terça-feira, 31 de março de 2009

Remador imaginário



Nuvens, seguidas por outras nuvens, escondem o sol quando passam. Quando está encoberto, o céu fica mais bonito. Gosto especialmente de vê-lo em farrapos. Gosto de sentir o sol hesitante, de ver a sombra das nuvens nos rostos das pessoas por quem passo. Há coisas que se vêem melhor com menos luz.
É de costas voltadas que o remador avança. Como ele, escrevo para avançar. Só que não sei para onde. Com o meu bote imaginário, num lago de incertezas, avanço com horizontes que estão para além do que a minha mente alcança. Por isso digo: este é um blogue com segredo, só o abre verdadeiramente quem não sabe o que procura.

Avedon em Amesterdão







Adorei a exposição Richard Avedon que está na Foam em Amesterdão. Uma coisa é conhecer as fotografias pelas revistas e os livros, outra muito diferente é vê-las penduradas numa parede, numa impressão controlada pelo seu autor, no formato que ele escolheu. O que mais impressiona neste impressionante conjunto de cerca de 200 imagens realizadas entre 1964 e 2004 (é a primeira grande retrospectiva da sua obra que se faz depois da sua morte) é o despojamento: as fotos são todas a preto e branco, com um fundo branco, ou voluntariamente neutro, para que o retratado se destaque ao nosso olhar. Tudo está aqui no rosto e na pose. Nos olhos, mas também nas mãos, nas rugas, nas sardas ou no penteado e, muitas vezes, na postura. Avedon citava como principais influências estéticas pintores como Rembrandt e Egon Schiele e percorrer a mostra é perceber porquê.
Retratista sui generis, o fotógrafo norte-americano (nascido a 15 de Maio de 1923 em Nova Iorque, no seio de uma família de pequenos comerciantes judeus) dizia que com os seus retratos não procurava a semelhança, mas uma espécie de ficção. Para ele, um retrato não passava de uma opinião. Ou seja, não correspondia à ideia que a pessoa tinha de si, mas à ideia que Avedon se fazia dessa pessoa que «lia» através da lente. Por isso, afirmava que uma foto é sempre exacta, pois todas as fotografias são rigorosas, embora nenhuma delas revele a verdade.
Na verdade, também eu creio que a verdade não existe e muito menos em fotografia; apenas existem visões, ou opiniões. Ou seja, ficções. Um fotógrafo utiliza um aparelho de precisão que, paradoxalmente, trabalha com ilusões (ideias preconcebidas ou miragens). O que eu vejo não é nunca o mundo, mas sim o meu mundo. O mundo (ou a realidade, se preferirem) é o que vai desfilando aos meus olhos, ou nos meus sonhos. Dos sonhos, contudo, que são uma importante parte da nossa realidade, não podemos trazer retratos. O que é pena, porque nos sonhos, frequentemente, uma pessoa são várias pessoas e nós mesmos somos nós e outros e seria fascinante poder traduzir isso em fotografias. Quem sabe desenhar tem, assim, uma imensa vantagem, pois pode procurar fazê-lo, o que muito invejo.
Como eu, talvez Avedon procurasse ver-se nos olhos das pessoas que fotografava, não tal como é, mas como os outros o viam, já que somos todos reflexos deformados uns dos outros.
Desse ponto de vista, talvez a série mais impressionante de toda a exposição é a que retrata o pai pouco tempo antes de morrer. Esse pai que ele fotografou até à morte, a partir do momento que soube que ele estava condenado por um cancro. Desse pai que, de alguma maneira, ele «suicidou» com as suas fotografias, sabendo que ele próprio estava condenado (é sempre uma questão de tempo) e imaginando, porventura, como seria quando chegasse a sua hora.
A sua hora chegou em 2004, aos 81 anos. Foi um AVC que o tramou, enquanto estava a cobrir as eleições americanas para a revista «New Yorker». Como diria Roberto Calasso, cujas palavras estou deliberadamente a deturpar: «a elegância do seu olhar estético mantém viva uma necessidade básica do homem: evitar que os espelhos se partam».

PS - A exposição da Foam reúne retratos tirados entre 1946 e 2004 e ficará em Amesterdão até ao próximo dia 13 de Maio.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Do amor



O saber não ocupa lugar. O amor sim. O amor ocupa o lugar todo. Ou não é amor.

Reler Thoreau

Reler Thoreau foi uma inspiração. Lé-lo, ou relê-lo é, aliás, sempre uma inspiração. O seu Walden (escrito em 1849) é uma das obras mais inspiradoras que existem. Que lição de vida!
O livro marcou-me em mais do que me lembrava e ao relê-lo apercebi-me onde fui buscar algumas das minhas ideias mais enraizadas. Aquilo que penso sobre os filósofos e a filosofia, por exemplo, está profundamente marcada pela leitura deste livro. Escreve ele: «Existem, hoje em dia, professores de filosofia. Contudo, não existem filósofos. Ser filósofo não é somente ter pensamentos engenhosos, nem sequer fundar uma escola, mas sim amar a sabedoria a ponto de viver, de acordo com os seus ditames, uma vida de simplicidade, independência, magnificência e confiança. É solucionar alguns dos prolemas da vida, não só a nível teórico mas, de igual forma, a nível prático.»
Para Henry David Thoreau (1812-1862), como para mim, a maioria das pessoas, não chega a colher «os frutos mais saborosos da vida». Como ele diz: «A maioria dos homens leva uma vida de mudo desespero. O que é apelidado de resignação é na verdade um desespero incurável».
Como ele, penso que «a grande parte daquilo que os meus vizinhos consideram ser bom, eu acredito com toda a alma que seja mau» e que «o luxo de uma classe social é contrabalançado pela indigência de outra».
A esse respeito, lembra que os escravos que construiram as pirâmides, viviam em tendas, comiam alho e não eram enterradas decentemente. Evidentemente, vieram-me à memória os novos escravos do Dubai que constroem as maiores maravilhas arquitectónicas e urbanísticas do mundo moderno, mas vivem empilhados em armazéns miseráveis, para ganhar meia-dúzia de tostões.
Não se pense que estamos tão longe disso, aqui em Portugal, onde alguns gestores e patrões fazem fortunas nas nossas costas. Literalmente, pois ao trabalhar nas suas empresas é como se andássemos com eles às cavalitas o dia todo.
Como diz Thoreau, há milhões de homens e mulheres suficientemente despertos para trabalhar, mas apenas um em cada cem milhões está suficientemente desperto para uma vida poética.
Sim, como ele afirma, «a nossa vida é desperdiçada em pormenores» e a capacidade, que todos possuimos, de «influenciar a qualidade do dia, eis a mais ilustre das artes». Thoreau tem carradas de razão: o intelecto é (ou devia ser) um cutelo, usado para discernir e abrir caminho para o segredo das coisas. Quanto à nossa maneira de viver, a palavra de ordem devia ser: simplicidade, simplicidade, simplicidade!

terça-feira, 24 de março de 2009

Pura realidade

Unhas de fome. Hoje vi um homem que tinha, efetivamente, unhas de fome.

Ficção rápida

Ele tem 90 anos. Ela anda lá perto.

ELE : Estou cansado de viver, de acordar todos os dias, de fazer a barba e tomar o pequeno-almoço. Todos os dias acordo com um grande ardor nos olhos e no ventre. Não saio de casa e é como se andasse perdido. Estava na hora de haver um milagre: de acordar uma manhã e ter 20 anos. E perceber que a minha velhice não passara de um pesadelo. Poderia então empreender a tal viagem, sempre adiada, ao paraíso.

ELA : O sabor desta maçã, esta sombra que entra pela casa e o canto do passaro no pátio... tudo isto me dá o gosto de viver. Esta flor que respiro, este pão que fiz com estas mãos... Amar isto é amar-me. E amar-te.

ELE : Quando falas assim, no meu coração acende-se uma luz. Tudo o que dizes é como seiva para o meu tronco ressequido. Contigo sinto-me seguro e leve. Calmo e denso. Com raízes profundas e horizontes largos. Amo-te mais do que a mim mesmo.

ELA : Bom-dia meu amor.

ELE : Respiro agora ao ritmo do teu pensamento. Vejo o caminho para te merecer. Aqui, nesta pequena casa de pele e osso, volto a sentir uma sede feliz de vida. Bom-dia minha querida!

Beijam-se e o pano cai.

domingo, 22 de março de 2009

Voz subterrânea

Ontem li, de fio a pavio, A Voz Subterrânea de Dostoievski, sem dúvida, um dos seus textos mais terríveis, escrito em 1864. Centrado na figura de um funcionário público, traça um retrato feroz de uma mentalidade que, infelizmente, conhecemos demasiado bem. Justificando a sua própria condição, mas também a dos colegas, o narrador (trata-se de um longo monólogo introspetivo) afirma a dado passo: «Todo o homem do nosso tempo, que é como deve ser, é e tem de ser cobarde e subserviente. É esse o seu estado normal. Estou absolutamente convencido disso». Impossível não pensar no meu antigo emprego, onde a atual direção conseguiu impor uma subserviência generalizada, através de um sistema de avaliações completamente fascizante e do fantasma do despedimento. Mais adiante, o «herói» de Dostoieviski, faz-se involuntariamente porta-voz da maioria dos assalariados lusos ao escrever: «Eu, por exemplo, desprezava sinceramente a Administração e só não cuspia sobre ela por pura necessidade, porque lhe pertencia e recebia dela um ordenado». Triste conclusão: em matéria de gestão de recursos humanos e condições de trabalho, o Portugal do século XXI é uma cópia a papel químico da Rússia do Séc. XIX. Não vos dá vontade de chorar?

sábado, 21 de março de 2009

Dos sonhos



O que o sonho nos quer dizer? Só nos resta sonhá-lo...

Do tempo



Não há volta a dar: o tempo é o único caminho.

Peter Handke

Afirma Peter Handke: «Les gens les plus irritales sont parfois les plus heureux». Se não fosse completamente impossível, ia jurar que estava a falar de mim. E, noutra página, ainda a propósito da ira, dá um excelente conselho a si próprio: «Ne réfrène pas ta colère mais purifie-la.»

No mesmo livro («À ma fenêtre le matin»), que acabei de ler ontem, ele diz também: «L'art n'a rien à voir avec le savoir-faire, mais bien plutôt avec l'esquisse; s'il n'y a rien à esquisser le savoir-faire n'est d'aucun secours».

O livro reúne apontamentos que escreveu durante uma estadia de oito anos em Salzbourg, na Austria (1982-1987). São mais de 400 páginas de reflexões e observações e foi das leituras mais proveitosas que fiz nos últimos tempos. Até porque está recheado de frases que eu próprio podia ter escrito. Como estas três, por exemplo:

«La principale recherche dans l'écriture est dans l'attente».

«Ma joie de vivre la plupart du temps n'est plus que joie de marcher, regarder, écouter et créer».

««Je ne serai pas perdu tant que je pourrai dire: "je peux aussi faire autrement"».

Infelizmente, o livro não está traduzido, mas há outros livros dele aí nas livrarias. E a feira do livro de Lisoa, tomem nota, abre já no próximo dia 24 de Maio

sexta-feira, 20 de março de 2009

Aphorism

Only angels can see
how alone and miserable
God is

Here I am

Back to my blog
here I am
ready to listen
your silence

If I only could
sing tonight
once again
like I used to

But we cannot stay for long
neither me or you
as we are needed
for another purposes

That's why
that's how
that's all
I have to say today

Da Primavera




Spring has arrived.
the same way a poem rises.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Do emprego (do tempo)

A prova que fiz bem me despedir do emprego é esta: sempre que saio à rua descubro agora algo que me encanta. E quando me ponho a escrever, também.

Da fotografia

Tal qual uma criança, o fotógrafo tem frequentemente mais olhos do que barriga. Pensa nisto Jorge: quanto menos fotos fizeres, mais elas terão valor aos teus próprios olhos.

Das circunstâncias

«É preciso estar à altura das circunstâncias». É uma expressão que se ouve com alguma frequência. Acho-lhe uma certa piada. Na verdade, raramente as circunstâncias estão à minha altura. Não é um mero jogo de palavras: a maior parte das vezes, tenho que me baixar (que descer das nuvens, se preferirem) para perceber o que se passa à minha volta.

Dos sonhos

Posso não ser, como gostaria, um grande pensador, mas sou, com certeza, um grande sonhador. Já tive sonhos que fariam inveja ao mais megalómano dos cineastas e já visitei, em sonhos, cidades mais espetaculares do que Florença ou Paris. Infelizmente, à medida que passam os anos, tenho cada vez mais sonhos maus e menos bons, o que prova quão pouco generoso é o tempo connosco em quase todas as matérias. Seja como for, tenho vindo a pensar que a maior diferença entre o sonho e a realidade é que esta última pode ser, por vezes, neutra, ou mesmo maçadora, enquanto que nos sonhos é tudo intenso e essencial.

Sonho


Estamos em França e entramos num café que é simultaneamente um salão de beleza. Há uma passagem de modelos que logo se transforma em musical espalhafatoso (mas a coreografia é experimental). Quando acaba, os atores vêm distribuir bolos e chocolates que representam, em miniatura, interiores de casas com pessoas lá dentro. É o nosso último dia de férias e ainda temos que atravessar a cidade para ir buscar as nossas malas, não sei onde. De repente, ouço alguém dizer nas minhas costas: «Com eles, todo o cuidado é pouco.» É nesse momento que toca o despertador e acordo a pensar: «Estariam a falar de nós?».

quarta-feira, 18 de março de 2009

Da escrita

Memória, imaginação, solidão. Para se escrever, não é preciso mais nada.

Da viagem

Numa viagem, a única coisa que conta verdadeiramente é fazê-la. Que ninguém espere trazer nada de duradouro de umas férias no noutro lado do mundo, ou mesmo da outra banda. Seria o mesmo que pretender levar dinheiro para a cova. A memória é uma ilusão (sem ir mais longe: de tudo o que viveste hoje que te resta verdadeiramente neste momento?).

Pura realidade

Hoje vi dois gémeos que pareciam caricaturas um do outro.

Do silêncio (2)

Escrever é compor com o silêncio. Mas a música do que escrevo, provavelmente só eu a ouço.

Da originalidade

Como aconselhava Jean-Jacques Rousseau, não te preocupes em saber se fazes como os outros ou não. Sê autêntico e serás original.

Da desaparição

No final de Une femme douce, de Robert Bresson, o marido arrependido pede à mulher morta: «Abre os olhos, só mais uma vez.»
O seu desespero não o deixa perceber que o mais sensato seria fechar ele os olhos para a ver viva de novo.
Infelizmente, não só os mortos nunca regressam como desaparecem um pouco mais a cada dia que passa.
Conheço velhos que se retiram do mundo para começar a desaparecer antes de tempo. Como se quisessem ensaiar a sua desaparição.
Percebo-os muito bem.

terça-feira, 17 de março de 2009

Ume femme douce



Ontem fui, em boa hora e em boa companhia, à Cinemateca ver Une femme douce, o primeiro filme a cores de Robert Bresson, baseado num texto de Dostoievsky (que adapta muito livremente) e realizado em 1969. O meu filho Daniel confessou não ter percebido nada. Como poderia ele, que tem vinte anos, ter entendido um filme que não procura imitar a vida, mas apenas se inspira nela para se construir como um poema visual? Como objecto artístico (ou seja, como a expressão de uma sensibilidade única e uma profunda necessidade de entender a mente humana), o filme é, aos meus olhos, uma obra-prima. Talvez como nenhum outro, Une femme douce é a ilustração perfeita dos pensamentos que compõem Notes sur le cinématographe, o livrinho de Bresson que tanto me marcou e que ainda hoje influencia as minhas reflexões sobre a arte.
A começar pelas ideias que veicula e a acabar nas imagens e sons que o constituem, o cinema de Bresson é uma lição de simplicidade, onde cada plano é propriamente genial (não gosto de usar a palavra, mas por vezes, impõem-se). Em verdadeiro «joalheiro» do cinema, Bresson trabalha cada elemento dos seus filmes com um amor e um rigor que, como já disse Le Clézio, «nos mostram o simples e difícil caminho para a perfeição».
Quanto a Dominique Sanda, é demasiado bela para não «encher» o filme todo. A sua beleza ilumina todas as cenas em que surge. De resto, no filme, ela representa a claridade, enquanto o marido é a obscuridade. Ela é o movimento, ele a imobilidade. Não admira que a ternura esteja completamente ausente desta relação baseada no dinheiro e em vontades não apenas diferentes, mas opostas. Aquilo por que ela anseia (seja lá o que for, nunca o saberemos) e o que ele procura são duas vias incompatíveis e é a assumpção dessa certeza que a leva ao suicídio, logo no início do filme. Para mim, Une femme douce tem dois momentos essenciais: aquele em que ela aponta a pistola ao marido que finge dormir e a cena (não menos sublime) em que vemos cair da varanda o xaile branco. A cena em que ela perde as asas. A menos que seja o contrário: no momento de morrer, ela transforma-se no anjo que prometia ser.
Quem não viu este filme, tão tocante que faz nossa a sua dor, tem outra oportunidade para se resgatar no próximo dia 27, às 19h30.

Apontamentos à deriva

Escrever: preencher silêncios.
Pensar: preencher vazios.
Amar: preencher-nos.
Morrer: despreencher.

Da série «Ruas que falam»

Da escrita

Pensa como se pudessem ouvir-te pensar. Mas escreve como se fosses o único homem no mundo.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Do luxo






Um passeio de barco sob um sol glorioso, um bom peixe grelhado para o almoço e algumas fotos tiradas pelo caminho. Mais tarde, uma conversa afiada à mesa de uma esplanada, a visita de um filho e um filme de Bresson na Cinemateca, para rematar. Não há maior luxo do que ter tempo livre e saúde para o gozar.

Alain Bashung (1947-2009)



Logo de manhã, ao ligar a TV, um murro no estômago: morreu Alain Bashung! Era um dos meus músicos franceses favoritos. Que digo eu? Era um dos franceses que eu mais admirava. Sobre ele escreve hoje um jornalista do «Libération»: «Cœur solitaire à gauche, charmeur, fumeur alcoolo sans feu ni lieu, rêveur kamikaze comme nous mieux que nous, il aura fait notre époque à coups d’airs du temps». Muito bem posto. Fica aqui a homenagem e um conselho: ouçam os seus discos e, muito em particular, «L'Imprudence», um disco sobre o qual escrevi em 2003: «A voz é cavernosa, profunda, e as sonoridades quase soturnas. No entanto, as atmosferas sombrias desta «imprudência» discográfica mergulham-nos num encantamento constante, porque a música é sumptuosa e as surpresas constantes. Em 1998, Alain Bashung tinha publicado uma obra-prima, Fantaisie Militaire, que alguma imprensa gaulesa considerou uma «pedra angular do rock francês». Para o seu sucessor, arriscou reinventar-se, e a ousadia voltou a revelar-se compensadora: o novo «opus» é de uma elegância indiscutível. A verdade é que contou com ajudas preciosas: os guitarristas Marc Ribot e Arto Lindsay e o pianista Steve Nieve, por exemplo. Com estes e outros cúmplices, porventura menos famosos, mas não menos criativos, Alain Bashung logrou encontrar, para as suas letras quase abstractas, sofisticadas texturas sonoras que se revelam absolutamente hipnóticas. Trés recommandé!».

Um link:
http://www.youtube.com/watch?v=4SR_ygICDKE

domingo, 15 de março de 2009

Feira de Cascais



sábado, 14 de março de 2009

Dez romances



A revista «Telerama» anda a perguntar aos escritores franceses quais são os seus dez romances preferidos. Ler as várias listas deu-me vontade de fazer uma também. Hoje a escolha seria esta, amanhã não sei:

Kafka: O Processo
Dostoïevski: Os Irmãos Karamazov
Faulkner: O Som e a Fúria
Beckett: Molloy
Robert Musil: O Homem Sem Qualidades
Céline: Viagem ao Fim da Noite
Nabokov: Ada ou Ardor
Philip Roth: Pastoral Americana
Don DeLillo: Mao II
Saul Bellow: Herzog

sexta-feira, 13 de março de 2009

Do destino



O caminho passa sempre por ti. Nunca o esqueças. Onde quer que vás, vais encontrar-te. Por isso, está atento.

Da escrita



Durante muitos anos, escrevi só para mim. Chegou a altura de escrever para os outros, pois em breve não estarei cá para me reler.

Da poesia



Cioran dá, sem querer (está a falar de outra coisa), a melhor definição que conheço da poesia: «tentar dizer por palavras o que as palavras não podem dizer».

Da poesia



Gosto de ler alguns filósofos, mas devo confessar que prefiro a poesia à filosofia. O filósofo procura convencer-me das suas ideias, o poeta suscita-me ideias próprias. para mim, mesmo o mais curto poema pode ser mais fecundo do que um extenso tratado filosófico. Claro que alguns filósofos são também poetas, como Nietzsche e Bachelard, por exemplo, e como tal os leio, lendo-me a mim mesmo no que eles escrevem.
Dito isto é urgente que acrescente: entendo por poeta não o simples fazedor de versos, mas todo o ser humano para quem sentir é mais importante do que querer e que põe as suas emoções mais alto do que os seus desejos. Que procura, enfim, a natureza das coisas para lá da sua «imagem».
De resto, a maior parte dos poetas não verseja, a maior parte das pessoas que versejam não são poetas. Do mesmo modo, a poesia está em todas as artes, mas não em todos os artistas e todas as artes estão na poesia, sobretudo a arte de viver.
A arte de viver é a mais pura forma de poesia que concebo.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Da paixão

Para «apaixonar-se» os franceses dizem «tomber amoureux». Ora «tomber» quer dizer «cair». Porquê cair? Na verdade, cai-se na paixão como se cai em tentação. E também se cai eventualmente na armadilha de uma sedução. Contudo, salvo melhor opinião, seria mais certo dizer «lever amoureux». Ou não? A paixão será uma elevação ou uma queda? Tenho que voltar a este assunto, até para procurar uma resposta para outra pergunta que me ocorreu esta manhã: «Será possível apaixonar-nos duas vezes pela mesma pessoa?».

Dos sem-abrigo



Nem toda a gente quer parecer mais do que é. Os sem-abrigo, por exemplo, querem parecer menos do que são.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Pura realidade

Numa esplanada, na mesa ao lado da minha, dois sujeitos engravatados discutem finanças e operações bancárias. De repente, um deles diz: «Há as coisas e a alma das coisas, e eles estão a esquecer-se da alma das coisas». Arrebito a orelha para ouvir melhor, mas afinal estão apenas a falar de relatórios mal preenchidos e erros administrativos. Digo-o com ironia, evidentemente: há palavras que deviam ser interditas a certas pessoas.

Ronaldo

Do amor

É muito simples: sabemos quando uma pessoa é certa para nós quando com ela nos sentimos melhores do que sem ela.

Da amizade

Tenho muito orgulho nas minhas amizades, tal como tenho do gato que salvei de uma morte certa ou da planta que recuperei quando já parecia perdida. Também as amizades precisam de ser recuperadas ou salvas de vez em quando. Em todo o caso, precisam sempre de ser acarinhadas e constantemente buriladas. Ao contrário do que muita gente pensa, são precisos muitos anos para se construir uma boa amizade. E manter amigos ao longo dos anos é tão essencial (e compensador) como manter a saúde.

Pura realidade

Preparava-me para ir para a cama, quando a Raquel (que já estava a dormir porque amanhã começa a trabalhar às sete da manhã) apareceu na sala para me dizer: «Tenho que ir ter com a minha irmã para lhe levar as chaves de casa. Foi assaltada mais uma vez». Naturalmente, ofereci-me para levar as chaves.
Encontrei-me com a minha cunhada no Largo do Camões. Estava com o seu amigo dinamarquês, que tem um nome impronunciável e que mal se aguentava nas pernas de tão bêbado. Ela segurava nas mãos um cigarro que já não media mais do que um centímetro, que lhe ia queimar os dedos a todo o momento, e lá me explicou que lhe tinham roubado a mala num restaurante ali perto. Enquanto esperava por mim, ligara para o seu próprio telemóvel e atendeu um sujeito que lhe disse ter encontrado a sua mala e que estava disposto a devolvê-la, contra a entrega de uma recompensa. My God!

Ficção rápida

Passei a noite a escrever textos onde brincava com o fogo. Quando acordei, tive que os apagar a todos.

Pura realidade

Que a realidade ultrapassa a ficção não é novidade nenhuma, mas quando certas realidades nos batem à porta sentimo-nos personagens numa ficção delirante. Leia-se este «post» do blog da minha filha e pasme-se:
«Esta história que vou contar é tão verdadeira quanto ridícula. Infelizmente afeta-me a mim e à minha família de uma forma extremamente intrusiva. E levanta outras questões muito mais complicadas.
Por causa de incidentes passados já me tinha apercebido que um dos nossos vizinhos era meio louco. A primeira vez que o cumprimentei à porta do prédio ele respondeu-me com um alarve peido. Noutras ocasiões posteriores ouvi-o queixar-se de meio mundo e acusar quase todos os vizinhos de o maltratarem.
O personagem - que vive numa casa tão badalhoca e mal conservada que amigos meus por julgaram estar abandonada ponderaram ocupar - vive sozinho há muitos anos. Tanto quanto consegui perceber vive na Holanda há mais de 30 anos. É espanhol e, das poucas vezes que conversámos, foi em castelhano.
Este inverno por não ter pago as contas do gás - e consequentemente ter ficado sem aquecimento central - passou os seus dias enfiado no coffee-shop do bairro.
Sempre simpatizei com o senhor e frequentemente insurgi-me contra o mal que diziam dele.
Desde há uns tempos, tinha reparado que ele andava em obras e ouvia frequentemente barulhos de berbequins vindos de sua casa. Sabendo do estado lastimoso em que ele vive não pude deixar de estranhar tal facto.
Um dia destes, por um dos buracos que ele fez, entrou-nos casa a dentro uma coisa que se parecia a uma antena. Quando confrontado com o facto ele limitou-se a dizer "se lo ay passado" e nós para evitarmos grandes confusões, e porque genuinamente acreditámos que era um acidente resolvemos dizer-lhe para ter cuidado mas deixámos as coisas por aí.
Ontem à noite, quando regressámos a casa, tínhamos nada mais nada menos que um buraco na parede. Espreitando por ele, podíamos ver a sala do vizinho. Depois de tocarmos à campainha e ele não responder achámos que o melhor seria chamar a polícia.
Depois de verem o buraco de nossa casa, os polícias foram a casa dele e quando a policia voltou e nos contou a versão dele, apercebi-me de que isto era o começo de uma saga.
Segundo ele, nós (leia-se a minha família) somos uns criminosos da pior espécie e (agora é que vem a cereja no topo do bolo) mantemos a Maddie presa dentro de nossa casa. Fomos nós que a raptámos no Algarve, porque claro somos portugueses, e a trouxemos para a Holanda.
Pior: a história já tem 8 meses, quando ele mandou a sua primeira carta a contar todo este filme à polícia. Parece que entretanto a embaixada portuguesa também já foi notificada do caso e mais umas quantas autoridades holandesas para as quais nem conheço nome mas que ele não se esqueceu de informar .
Ora aparentemente ninguém achou que nos devia comunicar tal barbaridade e todos assumiram que o senhor era demente e que o melhor seria ignorá-lo.
Roído pelo terror de saber que a Maddie estava prisioneira desta terrível família de portugueses o senhor desatou a esburacar a parede não sei bem com que intuito, destruindo a sua casa e, consequentemente, a nossa também.
Ele foi detido e levado para um estabelecimento psiquiátrico ontem onde passou a noite. Julgo que seja libertado hoje. Espero que sim. Eu por mim não consegui dormir com a ideia de que tal personagem existe e sofre como sofre.
Claro que também estou preocupada com a segurança da minha família apesar de achar que o senhor é "inofensivo" e que, acima de tudo, tem muito medo de nós.
Mas pior que tudo é a milícia popular que em poucas horas se levantou em nossa defesa e que está confiante que os vamos ajudar a correr com esta pessoa do bairro.
Uma das minhas vizinhas dizia ontem com estranha convicção: "the only solution is eviction."
Ora se há coisa que eu não vou fazer é assinar o peditório desta gente e mais: espero que o senhor seja libertado quanto antes, mediante medicação, para que o possa convidar a ver por si que a única criança dentro de minha casa tem pilinha e não dá pelo nome de Maddie.»

terça-feira, 10 de março de 2009

Arquivo Universal



«Arquivo Universal» é uma vasta exposição de fotografia documental patente no Centro Cultural de Belém, desde o passado dia 9. Subintitula-se «A condição do documento e a utopia fotográfica moderna» e traça um itinerário que atravessa o século XX. Ao longo de várias salas temáticas, os organizadores procuram definições possíveis para o que é, ou pode ser, a fotografia documental como base de trabalho para sociólogos, historiadores e outros académicos. Como não podia deixar de ser, lá estão os fotógrafos americanos que trabalharam para a Farm Security Administration (Dorothea Lange e Walker Evans, por exemplo), mas também os cultores russos do género como Aleksander Rodchenko, Sergei Tretyakov ou Boris Kushner. A sala dos russos é, aliás, a mais espectacular do ponto de vista da encenação.
Com a ajuda de vários documentários, espalhados pelas diversas salas, onde também se exibem muitos livros e revistas, a exposição leva-nos ainda a visitar estéticas conotadas com os regimes fascistas da Itália e da Alemanha, e da América da Segunda Guerra Mundial, assim como alguma fotografia portuguesa através dos olhares de António Sena da Silva, Victor Palla e Gérard Castello Lopes, para citar os que me lembro. Também os franceses Atget ou Cartier-Bresson estão representados nesta ambiciosa mostra que só peca, na minha opinião, por excesso de informação. Para se ver bem a mostra e se absorver convenientemente tantas imagens e reflexões teóricas, são necessárias várias visitas ao CCB. Não é um problema para quem tenha tempo, pois o acesso à exposição (que vai estar patente até dia 3 de Maio) é gratuito.

Raúl Perez




Raúl Perez nasceu no Minho em 1944 e esteve ligado ao movimento surrealista português. Como se pode ver pelas duas imagens que aqui publico, a sua obra inspira-se diretamente no mundo dos sonhos, mas de uns sonhos muito particulares, povoados por personagens inquietantes, sobre as quais o mínimo que se pode dizer é que remetem para um imaginário de assombração, onde dominam as trevas e a magia negra. Está uma exposição dele no CCB até 12 de Abril.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Da democracia

Tenho cada vez menos a sensação de viver em democracia. A sensação que tenho é a de que vivemos numa ditadura dos chicos espertos. Não me cansarei nunca de o repetir: somos governados, chefiados e vigiados por espertalhões sem escrúpulos e com uma lata infinita que são o contrário de seres inteligentes, pois nenhum ser verdadeiramente inteligente seria capaz de enganar, e muito menos desprezar, os seus semelhantes como esta gente faz. É o que eu acho. À minha volta praticamente só vejo polícias e escravos e os polícias, evidentemente, são os piores escravos porque não desconhecem que o são. Têm a ilusão do poder, coitados. E o poder é algo tão mesquinho, tão reles!
A verdade é que nunca conseguiram fazer de mim um soldado, nem um jornalista empenhado. O que, no fundo, é a mesma coisa. Sou avesso a qualquer forma de obediência sistemática e só reconheço duas formas de autoridade: a da competência em matéria profissional (quase uma utopia num país como Portugal), e a do amor e da amizade na vida em geral. Moralmente, sou um amante. Um amador. Politicamente sou ateu.

Do corpo

É um facto: o corpo humano é um monumento efémero. Esculpido pelo tempo, ou melhor, pelo modo como usámos a nossa vida, o nosso corpo é a parte de nós que, a partir de certa altura, menos nos convém. Se o mundo estivesse bem feito; a partir de uma certa idade, devíamos ser só espírito.

Da morte

Morrer é demasiado definitivo, não me convém. Já descansar eternamente é mais o meu género. Do mesmo modo, morrer não é suficientemente poético para mim. Prefiro simplesmente desaparecer.

domingo, 8 de março de 2009

Ellipse Foundation






Ontem, depois de um opíparo almoço em Alcoitão, fomos visitar finalmente a Ellipse Foundation, na companhia de vários amigos. A Ellipse Foundation foi inaugurada em Maio de 2006 e reúne uma importante coleção de arte contemporânea num espaço labiríntico mas espectacular. Neste momento está lá uma exposição intitulada «Listen darling... the world is ours» da responsabilidade de Lisa Phillips, diretora do New Museum de Nova Iorque.
A mostra reúne obras muito diversas de mais de 40 artistas incluindo grandes nomes como Louise Bourgeois, John Baldessari, Mattew Barney, Nan Goldin, Cindy Sherman e o português Julião Sarmento, por exemplo. Segundo a curadora, propõe-se ilustrar «as mudanças radicais pelas quais a cultura passou nas suas dinâmicas psico-sexuais durante os últimos 30 anos» (as palavras são dela, naturalmente). Gostei especialmente da instalação-vídeo da iraniana Shirin Neshat. Em paredes opostas são projetados dois filmes onde a figura central é uma mulher árabe que, dum lado evolui num meio religioso iraniano e do outro no nosso mundo «ocidental» (foi o que me pareceu). É uma mulher confrontada com culturas e religiões muito diferentes, carregando com o peso de uma tradição especialmente penalizante para as mulheres, que procura emancipar-se, mas que não consegue sentir-se verdadeiramente livre em nenhum dos dois mundos por onde circula. Segundo Lisa Phillips, «a fricção entre duas culturas e costumes diferentes, entre o sagrado e o profano, é avassaladora à medida que ela confronta e contempla as grandes linhas divisórias que separam o cultural e o religioso, bem como a sua relação com ambos enquanto mulher e imigrante nestes tempos de medo e paranóia».
A exposição «Listen darling... the world is ours» encerra com outra instalação-vídeo super-interessante, desta vez projetada em seis paredes diferentes ao mesmo tempo. Intitula-se «Where is where» e é da autoria de Eija-Liisa Ahtila. O filme, que se desdobra pelos vários ecrãs de forma espetacular, justapõe e intercala duas histórias: uma centrada numa mulher finlandesa à procura de respostas para as inquietações existenciais e outra que narra as aventuras de garotos argelinos em período de guerra. Fabuloso!

quinta-feira, 5 de março de 2009

Saudades de Amesterdão







Estava a arrumar umas fotografias e dei com estas, tiradas em 2006, em Amesterdão. Ficam aqui para as salvar de novo esquecimento

Ficção rápida

Ok, finalmente sou publicado. Um editor conseguiu perceber o alcance do meu trabalho e entusiasmou-se. Depois, milagre, um crítico percebeu-me também. Uma boa recensão num jornal credível e o livro está lançado. Os outros jornais alinham pelo mesmo diapasão, todos querem entrevistas, lutam inclusivamente por um exclusivo. A televisão chama-me. As televisões. A fama chega ao estrangeiro e chovem pedidos de tradução. Só falta um prémio, cá está ele. Sim, e depois? Que adianta isto tudo? Dinheiro? Para quê? Tudo chegou demasiado tarde, não há nada a fazer, vou morrer amanhã.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Luz




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