sexta-feira, 29 de abril de 2011

Granizo

Esta tarde, estava no Colombo quando, de repente, caiu uma carga de água verdadeiramente monstruosa. O barulho, no telhado de vidro do centro comercial era assustador.
Mais tarde, quando cheguei ao parque de estacionamento, o carro ao lado do meu estava no estado que se vê nas duas primeiras fotos. Era tão inverosímil que passei tratar-se de uma instalação artística.
Quando saí do parque de estacionamente, nem queria acreditar nos meus olhos. pela janela do carro em andamento, consegui tirar três fotografias.





Retratos




quinta-feira, 28 de abril de 2011

Alejandro Chaskielberg


O prémio L'Iris D'Or de melhor fotógrafo do ano, atribuido no âmbito do Sony World Photography Awards, foi este ano para Alejandro Chaskielberg. O fotógrafo argentino, de 34 anos venceu o concurso com um trabalho intitulado «La creciente», sobre a comunidade de habitantes das ilhas do delta do rio Paraná, a poucos quilómetros de Buenos Aires. Para realizar aquele trabalho, Chaskielberg mudou-se para as ilhas e viveu com as famílias durante dois anos. A série «La creciente» foi escolhida entre mais de cem mil imagens, de 162 países diferentes. O fotógrafo vai receber cerca de 17 mil euros.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Linha d'Água


Não há silêncio como o do vento. Nem companhia como a da sombra.

Tinha saudades desta brisa. Desta luz. Nesta esplanada está o melhor do país: um céu enorme, de um azul intenso, o verde que o sustenta e a luz que se reflecte no lago. Um espelho para o meu estado de alma.

O quadro à minha volta é belo e eu olho-o como se fosse eu a criá-lo. Como se eu fosse o artista que sempre quis ser. Mas não sou: o meu poder é frágil. Cada pensamento que tenho é mendigado. Na verdade, sou um pedinte de ideias, que agradece cada ideia que tem como estes passarinhos agradecem as migalhas de bolo que lhes atiro para cima da mesa.

Seja como for, não escrevo para ser lido, mas para me ouvir pensar. Sei que podia ter deixado uma obra vasta, mas para quê? O mundo, ou melhor, esta sociedade, continuaria a ser a merda que é e, no fim, o resultado seria o mesmo: o desaparecimento puro e simples de toda a gente.

De resto, já há demasiados génios no mundo.

Aforismo

Para um pensador, não há melhor plateia que uma sala vazia, nem palco mais inspirador do que aquele onde não se passa nada.

Da solidão

Por vezes, a solidão é uma amante voraz. Dominadora. Mas quando consegues «namorá-la», que doce e fecunda pode ser!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril (3)





25 de Abril (2)





25 de Abril





domingo, 24 de abril de 2011

Source Code


Imaginem que, de repente, se encontram dentro de um comboio, face a uma mulher que nunca viram, mas que vos fala como se vos conhecesse muito bem. Imaginem que não sabem como foram ali parar e que, antes de ter tempo de perceber alguma coisa, vai tudo pelos ares.
Agora, imaginem-se fechados numa cápsula de metal, sem saberem se estão vivos ou mortos e tendo como únicos interlocutores uma mulher e um homem que se recusam a explicar-vos a situação mas que, em contrapartida, vos exigem que cumpram as suas instruções cegamente.
Imaginem mais : imaginem que é possível transportar-vos no tempo e darem-vos oito minutos de vida, vezes sem conta. E que a vossa missão consiste em descobrir um bombista que prepara para um atentado que custará a vida a muitos milhares de pessoas.
Imaginem, enfim, que estão sempre a voltar a esse comboio e a explodir inexoravelmente.
É isto, e muito mais, que acontece à personagem incarnada por Jake Gyllenhaal em Source Code, o mais recente filme de Duncan Jones, o filho de David Bowie que, em 2009, já nos tinha dado um outro excelente filme de ficção científica (Moon).
Como todas as grandes obras, Source Code permite várias leituras, ou melhor, vários patamares de leitura. O espectador mais imediatista verá o filme como um trepidante filme de suspense, com uma pitada de romantismo e um final surpreendente. O cinéfilo delirará com as múltiplas piscadelas de olho ao cinema do passado e reconhecerá, com orgulho e júbilo, o que o filme deve a obras famosas de Stanley Kubrick, Ridley Scott ou Dalton Trumbo, para dar apenas três exemplos.
Outros verão o filme como um thriller existencial, carregado de interrogações filosóficas, sobre o qual é possível especular durante vários dias.
Uma coisa é certa : para perceber bem a trama de Source Code convém estar familiarizado com algumas noções básicas da ficção científica, como a existência de universos paralelos, por exemplo.
Seja como for que se veja Source Code, no estado actual da arte, poucos filmes se revelam tão estimulantes.

sábado, 23 de abril de 2011

Da sabedoria

Sábio é o homem velho que sabe o que uma criança pequena lhe pode ensinar.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Da verdade

Na verdade, não podemos fazer mais nada senão escolher em que mentiras acreditar. A verdade não passa de uma mentira em que acreditamos.

Da verdade

Simone Weil: «Amar a verdade significa suportar o vazio e, consequentemente, aceitar a morte. A verdade está do lado da morte.»

Do amor

Não se pode oferecer amor a alguém que não o quer. Aliás, não se pode oferecer amor, ponto final. E só podemos recebê-lo, se ele já estiver em nós.

sábado, 16 de abril de 2011

Da mediocridade

Que se passa com os críticos literários do Público? No Ípsilon de ontem, Maria da Conceição Caleiro começa a sua recensão crítica de O Duelo de Tchékhov com estas palavras: «Há livros e livros, passam por nós autores e autores maioritariamente medíocres como a vida que levamos e se publica, há os que são bons e que às vezes, por acaso, ou não, lemos e ainda os que mudam o mundo e a eternidade…»
Mais adiante Rui Catalão, que escreve sobre O Lugar do Morto de José Eduardo Agualusa, abre o seu texto com esta frase: «O escritor medíocre diz coisas que toda a gente sabe ou devia saber». E vai por aí adiante, arrasando o livro e afirmando sem peias que Agualusa «foi o grande escritor medíocre da língua portuguesa dos últimos vinte anos».
Naturalmente, apetece perguntar quem é mais medíocre? Quem é que esta gente se crê? Quanto a Helena Vasconcelos, que escreve sobre A Humilhação de Philip Roth, esqueceu-se de referir que a tradução do título (The Humbling) é um disparate. Como o próprio Philip Roth afirma, aliás, numa entrevista publicada naquelas páginas. «Foi assim que foi traduzido?», pergunta ele surpreendido ao jornalista. «Não refere exactamente o sentido do livro. Ele não se sente humilhado. O sentimento é mais de modéstia ou humildade». Como é óbvio!
De resto muito haveria a dizer também sobre esta entrevista, realizada por Tiago Bartolomeu Costa, na casa do escritor em Manhattan. Mas já chega de mediocridade por hoje.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Fukushima


Segundo a escritora japonesa Hiromi Kawakami, o iodo libertado pela central nuclear de Fukushima leva oito dias a desaparecer do ar, o césio 137, 131 anos, o plutónio, 24 mil anos, e o urânio 235, setecentos milhões de anos. São números que dão vertingens. Bela herança para deixar na Terra. E ainda há para aí gente a defender a opção nuclear.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Pura realidade

No outro dia, vi um casalinho a passear de mãos dadas, ambos com o seu par de auscultadores. Ao menos aqueles dois não precisam de fazer conversa de chacha: perceberam perfeitamente o que é o amor.

Confissão

Gosto de, no meu quarto, estar mergulhado na escuridão de um cinema. É como vejo melhor o que penso.

Perguntas com resposta

O que é um bem-pensante?
Alguém que pensa pela cabeça dos outros.

O que é o tédio?
A falta de imaginação.

Lembretes

Já agora, dois lembretes. O primeiro de Oscar Wilde: «A verdade em arte é aquilo cujo oposto também é verdade». O segundo de Henry James: «Nada é a minha última palavra sobre o que quer que seja».

O Mestre de Petersburgo

Não vou contar a história, mas vale a pena lembrar que O Mestre de Petersburgo, de J.M. Coetzee é, como resumiu Susan Sontag, uma fantasia sobre Dostoievski. Acabo de ler o romance e não tenho a menor dúvida: é dos melhores livros que já li.
A história põe em cena um homem a fazer o luto por um filho que morreu, não se sabe se às suas próprias mãos ou assassinado. Dostoeivski é esse homem e, como qualquer pai, quer saber porque é que o filho se afastou tanto dele. Quer saber onde falhou, porque a verdade é só uma: todos falhamos como pais.
Mais, ou menos, a questão não está aí. A questão, ou melhor, a sua resposta talvez esteja no passado (porque todo o pai também foi filho).
Que a resposta não esteja em lado algum, ou mesmo à frente do nosso nariz, tanto faz, porque esta miséria de ser humano, demasiado humano, não tem explicação. A única coisa que podemos verificar, é a derrota, ou a morte, se preferirem, que se explica a si própria, eternamente. Mesmo se ninguém quer saber, a verdade está aí. A única verdade do mundo: que tudo acaba na morte, que a derrota é inevitável pois é a resolução da vida. Para pais e filhos, homens e mulheres, romancistas e terroristas.
Claro que o romance, tem outros temas. A sexualidade, por exemplo, e o peso (ou a gravidade) da velhice. Há ainda a questão política, a eterna questão da culpa e da incapacidade de comunicarmos a um nível profundo, até, ou sobretudo, com quem amamos. Contudo, para mim, O Mestre de Petersburgo é, antes de mais nada, a história (en abîme) de um escritor habitado pela(s) sua(s) própria(s) sombra(s). É, à sua maneira, um outro livro do desassossego, assombrado por muitos fantasmas, mas especialmente pelos de Dostoievski e Kafka, ou seja, pela própria essência da literatura, que é, de alguma maneira, a vida ao quadrado.

domingo, 10 de abril de 2011

Adelino Lyon de Castro


No Museu Nacional de Arte Contemporânea, também chamado Museu do Chiado, o elevador não funciona. Tal como já aconteceu a semana passada no Museu de Arte Antiga, tivemos que subir esta manhã várias escadas carregando com o carrinho do Lucas. Quanto aos deficientes, que vão passear para o jardim, se quiserem. Ou fiquem em casa, porque também não dá para andar na rua, já que os passeios (quando os há) estão cheios de carros ou de buracos.
Queríamos ver a exposição do Adelino Lyon de Castro, a que chamaram «O Fardo das Imagens», vá-se lá saber porquê. Que raio de nome! Adiante...
Mal entrámos na sala, o telemóvel da Raquel tocou e, antes que ela tivesse tido tempo de atender, precipitou-se sobre nós uma vigilante para «ralhar»: «Não se pode falar ao telemóvel dentro do Museu!».
Ora, no meio daquela mesma sala, uma mulher minúscula, mas com voz autoritária, dissertava em voz alta para um numeroso grupo de visitantes (estava, como se calcula, a fazer alarde dos seus vastos conhecimentos sobre a obra do artista). Por isso, mencionei: «A minha mulher não pode falar, mas aquela senhora está para ali a perturbar o sono do nosso filho…» (o Lucas dormia indiferente a tudo).
«Aquela é a doutoura», respondeu a segurança, com um suspiro de profundo respeito.
Só para a arreliar, e antes de lhe virar as costas, retorqui: «Se é por causa disso, a minha mulher também é doutora».
Enfim, algumas das fotos do co-fundador das Publicações Europa-América são magníficas, outras bastante banais. Todas são interessantes, porém, pois mostram realmente um Portugal que (felizmente?) desapareceu. A maioria das fotos vem dos anos 40 ou 50 e é visível a miséria estampada nos rostos de pescadores, camponeses e gaiatos. Mais neo-realista seria impossível.
Contudo, para mim, a fotografia mais extraordinária que se encontra naquela sala é de Carlos Relvas. Só para a ver, já valia a pena ter carregado com o carrinho do meu filho, para cima e para baixo.

PS: «O Fardo das Imagens» vai ficar naquela sala até 12 de Junho.

Da série «Aforismos do telemóvel»


Um espectador sem imaginário pessoal, olharia para uma obra de arte como um boi para um palácio.

Homenagem a um desconhecido


O que têm em comum os graffitis e as fotografias? Valem o que valem o espectador.

Da estupidez

Plácido domingo



Olhos de ver. É tudo o que um fotógrafo precisa. Mesmo a máquina é dispensável.

The humbling


Não me cansarei de o repetir: lemos para nos ler.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para quem escrevemos?

«S’il n’y a plus de Pére, à quoi bon raconter des histoires?», pergunta Roland Barthes, afirmando: «Tout récit ne se ramène-t-il pas à Oedipe?» Pelo contrário, acho que escrevemos para os nossos filhos, não para os nossos pais. Escrevemos contra os nossos pais, mas para os nossos filhos.

Da felicidade

O talento da felicidade (porque é um dom, sem dúvida) é o mais raro de todos. Tal como os outros talentos, exige uma inclinação natural, uma longa aprendizagem, muita humildade e um interminável aprofundamento. Só é feliz quem o merece.

Do romance

O romance que gostaria de escrever, está fora do meu alcance. Resta-me andar às voltas, sonhá-lo sem fim, perder-me na ideia de que nunca o escreverei.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Slavoj Žižek


O El País chama-lhe «o filósofo da anarquia». Numa interessante entrevista que concedeu ao diário espanhol, Slavoj Žižek defende o Twitter e o Facebook. Diz ele: «Muchos se quejan de que Twitter o Facebook son comunidades artificiales, sucedáneos de la interacción humana cara a cara. Yo celebro estas comunidades artificiales; te permiten escapar de tu lugar asignado en la sociedad. Imagina vivir en un país como Arabia Saudí. Yo me sentiría liberado usando Twitter.»
Mais interessante me parece esta outra opinião: «Hoy cualquiera con dinero puede viajar al espacio, cada mes anuncian descubrimientos contra algún tipo de cáncer, incluso se habla de avances para alcanzar la inmortalidad. Al mismo tiempo, en cada telediario, salen políticos y economistas explicando que no hay dinero para mantener la Seguridad Social. Vivimos una época que promueve los sueños tecnológicos más delirantes, pero no quiere mantener los servicios públicos más necesarios.»
Absolutamente verdade.
Também concordo com ele, quando afirma: «No estoy en contra del capitalismo en abstracto. Es el sistema más productivo en la historia. Me considero comunista, aunque el comunismo no sea ya el nombre de la solución, sino el del problema. Hablo de la lucha encarnizada por los bienes comunes. Las corporaciones intentan privatizar los recursos naturales, la biogenética o los conocimientos. El capitalismo actual se mueve hacia una lógica de apartheid, donde unos pocos tienen derecho a todo y la mayoría son excluidos. Los capitalistas actuales son fanáticos religiosos que defienden sus beneficios aunque traigan la ruina para millones de personas.»
Como Žižek, acho que «hay que ser más hedonistas. El problema es que no nos centramos en lo que realmente nos satisface. Estamos atrapados en una competición malsana, una red absurda de comparaciones con los demás. No prestamos suficiente atención a lo que nos hace sentir bien porque estamos obsesionados midiendo si tenemos más o menos placer que el resto.»
Porque é que os jornais portugueses não publicam entrevistas destas?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A caminho de casa









«A photograph is not created by a photographer. What they do is just to open a little window and capture it. The world then writes itself on the film. The act of the photographer is closer to reading than it is to writing. They are the readers of the world.» Ferdinando Scianna

Lucas


Nunca perdi a esperança e com toda a razão: o Lucas relançou a minha vida.

Da beleza

«A beleza mais emocionante é a mais evanescente», escreveu Susan Sontag, reforçando: «A permanência não é um dos atributos mais óbvios da beleza». Claro que não.
Paul Valery, por seu turno, afirmou: «A natureza da beleza é o não poder ser definida: a beleza é precisamente “o inefável”».
Muitos espíritos brilhantes escreveram sobre a beleza, mas o pensador francês tem razão: nunca ninguém a conseguiu explicar, apesar de toda a gente ser capaz de senti-la. Mesmo as pessoas mais horrorosas.
Por mim, tenho a beleza fácil. O que é uma maneira desajeitada de dizer que vejo beleza em quase tudo. Mas não em quase toda a gente, porque nas pessoas não consigo dissociar o físico da personalidade, a aparência dos actos e das palavras.
Como vejo beleza em quase todo o lado, posso ser, facilmente, um fotógrafo compulsivo (coisa que combato o mais possível, por razões que não são para aqui chamadas). Contudo, cada vez mais, a beleza que mais me comove é pouco evidente, discreta, ou mesmo secreta. Emociona-me especialmente aquela beleza em que pouca gente parece reparar.
Agora sim, estou a falar (também) de pessoas que, com frequência, são falsas feias ou falsas bonitas, pelo menos aos meus olhos.
Sim, a beleza é, antes de mais nada, uma questão de olhar. Sem olhos, pouca beleza haveria (razão pela qual a ideia da cegueira sempre me afligiu).

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