terça-feira, 18 de outubro de 2016

Linha d'Água

Na claridade do lago
A pirueta de um pato
De súbito, cura-me
Da minha melancolia

 *

É meio-dia e no céu
Um castelo de nuvens desfaz-se.
Tudo o que vejo sonho?
Ou é exactamente o contrario?

 *

Um só sonho: não acordar.

 * 

Para escrever mergulho na maior escuridão.
Se o amor não iluminasse
Perder-me-ia sem remissão.

 *

Anjos minúsculos brincam nas árvores
O céu é um quadro por acabar

 *

Lugar de pureza
Terra absoluta
Em cada verso
O poema morre

 *

Quando estou muito tempo sem escrever
Os deuses inquietam-se.

 *

Se nunca me tivesse perdido nunca me teria encontrado

 *

No meio da folhagem
Um sobressalto!
Anda de ramo em ramo
Uma ideia que não consigo fixar.

 *

Ouço no vento a emoção do jardim.
Tudo à minha volta devora o meu olhar.

 *

Eis como vejo este momento:
Como um jardim que posso segurar na mão.

 *

Escrever como a brisa.
Sentir como o lago.

 *

Flores?
Ouvem-se com o nariz
Comem-se com os olhos
Saboreiam-se com um poema

 *

Soltam-se as palavras
E o poema acorre.
O segredo é enorme.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O veneziano coxo


Encontrei-o numa feira de antiguidades que visitei por acaso, numa terriola da província. Ia a caminho de outra cidade e parei a meio do caminho para almoçar. Quando procurava um restaurante, reparei que estava a decorrer uma feira e decidi, depois do almoço, ir espreitar. Na verdade, era mais uma feira da ladra do que de antiguidades. Havia de tudo: roupas e livros usados, quinquilharias, loiças, o costume. Quando me aproximei de uma banca com velharias, ouvi um senhor barbudo exclamar: “Macacos me mordam se não é um veneziano coxo!” Nas mãos segurava uma espécie de arlequim de lata, com uma chave para dar corda nas costas. Como viu que eu o olhava com curiosidade, lançou-me: “Nunca tinha visto um veneziano coxo ao vivo, conhecia apenas uma gravura que vi num livro que o meu avô me mostrou quando eu era adolescente. Estes pequenos autómatos foram feitos em Veneza no século XVIII, por um relojoeiro chamado Lindopel, se não estou em erro. Era famoso pelos seus homúnculos mecânicos, muito em voga na altura. Este, a confirmar-se a minha intuição, ficou conhecido como Veneziano Coxo. É considerado a sua obra-prima, concebido e realizado já numa idade muito avançada, por encomenda de um sultão turco cujo nome não me ocorre. Creio que não haverá mais de meia-dúzia deles no mundo.” O dono da banca, um rapaz excepcionalmente novo e bem parecido, tinha-se aproximado entretanto e o potencial cliente perguntou-lhe timidamente: “Está a funcionar? Posso experimentar? Posso dar-lhe corda?” Perante o aceno afirmativo do feirante, deu corda ao boneco e soltou-o no chão. Para meu espanto, o boneco deu meia-dúzia de passos, coxeando, de uma forma engraçada. Tanto o feirante como o barbudo riram à gargalhada. “É ele, é!”, quase gritou este último radiante. Voltando-se para o vendedor perguntou com visível ansiedade: “Mas funcionará realmente?” Sem uma palavra, o outro pegou na marioneta mecânica, deu-lhe corda e soltou-o no passeio. Para meu grande espanto, desta vez, o arlequim andou normalmente, sem coxear minimamente. Os dois homens olharam um para o outro com aquele olhar cúmplice dos iniciados. O barbudo quis saber: “Quanto é que está a pedir por ele?” “Dois mil euros”, respondeu o outro. “Nem está caro”, suspirou o barbudo, “infelizmente não posso dispor desse dinheiro neste momento”. Foi nessa altura que intervim, empolgado pelo entusiasmo deles: “Posso experimentar também?” O rapaz passou-me o boneco para as mão e foi a minha vez de, com mil cuidados, dar-lhe corda e colocá-lo no chão. O robô deu seis passos exactos a coxear (contei-os), e os outros dois riram a bom rir. O barbudo explicou: “O autómato foi concebido, a pedido do tal sultão, para só funcionar bem nas mãos de quem tem um coração puro. Quem não o tiver, só conseguirá fazê-lo coxear”. Ri-me: “Isso é absurdo”. “Pode não acreditar, mas é assim que reza a lenda”, garantiu o meu interlocutor. “Este senhor tem razão” acrescentou o vendedor muito sério. “Poucas pessoas conseguem pô-lo a andar sem que ele coxeie. Não sei explicar porquê, mas é assim, como pôde verificar”. Fosse como fosse, o brinquedo era lindo, estava em muito bom estado e eu nunca tinha possuído qualquer objecto do século XVIII. Por isso, perdi a cabeça e comprei-o. Ainda o tenho, está ali na estante, em posição de destaque para mostrar aos amigos. Uma coisa é certa: até hoje, nunca nenhum deles conseguiu pô-lo a caminhar direitinho, como fez o rapaz que mo vendeu.

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