terça-feira, 27 de abril de 2010

Pobre Portugal


Sob o título, Portugal mais próximo da bancarrota, pode ler-se hoje no Expresso online: «Portugal ultrapassou Dubai e Iraque e subiu ao 6.º lugar, com mais de 28% de risco de bancarrota. Grécia mantém-se em 1.º lugar com perto de 48% de risco e Irlanda e Espanha continua a trajectória de alta».
Coragem, portugueses. «O futuro nascerá de uma longa dor e de um profundo silêncio», como dizia Cesare Pavese.

Sem palavras

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Alan Sillitoe


Morreu Alan Sillitoe. O nome não deve dizer grande coisa às gerações mais novas, mas quem gosta verdadeiramente de literatura, sabe que ele foi uma figura incontornável nos anos 50 e 60.
A fama deveu-a essencialmente a dois romances escritos numa linguagem crua e dura em ruptura com a cultura dominante da época em que foram escritos: Sábado à Noite, Domingo de Manhã (1958) e A Solidão de um Corredor de Fundo (1959).
Mesmo se detestava a etiqueta, Sillitoe fez parte dos chamados «angry young men», uma geração de intelectuais britânicos, como John Osborne e Kingsley Amis, cuja rebeldia e espírito crítico marcaram toda uma geração de europeus. A minha dívida para com todos eles é muito grande.

Versos sem fim

No teu sonho de poesia, cresceu uma pedra-pomes.
Afaga agora as tuas dores com ela.

*

Mesmo no mais obstinado dos amores,
Jazz irredutível, um profundo silêncio.


*

No coração de qualquer lar, está uma caixa-forte.
A própria liberdade é uma prisão.

Notas soltas

A vida é uma droga. Dura. Um vício do qual não me consigo libertar.

Escrevo para encontrar, no meu mapa íntimo, o lugar que lá falta.

A poesia é, tal como a memória, uma melodia que, eternamente, em si própria se procura. Todo o ser aspira à condição de música.

Todo o desejo é uma síncope; o amor improvisa-se palavra a palavra, minuto a minuto.

Nos bons dias, até o silêncio swinga.

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril






Mais um 25 de Abril. O 36º. Para mim, não é dia de luta, mas de luto. Já pouco resta dos ideais de Abril e cada ano que passa, há menos gente a desfilar. Não deve ser só aos meus ouvidos que as «velhas» palavras de ordem soam, cada vez mais, como gritos de desespero.
Apetece escrever como Cesare Pavese no seu diário (O Ofício de Viver), no dia 25 de Abril de 1936: «Hoje, nada».

The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans

O meu «indie 2010» dificilmente podia ter começado melhor. Ontem saí da sala do S. Jorge verdadeiramente contente, que é como me sinto quando vejo um filme que me enche as medidas. Já ia à espera, aliás, Werner Herzog nunca me desilude.
Através da ficção ou do documentário, ele transporta-me quase sempre aos abismos mais profundos e secretos da mente humana. E eu gosto disso. Por isso, a ideia de ir ver um «remake» do Bad Lieutenant de Abel Ferrara (que vi na altura da estreia, em 1992), agradava-me particularmente. Tanto mais que tudo o que tinha lido sobre este filme deixava antever uma experiência extraordinária.
Afinal, The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans não é nem um remake, nem uma continuação, do filme de Ferrara. Embora ponha em cena um tenente da polícia muito pouco ortodoxo, este Bad Lieutenant é um filme totalmente novo. A história não se passa aqui em Nova Iorque, mas em Nova Orleães, e no lugar de Harvey Keytel, está Nicolas Gage (na foto com Werner Herzog, num intervalo das filmagens) naquele que é, porventura, o melhor papel da sua carreira.
A sua personagem de um homem quebrado e sofrido, que só a droga e o amor de uma mulher consegue manter à tona, é sublime e só por si já valia a pena o preço do bilhete.
Quanto à história, digamos, resumidamente, que após salvar um prisioneiro de morrer afogado por causa das cheias causadas pelo furacão Katrina, o detective Terence McDonagh fica com um problema na coluna que o obriga a depender de analgésicos para aguentar a dor. Como os comprimidos não se mostram suficientemente eficazes, recorre cada vez mais a substâncias ilícitas, que obtém de maneira ainda menos legal. De resto, McDonagh é o polícia menos politicamente incorrecto que se possa imaginar: é chulo de uma prostituta de luxo e faz apostas ilegais, acumulando dívidas que não consegue pagar. Ou seja, The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans dá ao termo «film noir» um novo significado. Tanto mais que tudo neste filme é escuro e estranho, desde o formato quase quadrado em que foi filmado à cor merdosa da fotografia. Para já não falar do microfone que está sempre a aparecer em cena, por cima da cabeça dos actores. Por momentos, até a câmara parece ter sido confiada a um curioso que estava de passagem pelo set. Em suma: tudo razões para atribuir cinco estrelas ao filme, e nem uma menos.

sábado, 24 de abril de 2010

Saída de emergência

O país precisa, urgentemente, de encontrar uma!!!

Campo de Ourique (ontem)

Baixa (ontem)

terça-feira, 20 de abril de 2010

Zooey Deschanel


Já entrou em episódios da série televisiva Weeds (quatro, entre 2005 e 2006), The Simpsons (2008) e em Bones (2009), mas Zooey Deschanel é, essencialmente, actriz de cinema. Lembram-se de O Assassínio De Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford (2007), um filme de Andrew Dominik ? Zooey contracenava com Brad Pitt e Casey Affleck, na pele de Dorothy Evans, uma prostituta que namorou com o «traidor» que menciona o título do filme. Mais recentemente vimo-la em 500 Days of Summer, de Marc Webb (2009), um filme delicioso que passou praticamente despercebido em Portugal (creio até que foi directamente para DVD sem passar pelas salas de cinema).
As actrizes sempre gostaram de cantar e gravar discos. Podia multiplicar os exemplos, mas basta referir os nomes de Scarlett Johansson e Charlotte Gainsbourg, que muito recentemente lançaram discos muito bons. No entanto, nenhuma das duas tem verdadeiramente formação musical ou sabe compor. Zooey Deschanel, em contrapartida, para além de cantar maravilhosaente, toca piano, banjo e escreve canções. Desde 2008, a rapariga anima, ao lado do músico M. Ward uma banda folk chamada She & Him, que, há dois anos, lançou um primeiro álbum, intitulado muito simplesmente Volume One. Chega agora o segundo volume do quinteto (o duo é completado pelo baterista Rachel Blumberg, o guitarrista Mike Mogis e o baixista Mike Coykendall).
Zooey e Ward conheceram-se no set do filme The Go-Getter, de Martin Hynes (2007). O realizador pediu-lhes para cantar um dueto para a banda sonora do filme e a música escolhida foi «When I Get to the Border» de Richard & Linda Thompson. Ward ficou muito impressionado com a sua parceira, e mais ainda quando soube que ela também escrevia canções. Foi assim que nasceu o projecto She & Him.
Para quem gosta de country e folk alternativas, M. Ward não é um desconhecido: já colaborou com Cat Power, Norah Jones, Beth Orton e fez parte do projecto Monsters of Folk. Sobre o seu trabalho como produtor, M. Ward afirma: «…nesse papel, comporto-me como um fotógrafo : atento aos contrastes, procuro o equilíbrio entre a sombra e a luz. As canções de Zooey são ideiais para isso, pois balançam entre a melancolia e a alegria, entre o dia e a noite».
Zooey, por seu turno, comenta: «Sempre tive a impressão que cantar me permitia sentir certas emoções inacessíveis de outro modo. Basta-me trautear uma melodia para que caíam todas as barreiras, todas as carapaças com que a vida nos cobre».
Como já alguém disse, ouvir este disco é como visitar a mítica Califórnia dos anos 60, sobre a qual reinavam os Beach Boys e os The Mamas & The Papas. Mas She & Him vai mais longe do que isso: as suas canções são um prodígio de sereno romantismo, com as suas cascatas melodiosas que põem em relevo uma voz pela qual é impossível uma pessoa não se apaixonar. Uma voz onde irradia o sol e a lua se insinua amorosamente. Ouçam-na e encantem-se.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Françoise Hardy















Acabo de ouvir La Pluie Sans Parapluie, o novo disco de Françoise Hardy, e ainda estou sob o seu «charme». A voz não envelhece, mas o seu gosto apura-se: as letras são cada vez mais subtis e profundamente poéticas. Quanto aos arranjos continuam de uma simplicidade desarmante, com ornamentações discretas e efeitos mínimos; existem apenas para sublinhar a musicalidade das palavras e dos sentimentos, porque não há nada mais musical do que a felicidade, que é também a mais pura das melodias. Ouvindo Françoise cantar, impossível não pensar: «cantar devia ser a única maneira de nos expressarmos; a única maneira de vivermos».
La Pluie Sans Parapluie é, ao que parece (não me dei ao trabalho de os contar) o 26º álbum da carreira de Françoise Hardy. Nada mau, para uma senhora que gosta de viver afastada do burburinho da fama e da espuma mediática! Na sua singeleza, o título do disco parece evocar o ditado popular «quem anda à chuva molha-se»; uma verdade universal que aqui soa como um convite. Ou seja, banhei-me nesta voz, encharquei-me destas palavras e agora proclamo: «je ne vous aime pas», pois o amor é, por excelência, o território do bluf.
Há várias canções no disco a que me apetece regressar rapidamente, mas nenhuma tão sublime como a que dá o título ao disco. Está tão bem cantada que apetece ouvi-la para sempre. Por isso digo: nunca Françoise cantou tão divinamente. Ou então fui eu que envelheci bem: ouvindo-a parece-me que o tempo não passou, que estamos ambos, ela e eu, cada vez mais intemporais.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Green Zone

Não há praticamente nenhum episódio da história dos Estados Unidos que não dê origem a, pelo menos, um filme. Green Zone, que acabo de ver, conta a história de Roy Miller, um militar norte-americano destacado no Iraque, em 2003. A sua missão ? Encontrar armas de destruição maciça.
Realizado por Paul Greengrass e protagonizado por Matt Damon, Green Zone é um filme «virtuose» (as cenas de guerrilha nocturna, por exemplo, são verdadeiramente estonteantes), realizado à maneira de uma reportagem, mergulhando-nos no coração da acção. Já sabemos como acaba esta história macaca inventada por Bush e o seu amigo Tony Blair, mas seguimo-la com o coração nas mãos, de tão envolvidos que nos sentimos. Como não podia deixar de ser, há cenas de uma violência incrível, mas o mais interessante acaba por ter lugar nos bastidores da guerra, quer do lado iraquiano, quer do lado americano, onde toda a gente é fantoche de alguém. Tudo é perfeitamente plausível, para não dizer provável e saímos da sala reforçados na ideia de que, no mundo actual, as fronteiras entre ficção e realidade são cada vez mais ténues e ilusórias, porque tudo é mentira e a verdade é inatingível.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Rimbaud inédito


No «Libération» de hoje, uma foto inédita de Arthur Rimbaud. É a primeira vez que se vê, com alguma nitidez, o rosto do poeta adulto. Está sentado ao lado da senhora, do lado direito, na soleira do Grande Hotel de l'Univers, em Aden, na Abissínia.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Da série «cem palavras»

Desabafo

Sou o contrário de um génio: tenho imensa comichão e não sei coçar-me.

Pura realidade

Os meus pais levaram-me ao aeroporto de Elizabethville, na altura ainda Congo Belga.
Nesse dia, o meu irmão mais novo e eu, viemos para Portugal com os nossos avós maternos.
Algumas semanas depois, largaram-nos (é o termo) num colégio na Parede, dizendo-nos que íamos lá ficar a dormir «umas noites».
Quando os meus avós se foram embora, fugi do colégio a sete pés.
Corri, corri e, sem saber como, fui parar à praia.
Não sabia onde estava, nem que fazer da minha raiva e do meu desespero.
Quando me cansei de chorar, já era noite. Tinha fome e frio e não havia ninguém por perto.
Tinha sete anos e foi nesse momento que comecei a tornar-me um homem. Por outras palavras: regressei ao colégio, para uma vida de miséria que durou oito anos.
É isso que me define: sou alguém que sobreviveu a oito anos de colégio interno.
Ainda hoje não consigo recordar esses tempos com serenidade. Ainda hoje não sei se estou preparado para escrever sobre isso mas, esta manhã, acordei com a cabeça cheia de nomes da minha infância: Mirita, Maria da Luz, Dona Guilhermina, Marieta, Fausto, Baldrico, Simas…
Quantas histórias! Quantas lágrimas!
Um dia vou ter que escrever sobre isto. Um dia…

sábado, 10 de abril de 2010

Passeio pelo bairro






Switch of

Banhamos, cada vez mais, na Internet, mas dentro de dois anos, com o «switch of» (a televisão analógica deixará de existir e será substituída pela digital), vamos ficar totalmente imersos nela. A nossa vida passará a ser muito diferente. Não melhor, nem pior, mas «outra».
As televisões serão 'inteligentes' e a comunicação entre elas, o telemóvel e os computadores pessoais será total e instantânea. As fronteiras entre o real e o virtual esbater-se-ão ainda mais.
Com a generalização da alta definição e das três dimensões, a vida real parecerá cada vez mais pobre e tristonha comparada com os mundos maravilhosos que nos entrarão pelos olhos dentro através da publicidade, das séries televisivas, dos filmes e dos jogos de todo o tipo. Tanto mais que o fosso entre ricos e pobres (e jovens e velhos) tenderá a acentuar-se.
Tal como se acentuará a tendência actua para a pulverização total em todas as áreas do consumo, em política como na cultura. Todos os dias o «mainstream» se encolhe com o aparecimento constante de novos nichos de mercado.
Tudo isto, mas mesmo tudo, tem um lado bom e um lado mau. Se é verdade que há males que vêm por bem, não é menos certo que há bens que vêm por mal. Por isso, não estou nem optimista, nem pessimista, antes pelo contrário. Embora radicalmente novo, o mundo e o homem permanecerão essencialmente o que são hoje: um paraíso desbaratado pela ganância dos seus habitantes.

Camus e Wagner

Camus dizia da música de Wagner que era «música de escravos». Estou inteiramente de acordo.

Da solidão


Não há melhor remédio para a solidão do que contemplar uma paisagem até fazer parte dela.

Elias Canetti e a morte

«Sería bueno, a partir de cierta edad, volvernos cada vez más pequeños, año tras año, y recorrer hacia atrás los mismos peldaños que en otros tiempos fuimos escalando con orgullo». Sim, é verdade, era bom, a partir de uma certa idade, voltarmos a ser cada vez mais novos, ano após ano, até desaparecermos de vez. Há muito tempo que o penso, mas acabo de constatar que Elias Canetti também o pensava. A citação vinha no Babelia, o caderno cultural do El País, onde se dá conta da publicação, em Espanha, de um livro póstumo do Prémio Nobel de Literatura de 1981: Libro de los muertos. Apuntes 1942-1988. Como o título indica, trata-se de um conjunto de apontamentos que ele escreveu sobre o tema da morte. Tenho que ver se o arranjo.
E, para terminar, outra frase dele que subscrevo inteiramente: «Morre-se com demasiada facilidade; morrer devia ser muito mais difícil».

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Clair Obscur

Enquanto não chega cá o novo disco de Françoise Hardy, La Pluie Sans Parapluie (editado há dias em Paris), escuto Clair Obscur, um disco já com dez anos. O álbum abre com uma canção dos anos 30, «Puisque vous partez en voyage», de Mireille e Jean Nohan, aqui cantada em duo com Jacques Dutronc (com quem ela vive há muitos anos). Esta belíssima canção inaugural anuncia, com muita ironia, que vamos ouvir um disco outonal, onde se fala do envelhecimento com humor e ternura. Logo na canção seguinte, uma adaptação de um tema jazz co-assinado por Django Reinhardt e Stéphane Grapelli, Françoise Hardy evoca a inocência e a beleza perdidas. «A festa acabou», canta ela.
Também foi ela quem escreveu «Clair Obscur», o tema que dá o título ao álbum, com música de Khalil Chahine. Um belo poema que diz: «aqui estou eu, nem demasiado perto nem demasiado longe, passageira clandestina de um sonho incerto...» Fala de alguém que se fechou a sete chaves com medo de sofrer, com medo de amar.
O amor e a solidão sempre foram os temas preferidos de Françoise Hardy e este disco não escapa à regra. Clair Obscur é mesmo, possivelmente, o mais pessoal e intímo de todos os discos que alguma vez lançou. Não só fez questão de escolher pessoalmente todas as músicas do disco, mas também todos os músicos que nele participam (e a lista inclui figuras ilustres como Iggy Pop e Etienne Daho, a par de outras muito menos conhecidas, mas não menos talentosas). E foi ela quem escreveu a maior parte das letras (o que é raro acontecer), como «Tu ressembles à tous ceux qui ont du chagrin» e «La saison des pluies», duas das mais bonitas canções que alguma vez ouvi.
Já tinha saudades de ouvir um disco assim, tão triste que me aquece o coração, neste inverno interminável.

Da nostalgia

Segundo Alberto Manguel (escritor argentino que também tem a nacionalidade canadiana, mas vive actualmente em França), «a palavra nostalgia foi inventada no dia 22 de Junho de 1688 por Johannes Hofer, um estudante de medicina alsaciano ao fundir a palavra “nostros” (“retorno”) com a palavra “algos” (“dor”) na sua tese Dissertatio Medica de Nostalgia, para descrever a doença dos soldados suiços obrigados a viver longe das suas montanhas».

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Montra

Parque Eduardo VII (hoje)

Mad Men

Mais uma pérola de Mad Men, a minha série preferida: «Só as pessoas aborrecidas se aborrecem».

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