sexta-feira, 26 de julho de 2013

Tudo

Tudo -
palavra atrevida e enfunada de soberba.
Deveria escrever-se entre aspas.
Aparenta nada omitir,
tudo reunir, abarcar, conter e ter.
Porém, não é mais
do que um farrapo do caos.
Wislawa Szymborska, Instante

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Lobos?

Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua

Aquietá-los.

Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.

Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.

(Hilda Hilst: Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974) - Poemas aos Homens do nosso Tempo - VIII)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Ostende


Ostende


Ostende

Ostende

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Cartas de um sedutor

Acabo de ler, Cartas de um Sedutor, de Hilda Hilst, uma paródia aos romances epistolares dos libertinos franceses do século XVIII. Com este romance, a poetisa brasileira fechou uma trilogia pornográfica que inclui O Caderno Rosa de Lori Lamby e Contos de Escárnio/Textos Grotescos.
Se querem um resumo do livro aqui vai: o narrador escreve à irmã a implorar-lhe que venha foder com ele. Ao longo das muitas cartas vamos descobrindo que ela se deitava com o pai e que agora dorme com o filho, que também é seu irmão. O incesto é total. Toda a gente dorme com toda a gente, aliás, homens com homens, mulheres com mulheres, um regabofe.
Mais alucinatório do que malvado, o narrador das Cartas de um Sedutor, vai assumindo-se, pouco a pouco, como escritor e põe-se a contar histórias. Do arco-da-velha, é claro, porque, como diz, "o negócio é inventar escorreria, tesudices, xotas na mão, os caras querem ler um troço que os faça esquecer que são mortais e estrume".
Exageradamente obsceno, o romance é incontinente e caótico para além de tudo o que eu possa dizer, mas extremamente bem escrito. Tem imenso humor, claro, e denota uma inteligência extraordinária e uma erudição fora do comum. Pelo meio, tem tiradas destas: "O que nos resta é a orfandade. Não é que sentimos falta de pai e mãe. Somos órfãos desde sempre. Órfãos d'Aquele".
Deus nunca está muito longe nas obras de Hilda Hilst, seja romance, teatro ou poesia. É para Ele, seu Pai, que ela escreve: "Sei tudo sobre a crueldade. Conheço Deus". E noutra altura: "Na natureza tudo come. Do leão à formiga. Até as estrelas se engolem umas às outras. Tenho cagaçal do cosmos. O criador deve ter um enorme intestino. Alguns doutos em ciências descobriram que quanto maior o intestino, mais místico o indivíduo. E quem mais místico do que Deus? Grande Intestino, orai por nós".
Como vou estar todo o Verão imerso na obra fabulosa de Hilda Hilst, não se espantem por isso de a encontrar muitas vezes neste blogue.
Já agora uma precisão: a foto não tem nada a ver, nem com Hlda Hilst, nem com o livro; foi tirada no outro dia no MUDE e mostra duas esculturas de Ana Mena intituladas "A Pega"..

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Hilda Hilst

Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.

Da série Poemas aos Homens do nosso tempo (1974)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Marina Tsvietaieva

 

A Inês Dias recomendou-o, no facebook, creio, e o Ricardo mencionou-o enquanto visitávamos a Feira do Livro. Obrigado aos dois. Adorei os Indícios Terrestres de Marina Tsvietaieva, um pequeno livro publicado pela Relógio d'Água que reúne fragmentos dos diários que a poetisa russa escreveu em Moscovo, entre 1917 e 1919. Gostei especialmente das suas reflexões sobre a poesia e os poetas, de quem ela diz que «apagam sempre as suas pistas». «A tarefa do poeta: após descobrir - encobrir», escreveu ela, para mais tarde acrescentar: «É preciso escrever apenas aqueles livros por cuja ausência se sofre. Numa palavra: os próprios livros de cabeceira». Tão justo!

Da velhice

Deu trabalho
levou muito tempo
mas consegui
voltar a ser criança

Da velhice

Tudo por fazer
como sempre
mas agora
irremediavelmente

L'avenir est rare

«L'avenir est rare, et chaque jour qui vient n'est pas un jour qui commence. Plus rare encore est la parole qui, dans son silence, est réserve d'une parole à venir et nous tourne, fut-ce au plus près de notre fin, vers la force du commencement».
Maurice Blanchot in La voix venue d'ailleurs

segunda-feira, 3 de junho de 2013

La vie matérielle

Marguerite Duras in La Vie Matérielle: "Trés vite c'est trop tard dans la vie".

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Da fotografia

Não me cansarei de o dizer: para mim, fotografar é uma maneira de escrever. Isto é, de pensar.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Blog your dreams

Marguerite Duras: «Donc, voyez, j'écris pour rien. J'écris comme il faut écrire il me semble. J'écris pour rien».

sábado, 4 de maio de 2013

A respiração do lugar


Pensar é o caminho.
Caminhar, o destino.

Do pensamento

D.H. Lawrence: «La pensée, c'est l'homme tout entier attentif».

Campolide

Kenneth White: «Tout n'est pas dit, tout n'aime pas être dit, tout ne peut être dit».

Campo de Ourique

Kenneth White afirma, e eu concordo em absoluto: «A poesia está por todo o lado, basta saber ver e ler o mundo». 

A Concorrente



Arquivo do blogue