quarta-feira, 29 de abril de 2009

Calçada





terça-feira, 28 de abril de 2009

Ponto da situação

O que estou a (re)ler?
«Na Patagónia, de Bruce Chatwin

O que estou a ouvir?
«Together Through Life», de Bob Dylan

O que estou a ver?
«Breaking Bad», segunda série

O que estou a planear?
Três semanas de férias no Canadá, com passagem pour Vancouver e Toronto.

Do que é que estou à espera?
Do Verão.

domingo, 26 de abril de 2009

Pura realidade

Nos seus «Diários», o jornalista italiano Indro Montanelli, conta que, em Maio de 1977, jantou com Ionesco, cuja mulher passou toda a refeição, a refilar: «Não devias comer isso!»; «Não devias beber tanto!»; «Devias deixar de fumar!». A certa altura, Ionesco segredou-lhe ao ouvido: «Esta mulher tem uma atração irresistível pela viuvez. Gostaria que eu vivesse como se já estivesse morto». E continuou a comer, beber e fumar como se nada fosse.

sábado, 25 de abril de 2009

25 de Abril



Já foi bonito; já não é. Ironicamente foi o partido (dito) socialista quem enterrou definitivamente a revolução.

The Lost Girl



«[Lawrence was] a writer with an extraordinary sense of the physical world, of the colour and texture and shape of things, for whom the body was alive and the problems of the body insistent and important.» Virginia Woolf dixit

Lhasa



Lhasa de Sela nasceu no estado de Nova Iorque, mas tem sangue mexicano. Em 1997, deu-se a conhecer ao mundo com um disco intitulado La Llorona, que era uma óbvia homenagem à música mexicana e muito em particular a Chavela Vargas. Seis anos mais tarde, publicou The Living Road, outra obra prodigiosa onde cantava, em espanhol, inglês e francês, «torch songs» infecciosas, com uma voz sensual e sofrida que fez dela, instantaneamente, uma das nossas cantoras preferidas. Foram precisos mais seis anos para Lhasa voltar a gravar. O resultado está aí, num disco sem título, agora inteiramente cantado em inglês, que é, sem dúvida, o seu álbum mais íntimo e perturbador. Para lhe fazer justiça é preciso gostar de canções tristes e crepusculares (onírico e solitário, o álbum já foi descrito como uma viagem ao fim da noite). Gravado num estúdio analógico, em apenas duas semanas, com os músicos a tocarem «ao vivo», o disco é um libelo anti perfeccionista: uma obra crua, exigente e essencial que, infelizmente, só alguns conseguirão apreciar devidamente.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Flaubert e a senhora Bovary



Graças a um esforço conjunto da Universidade e da Biblioteca Municipal de Rouen, os manuscritos de Madame Bovary, o mais célebre romance de Flaubert estão agora disponíveis na Internet (www.bovary.fr).
Foram precisos dez anos para completar este trabalho que reúne qualquer coisa como 4500 páginas de rascunhos, fruto de um trabalho hercúleo que o escritor levou a cabo entre Setembro de 1851 e Março de 1857.
Flaubert guardava tudo o que escrevia e graças a isso podemos hoje fazer uma ideia concreta do que sofria para escrever os seus livros. Já se sabia que ele foi porventura o mais exigente dos escritores do seu tempo, mas agora temos aqui uma prova bem concreta: segundo um dos investigadores, cada passagem do romance foi reescrita, em média, umas dez vezes pelo seu autor.
A equipa responsável por este trabalho, promete agora digitalizar a totalidade dos manuscritos correspondendo ao livro Bouvard et Pécuchet.

Pura realidade

Em La Photo, inéluctablement (Gallimard, 1999) - um livro de leitura obrigatória para quem se interessa por fotografia -, o malogrado Hervé Guibert conta que, na recta final da sua vida, o fotógrafo norte-americano Weegee (falecido em 1968, aos 69 anos) vivia com um manequim, desses que se veem nas montras, a quem chamava Monique. Vesti-a, falava com ela, levava-a a passear e tirava-lhe fotografias como se fosse uma mulher real. Um dia, decidiu encenar a sua morte: afogou-a no rio, depois de a ter fechado num caixão. Weegee fotografou a «cerimónia» de adeus, mas os seus herdeiros impedem a publicação dessas imagens.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Aprender a ver



Quando somos fotógrafos, artistas plásticos ou simplesmente pessoas interessadas no mundo, estamos constantemente a aprender a ver. É de resto por isso que (alguns de nós) visitamos exposições. Pois bem, na Culturgest estão, neste momento, duas propostas interessantíssimas e congratulo-me por ter tido ontem a ideia de as ir visitar. A primeira que percorri chama-se «A Analogia do Olho» e é de um tal JCJ Vanderheyden, um artista holandês de que nunca tinha ouvido falar. Ao ver as primeiras telas lembrei-me de Mondrian, mas logo vi outras obras que me deram a certeza de estar perante um universo muito próprio e uma linguagem original onde a pintura e a fotografia dialogam num jogo de complementaridade entusiasmante. Obcecado como sou por nuvens e aviões, simpatizei de imediato com as suas fotografias do céu, das nuvens e da neve no alto das montanhas, tiradas a partir de aviões, sempre com a preocupação de mostrar a janela através da qual realizou as imagens. A essas fotografias, que por vezes inspiram telas pintadas, ele contrapõe outros temas recorrentes como quadriculas deformadas e espelhos de toda a sorte onde a sua obra se reflete e multiplica. Para além das fotografias em formatos vários e das pinturas onde as habituais telas quadradas e retangulares dão lugar a formas oblongas, distorcidas, o artista utiliza também painéis e cabinas compostas por várias reproduções de imagens suas e de outros artistas num jogo de referências e analogias, lúdicas e provocatórias. Muito mais haveria a dizer mais sobre esta exposição aliciante, que é um desafio permanente à nossa inteligência, memória e imaginação. Como diz o programinha, distribuído gratuitamente à entrada, «Vanderheyden está interessado na questão de como a consciência humana imagina o tempo e o espaço, e que analogias visuais desse processo são concebíveis». Diz também, com toda a razão, que ele é um artista importante que merece maior reconhecimento internacional.


Pelo menos tão estimulante como esta é a outra exposição patente na Culturgest, também ela até 10 de Maio. Trata-se de «Trabalho de Campo» uma coleção de fotografias do alemão Jochen Lempert. São fotos a preto e branco, em diversos formatos, penduradas na parede sem necessidade de molduras ou passe-partout que, à primeira vista, dão ideia de estarem mal impressas. Na verdade, há aqui um trabalho meticuloso de laboratório que acentua o carácter único das suas propostas. A surpresa começa logo na primeira sala com uma série de fotografias que «escondem» diversos animais ao nosso olhar: um gato por detrás de umas persianas, uma tartaruga sob a água ou um cisne sem cabeça, por exemplo. Obcecado por animais, e particularmente por aves, Lempert interessa-se também por vegetais, microrganismos e fenómenos físicos e atmosféricos, colecionando séries onde procura (por vezes, no limiar da abstração) relações entre estruturas, texturas e formas. À medida que vamos percorrendo as salas, o autor consegue fazer-nos sentir que estamos perante uma obra exigente e rigorosa, transmitindo-nos o seu fascínio por coisas tão simples como a beleza aleatória de um voo de aves, das ondas do mar ou das chamas de uma árvore em fogo. Quando saí da exposição, sentia que tinha adquirido um novo olhar sobre algumas coisas deste mundo. E senti-me grato.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

J.J. Cale



Cantor, compositor e guitarrista originário do Oklahoma, J.J. Cale nasceu em 1938 e já vai com, pelo menos, meio século de carreira. Nas fotos, vemo-lo sempre como uma espécie de cowboy cool, «forever young». A sua música - toda ela e não apenas a deste seu novo álbum - é uma mescla de blues, folk e bluegrass, com pozinhos de jazz e rock. Muito simples e relaxados, deliciosamente sincopados, os seus discos não interessam a toda a gente, mas entre os seus fãs incondicionais contam-se - para além de mim, é claro - gente como Neil Young, Mark Knopfler ou Eric Clapton (que, aliás, colabora aqui numa faixa). Não trazendo nada de substancialmente novo ao seu universo musical, Roll On, o novo opus, é um dos melhores álbuns de J.J. Cale, simplesmente porque a receita nunca esteve tão apurada e a sua voz de «lobo do deserto» continua como nova, tão fluída e charmosa como as suas linhas melódicas ensolaradas. J.J. vive na Califórnia, leva uma vida de rei reformado e só faz o que lhe dá na gana. Ora isso sente-se em cada tema, tão simples como isto. Que inveja!

Pensamento do dia

A humanidade não parece ter outra finalidade senão sua própria destruição.

Uma lição de vida




Leio: «As coisas não são tão apreensíveis nem tão dizíveis como nos querem fazer crer; quase todos os eventos são inefáveis, desenrolam-se num espaço onde as palavras nunca entram, e os mais inefáveis entre eles são as obras de arte, existências misteriosas cuja vida, ao lado da nossa que se perde, perdura». Como não ficar imediatamente agarrado a esta leitura? Tinha lido Cartas a um Jovem Poeta de Rainer Maria Rilke há muitos, muitos anos (quando era eu próprio um jovem poeta). Tudo o que recordava do texto é que era muito interessante (lembrava-me especialmente da frase: «... pergunte a si próprio se morreria caso fosse impedido de escrever»). Mas tive um choque agora, ao relê-lo. Não é apenas interessante, é muito mais do que isso: uma verdadeira lição de vida e poesia!
O livro ficou todo sublinhado. São bons conselhos atrás de bons conselhos, muitos dos quais segui felizmente ao longo da existência, ou porque tinha ficado inconscientemente impregnado deles, ou porque relevam do puro bom senso e da simples inteligência.
Apetece transcrever tudo. Ouça-se esta frase, por exemplo: «Escave dentro de si próprio até encontrar uma resposta profunda». Quem não sabe que o deve fazer? Mas quantas pessoas o fazem realmente? Mais adiante, Rilke especifica: «... não há perturbação mais violenta do que olhar para fora e esperar respostas exteriores a perguntas a que talvez só a sua sensibilidade mais íntima, nas horas de maior silêncio, poderá responder». Noutra altura dirá: «Viva agora as perguntas. Aos poucos, sem o notar, talvez dê por si um dia, num futuro distante, a viver dentro da resposta».
Na terceira carta (são dez no total, todas relevantes, escritas num peródo de cinco anos, de 1903 a 1908), Rilke afirma: «A obra de arte é de uma solidão sem fim, e nada está mais longe de tocá-la do que a crítica. Só o amor poderá compreender e sustentar e fazer justiça a uma obra de arte». Não podia concordar mais; se há coisa de que me arrependo na vida é de ter a certa altura exercido a profissão de crítico.
Muito belas e igualmente profundas são as suas meditações sobre a solidão (considera-a a casa ou o abrigo de onde partem todos os caminhos), a tristeza (quando alguma coisa nova e desconhecida entra em nós para nos mudar) e o amor (que vê como uma partilha de pessoas que se protegem, delimitam e saúdam)..
«Estamos dentro da vida como dentro do elemento a que mais correspondemos», diz o autor das Elegias de Duíno e dos Sonetos a Orfeu, para assegurar mais adiante: «... dentro de nós corre sem parar o sangue dos nossos antepassados, que se cruza com o nosso para dar forma ao ser único e irrepetível que somos em cada volta das nossas vidas». Acreditem no que vos digo: não têm nada mais urgente para fazer nas vossas vidas do que ler, ou reler, este pequeno livrinho!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Vinho e literatura

«Quando o vinho é puro, permite ver Deus», dizia Léon Blum, o conhecido político francês falecido em 1950. O imortal Shakespeare, por seu turno, falava do «espírito invisível do vinho», enquanto Claudel, autor da peça «Le Soulier de Satin» (que Manoel de Oliveira levou ao grande ecrã), lembrava, muito justamente, que cada garrafa de vinho encerra milhares de anos de civilização. Este poeta francês achava, com toda a razão, que «o vinho liberta o espírito e ilumina a inteligência». E um outro poeta francês, o torrencial Victor Hugo, lembrou que «Deus criou a água, mas o homem fez o vinho». Mais prosaico e com o sentido da realidade que o caracterizava, Napoleão afirmou um dia aos seus generais: «Sem vinho, não há soldados».
Bebida tão espiritual como inspiradora, o vinho sempre esteve muito presente na literatura através dos séculos. A Bíblia, por exemplo, refere-se ao vinho por diversas vezes. A primeira menção é no «Genesis», onde se diz que «Noé começou Noé a cultivar a terra e plantou uma vinha. Bebeu do vinho, e embriagou-se; e achava-se nu dentro da sua tenda». Mais adiante, o mesmo texto sagrado volta a referir-se aos efeitos do vinho relatando: «Então a primogénita disse à menor: “Nosso pai é já velho, e não há varão na terra que entre a nós, segundo o costume de toda a terra; vem, demos a nosso pai vinho a beber, e deitemo-nos com ele, para que conservemos a descendência de nosso pai”. Deram, pois, a seu pai vinho a beber naquela noite; e, entrando a primogénita, deitou-se com seu pai; e não percebeu ele quando ela se deitou, nem quando se levantou. No dia seguinte disse a primogénita à menor: “Eis que eu ontem à noite me deitei com meu pai; demos-lhe vinho a beber também esta noite; e então, entrando tu, deita-te com ele, para que conservemos a descendência de nosso pai”. Tornaram, pois, a dar a seu pai vinho a beber também naquela noite; e, levantando-se a menor, deitou-se com ele; e não percebeu ele quando ela se deitou, nem quando se levantou. Assim as duas filhas de Ló conceberam de seu pai».
O «Livro dos Provérbios» tem igualmente algo a dizer sobre o vinho, embora nem sempre em termos muito recomendáveis. Por outro lado, alguns Evangelhos, como o de S. João e o de S. Marcos, se bem me recordo, referem a ligação do vinho com Jesus, com muitas analogias vinícolas. E se há episódios da Bíblia que toda a gente conhece é o milagre em que o filho de Deus transforma água em vinho (e em «bom vinho» ainda por cima) e o da Última Ceia quando Cristo dá vinho a beber aos seus discípulos asseverando: «Tomai e bebei, isto é o meu sangue».
Já para os Egipcíos, os Sumérios ou os Gregos, o vinho era o néctar dos deuses e o simbolismo do vinho sempre teve um papel importante nas celebrações rituais, religiosas ou pagãs. Alguns vinhos de renome, na antiga Grécia, eram citados por Homero, que descreve as colheitas, no Outuno, com profundo lirismo. Também o poeta Hesídio (que nasceu, viveu e faleceu em Ascra, no fim do século VIII a.C) conta a história dos vinhedos e o «Código de Hamurabi», primeiro livro sobre leis de que há memória (data de 1700 antes de Cristo), já imputa castigos a certas condutas de «casas de vinho».
Nenhuma outra bebida no mundo suscitou tanta atenção ou respeito como o vinho. Nenhum outro líquido se prestou tanto a comparações e citações literárias. Personalidades lendárias como Virgílio, Safo e Salomão entoaram loas ao vinho, para já não falar de Omar Khayyam, poeta persa que morreu por volta de 1120, e que provavelmente é o autor do maior número de poemas relativos ao vinho feitos por um homem só. Leiam-se os seus magníficos «Rubaya», para o comprovar. Aqui ficam três exemplos, entre muitos outros possíveis:

«Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos».


«Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia».


«Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida».


Referindo-se ao vinho, o poeta Dante Alighieri, o autor da «Divina Comédia», escreveu em plena Idade Média: «O doce beber que nunca me teria saciado». E já que estamos a falar de poetas, impossível não citar Baudelaire (1821-1867), um dos maiores poetas franceses de sempre, cujo poema «L’âme du Vin», não resistimos a transcrever, numa tradução de Guilherme de Almeida:

«A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
“Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!
Bem sei quanto custa, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,
Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À goela do homem que já trabalhou demais,
E seu peito abrasante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.
Não ouves retinir a domingueira toada
E esperanças ungir em meu seio, febris?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:
Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e a cor
E serei para tão tenro atleta da vida
Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.
Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno Semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!”»


Em França, país do vinho por excelência, são inúmeros os escritores e poetas que escreveram sobre o precioso líquido, como Lamartine ou Balzac, mas já que estamos a falar de poetas, convém não esquecer o chileno Pablo Neruda, que também escreveu uma «ode ao vinho». Reza assim:

«Vino color de día,
vino color de noche,
vino con pies de púrpura
o sangre de topacio,
vino,
estrellado hijo
de la tierra,
vino, liso
como una espada de oro,
suave
como un desordenado terciopelo,
vino encaracolado
y suspendido,
amoroso,
marino,
nunca has cabido en una copa,
en un canto, en un hombre,
coral, gregario eres,
y cuando menos, mutuo.
A veces
te nutres de recuerdos
mortales,
en tu ola
vamos de tumba en tumba,
picapedrero de sepulcro helado,
y lloramos
lágrimas transitorias,
pero
tu hermoso
traje de primavera
es diferente,
el corazón sube a las ramas,
el viento mueve el día,
nada queda
dentro de tu alma inmóvil.
El vino
mueve la primavera,
crece como una planta la alegría,
caen muros,
peñascos,
se cierran los abismos,
nace el canto.
Oh tú, jarra de vino, en el desierto
con la sabrosa que amo,
dijo el viejo poeta.
Que el cántaro de vino
al beso del amor sume su beso.
Amor mio, de pronto
tu cadera
es la curva colmada
de la copa,
tu pecho es el racimo,
la luz del alcohol tu cabellera,
las uvas tus pezones,
tu ombligo sello puro
estampado en tu vientre de vasija,
y tu amor la cascada
de vino inextinguible,
la claridad que cae en mis sentidos,
el esplendor terrestre de la vida.
Pero no sólo amor,
beso quemante
o corazón quemado
eres, vino de vida,
sino
amistad de los seres, transparencia,
coro de disciplina,
abundancia de flores.
Amo sobre una mesa,
cuando se habla,
la luz de una botella
de inteligente vino.
Que lo beban,
que recuerden en cada
gota de oro
o copa de topacio
o cuchara de púrpura
que trabajó el otoño
hasta llenar de vino las vasijas
y aprenda el hombre oscuro,
en el ceremonial de su negocio,
a recordar la tierra y sus deberes,
a propagar el cántico del fruto».


Em Portugal, em matéria de vinho e poesia, o exemplo maior é, sem dúvida alguma, Fernando Pessoa que num poema de 1935, diz: «Dá-me vinho, porque a vida é nada». E noutra altura: «Boa é a vida, mas o vinho é melhor». E a sua fotografia mais conhecida, é como se sabe, tirada numa tasca a beber um copo de três, sob a qual em escreveu em dedicatória para a sua amada Ofélia: «Apanhado em flagrante delitro».



Também os romances estão, desde sempre, repletos de histórias de vinho. São inúmeras as personagens da literatura mundial que não escondem a sua paixão pelo «néctar dos deuses», desde Fiódor Pávlovitch, o pai dos «Irmãos Karamázov» (o genial romance de Dostoiévski) até Sancho Pança, o fiel escudeiro de D. Quixote. Recorde-se que enquanto o cavaleiro da triste figura investe contra os seus moinhos de vento, o seu anafado companheiro prefere deliciar-se com as suas garrafas de vinho. Numa das passagens do clássico de Miguel de Cervantes, Sancho Pança afirma mesmo com legítimo orgulho: «Só pelo odor reconheço logo a região de um vinho e a sua qualidade; é um dom de família que herdei».
Esta evocação traz-me à memória o brasileiro Esmeraldo Siqueira que, sendo ateu convicto, escreveu no seu seu poema «In Vino Veritas»: «Quando bebo uma garrafa de vinho bom,/Mergulho em pleno sonho místico./Tenho vontade de ir à igreja/Fazer às pazes com Jesus Cristo...». O mesmo autor, médico e poeta falecido em 1987, na obra «Sugestões da Vida e dos Livros», disse também: «Amar os velhos livros, como saborear os vinhos velhos, já é um sinal de maturidade.»
Mas não foram só os poetas, os escritores e os filósofos a fazer o elogio do vinho. Rezam as crónicas que Alexander Fleming, o célebre inventor da pelicilina, disse um dia: «A minha invenção cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes». Outro cientista famoso, Louis Pasteur, assegurou com convicção, chocando talvez alguns espíritos bem pensantes: «Há mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros».
Convém, no entanto, não esquecer que um bom livro também pode embriagar. Quem nunca sentiu a cabeça a andar à roda depois de ler um belo poema ou um romance especialmente absorvente? Como um bom vinho, também um estilo literário pode ser encorpado e aveludado, ter um bouquet mais ou menos acentuado, ser leve e até possuir paladar e aroma. Isso mesmo lembra Bernard Pivot, um escritor que durante anos animou um programa semanal sobre livros na televisão francesa, e que em 2006 publicou um «Dictionnaire amoureux du vin», onde ao longo de quase 500 páginas nos guia com humor e ecletismo através de um universo complexo mas acessível. O seu pai tinha vinhas e produzia vinho e o livro dele é o de um amador que procura partilhar o seu prazer da bebida e das palavras, lendo-se com grande proveito.
Um outro livro cuja leitura recomendo vivamente é «Dégustation du vin à travers la littérature française», do japonês Kazuo Ogoura, publicado em 2003, infelizmente não traduzido para português. Antigo embaixador em França, Ogoura apaixonou-se pelo vinho e a França. Através de obras romanescas do séculos XIX e XX, ele estuda o papel do vinho na nossa sociedade e as suas análises sociológicas têm uma dimensão poética assinalável. É um livro apaixonante que abre muitas pistas sobre alguns dos mais belos textos que jamais se escreveram sobre o vinho.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Andrew Bird




Se não sou o fã nº 1 de Andrew Bird, ando lá perto. Acho-o um compositor de génio, do tipo que eu gosto: discreto e despretencioso. Para mais, o rapaz é, para além de um verdadeiro homem-orquestra, genuinamente simpático e comunicativo. Basta ouvir o seu célebre assobio: quem assim exprime só pode ser um gajo porreiro. A cada novo disco, gosto mais dele e se Armchair Apocrypha, o opus anterior, era uma maravilha (apesar de alguns afirmarem que era mais fraco do que o costume), Noble Beast é ainda melhor. Nele, Bird reata com a inspiração dos seus primeiros álbuns (nomedamente The Swimming Hour, de 2001 e, principalmente, Weather Systems, de 2004). Discos onde beleza rimava com leveza, e fragilidade com densidade. Ultimado em Nashville com a preciosa ajuda de Mark Nevers (homem-chave por detrás do sucesso dos Lambchop) Noble Beast é o disco primaveril por excelência. Ouvindo-o, imagino-me deitado numa nuvem em companhia de um anjo musical. E se o seu violino me mandasse atirar lá de cima cá para baixo, eu atirava-me de olhos fechados, tal a fé que tenho no poder da sua música.

sábado, 11 de abril de 2009

Paragem de autocarro

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Mulher Sem cabeça



Numa entrevista publicada pelo jornal «Público», a realizadora argentina Lucrecia Martel, diz a certa altura, falando de piscinas: «Gosto de nadar no rio, no mar. Mas a água parada faz-me impressão. Há outra coisa que me aterroriza: na cidade onde vivo, o acesso à água não é fácil. Uma piscina é um enorme privilégio. E parece-me que há um enorme egoísmo numa piscina. Elas devem existir quando são públicas, porque esse pequeno paraíso deve ser para todos, tal como a saúde, a educação. O que é revolucionário é que os lugares para os prazeres, a preguiça, sejam de todos. E há uma coisa concreta: enquanto as pessoas com poder de compra constroem o seu paraíso artificial, descuidam-se os rios, os mares, os lagos, o acesso público à água deixa de ser importante. Em volta de uma piscina há muitas coisas a dizer sobre o estado do mundo.»
Um pouco mais adiante refere: «Uma piscina é muito parecida com uma sala de cinema. O ar é um meio elástico, o som propaga-se nesse meio. Estar encerrado numa sala de cinema é como estar dentro de uma piscina. Estamos imersos. Não temos a consciência de que vivemos imersos no ar. Só o som é que nos pode dar essa consciência.»
São declarações fabulosas e fizeram-me ir a correr ao King ver o seu novo filme La Mujer Sin Cabeza. Porém, se adorei La Ciénaga (2001) e La Niña Santa (2004), os seus filmes anteriores, este desiludiu-me um pouco. Entendo o que a realizadora argentina quis fazer, e dizer; admiro a sua maneira de filmar, o modo como utiliza a banda sonora e a direcção de actores (que lição!), mas não consegui aderir completamente à história. Lucrecia Martel afirma que a sua ideia era meter o espectador na cabeça da personagem, num estado de choque pós-traumático. «O cinema para mim são duas horas em que, com sorte, consigo colocar o espectador no corpo de outra pessoa», diz ela. Pois bem, no meu caso, e nos das pessoas que me acompanhavam, ela não conseguiu isso de todo. Na minha opinião. muito por culpa de María Onetto, a actriz principal, cujo rosto propositadamente opaco e baço foi bulindo com os meus (nossos) nervos.
Para além desse erro de casting, o filme sofre da ausência de um «twist» dramático, que em vez de aclarar adensasse o mistério e a inquietação (é muito pobre o truque de lançar a dúvida sobre o possível adultério da protagonista) e do facto das personagens secundárias estarem praticamente reduzidas à condição de acessórios animados, sem o mínimo de espessura dramática. O filme teria a ganhar, creio eu, em manter até ao fim a dúvida sobre se a mulher matou um cão ou uma criança. Dito isto, o melhor do filme está no naturalismo, chamemos-lhe assim, com que aborda a realidade quotidiana de um punhado de pessoas que vive no Norte da Argentina, denunciando as diferenças sociais entre os descendentes dos colonos espanhóis e os indígenas, por exemplo. Mais do que um filme de terror, como o classificou um crítico português, La Mujer Sin Cabeza, é um filme angustiado e angustiante. O mesmo jornalista apontou dívidas de Lucrecia Martel para com o Antonioni de A Aventura (porque é uma narrativa sem enredo?) e o surrealismo. Não são só as mulheres que perdem a cabeça de vez em quando.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Pensamento do dia

O poema que crio, cria-me.
O poema que queria, queria-me?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Ficção rápida

ELA: Afinal do que é que estás à espera?»

ELE: Isso gostava eu de saber.

ELA: Não respondas assim. Não podes responder assim. Seria demasiado fácil.

ELE: Toda a vida procurei soluções de facilidade.

ELA: Soluções de facilidade! Curiosa expressão.

ELE: É como «curiosa expressão». Não achas curiosa a expressão «curiosa expressão»?

ELA: Lá estás tu a brincar com as palavras.

ELE: Mais uma expressão engraçada: «brincar com as palavras.»

ELA: Estás a fugir à questão.

ELE: Estás a ver? É impossível não brincar com as palavras. Pensa bem no que acabaste de dizer.

ELA: O quê?

ELE: Fugir à questão. Brincar com as palavras. Soluções de facilidade. Com tantas expressões sugestivas, como farão os outros para não serem poetas? ... Ou escritores?

ELA: Brincar com soluções de facilidade, colocar questões mas a fugir das respostas... Foi isto que andaste a fazer toda a vida.

ELE: E tu? Como tens gasto a tua?

ELA: Tive três filhos. Vou deixar a minha marca no mundo.

ELE: Uau!

ELA: Achas pouco?

ELE: Não. Três filhos é obra, tenho que concordar.

ELA: É melhor do que os dois ou três livros que escreveste e quase ninguém leu.

ELE: Que sabes tu disso?

ELA: Sei tanto como isto: um filho vale mais do que qualquer livro.

ELE: Não escrevi dois ou três livros, escrevi pelo menos quatro.

ELA: Pelo menos? Nem sequer sabes exactamente quantos livros escreveste?

ELE: Sete, oito, vinte, que interessa? No fundo não escrevemos senão um único livro, toda a vida.

ELA: Mais me ajudas.

ELE: Como assim?

ELA: Uma vida inteira para escrever um único livro. Não achas um desperdício?

ELE: Afinal também jogas com as palavras!

Pura realidade

Ouvido no metro: «Todas as mulheres são bonitas. Mas algumas exageram».

Pensamento do dia

Somos a prova viva da fragilidade de Deus

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Pura realidade

No comboio, como frequentemente acontece, aparece um homem a pedir: «Por favor, ajudem-me com o que puderem, tenho que fazer uma operação aos olhos e não tenho dinheiro.» O homem tem uns cinquenta anos, óculos com lentes grossíssimas e traz uma bengala metálica com que vai percutindo o chão.
Já algumas pessoas procuram moedas nos bolsos para depositar na caixinha que ele lhes estende, quando se ouve uma voz feminina, estridente: «Não dêem dinheiro a esse homem, é um aldrabão. Conheço-o há 28 anos e a conversa é sempre a mesma. Eu sei que ele está rico à conta da caridade alheia».
Em vez de responder, o pedinte apressa-se a mudar de carruagem e o incidente torna-se motivo de conversa generalizada

Pensamento do dia

Não corras atrás do poema. Se ele não está já em ti, aguarda.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Da realidade

Quando regressava a casa, esta manhã, vi um homem na rua a encher de areia uma carteira de bolso. Uma dessas carteiras vulgares onde geralmente guardamos os documentos e o dinheiro. Uns metros mais à frente, vejo vir na minha direcção um ex-colega de trabalho. Estamos separados por dez metros e ele parece não me ver, entrando apressadamente numa loja. Em momentos como estes, pergunto a mim mesmo se não estarei a sonhar. Cada vez tenho mais dificuldade em distinguir os sonhos da realidade. Os meus sonhos parecem-me cada vez mais reais, enquanto a (suposta) realidade me prega partidas constantemente. Será por estar desempregado? Isso é: por estar num estado de absoluta atenção ao mundo e, em especial, ao meu mundo interior? Seja como for, é tão exaltante como assustador. Quanto menos percebo o que se passa comigo e com o mundo, mais interessante e intenso é o que vivo. Uma coisa é certa: não há nada mais real do que aquilo que vivo, esteja a dormir ou acordado.

Dos blogues

Ninguém escreve um blogue só para si, é óbvio. Um blogue é uma prova de vida. Cada «post» (há alguma palavra portuguesa para post?) é uma garrafa deitada ao mar com uma mensagem lá dentro. Digam lá o que disserem, somos todos naufragos numa ilha deserta (o nosso corpo). Os mais sortudos têm um Sexta-feira a seu lado (ou dentro de si), mas é tudo. Tal Robinson Crusoes na era do digital, como ferramentas de sobrevivência, apenas temos à nossa disposição palavras e imagens. Desse ponto de vista, uns são mais ricos do que outros, mas os talentosos estão tão sós e desesperados como os indigentes. Como se sabe, a única saída da ilha é para outra dimensão. O que me leva a colocar a questão: será que somos todos meros apontamentos no eterno e infinito blogue de Deus?

Do lixo

Não raras vezes me arrependo do que publico neste blogue que, em boa verdade, frequentemente utilizo como uma espécie de caixote do lixo para onde atiro o que não rasgo ou apago. No entanto, há pessoas (e eu assumo-me como uma delas) que adoram espreitar o lixo dos outros. A mim, por exemplo, todo o lixo me interessa; tenho um verdadeiro fascínio pelos restos, as sobras - que é como quem diz: os rascunhos e os esboços. As tentativas falhadas, em suma.
A perfeição, para mim, para além de inantingível, é demasiado «lisa» e até superficial. No mínimo, é superfua. No fundo, tenho horror ao perfeitinho. Há mais verdade, parece-me, naquilo que as pessoas preferem não mostrar, ou não ver. Não me estou a explicar bem, mas acho que me faço entender. Caso contrário, tanto faz: no fundo estou apenas a produzir mais lixo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Janelas de Amesterdão


Janelas de Amesterdão




Ficção rápida



«Trata-me mal, bate-me e insulta-me, é assim que eu gosto», pediu-me ela.
Devo ter ficado com cara de parvo. Depois, quando percebi que estava a falar a sério, disse:
«Desculpa, não consigo.»
«Então, nada feito, só consigo ter prazer se sofrer um bocado.»
«Queres que te dê uma estalada? É isso?»
«Na cara, não. No rabo, por favor.»
Ela pôs-se a jeito e eu soltei uma gargalhada.
«És doida.»
«Talvez. Não sei. É assim.»
«Que nomes queres que te chame? Puta, cabra, coisas assim?»
«O que tu quiseres. Quanto pior melhor.»
Voltei a rir e ela pediu, com um ar muito sério:
«Faças o que fizeres, por favor, não rias.»
Estava agora toda nua e era estupenda. Muito branca, pequena, parecia uma figura de procelana.
«Pareces tão frágil», disse eu. «Como posso bater-te?»
«Não sou tão frágil como isso... Experimenta.»
Aproximei-me para examinar o sexo dela. Estava fascinado pela ausência de pêlos púbicos.
«Porque é que te rapas?», perguntei.
Ela impacientou-se.
«Assim não vamos a lado nenhum.»
Disse isto e afastou-se, indo deitar-se sobre a cama. Fui atrás dela e ajoelhei-me à sua beira.
«Deixa-me beijar-te», pedi.
«Depois. Mais tarde. Primeiro tens que fazer o que te pedi.»
De repente, senti-me ridículo, ali de joelhos no chão e levantei-me, para voltar a sentir alguma dignidade.
«Não esperava por uma coisa destas», murmurei, lembrando-me de súbito que ela era casada com um amigo meu.
«Que esperavas, então?»
«Não sei. Tudo menos isto.»
«Também eu nunca imaginei que fosses tão mariquinhas», asseverou ela.
Disse isto, abrindo uma gaveta da mesa de cabeceira de onde tirou um pequeno chicote que me estendeu.
«Toma. Usa-o bem.»
Antes que eu pudesse reagir, tirou da mesma gaveta umas algemas.
«Queres pôr-me isto?»
Larguei o chicote em cima da cama para pegar nas algemas. Estava fascinado com a situação. Assustado e fascinado. Experimentei as chaves e funcionavam na perfeição. Ela juntou os pulsos atrás das costas e ordenou-me: «Fecha-as».
Apertei-lhe as algemas e ela acrescentou:
«Agora, podes fazer-me o que quiseres.»
Eu não me conseguia mexer.
«Dá-me com o chicote, vá lá.»
Como que a medo, obedeci. Dei-lhe uma chicotada no rabo, bem sonora.
«Com mais força», pediu ela.
Passou-me uma coisa má pela cabeça e golpei-a com mais força. Zás! Zás!
«É assim que queres, minha puta de merda?», rosnei.
«Sim, sim», gemeu ela.
Voltei a bater, duas, três, quatro vezes. Cada vez com mais força. As marcas nas nádegas dela, os gemidos langorosos, excitaram-me, confesso e, não me contendo, deitei-me sobre ela para a beijar. A filha da mãe mordeu-me o lábio com força, fazendo-me berrar com a dor. Senti o sangue sujar-me a boca, depois vi o sangue nas minhas mãos.
«És mesmo louca, minha filha da puta.»
Disse isto e saí porta fora, deixando-a ali, nua, algemada, louca.
«Amanhã», prometi a mim mesmo, «vou esquecer esta história toda».

PS - A ilustração é de um artista da Geórgia chamado Juul Kraiger.

Pensamento do dia

I rely on my pain to be what I am.

Sabedoria popular



Para quem não sabe inglês, a frase diz: «Deus mata mais do que o cancro».

terça-feira, 31 de março de 2009

Remador imaginário



Nuvens, seguidas por outras nuvens, escondem o sol quando passam. Quando está encoberto, o céu fica mais bonito. Gosto especialmente de vê-lo em farrapos. Gosto de sentir o sol hesitante, de ver a sombra das nuvens nos rostos das pessoas por quem passo. Há coisas que se vêem melhor com menos luz.
É de costas voltadas que o remador avança. Como ele, escrevo para avançar. Só que não sei para onde. Com o meu bote imaginário, num lago de incertezas, avanço com horizontes que estão para além do que a minha mente alcança. Por isso digo: este é um blogue com segredo, só o abre verdadeiramente quem não sabe o que procura.

Avedon em Amesterdão







Adorei a exposição Richard Avedon que está na Foam em Amesterdão. Uma coisa é conhecer as fotografias pelas revistas e os livros, outra muito diferente é vê-las penduradas numa parede, numa impressão controlada pelo seu autor, no formato que ele escolheu. O que mais impressiona neste impressionante conjunto de cerca de 200 imagens realizadas entre 1964 e 2004 (é a primeira grande retrospectiva da sua obra que se faz depois da sua morte) é o despojamento: as fotos são todas a preto e branco, com um fundo branco, ou voluntariamente neutro, para que o retratado se destaque ao nosso olhar. Tudo está aqui no rosto e na pose. Nos olhos, mas também nas mãos, nas rugas, nas sardas ou no penteado e, muitas vezes, na postura. Avedon citava como principais influências estéticas pintores como Rembrandt e Egon Schiele e percorrer a mostra é perceber porquê.
Retratista sui generis, o fotógrafo norte-americano (nascido a 15 de Maio de 1923 em Nova Iorque, no seio de uma família de pequenos comerciantes judeus) dizia que com os seus retratos não procurava a semelhança, mas uma espécie de ficção. Para ele, um retrato não passava de uma opinião. Ou seja, não correspondia à ideia que a pessoa tinha de si, mas à ideia que Avedon se fazia dessa pessoa que «lia» através da lente. Por isso, afirmava que uma foto é sempre exacta, pois todas as fotografias são rigorosas, embora nenhuma delas revele a verdade.
Na verdade, também eu creio que a verdade não existe e muito menos em fotografia; apenas existem visões, ou opiniões. Ou seja, ficções. Um fotógrafo utiliza um aparelho de precisão que, paradoxalmente, trabalha com ilusões (ideias preconcebidas ou miragens). O que eu vejo não é nunca o mundo, mas sim o meu mundo. O mundo (ou a realidade, se preferirem) é o que vai desfilando aos meus olhos, ou nos meus sonhos. Dos sonhos, contudo, que são uma importante parte da nossa realidade, não podemos trazer retratos. O que é pena, porque nos sonhos, frequentemente, uma pessoa são várias pessoas e nós mesmos somos nós e outros e seria fascinante poder traduzir isso em fotografias. Quem sabe desenhar tem, assim, uma imensa vantagem, pois pode procurar fazê-lo, o que muito invejo.
Como eu, talvez Avedon procurasse ver-se nos olhos das pessoas que fotografava, não tal como é, mas como os outros o viam, já que somos todos reflexos deformados uns dos outros.
Desse ponto de vista, talvez a série mais impressionante de toda a exposição é a que retrata o pai pouco tempo antes de morrer. Esse pai que ele fotografou até à morte, a partir do momento que soube que ele estava condenado por um cancro. Desse pai que, de alguma maneira, ele «suicidou» com as suas fotografias, sabendo que ele próprio estava condenado (é sempre uma questão de tempo) e imaginando, porventura, como seria quando chegasse a sua hora.
A sua hora chegou em 2004, aos 81 anos. Foi um AVC que o tramou, enquanto estava a cobrir as eleições americanas para a revista «New Yorker». Como diria Roberto Calasso, cujas palavras estou deliberadamente a deturpar: «a elegância do seu olhar estético mantém viva uma necessidade básica do homem: evitar que os espelhos se partam».

PS - A exposição da Foam reúne retratos tirados entre 1946 e 2004 e ficará em Amesterdão até ao próximo dia 13 de Maio.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Do amor



O saber não ocupa lugar. O amor sim. O amor ocupa o lugar todo. Ou não é amor.

Reler Thoreau

Reler Thoreau foi uma inspiração. Lé-lo, ou relê-lo é, aliás, sempre uma inspiração. O seu Walden (escrito em 1849) é uma das obras mais inspiradoras que existem. Que lição de vida!
O livro marcou-me em mais do que me lembrava e ao relê-lo apercebi-me onde fui buscar algumas das minhas ideias mais enraizadas. Aquilo que penso sobre os filósofos e a filosofia, por exemplo, está profundamente marcada pela leitura deste livro. Escreve ele: «Existem, hoje em dia, professores de filosofia. Contudo, não existem filósofos. Ser filósofo não é somente ter pensamentos engenhosos, nem sequer fundar uma escola, mas sim amar a sabedoria a ponto de viver, de acordo com os seus ditames, uma vida de simplicidade, independência, magnificência e confiança. É solucionar alguns dos prolemas da vida, não só a nível teórico mas, de igual forma, a nível prático.»
Para Henry David Thoreau (1812-1862), como para mim, a maioria das pessoas, não chega a colher «os frutos mais saborosos da vida». Como ele diz: «A maioria dos homens leva uma vida de mudo desespero. O que é apelidado de resignação é na verdade um desespero incurável».
Como ele, penso que «a grande parte daquilo que os meus vizinhos consideram ser bom, eu acredito com toda a alma que seja mau» e que «o luxo de uma classe social é contrabalançado pela indigência de outra».
A esse respeito, lembra que os escravos que construiram as pirâmides, viviam em tendas, comiam alho e não eram enterradas decentemente. Evidentemente, vieram-me à memória os novos escravos do Dubai que constroem as maiores maravilhas arquitectónicas e urbanísticas do mundo moderno, mas vivem empilhados em armazéns miseráveis, para ganhar meia-dúzia de tostões.
Não se pense que estamos tão longe disso, aqui em Portugal, onde alguns gestores e patrões fazem fortunas nas nossas costas. Literalmente, pois ao trabalhar nas suas empresas é como se andássemos com eles às cavalitas o dia todo.
Como diz Thoreau, há milhões de homens e mulheres suficientemente despertos para trabalhar, mas apenas um em cada cem milhões está suficientemente desperto para uma vida poética.
Sim, como ele afirma, «a nossa vida é desperdiçada em pormenores» e a capacidade, que todos possuimos, de «influenciar a qualidade do dia, eis a mais ilustre das artes». Thoreau tem carradas de razão: o intelecto é (ou devia ser) um cutelo, usado para discernir e abrir caminho para o segredo das coisas. Quanto à nossa maneira de viver, a palavra de ordem devia ser: simplicidade, simplicidade, simplicidade!

terça-feira, 24 de março de 2009

Pura realidade

Unhas de fome. Hoje vi um homem que tinha, efetivamente, unhas de fome.

Ficção rápida

Ele tem 90 anos. Ela anda lá perto.

ELE : Estou cansado de viver, de acordar todos os dias, de fazer a barba e tomar o pequeno-almoço. Todos os dias acordo com um grande ardor nos olhos e no ventre. Não saio de casa e é como se andasse perdido. Estava na hora de haver um milagre: de acordar uma manhã e ter 20 anos. E perceber que a minha velhice não passara de um pesadelo. Poderia então empreender a tal viagem, sempre adiada, ao paraíso.

ELA : O sabor desta maçã, esta sombra que entra pela casa e o canto do passaro no pátio... tudo isto me dá o gosto de viver. Esta flor que respiro, este pão que fiz com estas mãos... Amar isto é amar-me. E amar-te.

ELE : Quando falas assim, no meu coração acende-se uma luz. Tudo o que dizes é como seiva para o meu tronco ressequido. Contigo sinto-me seguro e leve. Calmo e denso. Com raízes profundas e horizontes largos. Amo-te mais do que a mim mesmo.

ELA : Bom-dia meu amor.

ELE : Respiro agora ao ritmo do teu pensamento. Vejo o caminho para te merecer. Aqui, nesta pequena casa de pele e osso, volto a sentir uma sede feliz de vida. Bom-dia minha querida!

Beijam-se e o pano cai.

sábado, 21 de março de 2009

Dos sonhos



O que o sonho nos quer dizer? Só nos resta sonhá-lo...

Do tempo



Não há volta a dar: o tempo é o único caminho.

Peter Handke

Afirma Peter Handke: «Les gens les plus irritales sont parfois les plus heureux». Se não fosse completamente impossível, ia jurar que estava a falar de mim. E, noutra página, ainda a propósito da ira, dá um excelente conselho a si próprio: «Ne réfrène pas ta colère mais purifie-la.»

No mesmo livro («À ma fenêtre le matin»), que acabei de ler ontem, ele diz também: «L'art n'a rien à voir avec le savoir-faire, mais bien plutôt avec l'esquisse; s'il n'y a rien à esquisser le savoir-faire n'est d'aucun secours».

O livro reúne apontamentos que escreveu durante uma estadia de oito anos em Salzbourg, na Austria (1982-1987). São mais de 400 páginas de reflexões e observações e foi das leituras mais proveitosas que fiz nos últimos tempos. Até porque está recheado de frases que eu próprio podia ter escrito. Como estas três, por exemplo:

«La principale recherche dans l'écriture est dans l'attente».

«Ma joie de vivre la plupart du temps n'est plus que joie de marcher, regarder, écouter et créer».

««Je ne serai pas perdu tant que je pourrai dire: "je peux aussi faire autrement"».

Infelizmente, o livro não está traduzido, mas há outros livros dele aí nas livrarias. E a feira do livro de Lisoa, tomem nota, abre já no próximo dia 24 de Maio

sexta-feira, 20 de março de 2009

Da Primavera




Spring has arrived.
the same way a poem rises.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Do emprego (do tempo)

A prova que fiz bem me despedir do emprego é esta: sempre que saio à rua descubro agora algo que me encanta. E quando me ponho a escrever, também.

Da fotografia

Tal qual uma criança, o fotógrafo tem frequentemente mais olhos do que barriga. Pensa nisto Jorge: quanto menos fotos fizeres, mais elas terão valor aos teus próprios olhos.

Sonho


Estamos em França e entramos num café que é simultaneamente um salão de beleza. Há uma passagem de modelos que logo se transforma em musical espalhafatoso (mas a coreografia é experimental). Quando acaba, os atores vêm distribuir bolos e chocolates que representam, em miniatura, interiores de casas com pessoas lá dentro. É o nosso último dia de férias e ainda temos que atravessar a cidade para ir buscar as nossas malas, não sei onde. De repente, ouço alguém dizer nas minhas costas: «Com eles, todo o cuidado é pouco.» É nesse momento que toca o despertador e acordo a pensar: «Estariam a falar de nós?».

quarta-feira, 18 de março de 2009

Da escrita

Memória, imaginação, solidão. Para se escrever, não é preciso mais nada.

Pura realidade

Hoje vi dois gémeos que pareciam caricaturas um do outro.

Da originalidade

Como aconselhava Jean-Jacques Rousseau, não te preocupes em saber se fazes como os outros ou não. Sê autêntico e serás original.

Da desaparição

No final de Une femme douce, de Robert Bresson, o marido arrependido pede à mulher morta: «Abre os olhos, só mais uma vez.»
O seu desespero não o deixa perceber que o mais sensato seria fechar ele os olhos para a ver viva de novo.
Infelizmente, não só os mortos nunca regressam como desaparecem um pouco mais a cada dia que passa.
Conheço velhos que se retiram do mundo para começar a desaparecer antes de tempo. Como se quisessem ensaiar a sua desaparição.
Percebo-os muito bem.

terça-feira, 17 de março de 2009

Ume femme douce



Ontem fui, em boa hora e em boa companhia, à Cinemateca ver Une femme douce, o primeiro filme a cores de Robert Bresson, baseado num texto de Dostoievsky (que adapta muito livremente) e realizado em 1969. O meu filho Daniel confessou não ter percebido nada. Como poderia ele, que tem vinte anos, ter entendido um filme que não procura imitar a vida, mas apenas se inspira nela para se construir como um poema visual? Como objecto artístico (ou seja, como a expressão de uma sensibilidade única e uma profunda necessidade de entender a mente humana), o filme é, aos meus olhos, uma obra-prima. Talvez como nenhum outro, Une femme douce é a ilustração perfeita dos pensamentos que compõem Notes sur le cinématographe, o livrinho de Bresson que tanto me marcou e que ainda hoje influencia as minhas reflexões sobre a arte.
A começar pelas ideias que veicula e a acabar nas imagens e sons que o constituem, o cinema de Bresson é uma lição de simplicidade, onde cada plano é propriamente genial (não gosto de usar a palavra, mas por vezes, impõem-se). Em verdadeiro «joalheiro» do cinema, Bresson trabalha cada elemento dos seus filmes com um amor e um rigor que, como já disse Le Clézio, «nos mostram o simples e difícil caminho para a perfeição».
Quanto a Dominique Sanda, é demasiado bela para não «encher» o filme todo. A sua beleza ilumina todas as cenas em que surge. De resto, no filme, ela representa a claridade, enquanto o marido é a obscuridade. Ela é o movimento, ele a imobilidade. Não admira que a ternura esteja completamente ausente desta relação baseada no dinheiro e em vontades não apenas diferentes, mas opostas. Aquilo por que ela anseia (seja lá o que for, nunca o saberemos) e o que ele procura são duas vias incompatíveis e é a assumpção dessa certeza que a leva ao suicídio, logo no início do filme. Para mim, Une femme douce tem dois momentos essenciais: aquele em que ela aponta a pistola ao marido que finge dormir e a cena (não menos sublime) em que vemos cair da varanda o xaile branco. A cena em que ela perde as asas. A menos que seja o contrário: no momento de morrer, ela transforma-se no anjo que prometia ser.

Da série «Paredes que falam»

segunda-feira, 16 de março de 2009

Do luxo






Um passeio de barco sob um sol glorioso, um bom peixe grelhado para o almoço e algumas fotos tiradas pelo caminho. Mais tarde, uma conversa afiada à mesa de uma esplanada, a visita de um filho e um filme de Bresson na Cinemateca, para rematar. Não há maior luxo do que ter tempo livre e saúde para o gozar.

Alain Bashung (1947-2009)



Logo de manhã, ao ligar a TV, um murro no estômago: morreu Alain Bashung! Era um dos meus músicos franceses favoritos. Que digo eu? Era um dos franceses que eu mais admirava. Sobre ele escreve hoje um jornalista do «Libération»: «Cœur solitaire à gauche, charmeur, fumeur alcoolo sans feu ni lieu, rêveur kamikaze comme nous mieux que nous, il aura fait notre époque à coups d’airs du temps». Muito bem posto. Fica aqui a homenagem e um conselho: ouçam os seus discos e, muito em particular, «L'Imprudence», um disco sobre o qual escrevi em 2003: «A voz é cavernosa, profunda, e as sonoridades quase soturnas. No entanto, as atmosferas sombrias desta «imprudência» discográfica mergulham-nos num encantamento constante, porque a música é sumptuosa e as surpresas constantes. Em 1998, Alain Bashung tinha publicado uma obra-prima, Fantaisie Militaire, que alguma imprensa gaulesa considerou uma «pedra angular do rock francês». Para o seu sucessor, arriscou reinventar-se, e a ousadia voltou a revelar-se compensadora: o novo «opus» é de uma elegância indiscutível. A verdade é que contou com ajudas preciosas: os guitarristas Marc Ribot e Arto Lindsay e o pianista Steve Nieve, por exemplo. Com estes e outros cúmplices, porventura menos famosos, mas não menos criativos, Alain Bashung logrou encontrar, para as suas letras quase abstractas, sofisticadas texturas sonoras que se revelam absolutamente hipnóticas. Trés recommandé!».

Um link:
http://www.youtube.com/watch?v=4SR_ygICDKE

domingo, 15 de março de 2009

Feira de Cascais



sábado, 14 de março de 2009

Dez romances



A revista «Telerama» anda a perguntar aos escritores franceses quais são os seus dez romances preferidos. Ler as várias listas deu-me vontade de fazer uma também. Hoje a escolha seria esta, amanhã não sei:

Kafka: O Processo
Dostoïevski: Os Irmãos Karamazov
Faulkner: O Som e a Fúria
Beckett: Molloy
Robert Musil: O Homem Sem Qualidades
Céline: Viagem ao Fim da Noite
Nabokov: Ada ou Ardor
Philip Roth: Pastoral Americana
Don DeLillo: Mao II
Saul Bellow: Herzog

sexta-feira, 13 de março de 2009

Do destino



Onde quer que vás, vais encontrar-te. Por isso, está atento.

Da escrita




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