ser desconhecido pelos homens, mas é uma infelicidade não os conhecer.

Estudar sem refletir é vão, mas refletir sem estudar é perigoso.

Os vossos defeitos, definem-vos. É através deles que se podem conhecer as vossas virtudes.

A virtude não é solitária; ela suscita invariavelmente companhia.

Estudar é como correr atrás do que nos escapa, temendo perder o que já possuímos.

Não se preocupem de não ser notados, preocupem-se é em fazer algo de notável.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Não me canso de olhar o céu




Sinto que não pertenço, nem a esta cidade, nem a este país. Nem provavelmente a este mundo. Tudo em mim aspira a uma outra realidade, que não é deste mundo com certeza.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

A nuvem de Holderlin



Holderlin disse que o homem é um deus quando sonha e um mendigo quando pensa. É o que eu sinto.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Nuvem solta



Santo Agostinho dizia: «Ama e faz o que quiseres». Eu digo: «Um blogue é uma espécie de nuvem virtual onde nos escondemos, na esperança absurda que nos descubram tal como somos, e nos amem».

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A lição de Tomlinson


«Vinte anos aqui passados ainda não
me ensinaram a ler com precisão
nem os sinais da terra nem os sinais do céu:
continuo com o olhar de um recém-chegado»

Tradução de Gualter Cunha (Cotovia, 1992)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A nuvem da Ana


Novalis, citado pela Ana (que foi hoje operada): «Quando morre um espírito, ele torna-se Homem. Quando morre um Homem, ele torna-se espírito. Livre morte do espírito, livre morte do Homem.»

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A nuvem de Juarroz


Magnífica definição de Juarroz (poeta argentino que viveu entre 1925 e 1995): «A poesia é uma tentativa arriscada e visionária de aceder a um espaço que sempre preocupou e angustiou o homem: o espaço do impossível que, por vezes, parece ser também o espaço do indizível».

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A nuvem de Llansol


Subscrevo inteiramente a afirmação de Maria Gabriela Llansol segundo a qual «... escrever só realiza uma parte do meu desejo de escrever». Sinto o mesmo.

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