quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Dos leitores

Os leitores são uma ilusão: o único leitor que verdadeiramente conta é o que dorme dentro de nós!

Balanço 2009 (discos)

Musicalmente, pelo menos para mim, 2009 foi um bom ano. Entre todos os discos que gostei de ouvir este ano, aqui fica (por ordem alfabética) uma lista de 10 que considero imperdíveis.


Andrew Bird: Noble Beast

Bill Callahan: Sometimes I Wish We Were an Eagle

Bob Dylan: Together Through Life

Devendra Banhart: What Will We Be

Fredo Viola: The Turn

God Help The Girl: God Help The Girl

Kings of Convenience: Declaration of Dependence

Sufjan Stevens: The BQE

The XX: XX

Tom Waits: Glitter and Doom Live

Balanço 2009 (filmes)

Aqui fica (por ordem alfabética) a lista dos 12 melhores filmes que vi em 2009. Porquê 12? Eram para ser 10, mas destes 12 não consegui deixar nenhum de fora. Tão simples como isto.
Resta acrescentar que alguns dos filmes não passaram no circuito comercial em Lisboa. Vi-os graças à Internet ou a Festivais de Cinema.

Andrea Arnold: Fish Tank

Charlie Kaufman: Synecdoche, New York

Courtney Hunt: Frozen River

Duncan Jones: Moon

Hirokazu Kore-Eda: Andando

Jacques Audiard: Um Profeta

James Gray: Two Lovers

Kateryn Bigelow: The Heart Locker

Kiyoshi Kurosawa: Tokyo Sonata

Sam Mendes: Revolutionary Road

Stephen Frears: Chéri

Werner Herzog: Encounters at the End of the World

Sonho brasileiro

Estamos, a Raquel e eu, em S. Paulo no Brasil, uma cidade que nenhum de nós conhece. Andamos pela rua, vendo um filme russo (nos sonhos tudo é possível). De repente, o filme acaba e a coisa mais urgente deste mundo é vermos a sequela, que passa na outra ponta da idade.

A Raquel acelera o passo e eu tenho dificuldade em segui-la. Daí a pouco perco-a de vista e ponho-me a correr para a tentar alcançar. Corro, por uma avenida larga, sem fim. Sem saber como, dou por mim num autocarro. Numa paragem, vejo a Raquel do outro lado da rua e saio para ir ao seu encontro. Nesse momento, ela chama um táxi e eu apresso-me a apanhá-lo também. Já lá dentro, constato com espanto que ela está ao volante. Eu sigo no banco de trás, ao lado do motorista, feliz por a ter reencontrado e por ir saber como acaba o filme.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Tributo a Camilla Watson

No Beco das Farinhas, na Mouraria, está patente uma das exposições mais originais que vi nos últimos tempos. As fotografias que Camilla Watson tirou aos velhotes do bairro estão impressas directamente nas paredes do beco. Aqui ficam alguns exemplos.





Baixa, hoje


God Help The Girl















God Help The Girl. Um tal título só podia chamar a minha atenção. De início não sabia tratar-se do novo projecto de Stuart Murdoch, o mentor dos Belle and Sebastien (na foto com Catherine Ireton). A primeira faixa do disco deixou-me logo rendido. A voz feminina era de natureza a mexer comigo. A música dir-se-ia saída de outros tempos, trouxe-me à memória Sandie Shaw, Petula Clark e outras Sylvie Vartan. Na verdade, todo o disco se revelou tão bonitinho que não me canso de o ouvir.

Sei agora que God Help the Girl reúne canções escritas a pensar na banda sonora de um musical a rodar para o ano que vem, e que conta com a participação de várias vozes femininas (Catherine Ireton, Brittany Stallings, Dina Bankole, Alex Klobouk, Celia Garcia e Asya) e também de Neil Hannon (Divine Comedy). O disco não figurará por certo nas habituais listas dos melhores álbuns do ano. Como se eu me ralasse com isso. Para mim, é uma pérola, uma colecção de canções tão felizes que não sairá tão cedo do meu MP3.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Baixa, hoje









quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Tom Waits



Glitter and Doom! Sacana do Tom Waits, só ele para arranjar um tal titulo! Dito isto, tenho duas boas razões para, logo à partida, celebrar a chegada de um novo disco dele: é duplo e foi gravado ao vivo. Mas há mais: a voz está mais cavernosa do que nunca e a sua música raramente soou tão essencial.
Glitter and Doom Live é uma daqueleas obras que nos dá a volta às tripas. Ouves aquelas histórias, cantadas daquela maneira, e pensas: “Está lá tudo, até o sangue de que são feitos os únicos sonhos que vale a pena ter e a esperma que entope as canetas de quem procura o indizível”.
Tenho com Tom Waits pelo menos esta coisa em comum: também a minha voz foi ao limite das suas possibilidades e se voltou do avesso. Só que a minha não se ouve e a dele dá a volta ao mundo, telúrica e arrasadora como é.
Nas últimas fotos (veja-se mais acima), acentuou-se o seu ar de sátiro. Não custa imaginar que esconde uma cauda nas calças e pés bífidos nos sapatos.
Ouçam este disco como se a vossa vida estivesse em jogo (é a única maneira do apreciar devidamente), atentem na reacção dos vários públicos (foi gravado em várias cidades) e digam lá se Tom Waits não é um inultrapassável animal de palco.
Kafka que me perdoe a heresia, mas cá para mim, se o Gregor Samsa d’A Metamorfose cantasse, o que ouviríamos poderia perfeitamente figurar, como "bonus track", neste Glitter and Doom Live.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Fernando Lemos


Auto-retrato de Fernando Lemos

Fernando Lemos nasceu em Lisboa, em 1926. Actualmente, reside em São Paulo, no Brasil. A sua ligação à fotografia vem da altura em que desenvolveu a sua actividade artística junto do Grupo Surrealista de Lisboa (anos 40 e 50).
A pretexto de uma exposição que a Fundação Cupertino de Miranda apresenta em Vila Nova de Famalicão, Sérgio B. Gomes entrevistou-o para o Público. É uma das melhores entrevistas a um fotógrafo que jamais li e não resito a transcrever algumas frases que dão bem a medida da sua inteligência e sensibilidade:

«Considero a fotografia já em mim. Já me perguntaram também se eu era fotógrafo. Respondo: “Não. Eu sou a fotografia”. Em tudo o que vejo, é como se fosse a fotografia a ver essas coisas. Tenho a fotografia na minha cultura visual.»

«Quando comecei a ver que toda a gente tinha uma camarazinha e andava fotografando primeiro achei que era um disparate. Depois pensei outra vez e disse para comigo: afinal, uma das coisas boas da fotografia é que ela ensina a ver.»

«A gente já sabe que a fotografia foi mais uma vitória industrial do que artística. Não importa se vai sair dela mais ou menos arte. O que é mais importante é que a magia fica ao alcance de toda a gente. No Japão, percebi que as crianças aprendem primeiro a fotografar e só depois a escrever e a desenhar. Elas registam imagens e só depois aprendem a escrita e o desenho.»

«O que queria preparar na composição era um pensamento mais pictórico e gráfico. No fundo, considero-me gráfico em tudo o que faço.»

«A fotografia para mim também é a transparência. A transparência é uma forma de espionagem. Apanhamos certas coisas e nem sabemos que as apanhámos. Como um furto. O olhar fotográfico pode furtar da realidade coisas de que nem nos apercebemos.»

«Entrei na fotografia por acaso. Eu sou o acaso, sou um primitivo.»

«Entendo a fotografia mais como uma ferramenta do resultado, o último gesto de uma criação. É uma arte final. É por isso que eu considero a fotografia já em mim e digo “eu sou a fotografia”. É porque eu já sou um produto acabado, deixei de ser um “layout” para ser mais uma arte final.»


«Procuro mostrar que somos vários. Quando aparecemos em qualquer situação, não temos uma cara fixa, não somos uma máscara. Quis captar os retratos desta forma para se perceber que temos na nossa cara um mundo de coisas para explodir, para esconder.»


PS - Pode ler a totalidade da entrevista aqui

domingo, 6 de dezembro de 2009

Tetro



«A family melodrama with charm», diz o Boston Globe. «Unabashedly theatrical and richly cinematic, even when it's falling apart», afirma o Chicago Tribune. Já o Village Voice escreveu: «For writer-director Coppola, Tetro is a cri de coeur, one more from the heart.» Quanto ao Washington Post afirmou: «Tetro has no internal tension and should have been a comedy.»
Pois é: fui ver o novo Coppola e saí irritado. Quando entrei, a minha expectativa não era muito elevada. Detestei Uma Segunda Juventude, inspirado, ao que parece, numa história do filósofo Mircea Eliade. O filme, realizado após um silêncio que durou uma década, falava de um académico a quem era dada uma segunda oportunidade para viver. Voltar a ser jovem, ter enquanto criador uma nova oportunidade, parece ser uma das actuais obsessões de Coppola que, aos 70 anos, declara a propósito deste Tetro: «é o segundo filme da minha segunda carreira».
Filmado a preto e branco, com câmaras digitais de alta definição, na cidade de Buenos Aires, Tetro é o primeiro guião original escrito sozinho pelo cineasta em quase trinta anos. O próprio Coppola o resume dizendo tratar-se da história de uma família separada por um segredo dilacerante. Diz também que é «modestamente um filme ‘à maneira de' Tennessee Williams, alguém que tanto admiro». E vai mais longe, admitindo que «aqui, há de facto uma família muito semelhante à minha, e é certamente o mais próximo que já cheguei de falar sobre a minha família».
Não precisava de o afirmar, está na cara que fala de si mesmo e dos seus: do pai e do tio compositores, da mãe actriz, da filha que é, actualmente, a sua maior rival (As Virgens Suicidas, Lost in Translation e Marie Antoinette fizeram dela uma das mais interessantes cineastas da sua geração). O autor de Rumble Fish (1983), Os Padrinho (1972/1974/1990) e Apocalypse Now (1979) foi, durante muitos anos, considerado um génio. O seu nome está indelevelmente gravado na história da Sétima Arte, mas Tetro confirma-o: Coppola envelheceu mal. Ainda sabe onde colocar a câmara, tem o sentido do espaço e da «mise-en-scène», mas quer fazer demais. Para este filme quis, por exemplo, que parecesse uma peça do Tennessee Williams, e inspirou-se na filha e em Orson Welles (parece-me evidente), mas com uma diferença que não lhe é favorável: Coppola quer fazer «filmes de tese» (como se dizia nos anos 60). Não lhe basta contar uma história, quer que as suas obras continuem a fazer história. Mas os tempos mudaram e o que ele procura pertence definitivamente ao passado. O «mestre» está gagá, não há outra forma de o dizer.
O mais irritante é que a primeira metade do filme é bastante boa. Enquanto está a apresentar as personagens e as premissas da história, a coisa resulta. O pior é quando Francis Ford começa a querer que entremos na cabeça das personagens desempenhadas por Alden Ehrenreich (um DiCaprio de segunda) e Vincent Gallo (que passa o filme todo a fazer olhos de carneiro mal morto); ou seja, na sua própria cabeça. Aí estraga tudo: o filme entra num delírio operático, grandiloquente e pretensioso que esmaga, sob um esteticismo exagerado, aquilo que poderia ter sido uma boa história. Como disse a Time, e muito bem: «he has made a movie in which plenty happens but nothing rings true». Tenho pena, mas é assim.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Pergunta



O que é que tens de urgente para me dizer?

A última fronteira





Marc Augé, autor de um livro magnífico intitulado L’Impossible Voyage – Le tourisme et ses images escreveu um dia: «Talvez uma das nossas tarefas mais urgentes consista em reaprender a viajar, eventualmente mais perto de casa, para reaprender a ver». Não podia estar mais de acordo.

Devendra Banhart



Sobre What Will We Be , o novo disco de Devendra Banhardt, a Time Out alfacinha afirma: «Devendra Banhart é um músico relativamente prolixo. De dois em dois anos deita cá para fora um disco e nunca lhe falta publicidade. O que não é de espantar, pois este homem soube construir para si, pelo menos desde 2004, uma “aura” especial. E a música? Ora é aí que a coisa se torna menos interessante. Depois de Rejoicing the Hands (2004) nunca mais foi a mesma. Resvalou para um tradicionalismo sem músculo e por lá tem ficado».
A Inrockuptibles tem uma opinião diferente: «Entouré d'amis, de planches de surf et de skate-boards, Devendra Banhart participe au réchauffement mondial des sens sur un album classique mais réjouissant». E conclui: «… lumineux et groovy, ce What Will We Be nous donne très envie de l’inviter au prochain apéro».
Por mim, tenho que o confessar : até há pouco tempo, embirrava um pouco com o sujeito. Não sei se por causa do seu ar de Jesus Cristo hippie, se devido ao facto de toda a gente o considerar uma espécie de «Papa» da nova folk (alguns chama-lhe «freak folk»). Embora deteste toda a espécie de gurus, tenho gostado de quase todos os discos de Devendra Banhart e, devo dizê-lo sem mais demoras, ouvi este último com um sorriso nos lábios, do princípio ao fim, pois o disco é encantador e despretencioso, duas qualidades que cada vez aprecio mais.

Da série «Paredes que falam»





Lisboa, cidade triste e alegre


50 anos depois da primeira edição, Lisboa, Cidade Triste e Alegre (1959), o lendário livro de fotografias de Costa Martins e Victor Palla vai ser finalmente reeditado. Esperemos que chegue aos escaparates a tempo do Natal.

Pobre Portugal


Jornal de Notícias de hoje:

«Somente um em cada cinco portugueses possui nível médio de literacia. O que causa prejuízos directos no potencial de desenvolvimento do país. As conclusões constam de um estudo apresentado na Gulbenkian. Segundo o relatório realizado pela Data Angel, a pedido dos coordenadores do Plano Nacional de Leitura (PNL) e apresentado ontem na Gulbenkian, apenas um em cada cinco portugueses possui o nível médio de literacia. Na Suécia, a correspondência é de quatro em cada cinco suecos. Literacia é a capacidade de ler e compreender o que se lê para resolver problemas concretos. Esta aptidão em Portugal, refere o relatório, é muito baixa. "Portugal apresenta os níveis mais baixos de competências de literacia de entre todos os países observados", referiu o coordenador do projecto, Scott Murray.»

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Descobertas











Passear é ler a cidade.
E escrever com o olhar.

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