quinta-feira, 30 de abril de 2009

Juntos para a vida




A quase totalidade dos críticos, pelo menos dos que tenho lido, parece estar de acordo que Together Through Life é um Bob Dylan «menor». O mesmo se tem dito de outros álbuns seus recentes e, curiosamente, o mesmo se diz de quase todos, senão todos, os últimos filmes de Woody Allen. Claro que não se trata de uma coincidência, um e outro já não têm nada a provar ao mundo, podem dar-se ao luxo de fazer o que lhes dá na real gana. Num caso como no outro, não precisam do dinheiro, se continuam a realizar discos e filmes é porque lhes está na massa do sangue e porque, obviamente, isso lhes dá gozo. Seja como for, um Bob Dylan «menor», ou um Woody Allen menos conseguido, valerão sempre mais, muito mais, do que a maior parte das obras que os mesmos críticos apodam de geniais, só porque todas as semanas querem ser os primeiros a apontar o futuro da música, do cinema ou seja do que for.
Para mim, que cada vez gosto mais do que é visceral e despretensioso, Together Through Life (tal como os últimos discos de Ry Cooder ou J. J. Cale), é uma pequena maravilha, com o seu som «negro», reminiscência do seu (nosso) amor pelo blues, a soul, a country e o rock'n'roll dos anos 50. E adoro o facto de se ter deixado contaminar por influências vindas do lado errado da fronteira dos EUA (David Hidalgo dos Los Lobos assegura com o seu acordeão o feeling tex-mex de algumas faixas).
Dylan que nunca escondeu o quanto gostava de Son House, Leadbelly ou Willie Dixon, sempre afirmou que procurava escrever canções como Woody Guthrie ou Robert Johnson: «intemporais e eternas». Há muito que cumpriu esse desígnio, pelo que já só lhe peço que continue a fazer os discos que muito bem quiser. Porque, em música como noutras coisas, poucas coisas me dão mais prazer do que me deixar possuir pelo prazer dos outros.

Não Dou Beijos



Antes da sessão começar, Jacques Nolot (que se encontra em Lisboa porque o Indie lhe dedicou uma retrospectiva) foi convidado a falar sobre o filme. Fê-lo contrariado porque, como explicou, J'Embrasse Pas parte de um argumento seu (inspirando-se na sua própria experiência de gigolo), mas foi largamente modificado por André Techiné. Como quem não quer a coisa, Nolot contou que conheceu Techiné graças a Roland Barthes e declarou entre dentes: «Já fomos amigos, mas hoje somos irmãos inimigos».
Fofoquices à parte, J'Embrasse Pas trata, como o título claramente sugere, do tema da prostituição. O tema é introduzido gradualmente, através da história de Pierre (Manuel Blanc), um rapaz da província que vem viver para Paris, na esperança de se tornar ator, mas que sente grandes dificuldades em adaptar-se. Depois de uma relação com uma mulher madura (desempenhada por Hélène Vincent), e outra nunca concretizada com um velho homossexual (Philippe Noiret num papel muito contido), acaba relutantemente por se tornar prostituto para sobreviver. Tudo se complica, porém, quando se apaixona por uma prostituta (a belíssima Emmanuelle Béart), cujo proxeneta acaba por o violar na cena mais terrível deste filme implacável que confirma Techiné como um dos melhores realizadores franceses do momento.
O filme repete no sábado, às 18h15, no Cinema Alvalade.

O prazer de ser roubado



Mais uma longa-metragem interessante passou ontem no Indie. Filmado em 16mm, como se fosse um documentário, e realizado com pouquíssimos meios, The Pleasure of Being Robbed é um filme que se vê com prazer, apesar do seu grão e da imagem frequentemente tremida. Esses defeitos (entre outros, pois estamos longe do filme perfeito) são compensados pela espontaneidade com que é filmado e interpretado pela perturbadora pela Eleonore Hendricks (na foto), aqui na pele de uma jovem ladra absolutamente irresistível e indomável, tão inocente que chega a ser feroz.
Josh Safdie, o realizador tem 25 anos e esta é a sua primeira longa-metragem. Com o seu tom de reportagem pop, mas desenvolvido como uma improvisação jazzística, The Pleasure of Being Robbed trouxe-me à memória (para além do Pickpocket de Bresson) o Pierrot Le Fou de Godard, mas igualmente filmes de Cassavetes e Jim Jarmush. O mínimo que apetece dizer é que o «underground nova-iorquino» longe de ter desaparecido, porta-se bem e recomenda-se.
O filme repete no domingo, às 18h45, no Cinema S. Jorge.

Primeiros poemas

Graças a um amigo (O José Solano de Almeida), que guardou religiosamente todos os papéis que lhe enviei durante a nossa adolescência, recuperei há dias dezenas de poemas (e um conto) que tinha escrito entre 1969 e 1972. Como se calcula, relê-los levantou uma verdade tempestade de emoções contraditórias dentro de mim. Vergonha, muita vergonha, mas também uma certa ternura complacente pelo adolescente que fui. Era à época de uma candura infinita, mas também de uma espontaneidade de que hoje sinto imensa saudade. Com todos os meus defeitos, era mais poeta na altura do que sou hoje, sem dúvida. A título de curiosidade, deixo aqui três poemetos desse tempo para os destinatários do costume:

INSTANTÂNEO

ele entrou pelo imóvel em fogo
muito digno
todo vestido de branco
e de chapéu de abas largas

algumas velhas alcoviteiras
pararam de ruminar desgraças e riram

enquanto o seu amor emergia
das chamas a cantar

IN MEMORIAM

lá fora, na noite,
soam guitarras e fados
febris de saudade

mas no denso mel das minhas recordações

o meu amor afoga-se em silêncio
dançando alegremente
o chá-chá-chá

DECISÃO

Espetar duas facas no quintal.
Com raiva.
E chamar-lhes «Monumento à minha solidão».

Linha de água

Para passar o tempo, ouço os sapos coaxar e os pássaros cantar. Dir-se-ia uma disputa, ou um concurso. (Se fosse compositor, decerto extrairia daqui uma obra de vanguarda!). À minha frente, três cães brincam perseguindo-se dentro de água, observados por um quarto cão que se aproximou mas parece não querer molhar as patas. À minha volta, estuda-se furiosamente. (Há uma universidade aqui perto e o ano lectivo está a chegar ao fim).
Sentando à sombra, no canto mais discreto da «Linha de Água» (é o nome da esplanada onde me encontro) finjo escrever porque não estou com disposição para mais nada. Estou cheio de projetos mas, como de costume, dá-me mais prazer sonhá-los do que concretizá-los. Concretizar é, de resto, uma palavra feia; sonhar é uma palavra bem mais bonita. Por isso, por hoje, fico-me por esta quadra:

um verso é um verso é um verso
mas dois versos já são demais;
a não ser que, sem pretensões, digam
mais do que parecem dizer

quarta-feira, 29 de abril de 2009

João Gilberto

video

Lá vem o pato
Pata aqui, pata acolá
Lá vem o pato
Para ver o que é que há

Calçada





terça-feira, 28 de abril de 2009

Ponto da situação

O que estou a (re)ler?
«Na Patagónia, de Bruce Chatwin

O que estou a ouvir?
«Together Through Life», de Bob Dylan

O que estou a ver?
«Breaking Bad», segunda série

O que estou a planear?
Três semanas de férias no Canadá, com passagem pour Vancouver e Toronto.

Do que é que estou à espera?
Do Verão.

domingo, 26 de abril de 2009

O Paris de Eggleston



Na Fondation Cartier está, até 21 de Junho, uma exposição do norte-americano William Eggleston,. O fotógrafo, actualmente com 69 anos, não gosta de comentar o seu trabalho, mas a propósito destas obras, todas realizadas na cidade-luz, explicou a um jornalista: «Aconteceu, não foi premeditado... Paris não se resume a um tema... e ainda tenho muito para fazer aqui». Afirmou também que a imagem que simboliza melhor a sua visão da cidade é a que aqui publico. Na sua simplicidade, tem tudo o que caracteriza a sua obra: é deliciosamente intemporal e com as suas cores harmoniosas e enquadramento invulgar convida ao sonho ou a escrever um poema.

Pura realidade

Nos seus «Diários», o jornalista italiano Indro Montanelli, conta que, em Maio de 1977, jantou com Ionesco, cuja mulher passou toda a refeição, a refilar: «Não devias comer isso!»; «Não devias beber tanto!»; «Devias deixar de fumar!». A certa altura, Ionesco segredou-lhe ao ouvido: «Esta mulher tem uma atração irresistível pela viuvez. Gostaria que eu vivesse como se já estivesse morto». E continuou a comer, beber e fumar como se nada fosse.

sábado, 25 de abril de 2009

25 de Abril



Já foi bonito; já não é. Ironicamente foi o partido (dito) socialista quem enterrou definitivamente a revolução.

The Lost Girl



«[Lawrence was] a writer with an extraordinary sense of the physical world, of the colour and texture and shape of things, for whom the body was alive and the problems of the body insistent and important.» Virginia Woolf dixit

Lhasa



Lhasa de Sela nasceu no estado de Nova Iorque, mas tem sangue mexicano. Em 1997, deu-se a conhecer ao mundo com um disco intitulado La Llorona, que era uma óbvia homenagem à música mexicana e muito em particular a Chavela Vargas. Seis anos mais tarde, publicou The Living Road, outra obra prodigiosa onde cantava, em espanhol, inglês e francês, «torch songs» infecciosas, com uma voz sensual e sofrida que fez dela, instantaneamente, uma das nossas cantoras preferidas. Foram precisos mais seis anos para Lhasa voltar a gravar. O resultado está aí, num disco sem título, agora inteiramente cantado em inglês, que é, sem dúvida, o seu álbum mais íntimo e perturbador. Para lhe fazer justiça é preciso gostar de canções tristes e crepusculares (onírico e solitário, o álbum já foi descrito como uma viagem ao fim da noite). Gravado num estúdio analógico, em apenas duas semanas, com os músicos a tocarem «ao vivo», o disco é um libelo anti perfeccionista: uma obra crua, exigente e essencial que, infelizmente, só alguns conseguirão apreciar devidamente.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Escritos com sangue

No princípio do mês, publiquei neste blogue uns textos a que dei o título genérico de «Escritos com sangue». Tratava-se de um conjunto de transcrições de papeis (cadernos e folhas soltas) encontrados no lixo, à porta de um hospital psiquiátrico. Como na altura expliquei, a caligrafia de algumas dessas páginas era quase ilegível, mas tenho vindo, pouco a pouco, a conseguir decifrar mais alguns desses gatafunhos. O conjunto de frases que se seguem foram escritas, na maior parte dos casos, em pedaços de papel com a mais diversificada proveniência. Dois exemplos: uma das sentenças estava apontada num bilhete de autocarro, outra no fragmento rasgado do que parece ter sido uma toalha de mesa.

Vivo no último andar de um subterrâneo. Tudo o que me encanta é perecível; tudo o que temo, eterno.

A angústia é feminina, o medo masculino. E eu, perdido nesse labirinto.

Da melancolia como um perfume, da tristeza como um rio. Chamam-lhe inquietação; eu chamo-lhe ruína.

A águia que o céu ama, a terra reclama.

Já alguma vez ouviram um silêncio incurável?

Mãos à obra: na vida, a única coisa que muda é a paisagem.

Muda, a paisagem fala.

Mede a tua tristeza pelas estrelas. Não faças a coisa por menos.

Tudo é uma palavra fictícia.

Herzog e a Antárctica




Os organizadores do Indie 2009 dificilmente podiam ter escolhido melhor: o filme que ontem inaugurou o festival, Encounters at the End of the World (Encontros no Fim do Mundo) é um dos melhores documentários que jamais vi. Rodado na Antárctica, por Werner Herzog é uma obra fascinante, comovente - e também, por momentos, inquietante -, onde os quase opressivos momentos de beleza (algumas das filmagens debaixo de água ou nas grutas provocadas pela lava do vulcão) alternam com outros de pura poesia visual.
Para além de dar a ver cenários absolutamente deslumbrantes, o filme está povoado de indivíduos inesquecíveis e comoventes, como esse mecânico com sangue apache que está convencido de que descende dos imperadores azecas por causa da forma das suas mãos ou essa cientista (fisicamente lembra Patti Smith) que viajou dos Estados Unidos até à Bolívia à boleia dentro de um tubo nas traseiras de um camião.
Hilariantes são também a entrevista que Herzog faz a um cientista que estuda o comportamento dos pinguins e as sequências que acompanham as deambulações de alguns desses animais. Mas são tantas as cenas e as personagens que me ficaram na cabeça que seria capaz de ficar aqui o dia todo a descrever-vos este verdadeiro ovni cinematográfico que já figura na lista das melhores coisas que vi e ouvi em 2009.
Encounters at the End of the World, que vos aconselho a não perder sob nenhum pretexto, volta a passar no Cinema S. Jorge, no dia 3 de Maio (último dia do Festival) , às 16h.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Pensamento do dia

O pensamento do dia, pertence hoje ao rapper francês Oxmo Puccino, que acaba de lançar um álbum chamado A Arma de Paz (L'Arme de Paix): «Podes andar com muita elegância, mas se seguires as pisadas de alguém, não vais deixar marcas no mundo».

terça-feira, 21 de abril de 2009

Flaubert e a senhora Bovary



Graças a um esforço conjunto da Universidade e da Biblioteca Municipal de Rouen, os manuscritos de Madame Bovary, o mais célebre romance de Flaubert estão agora disponíveis na Internet (www.bovary.fr).
Foram precisos dez anos para completar este trabalho que reúne qualquer coisa como 4500 páginas de rascunhos, fruto de um trabalho hercúleo que o escritor levou a cabo entre Setembro de 1851 e Março de 1857.
Flaubert guardava tudo o que escrevia e graças a isso podemos hoje fazer uma ideia concreta do que sofria para escrever os seus livros. Já se sabia que ele foi porventura o mais exigente dos escritores do seu tempo, mas agora temos aqui uma prova bem concreta: segundo um dos investigadores, cada passagem do romance foi reescrita, em média, umas dez vezes pelo seu autor.
A equipa responsável por este trabalho, promete agora digitalizar a totalidade dos manuscritos correspondendo ao livro Bouvard et Pécuchet.

Pura realidade

Em La Photo, inéluctablement (Gallimard, 1999) - um livro de leitura obrigatória para quem se interessa por fotografia -, o malogrado Hervé Guibert conta que, na recta final da sua vida, o fotógrafo norte-americano Weegee (falecido em 1968, aos 69 anos) vivia com um manequim, desses que se veem nas montras, a quem chamava Monique. Vesti-a, falava com ela, levava-a a passear e tirava-lhe fotografias como se fosse uma mulher real. Um dia, decidiu encenar a sua morte: afogou-a no rio, depois de a ter fechado num caixão. Weegee fotografou a «cerimónia» de adeus, mas os seus herdeiros impedem a publicação dessas imagens.

Beirut



Zach Condon, que se esconde por detrás do nome Beirut, adora viajar e fazer música. Os seus discos nascem dessas duas paixões e é sem surpresa que o seu novo álbum aparece dividido em duas partes, levando-nos agora (depois de, nos dois álbuns anteriores, nos ter transportado até aos Balcãs e a França) até ao México e à Holanda, curiosamente dois países que visitei recentemente. March of the Zapotec and Realpeople: Holland reúne duas obras diferentes, ou melhor dizendo dois EP's que ele decidiu juntar num único álbum, por razões que só ele conhece. March of the Zapotec, a primeira metade, nasceu de uma estadia em Oaxaca onde se rodeou de duas dezenas de músicos locais (pertencentes a uma tal Jimenez Band) para gravar meia-dúzia de faixas que oscilam entre a solonidade de um enterro e a explosão jubilatória de um carnaval. Nada que espante quem tenha assistido na região às festividades do Dia dos Mortos. A música resulta num verdadeiro carroussel de sensações vibrantes, que se ouve com real emoção. A instrumentação é riquíssima e sobre ela paira uma voz profunda e grave que parece a de um homem já muito vivido. Ora Zach (como se pode ver na foto) tem vinte e poucos anos. Realpeople: Holland, a segunda metade do álbum assenta essencialmente em sintetizadores e trabalho de estúdio, nomeadamente sobre a voz. É muito mais pop, mas bastante menos interessante na minha opinião. Contudo, no seu conjunto, March of the Zapotec and Realpeople: Holland é mais do que um admirável exercício de síntese, uma obra inovadora que vai para além dos territórios da folk alternativa e da pop, onde alguns a querem confinar.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Aprender a ver



Quando somos fotógrafos, artistas plásticos ou simplesmente pessoas interessadas no mundo, estamos constantemente a aprender a ver. É de resto por isso que (alguns de nós) visitamos exposições. Pois bem, na Culturgest estão, neste momento, duas propostas interessantíssimas e congratulo-me por ter tido ontem a ideia de as ir visitar. A primeira que percorri chama-se «A Analogia do Olho» e é de um tal JCJ Vanderheyden, um artista holandês de que nunca tinha ouvido falar. Ao ver as primeiras telas lembrei-me de Mondrian, mas logo vi outras obras que me deram a certeza de estar perante um universo muito próprio e uma linguagem original onde a pintura e a fotografia dialogam num jogo de complementaridade entusiasmante. Obcecado como sou por nuvens e aviões, simpatizei de imediato com as suas fotografias do céu, das nuvens e da neve no alto das montanhas, tiradas a partir de aviões, sempre com a preocupação de mostrar a janela através da qual realizou as imagens. A essas fotografias, que por vezes inspiram telas pintadas, ele contrapõe outros temas recorrentes como quadriculas deformadas e espelhos de toda a sorte onde a sua obra se reflete e multiplica. Para além das fotografias em formatos vários e das pinturas onde as habituais telas quadradas e retangulares dão lugar a formas oblongas, distorcidas, o artista utiliza também painéis e cabinas compostas por várias reproduções de imagens suas e de outros artistas num jogo de referências e analogias, lúdicas e provocatórias. Muito mais haveria a dizer mais sobre esta exposição aliciante, que é um desafio permanente à nossa inteligência, memória e imaginação. Como diz o programinha, distribuído gratuitamente à entrada, «Vanderheyden está interessado na questão de como a consciência humana imagina o tempo e o espaço, e que analogias visuais desse processo são concebíveis». Diz também, com toda a razão, que ele é um artista importante que merece maior reconhecimento internacional.


Pelo menos tão estimulante como esta é a outra exposição patente na Culturgest, também ela até 10 de Maio. Trata-se de «Trabalho de Campo» uma coleção de fotografias do alemão Jochen Lempert. São fotos a preto e branco, em diversos formatos, penduradas na parede sem necessidade de molduras ou passe-partout que, à primeira vista, dão ideia de estarem mal impressas. Na verdade, há aqui um trabalho meticuloso de laboratório que acentua o carácter único das suas propostas. A surpresa começa logo na primeira sala com uma série de fotografias que «escondem» diversos animais ao nosso olhar: um gato por detrás de umas persianas, uma tartaruga sob a água ou um cisne sem cabeça, por exemplo. Obcecado por animais, e particularmente por aves, Lempert interessa-se também por vegetais, microrganismos e fenómenos físicos e atmosféricos, colecionando séries onde procura (por vezes, no limiar da abstração) relações entre estruturas, texturas e formas. À medida que vamos percorrendo as salas, o autor consegue fazer-nos sentir que estamos perante uma obra exigente e rigorosa, transmitindo-nos o seu fascínio por coisas tão simples como a beleza aleatória de um voo de aves, das ondas do mar ou das chamas de uma árvore em fogo. Quando saí da exposição, sentia que tinha adquirido um novo olhar sobre algumas coisas deste mundo. E senti-me grato.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Amargura



É com profunda tristeza que acabo de saber que Cioran, tal como Gunter Grass, também apoiou o nazismo e o fascismo. Deixou-se entusiasmar no Outono de 1933, quando estudava em Berlim, seguindo os cursos de Heidegger (que até Hannah Arendt conseguiu fascinar). Parece que na altura, Cioran chegou a apelar por escrito a «uma cruzada terrível e impetuosa contra a podridão humana», apoiando assim os famosos legionários fascistas romenos que se auto-intitulavam Guarda de Ferro. O ódio demonstrado contra os ciganos e os judeus terá durado até 1940. Evidentemente, o autor de «Silogismos da Amargura», passou o resto da sua vida a procurar esquecer esse tempo, e muitos dos seus aforismos deixam-no entender. A revelação foi feita agora, nos «Cahiers de l’Herne» cujo último número é-lhe dedicado. O projeto de lhe dedicar um número dos «Cahiers» vem do tempo em que ele era vivo, mas o autor romeno sempre se opôs, considerando que esses volumes são como mausoléus onde uma pessoa pode ser enterrada viva. «Ainda é pior do que um Nobel», terá dito na altura. O volume agora editado em França inclui inéditos e textos há muito impossíveis de encontrar, mas não mexerei um dedo para arranjar um. Quase fico contente por saber que Cioran morreu (em 1995) com alzheimer.

J.J. Cale



Cantor, compositor e guitarrista originário do Oklahoma, J.J. Cale nasceu em 1938 e já vai com, pelo menos, meio século de carreira. Nas fotos, vemo-lo sempre como uma espécie de cowboy cool, «forever young». A sua música - toda ela e não apenas a deste seu novo álbum - é uma mescla de blues, folk e bluegrass, com pozinhos de jazz e rock. Muito simples e relaxados, deliciosamente sincopados, os seus discos não interessam a toda a gente, mas entre os seus fãs incondicionais contam-se - para além de mim, é claro - gente como Neil Young, Mark Knopfler ou Eric Clapton (que, aliás, colabora aqui numa faixa). Não trazendo nada de substancialmente novo ao seu universo musical, Roll On, o novo opus, é um dos melhores álbuns de J.J. Cale, simplesmente porque a receita nunca esteve tão apurada e a sua voz de «lobo do deserto» continua como nova, tão fluída e charmosa como as suas linhas melódicas ensolaradas. J.J. vive na Califórnia, leva uma vida de rei reformado e só faz o que lhe dá na gana. Ora isso sente-se em cada tema, tão simples como isto. Que inveja!

Pensamento do dia

A humanidade não parece ter outra finalidade senão sua própria destruição.

Uma lição de vida




Leio: «As coisas não são tão apreensíveis nem tão dizíveis como nos querem fazer crer; quase todos os eventos são inefáveis, desenrolam-se num espaço onde as palavras nunca entram, e os mais inefáveis entre eles são as obras de arte, existências misteriosas cuja vida, ao lado da nossa que se perde, perdura». Como não ficar imediatamente agarrado a esta leitura? Tinha lido Cartas a um Jovem Poeta de Rainer Maria Rilke há muitos, muitos anos (quando era eu próprio um jovem poeta). Tudo o que recordava do texto é que era muito interessante (lembrava-me especialmente da frase: «... pergunte a si próprio se morreria caso fosse impedido de escrever»). Mas tive um choque agora, ao relê-lo. Não é apenas interessante, é muito mais do que isso: uma verdadeira lição de vida e poesia!
O livro ficou todo sublinhado. São bons conselhos atrás de bons conselhos, muitos dos quais segui felizmente ao longo da existência, ou porque tinha ficado inconscientemente impregnado deles, ou porque relevam do puro bom senso e da simples inteligência.
Apetece transcrever tudo. Ouça-se esta frase, por exemplo: «Escave dentro de si próprio até encontrar uma resposta profunda». Quem não sabe que o deve fazer? Mas quantas pessoas o fazem realmente? Mais adiante, Rilke especifica: «... não há perturbação mais violenta do que olhar para fora e esperar respostas exteriores a perguntas a que talvez só a sua sensibilidade mais íntima, nas horas de maior silêncio, poderá responder». Noutra altura dirá: «Viva agora as perguntas. Aos poucos, sem o notar, talvez dê por si um dia, num futuro distante, a viver dentro da resposta».
Na terceira carta (são dez no total, todas relevantes, escritas num peródo de cinco anos, de 1903 a 1908), Rilke afirma: «A obra de arte é de uma solidão sem fim, e nada está mais longe de tocá-la do que a crítica. Só o amor poderá compreender e sustentar e fazer justiça a uma obra de arte». Não podia concordar mais; se há coisa de que me arrependo na vida é de ter a certa altura exercido a profissão de crítico.
Muito belas e igualmente profundas são as suas meditações sobre a solidão (considera-a a casa ou o abrigo de onde partem todos os caminhos), a tristeza (quando alguma coisa nova e desconhecida entra em nós para nos mudar) e o amor (que vê como uma partilha de pessoas que se protegem, delimitam e saúdam)..
«Estamos dentro da vida como dentro do elemento a que mais correspondemos», diz o autor das Elegias de Duíno e dos Sonetos a Orfeu, para assegurar mais adiante: «... dentro de nós corre sem parar o sangue dos nossos antepassados, que se cruza com o nosso para dar forma ao ser único e irrepetível que somos em cada volta das nossas vidas». Acreditem no que vos digo: não têm nada mais urgente para fazer nas vossas vidas do que ler, ou reler, este pequeno livrinho!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Bonnie «Prince» Billy



Durante anos, Will Oldham andou a criar avatares (Palace, Palace Brothers, Palace Music foram alguns dos nomes atrás dos quais se escondeu) e a procurar caminhos nunca antes percorridos. Há cinco anos, foi a Nashville (re)gravar algumas das suas melhores canções (retiradas de álbuns como Viva Last Blues, Days in the Wake ou Lost Blues & Other Songs), com a nata dos músicos locais e a ajuda do cada vez mais admirado produtor Mark Nevers. Intitulado Bonnie «Prince» Billy Sings Greatest Palace Music, o disco resultante dessas sessões - em que Andrew Bird também participou - foi considerado por alguns o mais «comercial» da sua carreira. Fico com a ideia de que foi precisamente com esse álbum que Bonnie «Prince» Billy encontrou o nome, a voz e o som que mais lhe convém. Ele próprio o afirma de alguma maneira e a propósito deste Beware, disse mesmo, com um misto de orgulho e humildade: «Este não é, talvez, o meu melhor disco, mas tem um profundo significado para mim. É a prova de que consegui tornar-me num escritor de canções maduro e de que encontrei uma certa serenidade. Trabalhei muito nele e estou tão satisfeito com o resultado que me estou nas tintas para o que os outros podem pensar. Já não procuro agradar a todo o custo, mas apenas fazer o que sei fazer melhor. Tornei-me num bom artesão: uma vocação que me convém perfeitamente». Alguns acham que ele se tornou convencional e conservador; por mim só me resta agradecer-lhe o bom trabalho e assegurar: Beware confirma Will Oldam como um dos mais poderosos escritores de canções do nosso tempo.

Vinho e literatura

«Quando o vinho é puro, permite ver Deus», dizia Léon Blum, o conhecido político francês falecido em 1950. O imortal Shakespeare, por seu turno, falava do «espírito invisível do vinho», enquanto Claudel, autor da peça «Le Soulier de Satin» (que Manoel de Oliveira levou ao grande ecrã), lembrava, muito justamente, que cada garrafa de vinho encerra milhares de anos de civilização. Este poeta francês achava, com toda a razão, que «o vinho liberta o espírito e ilumina a inteligência». E um outro poeta francês, o torrencial Victor Hugo, lembrou que «Deus criou a água, mas o homem fez o vinho». Mais prosaico e com o sentido da realidade que o caracterizava, Napoleão afirmou um dia aos seus generais: «Sem vinho, não há soldados».
Bebida tão espiritual como inspiradora, o vinho sempre esteve muito presente na literatura através dos séculos. A Bíblia, por exemplo, refere-se ao vinho por diversas vezes. A primeira menção é no «Genesis», onde se diz que «Noé começou Noé a cultivar a terra e plantou uma vinha. Bebeu do vinho, e embriagou-se; e achava-se nu dentro da sua tenda». Mais adiante, o mesmo texto sagrado volta a referir-se aos efeitos do vinho relatando: «Então a primogénita disse à menor: “Nosso pai é já velho, e não há varão na terra que entre a nós, segundo o costume de toda a terra; vem, demos a nosso pai vinho a beber, e deitemo-nos com ele, para que conservemos a descendência de nosso pai”. Deram, pois, a seu pai vinho a beber naquela noite; e, entrando a primogénita, deitou-se com seu pai; e não percebeu ele quando ela se deitou, nem quando se levantou. No dia seguinte disse a primogénita à menor: “Eis que eu ontem à noite me deitei com meu pai; demos-lhe vinho a beber também esta noite; e então, entrando tu, deita-te com ele, para que conservemos a descendência de nosso pai”. Tornaram, pois, a dar a seu pai vinho a beber também naquela noite; e, levantando-se a menor, deitou-se com ele; e não percebeu ele quando ela se deitou, nem quando se levantou. Assim as duas filhas de Ló conceberam de seu pai».
O «Livro dos Provérbios» tem igualmente algo a dizer sobre o vinho, embora nem sempre em termos muito recomendáveis. Por outro lado, alguns Evangelhos, como o de S. João e o de S. Marcos, se bem me recordo, referem a ligação do vinho com Jesus, com muitas analogias vinícolas. E se há episódios da Bíblia que toda a gente conhece é o milagre em que o filho de Deus transforma água em vinho (e em «bom vinho» ainda por cima) e o da Última Ceia quando Cristo dá vinho a beber aos seus discípulos asseverando: «Tomai e bebei, isto é o meu sangue».
Já para os Egipcíos, os Sumérios ou os Gregos, o vinho era o néctar dos deuses e o simbolismo do vinho sempre teve um papel importante nas celebrações rituais, religiosas ou pagãs. Alguns vinhos de renome, na antiga Grécia, eram citados por Homero, que descreve as colheitas, no Outuno, com profundo lirismo. Também o poeta Hesídio (que nasceu, viveu e faleceu em Ascra, no fim do século VIII a.C) conta a história dos vinhedos e o «Código de Hamurabi», primeiro livro sobre leis de que há memória (data de 1700 antes de Cristo), já imputa castigos a certas condutas de «casas de vinho».
Nenhuma outra bebida no mundo suscitou tanta atenção ou respeito como o vinho. Nenhum outro líquido se prestou tanto a comparações e citações literárias. Personalidades lendárias como Virgílio, Safo e Salomão entoaram loas ao vinho, para já não falar de Omar Khayyam, poeta persa que morreu por volta de 1120, e que provavelmente é o autor do maior número de poemas relativos ao vinho feitos por um homem só. Leiam-se os seus magníficos «Rubaya», para o comprovar. Aqui ficam três exemplos, entre muitos outros possíveis:

«Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos».


«Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia».


«Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida».


Referindo-se ao vinho, o poeta Dante Alighieri, o autor da «Divina Comédia», escreveu em plena Idade Média: «O doce beber que nunca me teria saciado». E já que estamos a falar de poetas, impossível não citar Baudelaire (1821-1867), um dos maiores poetas franceses de sempre, cujo poema «L’âme du Vin», não resistimos a transcrever, numa tradução de Guilherme de Almeida:

«A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
“Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!
Bem sei quanto custa, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,
Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À goela do homem que já trabalhou demais,
E seu peito abrasante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.
Não ouves retinir a domingueira toada
E esperanças ungir em meu seio, febris?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:
Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e a cor
E serei para tão tenro atleta da vida
Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.
Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno Semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!”»


Em França, país do vinho por excelência, são inúmeros os escritores e poetas que escreveram sobre o precioso líquido, como Lamartine ou Balzac, mas já que estamos a falar de poetas, convém não esquecer o chileno Pablo Neruda, que também escreveu uma «ode ao vinho». Reza assim:

«Vino color de día,
vino color de noche,
vino con pies de púrpura
o sangre de topacio,
vino,
estrellado hijo
de la tierra,
vino, liso
como una espada de oro,
suave
como un desordenado terciopelo,
vino encaracolado
y suspendido,
amoroso,
marino,
nunca has cabido en una copa,
en un canto, en un hombre,
coral, gregario eres,
y cuando menos, mutuo.
A veces
te nutres de recuerdos
mortales,
en tu ola
vamos de tumba en tumba,
picapedrero de sepulcro helado,
y lloramos
lágrimas transitorias,
pero
tu hermoso
traje de primavera
es diferente,
el corazón sube a las ramas,
el viento mueve el día,
nada queda
dentro de tu alma inmóvil.
El vino
mueve la primavera,
crece como una planta la alegría,
caen muros,
peñascos,
se cierran los abismos,
nace el canto.
Oh tú, jarra de vino, en el desierto
con la sabrosa que amo,
dijo el viejo poeta.
Que el cántaro de vino
al beso del amor sume su beso.
Amor mio, de pronto
tu cadera
es la curva colmada
de la copa,
tu pecho es el racimo,
la luz del alcohol tu cabellera,
las uvas tus pezones,
tu ombligo sello puro
estampado en tu vientre de vasija,
y tu amor la cascada
de vino inextinguible,
la claridad que cae en mis sentidos,
el esplendor terrestre de la vida.
Pero no sólo amor,
beso quemante
o corazón quemado
eres, vino de vida,
sino
amistad de los seres, transparencia,
coro de disciplina,
abundancia de flores.
Amo sobre una mesa,
cuando se habla,
la luz de una botella
de inteligente vino.
Que lo beban,
que recuerden en cada
gota de oro
o copa de topacio
o cuchara de púrpura
que trabajó el otoño
hasta llenar de vino las vasijas
y aprenda el hombre oscuro,
en el ceremonial de su negocio,
a recordar la tierra y sus deberes,
a propagar el cántico del fruto».


Em Portugal, em matéria de vinho e poesia, o exemplo maior é, sem dúvida alguma, Fernando Pessoa que num poema de 1935, diz: «Dá-me vinho, porque a vida é nada». E noutra altura: «Boa é a vida, mas o vinho é melhor». E a sua fotografia mais conhecida, é como se sabe, tirada numa tasca a beber um copo de três, sob a qual em escreveu em dedicatória para a sua amada Ofélia: «Apanhado em flagrante delitro».



Também os romances estão, desde sempre, repletos de histórias de vinho. São inúmeras as personagens da literatura mundial que não escondem a sua paixão pelo «néctar dos deuses», desde Fiódor Pávlovitch, o pai dos «Irmãos Karamázov» (o genial romance de Dostoiévski) até Sancho Pança, o fiel escudeiro de D. Quixote. Recorde-se que enquanto o cavaleiro da triste figura investe contra os seus moinhos de vento, o seu anafado companheiro prefere deliciar-se com as suas garrafas de vinho. Numa das passagens do clássico de Miguel de Cervantes, Sancho Pança afirma mesmo com legítimo orgulho: «Só pelo odor reconheço logo a região de um vinho e a sua qualidade; é um dom de família que herdei».
Esta evocação traz-me à memória o brasileiro Esmeraldo Siqueira que, sendo ateu convicto, escreveu no seu seu poema «In Vino Veritas»: «Quando bebo uma garrafa de vinho bom,/Mergulho em pleno sonho místico./Tenho vontade de ir à igreja/Fazer às pazes com Jesus Cristo...». O mesmo autor, médico e poeta falecido em 1987, na obra «Sugestões da Vida e dos Livros», disse também: «Amar os velhos livros, como saborear os vinhos velhos, já é um sinal de maturidade.»
Mas não foram só os poetas, os escritores e os filósofos a fazer o elogio do vinho. Rezam as crónicas que Alexander Fleming, o célebre inventor da pelicilina, disse um dia: «A minha invenção cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes». Outro cientista famoso, Louis Pasteur, assegurou com convicção, chocando talvez alguns espíritos bem pensantes: «Há mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros».
Convém, no entanto, não esquecer que um bom livro também pode embriagar. Quem nunca sentiu a cabeça a andar à roda depois de ler um belo poema ou um romance especialmente absorvente? Como um bom vinho, também um estilo literário pode ser encorpado e aveludado, ter um bouquet mais ou menos acentuado, ser leve e até possuir paladar e aroma. Isso mesmo lembra Bernard Pivot, um escritor que durante anos animou um programa semanal sobre livros na televisão francesa, e que em 2006 publicou um «Dictionnaire amoureux du vin», onde ao longo de quase 500 páginas nos guia com humor e ecletismo através de um universo complexo mas acessível. O seu pai tinha vinhas e produzia vinho e o livro dele é o de um amador que procura partilhar o seu prazer da bebida e das palavras, lendo-se com grande proveito.
Um outro livro cuja leitura recomendo vivamente é «Dégustation du vin à travers la littérature française», do japonês Kazuo Ogoura, publicado em 2003, infelizmente não traduzido para português. Antigo embaixador em França, Ogoura apaixonou-se pelo vinho e a França. Através de obras romanescas do séculos XIX e XX, ele estuda o papel do vinho na nossa sociedade e as suas análises sociológicas têm uma dimensão poética assinalável. É um livro apaixonante que abre muitas pistas sobre alguns dos mais belos textos que jamais se escreveram sobre o vinho.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Andrew Bird




Se não sou o fã nº 1 de Andrew Bird, ando lá perto. Acho-o um compositor de génio, do tipo que eu gosto: discreto e despretencioso. Para mais, o rapaz é, para além de um verdadeiro homem-orquestra, genuinamente simpático e comunicativo. Basta ouvir o seu célebre assobio: quem assim exprime só pode ser um gajo porreiro. A cada novo disco, gosto mais dele e se Armchair Apocrypha, o opus anterior, era uma maravilha (apesar de alguns afirmarem que era mais fraco do que o costume), Noble Beast é ainda melhor. Nele, Bird reata com a inspiração dos seus primeiros álbuns (nomedamente The Swimming Hour, de 2001 e, principalmente, Weather Systems, de 2004). Discos onde beleza rimava com leveza, e fragilidade com densidade. Ultimado em Nashville com a preciosa ajuda de Mark Nevers (homem-chave por detrás do sucesso dos Lambchop) Noble Beast é o disco primaveril por excelência. Ouvindo-o, imagino-me deitado numa nuvem em companhia de um anjo musical. E se o seu violino me mandasse atirar lá de cima cá para baixo, eu atirava-me de olhos fechados, tal a fé que tenho no poder da sua música.

sábado, 11 de abril de 2009

Paragem de autocarro

Alela Diane



Gravado num estúdio caseiro, com a ajuda do pai (um praticante de blue-grass que ganha a vida a fazer próteses dentárias), em Nevada City, no Norte da Califórnia, no Verão de 2004, The Pirate's Gospel tornou-se, três anos mais tarde, a grande revelação folk do ano. Agora, a jovem está de volta com To Be Still, um disco que a confirma como uma grande escritora de canções oníricas, que tem na voz, doce e carismática, um dos seus maiores trunfos. Mais rico instrumentalmente (às guitarras somam-se aqui baixo, bateria, violoncelo e violino), com arranjos mais ricos e uma produção cuidada, To Be Still volta a propor canções delicadas onde, uma vez mais, essencialidade e simplicidade rimam de forma luminosa e emocionante.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Mulher Sem cabeça



Numa entrevista publicada pelo jornal «Público», a realizadora argentina Lucrecia Martel, diz a certa altura, falando de piscinas: «Gosto de nadar no rio, no mar. Mas a água parada faz-me impressão. Há outra coisa que me aterroriza: na cidade onde vivo, o acesso à água não é fácil. Uma piscina é um enorme privilégio. E parece-me que há um enorme egoísmo numa piscina. Elas devem existir quando são públicas, porque esse pequeno paraíso deve ser para todos, tal como a saúde, a educação. O que é revolucionário é que os lugares para os prazeres, a preguiça, sejam de todos. E há uma coisa concreta: enquanto as pessoas com poder de compra constroem o seu paraíso artificial, descuidam-se os rios, os mares, os lagos, o acesso público à água deixa de ser importante. Em volta de uma piscina há muitas coisas a dizer sobre o estado do mundo.»
Um pouco mais adiante refere: «Uma piscina é muito parecida com uma sala de cinema. O ar é um meio elástico, o som propaga-se nesse meio. Estar encerrado numa sala de cinema é como estar dentro de uma piscina. Estamos imersos. Não temos a consciência de que vivemos imersos no ar. Só o som é que nos pode dar essa consciência.»
São declarações fabulosas e fizeram-me ir a correr ao King ver o seu novo filme La Mujer Sin Cabeza. Porém, se adorei La Ciénaga (2001) e La Niña Santa (2004), os seus filmes anteriores, este desiludiu-me um pouco. Entendo o que a realizadora argentina quis fazer, e dizer; admiro a sua maneira de filmar, o modo como utiliza a banda sonora e a direcção de actores (que lição!), mas não consegui aderir completamente à história. Lucrecia Martel afirma que a sua ideia era meter o espectador na cabeça da personagem, num estado de choque pós-traumático. «O cinema para mim são duas horas em que, com sorte, consigo colocar o espectador no corpo de outra pessoa», diz ela. Pois bem, no meu caso, e nos das pessoas que me acompanhavam, ela não conseguiu isso de todo. Na minha opinião. muito por culpa de María Onetto, a actriz principal, cujo rosto propositadamente opaco e baço foi bulindo com os meus (nossos) nervos.
Para além desse erro de casting, o filme sofre da ausência de um «twist» dramático, que em vez de aclarar adensasse o mistério e a inquietação (é muito pobre o truque de lançar a dúvida sobre o possível adultério da protagonista) e do facto das personagens secundárias estarem praticamente reduzidas à condição de acessórios animados, sem o mínimo de espessura dramática. O filme teria a ganhar, creio eu, em manter até ao fim a dúvida sobre se a mulher matou um cão ou uma criança. Dito isto, o melhor do filme está no naturalismo, chamemos-lhe assim, com que aborda a realidade quotidiana de um punhado de pessoas que vive no Norte da Argentina, denunciando as diferenças sociais entre os descendentes dos colonos espanhóis e os indígenas, por exemplo. Mais do que um filme de terror, como o classificou um crítico português, La Mujer Sin Cabeza, é um filme angustiado e angustiante. O mesmo jornalista apontou dívidas de Lucrecia Martel para com o Antonioni de A Aventura (porque é uma narrativa sem enredo?) e o surrealismo. Não são só as mulheres que perdem a cabeça de vez em quando.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Mais papéis encontrados no lixo

Há dias publiquei aqui dois textos encontrados num caixote do lixo à porta de um hospital psiquiátrico. O dossier onde se encontravam continha outras folhas, mas com uma escrita quase ilegível. Depois de perder algumas horas nisso, consegui decifrar mais algumas páginas. As primeiras parecem ser arrancadas a um diário. Uma outra folha, escrita na frente e no verso, contêm aquilo que me parecem ser aforismos. Infelizmente não os consegui entender a todos, pelo que me limito a transcrever os que fazem algum sentido. Procurei, de resto, ser o mais rigoroso possível, mas mantém-se a dúvida: trata-se de um único autor ou de vários?. Responda quem puder.

Dia 11

As paredes não prestam: ouço a noite, lá fora à escuta, como uma chuva sem água. Nem sofrer sabem, os desgraçados.

Dia 12

Não sou eu. Eu não sou. (Palavra ilegível). Esta cabeça de morto, não é a minha. Não sei o que os médicos vêem em mim, mas não tem nada a ver com o que se passa. A minha fome é mais vasta e também mais exigente. Como fazê-los entender o óbvio?

Dia 15

Apesar do frio, por causa do frio, a minha fúria renova-se a cada (palavra ilegível). Alimento-me de mim mesmo: três vezes ao dia, pelo menos. Aquilo a que chamam caos, é a minha estrela orientadora.

18?

Que diabo vieste aqui fazer?
Sabe Deus.
Revoltado?
Fiz um pacto com o meu caderno.
E então?
Sou um prevadicador: se escrevo rosa, pico-me.

Sexta, 21

O viajante é sempre jovem. O seu guia é Pormeteu. Por isso, entre duas palavras, a distância pode ser enorme.

22

Quando andava na escola, não havia Internet, nem telemóvel. A cidade inteira parava para ver o pôr do sol, a chegada das andorinhas. Um carreiro de formigas era um espectáculo muito apreciado e íamos até à praia só para ouvir o mar e ver a noite chegar. Agora, o silêncio morreu. E ainda dizem que estou louco.

Mais tarde

Anda por aí um cão vadio. Por vezes aparece nos meus textos. Chamo-lhe Como Eu. Perdidos os dois, vagueamos, cada um para seu lado. Mas com o mesmo olhar. O mesmo destino repetido. Pequeno.

Outro dia qualquer

A fábrica está avariada e eles tratam do operário! Daria vontade de rir, se houvesse boa disposição.

Aforismos

O que desejo é ser o lago não a montanha.

O sofrimento é uma energia nada desprezível.

Não temo os meus inimigos, são puros espantalhos. Mais reais são as minhas sombras e o poder que encerram.

No meu exílio, sigo o meu caminho enquanto espero.

No fundo, sou um artesão das diferenças: tudo o que toco me provoca, tudo o que sonho é veneno puro. Mas desse veneno me alimento.

A aventura está em todo o lado: no Verão que aí vem, no animal domesticado que não queres ser, nas imagens que procuras dentro e fora de ti.

Contigo a árvore pode cantar, a pedra voar e o pássaro escrever no céu o que não consegues dizer.

Um médico não passa de um aprendiz convencido de que é um mestre.

O que eles não entendem é que a loucura não é um destino, mas pode ser um caminho.

PS - Há mais textos por decifrar, ainda mais difíceis de perceber do que estes, mas prometo tentar transcrevê-los qualquer dia.

Pensamento do dia

O poema que crio, cria-me.
O poema que queria, queria-me?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Ficção rápida

ELA: Afinal do que é que estás à espera?»

ELE: Isso gostava eu de saber.

ELA: Não respondas assim. Não podes responder assim. Seria demasiado fácil.

ELE: Toda a vida procurei soluções de facilidade.

ELA: Soluções de facilidade! Curiosa expressão.

ELE: É como «curiosa expressão». Não achas curiosa a expressão «curiosa expressão»?

ELA: Lá estás tu a brincar com as palavras.

ELE: Mais uma expressão engraçada: «brincar com as palavras.»

ELA: Estás a fugir à questão.

ELE: Estás a ver? É impossível não brincar com as palavras. Pensa bem no que acabaste de dizer.

ELA: O quê?

ELE: Fugir à questão. Brincar com as palavras. Soluções de facilidade. Com tantas expressões sugestivas, como farão os outros para não serem poetas? ... Ou escritores?

ELA: Brincar com soluções de facilidade, colocar questões mas a fugir das respostas... Foi isto que andaste a fazer toda a vida.

ELE: E tu? Como tens gasto a tua?

ELA: Tive três filhos. Vou deixar a minha marca no mundo.

ELE: Uau!

ELA: Achas pouco?

ELE: Não. Três filhos é obra, tenho que concordar.

ELA: É melhor do que os dois ou três livros que escreveste e quase ninguém leu.

ELE: Que sabes tu disso?

ELA: Sei tanto como isto: um filho vale mais do que qualquer livro.

ELE: Não escrevi dois ou três livros, escrevi pelo menos quatro.

ELA: Pelo menos? Nem sequer sabes exactamente quantos livros escreveste?

ELE: Sete, oito, vinte, que interessa? No fundo não escrevemos senão um único livro, toda a vida.

ELA: Mais me ajudas.

ELE: Como assim?

ELA: Uma vida inteira para escrever um único livro. Não achas um desperdício?

ELE: Afinal também jogas com as palavras!

Pura realidade

Ouvido no metro: «Todas as mulheres são bonitas. Mas algumas exageram».

Pensamento do dia

Somos a prova viva da fragilidade de Deus

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Escritos com sangue

Nota prévia:

Os dois textos que se seguem foram encontrados no lixo, à porta de um hospital psiquiátrico. Embora as caligrafias de um e outro sejam bem diferentes, não é de excluir a hipótese de que sejam do mesmo autor. De resto, ambos estavam sujos de sangue.


PRIMEIRO TEXTO

NO AUTOCARRO

«O amor é uma escravidão», diz ela, escondida num vestido vermelho muito curto. Parece uma papoila humana, apetece dedilhá-la. Olhar para ela, ouvi-la, é como faltar a um sonho: um delírio sem fim. No autocarro, aos solavancos, sinto o meu corpo mais profundo crescer como uma colina avariada. O meu desejo quase me arranca as entranhas; está a dar cabo de mim. De repente, lembro-me da noite anterior e, a meias comigo, perco os sentidos.

NO HOSPITAL

Enquanto sonhava, tive um vislumbre de como é o Inferno. Lá tens que sujar o que está limpo e correr atrás de pessoas que não te querem ver. Ainda por cima chove. Embrulhado em cobertores, coberto de vergonha, oiço o vento gemer nos corredores. À minha volta, o sofrimento é total: a humanidade toda envelheceu em poucas horas. Entretanto, enquanto espero mais uma visita dos médicos, imagino-a, algures na noite, nua, cintilante e magnífica como uma navalha da barba. Só me apetece é chorar.

EM CASA

Lá fora, a lua está mesmo a pedir um poema, mas não sou homem para tanto. As estrelas, esta noite, não páram quietas. O seu baile mudo é um espectáculo inútil, um disparate que me apoquenta a janela, sem me distrair. Estou para aqui, ao abandono, a tremer com frio e fome, quando há tanto calor na terra. Algumas migalhas de amor bastariam para me calar, porque não o entendem? E o sol? Quando aparece?

NO DIA SEGUINTE

Sei tudo o que ignoro. Sou tudo o que temo. Não me engano. As palavras que procuro vão surgir, mais tarde ou mais cedo, para me engolir vivo. Mas o pior não é isso. O pior é este tempo, este frio húmido dentro de mim e esta corrida desenfreada da minha solidão pelas paragens menos compensadoras. Que raio de vida!

MAIS TARDE

Tudo me dói. Acordar, adormecer, sonhar. Acordar novamente. Nada me escapa. Ninguém aparece. Vivo uma promessa que me deixa exangue. Minha pele parece uma crosta e dentro de mim nasce uma árvore que arde como um fósforo. Uma e outra e outra vez ainda. Sou escravo de um escravo que habita nos meus pesadelos.

TRÊS DIAS DEPOIS

Amor com amor se apaga, têm-me dito. Em vez disso, sinto-me como um piano nas mãos de um jovem macaco: torturado e absurdo. Mas a música que solto não é, como devia ser, o contrário do silêncio. Sou um homem impossível: deito tudo a perder, constantemente.

NEM MAIS UMA PALAVRA

Ela foi definitivamente à sua vida: tenho que pôr uma pedra no assunto. Uma pedra não, uma montanha. Tudo o que não nasce, morre.

SEGUNDO TEXTO

Os meus pais não passam, há muito, da recordação de um fogo que se apagou para além do horizonte. No meu rosto, vereis, contudo, um sorriso eterno: uma cicatriz que não conseguirei nunca disfarçar e que me dá um ar de palhaço pobre que assusta até o meu espelho.

Dizem que sou louco. O essencial não está aí. Há coisas que não se podem dizer, mas a vida é composta por quatro segredos fundamentais: CERTAS PESSOAS SÓ VIERAM AO MUNDO PARA NOS CALUNIAR.

O interior da minha cabeça não é muito diferente do exterior. O tempo habita-a de uma forma quase caricatural. Por isso, mesmo quando está bom tempo, sinto-me mistificado.

Não sei construir um texto, nem participar numa festa. A minha arte consiste unicamente em procurar esconder-me dos sonhos que me atormentam e das pessoas que querem separar-me de mim próprio. Infelizmente, abriram subterrâneos por todo o lado: passo a vida a cair em armadilhas que eu próprio ajudei a montar.

Quem não precisa de escrever não sabe a sorte que tem. Não sei se me entendem. Estou certo que não. Procuro o que ninguém quer ver, só encontro o que não devia. E fujo de tudo o que os mortos tocaram.

Só vivemos o que nos deixam. E o céu é demasiado vasto para não nos sufocar.

Ao contrário do que me ensinaram, a liberdade não liberta, a verdade não se alcança e o amor é o segredo mais bem guardado da humanidade. Tudo o que sei hoje em dia foi que cheguei ao mundo na pior altura.

O tempo só tem defeitos. Por mim, podia bem não existir. E Deus... Deus me livre, é um preguiçoso, está muito longe de ser o perfeccionista que devia ser. Até eu fazia melhor.

Como se não bastasse tudo o resto, ainda nos inculcaram esta necessidade absurda de comunicar o que nos vai na alma. Como se a alma se comunicasse! Como se alguém ouvisse alguém! Que tortura horrível: ensinarem-nos a falar, a escrever. Só há uma coisa mais humilhante do que ser escritor: é ser poeta.

Seja como for, a farsa já não vai durar muito. A minha memória está ao rubro: cada ideia que tenho sangra, cada frase que escrevo se vira contra mim. Reconheço os sintomas, sei o que me espera. O meu destino só pode ser um: alimentar-me dos meus próprios excrementos até rebentar como um cano de esgoto. Não há pior inimigo do que aquele que habita dentro de nós. Calo-me.

Pura realidade

No comboio, como frequentemente acontece, aparece um homem a pedir: «Por favor, ajudem-me com o que puderem, tenho que fazer uma operação aos olhos e não tenho dinheiro.» O homem tem uns cinquenta anos, óculos com lentes grossíssimas e traz uma bengala metálica com que vai percutindo o chão.
Já algumas pessoas procuram moedas nos bolsos para depositar na caixinha que ele lhes estende, quando se ouve uma voz feminina, estridente: «Não dêem dinheiro a esse homem, é um aldrabão. Conheço-o há 28 anos e a conversa é sempre a mesma. Eu sei que ele está rico à conta da caridade alheia».
Em vez de responder, o pedinte apressa-se a mudar de carruagem e o incidente torna-se motivo de conversa generalizada

Pensamento do dia

Não corras atrás do poema. Se ele não está já em ti, aguarda.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Da realidade

Quando regressava a casa, esta manhã, vi um homem na rua a encher de areia uma carteira de bolso. Uma dessas carteiras vulgares onde geralmente guardamos os documentos e o dinheiro. Uns metros mais à frente, vejo vir na minha direcção um ex-colega de trabalho. Estamos separados por dez metros e ele parece não me ver, entrando apressadamente numa loja. Em momentos como estes, pergunto a mim mesmo se não estarei a sonhar. Cada vez tenho mais dificuldade em distinguir os sonhos da realidade. Os meus sonhos parecem-me cada vez mais reais, enquanto a (suposta) realidade me prega partidas constantemente. Será por estar desempregado? Isso é: por estar num estado de absoluta atenção ao mundo e, em especial, ao meu mundo interior? Seja como for, é tão exaltante como assustador. Quanto menos percebo o que se passa comigo e com o mundo, mais interessante e intenso é o que vivo. Uma coisa é certa: não há nada mais real do que aquilo que vivo, esteja a dormir ou acordado.

Dos blogues

Ninguém escreve um blogue só para si, é óbvio. Um blogue é uma prova de vida. Cada «post» (há alguma palavra portuguesa para post?) é uma garrafa deitada ao mar com uma mensagem lá dentro. Digam lá o que disserem, somos todos naufragos numa ilha deserta (o nosso corpo). Os mais sortudos têm um Sexta-feira a seu lado (ou dentro de si), mas é tudo. Tal Robinson Crusoes na era do digital, como ferramentas de sobrevivência, apenas temos à nossa disposição palavras e imagens. Desse ponto de vista, uns são mais ricos do que outros, mas os talentosos estão tão sós e desesperados como os indigentes. Como se sabe, a única saída da ilha é para outra dimensão. O que me leva a colocar a questão: será que somos todos meros apontamentos no eterno e infinito blogue de Deus?

Do lixo

Não raras vezes me arrependo do que publico neste blogue que, em boa verdade, frequentemente utilizo como uma espécie de caixote do lixo para onde atiro o que não rasgo ou apago. No entanto, há pessoas (e eu assumo-me como uma delas) que adoram espreitar o lixo dos outros. A mim, por exemplo, todo o lixo me interessa; tenho um verdadeiro fascínio pelos restos, as sobras - que é como quem diz: os rascunhos e os esboços. As tentativas falhadas, em suma.
A perfeição, para mim, para além de inantingível, é demasiado «lisa» e até superficial. No mínimo, é superfua. No fundo, tenho horror ao perfeitinho. Há mais verdade, parece-me, naquilo que as pessoas preferem não mostrar, ou não ver. Não me estou a explicar bem, mas acho que me faço entender. Caso contrário, tanto faz: no fundo estou apenas a produzir mais lixo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Janelas de Amesterdão


Janelas de Amesterdão




Ficção rápida



«Trata-me mal, bate-me e insulta-me, é assim que eu gosto», pediu-me ela.
Devo ter ficado com cara de parvo. Depois, quando percebi que estava a falar a sério, disse:
«Desculpa, não consigo.»
«Então, nada feito, só consigo ter prazer se sofrer um bocado.»
«Queres que te dê uma estalada? É isso?»
«Na cara, não. No rabo, por favor.»
Ela pôs-se a jeito e eu soltei uma gargalhada.
«És doida.»
«Talvez. Não sei. É assim.»
«Que nomes queres que te chame? Puta, cabra, coisas assim?»
«O que tu quiseres. Quanto pior melhor.»
Voltei a rir e ela pediu, com um ar muito sério:
«Faças o que fizeres, por favor, não rias.»
Estava agora toda nua e era estupenda. Muito branca, pequena, parecia uma figura de procelana.
«Pareces tão frágil», disse eu. «Como posso bater-te?»
«Não sou tão frágil como isso... Experimenta.»
Aproximei-me para examinar o sexo dela. Estava fascinado pela ausência de pêlos púbicos.
«Porque é que te rapas?», perguntei.
Ela impacientou-se.
«Assim não vamos a lado nenhum.»
Disse isto e afastou-se, indo deitar-se sobre a cama. Fui atrás dela e ajoelhei-me à sua beira.
«Deixa-me beijar-te», pedi.
«Depois. Mais tarde. Primeiro tens que fazer o que te pedi.»
De repente, senti-me ridículo, ali de joelhos no chão e levantei-me, para voltar a sentir alguma dignidade.
«Não esperava por uma coisa destas», murmurei, lembrando-me de súbito que ela era casada com um amigo meu.
«Que esperavas, então?»
«Não sei. Tudo menos isto.»
«Também eu nunca imaginei que fosses tão mariquinhas», asseverou ela.
Disse isto, abrindo uma gaveta da mesa de cabeceira de onde tirou um pequeno chicote que me estendeu.
«Toma. Usa-o bem.»
Antes que eu pudesse reagir, tirou da mesma gaveta umas algemas.
«Queres pôr-me isto?»
Larguei o chicote em cima da cama para pegar nas algemas. Estava fascinado com a situação. Assustado e fascinado. Experimentei as chaves e funcionavam na perfeição. Ela juntou os pulsos atrás das costas e ordenou-me: «Fecha-as».
Apertei-lhe as algemas e ela acrescentou:
«Agora, podes fazer-me o que quiseres.»
Eu não me conseguia mexer.
«Dá-me com o chicote, vá lá.»
Como que a medo, obedeci. Dei-lhe uma chicotada no rabo, bem sonora.
«Com mais força», pediu ela.
Passou-me uma coisa má pela cabeça e golpei-a com mais força. Zás! Zás!
«É assim que queres, minha puta de merda?», rosnei.
«Sim, sim», gemeu ela.
Voltei a bater, duas, três, quatro vezes. Cada vez com mais força. As marcas nas nádegas dela, os gemidos langorosos, excitaram-me, confesso e, não me contendo, deitei-me sobre ela para a beijar. A filha da mãe mordeu-me o lábio com força, fazendo-me berrar com a dor. Senti o sangue sujar-me a boca, depois vi o sangue nas minhas mãos.
«És mesmo louca, minha filha da puta.»
Disse isto e saí porta fora, deixando-a ali, nua, algemada, louca.
«Amanhã», prometi a mim mesmo, «vou esquecer esta história toda».

PS - A ilustração é de um artista da Geórgia chamado Juul Kraiger.

Pensamento do dia

I rely on my pain to be what I am.

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Sabedoria popular



Para quem não sabe inglês, a frase diz: «Deus mata mais do que o cancro».

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