terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Fernando Lemos


Auto-retrato de Fernando Lemos

Fernando Lemos nasceu em Lisboa, em 1926. Actualmente, reside em São Paulo, no Brasil. A sua ligação à fotografia vem da altura em que desenvolveu a sua actividade artística junto do Grupo Surrealista de Lisboa (anos 40 e 50).
A pretexto de uma exposição que a Fundação Cupertino de Miranda apresenta em Vila Nova de Famalicão, Sérgio B. Gomes entrevistou-o para o Público. É uma das melhores entrevistas a um fotógrafo que jamais li e não resito a transcrever algumas frases que dão bem a medida da sua inteligência e sensibilidade:

«Considero a fotografia já em mim. Já me perguntaram também se eu era fotógrafo. Respondo: “Não. Eu sou a fotografia”. Em tudo o que vejo, é como se fosse a fotografia a ver essas coisas. Tenho a fotografia na minha cultura visual.»

«Quando comecei a ver que toda a gente tinha uma camarazinha e andava fotografando primeiro achei que era um disparate. Depois pensei outra vez e disse para comigo: afinal, uma das coisas boas da fotografia é que ela ensina a ver.»

«A gente já sabe que a fotografia foi mais uma vitória industrial do que artística. Não importa se vai sair dela mais ou menos arte. O que é mais importante é que a magia fica ao alcance de toda a gente. No Japão, percebi que as crianças aprendem primeiro a fotografar e só depois a escrever e a desenhar. Elas registam imagens e só depois aprendem a escrita e o desenho.»

«O que queria preparar na composição era um pensamento mais pictórico e gráfico. No fundo, considero-me gráfico em tudo o que faço.»

«A fotografia para mim também é a transparência. A transparência é uma forma de espionagem. Apanhamos certas coisas e nem sabemos que as apanhámos. Como um furto. O olhar fotográfico pode furtar da realidade coisas de que nem nos apercebemos.»

«Entrei na fotografia por acaso. Eu sou o acaso, sou um primitivo.»

«Entendo a fotografia mais como uma ferramenta do resultado, o último gesto de uma criação. É uma arte final. É por isso que eu considero a fotografia já em mim e digo “eu sou a fotografia”. É porque eu já sou um produto acabado, deixei de ser um “layout” para ser mais uma arte final.»


«Procuro mostrar que somos vários. Quando aparecemos em qualquer situação, não temos uma cara fixa, não somos uma máscara. Quis captar os retratos desta forma para se perceber que temos na nossa cara um mundo de coisas para explodir, para esconder.»


PS - Pode ler a totalidade da entrevista aqui

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